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Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

A POÉTICA E A POEMÁTICA

Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br

A MISSÃO DO DR. ADROALDO

Pela segunda década do século passado o jovem Adroaldo, pernambucano do Recife e bacharel em Direito, é convidado pelo presidente do Estado a assumir o cargo de Promotor Público da comarca de Majestosa, no sul do país. Tinha como missão conter o separatismo que, segundo diziam, contava com adeptos na cidade, além de combater a criminalidade. Majestosa, situada ao pé da Serra, era uma cidade habitada por descendentes de alemães, cultivava os costumes germânicos e usava uma linguagem típica, engrolando um patuá que misturava o alemão e o português. Adroaldo assume suas funções imbuído das melhores intenções de cumprir à risca a missão que lhe fora confiada mas se depara com obstáculos jamais imaginados. Sem entender com precisão a linguagem local, provoca toda sorte de confusões, sempre interpretadas por outro prisma pela população, cuja opinião a respeito dele se divide. Ele enxerga maquinações separatistas até em reuniões de senhoras conversadeiras; vê indícios de crimes em atitudes triviais das pessoas, influenciado pela constante leitura de romances policiais. Até que, depois de tantas e tão variadas confusões, se convence de que a ameaça separatista na verdade não existe e a criminalidade local é escassa e leve. Para completar, apaixona-se pela bibliotecária Gertrude, cujo falecimento precoce o deixa arrasado. Durante muitos anos exerce as funções na comarca e morre solteiro, sem deixar descendentes e sem merecer nome de rua ou avenida. Até que um jornalista, tomado pela curiosidade histórica e pela originalidade do personagem, resolve biografá-lo, deparando-se com toda sorte de dificuldades diante da ausência de fontes de informação. Com grande esforço, colhendo dados daqui e dali, consegue reconstituir os passos do aguerrido Promotor e, mais tarde, encontra seu diário cujo conteúdo pouco altera o que havia escrito. Esse é, em grossas pinceladas, o enredo do romance “Adroaldo, de Majestosa”, de autoria de Eduardo Sens, publicado pela Editora Penalux (S. Paulo – 2018).

O autor revela paciência e fôlego para textos prolongados e mantém a narrativa em nível elevado, não permitindo que decaia o interesse do leitor, tarefa nem sempre alcançada no gênero romanesco. Escreve com desenvoltura e correção, enfrentando com habilidade os momentos dramáticos, sentimentais, de ação e de humor. Tem cultura e informação. Tudo indica que inicia com o pé direito uma bela carreira de romancista.

Há personagens e momentos inesquecíveis, a começar pela chegada de Adroaldo a Majestosa e sua condução ao hotel. Mais tarde, o discurso inflamado que profere no auditório vazio deixa as pessoas boquiabertas. Diligente e atento, não é homem de gabinete e busca sempre a ação. E assim, vai ter num chiqueiro de porcos com o objetivo de salvar crianças vítimas de crimes hediondos, embora tudo não fosse além de suas dificuldades com a fala local. Em outra diligência, imaginando maquinações separatistas, invade mu milharal numa das situações mais insólitas de todo o livro. Depara-se com inocente reunião de senhoras conversadeiras, enrosca-se numa cerca, é atacado por um velho cão e perde um pé dos sapatos. Mas tudo aceita com dignidade, suportando as agruras como ônus da função. Trata de investigar certo Professor Werner, autor de um livro que lhe infunde suspeitas, especializado na fabricação de salame e surdo quando convém. Para fugir de situações embaraçosas, confunde infame e exame com salame. No final, Adroaldo e Werner se tornam amigos, ainda que este seja suspeito de ter sido correspondente nazista no correr da guerra e, por contraditório que fosse, o único separatista verdadeiro da cidade. Como se vê, o romance tem ação, humor e registra os “devaneios alucinados” do jovem Promotor.

Mário de Andrade estudou as diferenças entre a língua e a fala. Aquela obedece aos cânones e às regras, esta é a maneira como o povo se expressa. No caso do romance, a diferença entre elas é ainda maior e às vezes ininteligível para ouvidos pouco treinados em virtude da influência estrangeira. Nesse aspecto o romance tem um fundo documental.

Saúdo o novel romancista, duas vezes colega, como escritor e membro do Ministério Público, desejando-lhe um futuro de muitas realizações e conquistas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/04/2019 às 15h48 | e.atha@terra.com.br

PITIGRILLI

Como tantos escritores que desfrutaram de grande popularidade, Pitigrilli anda esquecido. Nascido Dino Segre (1883/1975), adotou o pseudônimo cantante com o qual se consagrou e que usou até falecer, em Turim, onde veio à luz e morou a maior parte da existência. Como auto-exilado, residiu por algum tempo na Argentina, porque “gostava de por os pingos nos ii no que escrevia” e, em conseqüência, o ar da Itália estava ficando denso em demasia. Como sempre, ao longo da História, a pena dos escritores incomodava os mandões do momento.

Segundo relatou em suas memórias, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, saiu de casa, certa manhã, com a intenção de se matricular no curso de medicina. Como a fila estava muito longa, acabou se matriculando na Faculdade de Direito, ainda que jamais tivesse a menor intenção de fazer uso do diploma. Não tardou a se destacar como cronista, contista e romancista, e seus livros obtiveram grande aceitação, impulsionados também pela figura curiosa e carismática do próprio autor. Vários de seus livros se transformaram em best-sellers mundiais e conquistaram considerável público no Brasil, onde foram traduzidos e publicados pela extinta Editora Vecchi, do Rio de Janeiro.

Entre suas obras mais conhecidas alinham-se “A loura dolicocéfala”, cujo título vulgarizou a expressão e a colocou na boca do povo, “Cocaína”, no qual descreveu com humor e acuidade suas experiências com o uso da droga, fato raro na época, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, autobiografia escrita com ironia e onde revelou, ao final, suas preocupações místicas e certa inclinação pelo espiritismo. Publicou ainda um volume de crônicas saborosas, dentre as quais se destaca “ite” e “ose”, comentando as enfermidades agudas e crônicas, reais e imaginárias. Também fez sucesso entre nós o romance “O farmacêutico a cavalo”, tremenda sátira aos heróis consagrados, em especial nas pequenas comunidades. Traduzido por Marina Guaspari, renomada tradutora da época, foi publicado em 1951 num daqueles feios volumes da Editora Vecchi, em papel escuro, áspero e grosso.

Esse romance relata a história de uma cidade que, de repente, se deu conta de que não possuía nenhuma estátua glorificando algum herói da terra. Começam, então, as discussões sobre o local e o tipo do monumento a ser erigido em praça pública. Ficou decidido que seria uma estátua equestre, como convém a toda cidade que se preze, esculpida em puro bronze, de preferência com o homenageado apontando a espada para o alto. Muitos e inflamados foram os debates mas, afinal, chegou-se ao consenso.

As dificuldades surgiram mesmo na escolha do conterrâneo a ser homenageado, ou melhor, em encontrá-lo. O primeiro foi descartado porque se descobriu que era estrangeiro; o segundo foi deixado de lado porque não gozava de reputação ilibada; o terceiro, enfim, havia escrito coisas ofensivas à cidade. E assim, de exclusão em exclusão, chegaram à melancólica conclusão de que não havia a quem homenagear. Até que alguém, num rasgo salvador, se lembrou do farmacêutico, cidadão pacato, ilibado, trabalhador, acima de qualquer suspeita. Mas um farmacêutico a cavalo numa estátua em praça pública? Absurdo! Depois de novas e intermináveis discussões, a explicação foi encontrada: o cavalo estaria com as patas dianteiras dobradas, como se estivesse inclinado, e seu cavaleiro com os olhos fitos no solo. Como cientista e pesquisador da farmacologia, estaria procurando ervas naturais que pudessem enriquecer suas curativas poções medicinais. E, naturalmente, a espada foi esquecida.

Dessa forma, entre vivas e discursos, foi encontrada solução. A cidade orgulhosa passou a contar com uma grande estátua equestre no principal logradouro, inaugurada com muita solenidade, homenageando um filho modesto mas legítimo e inatacável. É claro que a cidade em questão não era brasileira; aqui teríamos heróis aos montes e a dificuldade seria decidir qual deles ocuparia o honroso posto.

Para evitar que o leitor apressado vá direto ao desenlace, o romance tem a curiosidade de começar pelo capítulo sexto e todos os demais estão fora de ordem. Essa tática nasceu ao ver uma leitora, no bonde, abrindo com espátula as páginas finais de um livro, desprezando todo o esforço do autor para armar o seu enredo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2019 às 23h59 | e.atha@terra.com.br

A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

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(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br

A LONGA NOITE SEM LUA

O escritor norte-americano John Steinbeck (1902/1968), Prêmio Nobel de Literatura, tornou-se popular em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde tem inúmeros leitores, graças a alguns de seus livros mais conhecidos, como o célebre “As vinhas da ira”, “Doce quinta-feira” e “A pérola”, este último vertido para o cinema e o teatro nacionais. Foi um dos escritores mais filmados em vários países. Outros livros dele, no entanto, também tiveram numerosos leitores, como “Boêmios errantes”, “O inverno de nossa desesperança” e o pequeno romance “A longa noite sem lua”, traduzido para o português por Pinheiro de Lemos, e aquele que mais me toca em toda sua obra. É uma lição de amor à liberdade e de respeito à democracia, tanto que sua posse, nos países ocupados, durante a II Guerra Mundial, mesmo em toscas reproduções, importava em sumário fuzilamento.

Nesse romance, escrito com empenho e emoção, o exército nazista invade quase sem resistência um pequeno e indefeso país, instalando-se numa diminuta cidade onde funcionava produtiva mina de cujo carvão os ocupantes necessitavam com urgência. Logo de chegada, com a costumeira brutalidade, mataram com rajadas de metralhadoras seis guardas locais e feriram mais alguns, sem necessidade. Instalaram seu estado-maior no modesto palácio da prefeitura e tentaram, a todo custo, obter a adesão do prefeito, embora este explicasse que fôra eleito por um povo que só admitia autoridades por ele escolhidas com liberdade. Aquele povo elegia seus dirigentes há tanto tempo que se perdia na memória e há quatrocentos anos não sofria invasões estrangeiras. Para ele, só o voto legitimava os homens públicos, escolhidos depois de muita discussão e cada um votando conforme suas ideias. Povo dócil, trabalhador e pacífico – mas livre. Enquanto os nazistas seguiam sem discutir a ordem do líder, entre aquele povo cada um era seu próprio líder. Tentava explicar a diferença entre obediente e cumpridor da lei. Os invasores, arrogantes, não lhe deram ouvidos, imaginando que país ocupado significava país dominado. Esse erro de avaliação psicológica custou-lhes caro, foi sua perdição.

Passado o susto inicial, começou a resistência, uma resistência em surdina, uma resistência de algodão – como diria Graciliano Ramos. Os habitantes negavam a palavra aos ocupantes, só compravam o indispensável, recolhiam-se às suas casas, fugiam de qualquer contato com o invasor. Logo de início uma cozinheira (alçada à condição de heroína) lança água fervente em soldados que a espiavam através da porta, restaurantes serviam aos soldados comida com excesso de sal ou pimenta, um tenente foi morto a golpes de tesoura por uma mulher, outro tentou obrigar um mineiro a trabalhar e foi morto a picaretadas, a usina elétrica deixava de funcionar por mistério, vagonetes da mina descarrilavam, máquinas ficavam avariadas, atentados anônimos aconteciam. Nos menores gestos transparecia o ódio contido. E assim, dia a dia, o terror foi num crescendo, os invasores se sentiam cercados, vigiados, ameaçados; os vencedores temiam os vencidos. Enquanto isso, pescadores que fugiam levavam mensagens aos aliados e estes começaram a lançar dos aviões cartuchos de dinamite aos milhares, com instruções de uso, armando a população civil. Começam as explosões, aqui, ali, acolá, em toda parte, isoladas no começo, depois em série, tornando inviável o uso da mina ou de qualquer serviço da cidade coberta de neve. Ao longe, em outros campos de batalha, os aliados avançavam para a vitória final.

Nem o fuzilamento do prefeito e do velho médico, Dr. Winter, interrompe a reação popular. Este último, ao rumar para a morte, afirma ante um perplexo estado-maior: “Nosso país foi invadido, mas não creio que tenha sido conquistado. Ninguém jamais conseguirá quebrar o espírito do homem permanentemente!”

Escrito por Enéas Athanázio, 26/03/2019 às 11h11 | e.atha@terra.com.br

UMA HISTÓRIA DE AMOR E BALAS

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

A POÉTICA E A POEMÁTICA

Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br

A MISSÃO DO DR. ADROALDO

Pela segunda década do século passado o jovem Adroaldo, pernambucano do Recife e bacharel em Direito, é convidado pelo presidente do Estado a assumir o cargo de Promotor Público da comarca de Majestosa, no sul do país. Tinha como missão conter o separatismo que, segundo diziam, contava com adeptos na cidade, além de combater a criminalidade. Majestosa, situada ao pé da Serra, era uma cidade habitada por descendentes de alemães, cultivava os costumes germânicos e usava uma linguagem típica, engrolando um patuá que misturava o alemão e o português. Adroaldo assume suas funções imbuído das melhores intenções de cumprir à risca a missão que lhe fora confiada mas se depara com obstáculos jamais imaginados. Sem entender com precisão a linguagem local, provoca toda sorte de confusões, sempre interpretadas por outro prisma pela população, cuja opinião a respeito dele se divide. Ele enxerga maquinações separatistas até em reuniões de senhoras conversadeiras; vê indícios de crimes em atitudes triviais das pessoas, influenciado pela constante leitura de romances policiais. Até que, depois de tantas e tão variadas confusões, se convence de que a ameaça separatista na verdade não existe e a criminalidade local é escassa e leve. Para completar, apaixona-se pela bibliotecária Gertrude, cujo falecimento precoce o deixa arrasado. Durante muitos anos exerce as funções na comarca e morre solteiro, sem deixar descendentes e sem merecer nome de rua ou avenida. Até que um jornalista, tomado pela curiosidade histórica e pela originalidade do personagem, resolve biografá-lo, deparando-se com toda sorte de dificuldades diante da ausência de fontes de informação. Com grande esforço, colhendo dados daqui e dali, consegue reconstituir os passos do aguerrido Promotor e, mais tarde, encontra seu diário cujo conteúdo pouco altera o que havia escrito. Esse é, em grossas pinceladas, o enredo do romance “Adroaldo, de Majestosa”, de autoria de Eduardo Sens, publicado pela Editora Penalux (S. Paulo – 2018).

O autor revela paciência e fôlego para textos prolongados e mantém a narrativa em nível elevado, não permitindo que decaia o interesse do leitor, tarefa nem sempre alcançada no gênero romanesco. Escreve com desenvoltura e correção, enfrentando com habilidade os momentos dramáticos, sentimentais, de ação e de humor. Tem cultura e informação. Tudo indica que inicia com o pé direito uma bela carreira de romancista.

Há personagens e momentos inesquecíveis, a começar pela chegada de Adroaldo a Majestosa e sua condução ao hotel. Mais tarde, o discurso inflamado que profere no auditório vazio deixa as pessoas boquiabertas. Diligente e atento, não é homem de gabinete e busca sempre a ação. E assim, vai ter num chiqueiro de porcos com o objetivo de salvar crianças vítimas de crimes hediondos, embora tudo não fosse além de suas dificuldades com a fala local. Em outra diligência, imaginando maquinações separatistas, invade mu milharal numa das situações mais insólitas de todo o livro. Depara-se com inocente reunião de senhoras conversadeiras, enrosca-se numa cerca, é atacado por um velho cão e perde um pé dos sapatos. Mas tudo aceita com dignidade, suportando as agruras como ônus da função. Trata de investigar certo Professor Werner, autor de um livro que lhe infunde suspeitas, especializado na fabricação de salame e surdo quando convém. Para fugir de situações embaraçosas, confunde infame e exame com salame. No final, Adroaldo e Werner se tornam amigos, ainda que este seja suspeito de ter sido correspondente nazista no correr da guerra e, por contraditório que fosse, o único separatista verdadeiro da cidade. Como se vê, o romance tem ação, humor e registra os “devaneios alucinados” do jovem Promotor.

Mário de Andrade estudou as diferenças entre a língua e a fala. Aquela obedece aos cânones e às regras, esta é a maneira como o povo se expressa. No caso do romance, a diferença entre elas é ainda maior e às vezes ininteligível para ouvidos pouco treinados em virtude da influência estrangeira. Nesse aspecto o romance tem um fundo documental.

Saúdo o novel romancista, duas vezes colega, como escritor e membro do Ministério Público, desejando-lhe um futuro de muitas realizações e conquistas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/04/2019 às 15h48 | e.atha@terra.com.br

PITIGRILLI

Como tantos escritores que desfrutaram de grande popularidade, Pitigrilli anda esquecido. Nascido Dino Segre (1883/1975), adotou o pseudônimo cantante com o qual se consagrou e que usou até falecer, em Turim, onde veio à luz e morou a maior parte da existência. Como auto-exilado, residiu por algum tempo na Argentina, porque “gostava de por os pingos nos ii no que escrevia” e, em conseqüência, o ar da Itália estava ficando denso em demasia. Como sempre, ao longo da História, a pena dos escritores incomodava os mandões do momento.

Segundo relatou em suas memórias, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, saiu de casa, certa manhã, com a intenção de se matricular no curso de medicina. Como a fila estava muito longa, acabou se matriculando na Faculdade de Direito, ainda que jamais tivesse a menor intenção de fazer uso do diploma. Não tardou a se destacar como cronista, contista e romancista, e seus livros obtiveram grande aceitação, impulsionados também pela figura curiosa e carismática do próprio autor. Vários de seus livros se transformaram em best-sellers mundiais e conquistaram considerável público no Brasil, onde foram traduzidos e publicados pela extinta Editora Vecchi, do Rio de Janeiro.

Entre suas obras mais conhecidas alinham-se “A loura dolicocéfala”, cujo título vulgarizou a expressão e a colocou na boca do povo, “Cocaína”, no qual descreveu com humor e acuidade suas experiências com o uso da droga, fato raro na época, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, autobiografia escrita com ironia e onde revelou, ao final, suas preocupações místicas e certa inclinação pelo espiritismo. Publicou ainda um volume de crônicas saborosas, dentre as quais se destaca “ite” e “ose”, comentando as enfermidades agudas e crônicas, reais e imaginárias. Também fez sucesso entre nós o romance “O farmacêutico a cavalo”, tremenda sátira aos heróis consagrados, em especial nas pequenas comunidades. Traduzido por Marina Guaspari, renomada tradutora da época, foi publicado em 1951 num daqueles feios volumes da Editora Vecchi, em papel escuro, áspero e grosso.

Esse romance relata a história de uma cidade que, de repente, se deu conta de que não possuía nenhuma estátua glorificando algum herói da terra. Começam, então, as discussões sobre o local e o tipo do monumento a ser erigido em praça pública. Ficou decidido que seria uma estátua equestre, como convém a toda cidade que se preze, esculpida em puro bronze, de preferência com o homenageado apontando a espada para o alto. Muitos e inflamados foram os debates mas, afinal, chegou-se ao consenso.

As dificuldades surgiram mesmo na escolha do conterrâneo a ser homenageado, ou melhor, em encontrá-lo. O primeiro foi descartado porque se descobriu que era estrangeiro; o segundo foi deixado de lado porque não gozava de reputação ilibada; o terceiro, enfim, havia escrito coisas ofensivas à cidade. E assim, de exclusão em exclusão, chegaram à melancólica conclusão de que não havia a quem homenagear. Até que alguém, num rasgo salvador, se lembrou do farmacêutico, cidadão pacato, ilibado, trabalhador, acima de qualquer suspeita. Mas um farmacêutico a cavalo numa estátua em praça pública? Absurdo! Depois de novas e intermináveis discussões, a explicação foi encontrada: o cavalo estaria com as patas dianteiras dobradas, como se estivesse inclinado, e seu cavaleiro com os olhos fitos no solo. Como cientista e pesquisador da farmacologia, estaria procurando ervas naturais que pudessem enriquecer suas curativas poções medicinais. E, naturalmente, a espada foi esquecida.

Dessa forma, entre vivas e discursos, foi encontrada solução. A cidade orgulhosa passou a contar com uma grande estátua equestre no principal logradouro, inaugurada com muita solenidade, homenageando um filho modesto mas legítimo e inatacável. É claro que a cidade em questão não era brasileira; aqui teríamos heróis aos montes e a dificuldade seria decidir qual deles ocuparia o honroso posto.

Para evitar que o leitor apressado vá direto ao desenlace, o romance tem a curiosidade de começar pelo capítulo sexto e todos os demais estão fora de ordem. Essa tática nasceu ao ver uma leitora, no bonde, abrindo com espátula as páginas finais de um livro, desprezando todo o esforço do autor para armar o seu enredo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2019 às 23h59 | e.atha@terra.com.br

A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

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(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br

A LONGA NOITE SEM LUA

O escritor norte-americano John Steinbeck (1902/1968), Prêmio Nobel de Literatura, tornou-se popular em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde tem inúmeros leitores, graças a alguns de seus livros mais conhecidos, como o célebre “As vinhas da ira”, “Doce quinta-feira” e “A pérola”, este último vertido para o cinema e o teatro nacionais. Foi um dos escritores mais filmados em vários países. Outros livros dele, no entanto, também tiveram numerosos leitores, como “Boêmios errantes”, “O inverno de nossa desesperança” e o pequeno romance “A longa noite sem lua”, traduzido para o português por Pinheiro de Lemos, e aquele que mais me toca em toda sua obra. É uma lição de amor à liberdade e de respeito à democracia, tanto que sua posse, nos países ocupados, durante a II Guerra Mundial, mesmo em toscas reproduções, importava em sumário fuzilamento.

Nesse romance, escrito com empenho e emoção, o exército nazista invade quase sem resistência um pequeno e indefeso país, instalando-se numa diminuta cidade onde funcionava produtiva mina de cujo carvão os ocupantes necessitavam com urgência. Logo de chegada, com a costumeira brutalidade, mataram com rajadas de metralhadoras seis guardas locais e feriram mais alguns, sem necessidade. Instalaram seu estado-maior no modesto palácio da prefeitura e tentaram, a todo custo, obter a adesão do prefeito, embora este explicasse que fôra eleito por um povo que só admitia autoridades por ele escolhidas com liberdade. Aquele povo elegia seus dirigentes há tanto tempo que se perdia na memória e há quatrocentos anos não sofria invasões estrangeiras. Para ele, só o voto legitimava os homens públicos, escolhidos depois de muita discussão e cada um votando conforme suas ideias. Povo dócil, trabalhador e pacífico – mas livre. Enquanto os nazistas seguiam sem discutir a ordem do líder, entre aquele povo cada um era seu próprio líder. Tentava explicar a diferença entre obediente e cumpridor da lei. Os invasores, arrogantes, não lhe deram ouvidos, imaginando que país ocupado significava país dominado. Esse erro de avaliação psicológica custou-lhes caro, foi sua perdição.

Passado o susto inicial, começou a resistência, uma resistência em surdina, uma resistência de algodão – como diria Graciliano Ramos. Os habitantes negavam a palavra aos ocupantes, só compravam o indispensável, recolhiam-se às suas casas, fugiam de qualquer contato com o invasor. Logo de início uma cozinheira (alçada à condição de heroína) lança água fervente em soldados que a espiavam através da porta, restaurantes serviam aos soldados comida com excesso de sal ou pimenta, um tenente foi morto a golpes de tesoura por uma mulher, outro tentou obrigar um mineiro a trabalhar e foi morto a picaretadas, a usina elétrica deixava de funcionar por mistério, vagonetes da mina descarrilavam, máquinas ficavam avariadas, atentados anônimos aconteciam. Nos menores gestos transparecia o ódio contido. E assim, dia a dia, o terror foi num crescendo, os invasores se sentiam cercados, vigiados, ameaçados; os vencedores temiam os vencidos. Enquanto isso, pescadores que fugiam levavam mensagens aos aliados e estes começaram a lançar dos aviões cartuchos de dinamite aos milhares, com instruções de uso, armando a população civil. Começam as explosões, aqui, ali, acolá, em toda parte, isoladas no começo, depois em série, tornando inviável o uso da mina ou de qualquer serviço da cidade coberta de neve. Ao longe, em outros campos de batalha, os aliados avançavam para a vitória final.

Nem o fuzilamento do prefeito e do velho médico, Dr. Winter, interrompe a reação popular. Este último, ao rumar para a morte, afirma ante um perplexo estado-maior: “Nosso país foi invadido, mas não creio que tenha sido conquistado. Ninguém jamais conseguirá quebrar o espírito do homem permanentemente!”

Escrito por Enéas Athanázio, 26/03/2019 às 11h11 | e.atha@terra.com.br

UMA HISTÓRIA DE AMOR E BALAS

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.