Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O segredo do velho Hem

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1962) foi um homem cheio de vida. Atleta, nadador, pescador e caçador aficionado, adepto de touradas, corridas de cavalos e de bicicletas, lutador de box, esquiador e incansável viajante, revelava intenso amor pela vida. Escritor bem sucedido como poucos, amealhou imensa fortuna com seus livros e recebeu o Prêmio Nobel. Mantinha um padrão de vida invejável, tanto na Finca Vigia, em Cuba, como em Ketchum, nos Estados Unidos, em Paris ou Nova York. Não obstante, para espanto e comoção geral, suicidou-se com um tiro de espingarda. Seus incontáveis leitores e amigos, no mundo inteiro, ficaram estarrecidos e todos se indagavam qual teria sido a causa do gesto extremado.

Segundo os médicos e seus amigos mais chegados, entre eles A. E. Hotchner, seu futuro biógrafo, que com ele conviveu nos últimos quatorze anos, o escritor fora acometido de feroz depressão provocada pela ideia fixa de que estava sendo vigiado e perseguido pelo FBI e pelos fiscais do imposto de renda, temores destituídos de qualquer fundamento. Segundo outros, ele estaria convencido de que portava uma doença incurável que o levaria a cruéis sofrimentos, hipótese também desmentida pelas pessoas próximas, entre elas Mary Welch, sua última esposa. Fato inegável é que ele apresentava visíveis sinais de decadência física, emagrecia a olhos vistos, exibia um aspecto flácido e tinha outros problemas de saúde, herdados do grave acidente aéreo que sofrera num safári africano. Nenhum deles, no entanto, seria suficiente para justificar o suicídio.

Qual seria, então, a verdadeira razão?

Na tentativa vã de explicar, surgiram as chamadas teorias conspiratórias, uma delas, muito bem urdida, exposta no livro “Adeus, Hemingway!”, de autoria do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes (Companhia das Letras – S. Paulo – 2001). Jornalista, ensaísta e ficcionista, o autor nasceu em Mantilla, nas proximidades da Finca Vigia, na vila de San Francisco de Paula, em Havana, em 1955. Nesse livro ele engendra uma história das mais curiosas e chocantes, com certeza inspirado em conversas maledicentes ouvidas de gente que conheceu Hemingway ou até mesmo havia trabalhado para ele. Como se informa, cerca de trinta pessoas viviam na dependência do escritor em Cuba.

Pela história de Fuentes, restos mortais de uma pessoa teriam sido encontrados na Finca Vigia, enterrados sob uma das árvores preferidas de Hemingway, quarenta anos após o escritor ter deixado Cuba e se transferido para os Estados Unidos. Concluiu a perícia tratar-se de um homem, e no mesmo local foi encontrado um distintivo do FBI, enferrujado mas ainda reconhecível, além de uma bala que se identificou ser de metralhadora portátil Thompson. O detetive particular Mário Conde, também escritor e grande admirador do americano, decide investigar os fatos. Examina o local, interroga pessoas, consulta os jornais da época e chega à conclusão de que um agente do FBI teria sido designado para vigiar Hemingway, locado junto à embaixada americana em Havana. Na constante vigília, teria invadido a casa do escritor, durante a noite, ameaçando-o de arma em punho, quando foi alvejado e morto, não se sabendo se o autor dos disparos foi Hemingway ou algum de seus homens que tenha acorrido em seu socorro.

A hipótese nunca pôde ser comprovada e, com certeza, jamais o será, mas alguns indícios se juntaram a favor dela. De acordo com os jornais da época, um agente do FBI desapareceu de forma misteriosa em Cuba, a metralhadora Thompson que Hemingway possuía desapareceu sem deixar vestígio e um dos homens que trabalhavam na Finca Vigia foi retirado de Cuba e levado para o México a bordo da lancha “Pilar”, pertencente ao escritor. As pessoas interrogadas foram reticentes nas suas declarações, nada esclarecendo, e o mistério permanece, inviolável, sem que jamais pudesse ser esclarecido.

Seria esse o segredo que tanto angustiava o Velho Hem e que o levou à morte prematura? Teria levado consigo esse segredo? Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/10/2017 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

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A massa e o biscoito

 “A massa, meu caro, há de chegar ao biscoito fino que eu fabrico.”

A biografia é um gênero literário exigente, ainda mais quando o biografado teve uma vida ativa e movimentada, dedicando-se a múltiplas atividades. Foi o que aconteceu com Oswald de Andrade (1890/1954), um dos principais líderes do Movimento Modernista, e que mereceu excelente e minuciosa biografia realizada por Maria Augusta Fonseca, professora da USP e pesquisadora da vida e da obra do biografado. Trata-se de “Oswald de Andrade – Biografia”, publicado pela Editora Globo (São Paulo – 2007).

José Oswald de Sousa Andrade era paulistano e foi em São Paulo que desenvolveu suas atividades como escritor, jornalista, dramaturgo e agitador cultural. Irrequieto, espirituoso, polemista e provocador, conquistava admiradores fervorosos com a mesma facilidade com que colecionava inimigos rancorosos. Não perdia ocasião de fazer uma boa piada, mesmo que isso, não poucas vezes, pudesse ferir as suscetibilidades de alguém. Como diz sua biógrafa, é impossível distinguir os fatos reais das lendas que o envolvem. Filho de pais muito ricos, foi um garoto mimado, cujas vontades eram sempre satisfeitas. Ao longo da vida esbanjou imensa fortuna e terminou os dias na pobreza, dependendo de empréstimos com agiotas e bancos, às vezes em situações humilhantes, Gordo, cabeludo, vestia-se com esmero, embora de forma extravagante e era dotado de intenso magnetismo que atraía desde logo as pessoas. Inteligente como poucos, ainda jovem já armazenava vasta e variada cultura.

Mal entrando na maioridade, trancou a matricula na Faculdade de Direito e foi para Paris, recebendo generosa mesada do pai para viver como um príncipe na Cidade Luz, além de viajar pela Europa, frequentando hotéis, cassinos e recepções de luxo. Para estrear nas suas confusas relações com as mulheres, voltou casado com uma francesa, rainha dos estudantes, a quem chamava de Kamiá. Foi a abertura de um imenso rol de mulheres com quem se envolveu e “casou”, no qual se inscreveram Deisi, Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão (Pagu), Pilar Ferrer, Julieta Bárbara e Maria Antonieta d’Alkmin, afora outras passageiras. Com a francesa teve o primeiro filho, Nonê, que se tornou conhecido artista plástico; com Pagu teve o filho Rudá e com Maria Antonieta outros dois filhos, Paulo Marcos e Marília. Só a bailarina Carmen Lídia resistiu aos seus encantos e não cedeu ao assédio. Casou-se com Pagu, muitos anos mais nova, em pleno cemitério da Consolação.

Retornando à Pauliceia, entregou-se a intensa atividade literária e jornalística. Em co-autoria com Guilherme de Almeida produziu duas peças teatrais, escritas em francês, “Mon coeur balance” e “Leur âme”  Estava ainda sob a forte influência dos autores franceses.

Não tardou, porém, a perceber que a influência gaulesa estava desfigurando a cultura nacional, inclusive a nossa língua, como também observaram outros intelectuais, entre os quais Monteiro Lobato. Voltou-se para a realidade nacional e criou o chamado Movimento Pau Brasil, visando destacar a nossa própria cultura. Segundo Paulo Prado, “Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um ateliê da Place Clichy – umbigo do mundo – descobriu, deslumbrado, a sua própria terra.” Mais tarde, sob o mesmo influxo, lançou o Manifesto Antropófago, ambas iniciativas inovadoras e que sacudiram o meio cultural. É necessário absorver a cultura geral e devolvê-la com as nuances nacionais, assim como o índio, ao devorar outra pessoa, acredita estar adquirindo as qualidades dela. Outros movimentos surgiram em oposição aos criados por Oswald provocando intermináveis debates.

Oswald de Andrade teve ativa participação na chamada Semana de Arte Moderna realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 7, 15 e 17 de fevereiro de 1922, evento considerado até hoje como divisor de águas entre o classicismo conservador e o modernismo. Dela participaram figuras representativas da cultura nacional sob intensas vaias, apupos, gritos, assovios e objetos lançados ao palco. Graça Aranha, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida, Villa Lobos, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros tantos fizeram palestras, declamaram, executaram músicas, discorreram sobre arte moderna e as ideias futuristas que corriam mundo.  Tarsila não participou porque se encontrava na Europa.

Entre a atividade jornalística, viagens pelo mundo e amores sucessivos, Oswald vai publicando seus livros. “Memórias sentimentais de João Miramar”, “Serafim Ponte Grande”, “Os Condenados”, peças teatrais, poesias, manifestos, crônicas e artigos aparecem numa imensa torrente. É um estilo novo, fracionado, quebrando a sequência lógica, repleto de hiatos e surpresas que espantam e intrigam o leitor de obras conservadoras.  Mais tarde publicaria suas memórias sob o título de “Um homem sem profissão.” Isso porque, dizia ele, com amargura: “Aos que se dedicam à carreira de escritor está reservado o papel de pobre-diabo na sociedade. Nada lhes garante a sobrevivência. Uns se vendem, outros se isolam, são muitos os malabarismos, Essa luta do escritor revela um Brasil ainda muito atrasado. “ Escritor, no Brasil, não tem profissão – concluía ele.

“O menino irrequieto do Modernismo”, como foi chamado, exerceu inúmeras atividades.  Foi palestrante e conferencista de raro talento, encantando os ouvintes pela verve e pela espirituosidade. Foi político militante e candidato a deputado federal, sem sucesso. Durante algum tempo se tornou fazendeiro. Dirigiu e fundou jornais, entre eles “O Homem do Povo”, em colaboração com Pagu, e que foi empastelado pelos acadêmicos de Direito da USP. Prestou concurso para professor universitário mas jamais deu aulas. Conviveu com figuras emblemáticas, no Brasil e no Exterior, entre as quais Isadora Duncan, de quem foi amigo, Blaise Cendrars, a quem chamava Sans Bras, uma vez que o poeta perdera um braço na guerra. Travou relações com as grandes figuras do mundo artístico na França e na Europa em geral. No Brasil, pertenceu ao grupo de Ricardo Gonçalves, o Ricardito, figura carismática que frequentava o Café Guarani. Manteve relações de amizade com Joaquim Inojosa, pregador apaixonado do Modernismo no Nordeste, e foi amigo íntimo de Mário de Andrade, com quem se desentendeu, rompendo relações. Tudo fez para se reconciliar com ele, mas Mário jamais o perdoou. Pertenceu ao grupo de D. Olívia Guedes Penteado, foi divulgador de Lasar Segall e parceiro de Flávio de Carvalho em montagens teatrais. Monteiro Lobato pertenceu ao seu círculo de amigos e Oswald reconheceu, com justiça, ter sido ele o mais remoto precursor do Modernismo no país. É inumerável seu círculo de relações.

A vida de Oswald de Andrade foi uma gangorra de altos e baixos. Esteve em plena glória e em total ostracismo. Envolveu-se nos maiores escândalos em virtude de suas atitudes chocantes para a época e pelas posições que assumia. Durante longo período sua obra literária foi esquecida. Hoje, porém, é reconhecida, estudada e aplaudida. Suas Obras Completas foram editadas com sucesso e cresce o interesse pelas suas realizações intelectuais e pelos eventos de sua vida. A biografia de Maria Augusta Fonseca contribui de forma decisiva para realizar a esperada justiça literária. Como ele próprio previa, a massa (popular) está saboreando o biscoito que ele fabricou.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/09/2017 às 08h27 | e.atha@terra.com.br

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Uma história de ódio e resistência

Maura Palumbo, advogada e empresária paulista, vem se dedicando há muitos anos ao estudo da II Guerra Mundial e ao holocausto provocado pela chamada solução final do problema judaico. Tornou-se uma expert no intrincado assunto e agora vem colocando em livros os resultados dessas intensas pesquisas. Sua primeira obra abordando o tema é o romance de fundo histórico “O perfume das tulipas” (Duna Dueto Editora – S. Paulo – 2017), que acabo de ler com intenso e crescente interesse. É um livro alentado (350 páginas) que prende o leitor do começo ao fim. Fica claro que a autora tem o fôlego e a paciência indispensáveis para os textos longos como os romances. Não é por acaso que já se anuncia a segunda edição do livro.

Na cidade de Berlim do início do século passado vivia em paz uma família. O marido, holandês de nascimento, cultivava com o maior carinho um canteiro de tulipas; a esposa, pintora de mérito e modista, se dedicava também às atividades domésticas. O gosto pelas tulipas soava algo estranho porque tais flores são reconhecidas mais pela beleza que pelo perfume. Todos eram cidadãos alemães e alguns de seus parentes haviam lutado na I Guerra Mundial pela Alemanha e até pereceram em combate. Consideravam a Alemanha sua pátria e nela viviam e labutavam como quaisquer outros nativos do país. Mas eram judeus e isso marcaria seu destino, submetendo-os ao ódio desvairado e ao medo constante, exigindo imenso esforço para resistir e tentar a sobrevivência.

Eis que surge no horizonte uma nuvem ameaçadora. Adolf Hitler começa a ganhar espaço no panorama político com sua pregação nacionalista e ataques aos judeus, a quem atribuía todos os males do país em crise. Ganha adeptos, lança suas ideias a respeito do espaço vital e insinua a necessidade de uma vingança contra os que derrotaram a Alemanha na I Guerra Mundial, rebaixando-a e humilhando-a. Na prisão, onde esteve por alguns meses, escreve sua cartilha nazista, o “Mein Kanpf”, que é difundido à larga. Judeus mais precavidos, prevendo o pior, tratam de emigrar para lugares seguros. Mas a família em questão é patriota e continua em sua vida normal. O Partido Nacional Socialista, embora perdendo as eleições, já é o segundo do país e não cessa de crescer. Vai conquistando mais e mais seguidores. Em 30 de janeiro de 1933 o presidente Hindenburg nomeia Hitler chanceler da república. Em março o chanceler assume o total controle do governo com poderes ditatoriais. O medo se instala no coração de todos os judeus, apontados como inimigos da nação. Começam a entender que não há mais lugar para eles no país.

As restrições às atividades dos judeus vão num crescendo incontrolável e absurdo. Funcionários públicos dedicados são enxotados de seus cargos, professores e profissionais liberais proibidos de exercer as profissões. Todos os meios são usados para marginalizar os judeus, menosprezados e humilhados em toda parte. A pregação contra eles é constante, maciça, verdadeira lavagem cerebral. Queimas de livros de autores judeus acontecem em macabros autos-de-fé. Obras de Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx, Nelly Sachs, Thomas e Heinrich Mann, Walter Benjamin, Alfred Kerr, Robert Musil e Ricarda Huch, além de muitos outros, ardem nas fogueiras. Não importa o que contenham e o valor de suas lições. São maculados pelas mãos judaicas que os escreveram. É o desvario do ódio e da intolerância.

No plano exterior a guerra vingadora prosseguia vitoriosa. Os exércitos de Hitler dominavam países com extrema facilidade e tudo indicava que dominariam o mundo. Áustria, Tchecoslováquia, Holanda, Bélgica, Grécia, Iugoslávia, França... tudo sob o domínio do Fuhrer. O mundo tremia ante a perspectiva de uma dominação global pelas tropas germânicas. É declarada a guerra contra a União Soviética, cuja derrota estava prevista para cinco meses com a destruição de São Petersburgo. Mas uma coisa é planejar a guerra num gabinete, outra é encarar a realidade. Então tudo começa a mudar. A resistência russa é espantosa. Os Aliados, por sua vez, invadem a Normandia e as tropas alemãs começam a sofrer derrotas. O curso da guerra começa a virar.

Nervosos e agitados, os dirigentes alemães intensificam a solução final. Crescem as deportações, os campos de concentração e extermínio funcionam a pleno vapor e milhões de judeus são executados. Homens, mulheres, crianças, velhos, doentes, ciganos, deficientes, doentes mentais viram fumaça ou são sepultados em valas comuns. Figuras sinistras comandam o grotesco esforço para aniquilar uma raça. Mas a derrota é inevitável, os bombardeios sobre Berlim são terríveis e as tropas soviéticas se aproximam de Auschwitz. Cumpre, então, destruir os vestígios da matança e todas as medidas são tomadas nesse sentido, entre elas a marcha forçada de seres desesperados e famintos. É tarde, porém, e a rendição acontece.

Padecendo toda sorte de sofrimentos, a família de Zacharias Von Hart luta pela sobrevivência. Vale-se de toda sorte de expedientes para fugir dos perseguidores. E o desfecho do romance é imprevisível, deixando o leitor em permanente suspense. “Um dia todos sentirão o perfume das tulipas” – vaticinava ele.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/09/2017 às 09h41 | e.atha@terra.com.br

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Ao pé do velho rádio

 Escritor e jornalista experimentado, Danilo Gomes acaba de dar a público um livro  interessante e, ao mesmo tempo, indefinível (*). É uma coletânea de textos que, no fundo, soam como páginas de memórias de acontecimentos vividos e de livros que foram lidos com deleite e deixaram marcas indeléveis. O propósito inicial estava em realçar três figuras marcantes na vida do autor e entrelaçar as relações entre elas: Juscelino Kubitschek, Odilon Behrens e Augusto Frederico Schmidt. Esse trio, de uma forma ou outra, conviveu entre si e com ele o autor manteve relações mais ou menos próximas, pessoais ou através de leituras, e se confessa fiel admirador de todos seus integrantes.

No correr das páginas do livro o autor aborda aspectos biográficos, as atividades de cada um deles, suas realizações, facetas de suas personalidades e o mais. No conjunto, porém, avulta a figura do poeta e memorialista Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), de cuja obra o autor tem sido um leitor aficionado.

Poeta e prosador de talento, Schmidt era um homem múltiplo. Escritor, editor, diplomata, empreendedor, foi assessor de Juscelino e autor de muitos de seus discursos. Figura controvertida, criticado com dureza pelos nacionalistas que viam nele um entreguista a serviço da banca mundial. Não obstante, tinha um faro extraordinário para descobrir escritores ainda inéditos, tendo publicado vários autores que depois se consagraram no mundo das letras, entre eles Graciliano Ramos. Conta-se que, ao ler os célebres relatórios do então prefeito de Palmeira dos Índios, teria afirmado que ele tinha algum romance na gaveta e nisso estava absolutamente certo.

Sempre elegante, ainda que gordo, Schmidt era dono de uma gargalhada fácil, embora na verdade fosse um nostálgico e melancólico, segundo depõem os que o conheceram de perto cujos depoimentos são trazidos pelo autor. O poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens Filho, por exemplo, escreveu: “De Augusto Frederico Schmidt me fica a lembrança de alguém extrovertidamente triste e nostálgico. Nada mais enganador que a sua ruidosa gargalhada...” (p. 52).

De uma viagem à Indonésia, ele e a esposa trouxeram um filhote de galo, muito branco e de crista vermelha. Tratada com desvelo, a bela ave vivia saltitando pela casa, inclusive sobre a mesa do escritório. Coq, como o tratava a mulher de Schmidt, se tornou famoso e seu dono ficou conhecido como o Poeta do Galo Branco, título que daria a um de seus livros de memórias. Muitas fotos em que aparece o célebre galo foram publicadas, até mesmo na capa de uma antologia poética de seu dono.

A poesia de Schmidt conquistou incontáveis leitores e mereceu a aclamação da crítica. Também seus livros de memórias – “O galo branco”, “As florestas” e “Paisagens e seres” – obtiveram a melhor acolhida. “Saudade de coisas perdidas, - escreveu ele – de objetos do passado, de velhos móveis, de ruas antigas por onde não mais passarei talvez. Saudade de amigos mortos, de amigos de infância, que não reverei. (...) Saudade do que não fui, de tudo o que desejava ter sido e não fui. Dos sonhos, das ilusões, do desejo de conforto modesto e de paz que não me coube. Saudade dos filhos que não tive.” (p. 39). Como acentua o autor, o poeta “foi um paradigma do melancólico, do saudosista, do nostálgico incurável” (Idem).

Mesmo tendo vivido tão pouco, Schmidt conquistou posição de destaque em nossas letras e se colocou entre os grandes poetas da literatura nacional. Por tudo isso, muito bem fez Danilo Gomes ao retirá-lo de tão injusto ostracismo.

No correr destas páginas outro tema ocupa as reminiscências do autor. Trata-se da construção de Brasília, projeto que vinha de longe em nossa história e no qual poucos ainda acreditavam. Acompanhando ao pé de um velho rádio Telefunken, o menino de Mariana, se emocionava com o arrojo e a firmeza com que JK tornava realidade a nova capital brasileira. Nem de longe imaginava que um dia, com a mulher e o filho, vindo de Belo Horizonte, “desembarcaria na Rodoviária do Plano Piloto para morar e trabalhar na Capital que então se inaugurava, no meio das nossas lágrimas” (p. 92).

Na abertura do livro, Danilo Gomes homenageia com justiça os cronistas brasileiros de ontem e de hoje. Muitos deles li ao longo da vida. Henrique Pongetti, Stanislaw Ponte Preta, Otto Lara Resende, Rachel de Queiroz, tantos e tantos outros... Que falta eles fazem!

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(*) “Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek. Odilon
Behrens”, de Danilo Gomes, Brasília, Gráfica e Editora Leal, 2017.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 12/09/2017 às 14h22 | e.atha@terra.com.br

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A voz dos pampas

Advogado e escritor, Israel Lopes é um pesquisador incansável, daqueles que se debruçam sobre um tema e o esquadrinham até o limite. Admirador de Pedro Raymundo (1906/1973), vem se debruçando há longos anos sobre a vida e a obra do cantor/compositor que se transformou na voz dos pampas. Afora outros trabalhos publicados, incluindo livros, lançou o volume “Pedro Raymundo e o canto monarca” (Letra & Vida Editora – Porto Alegre – 2013), minucioso e fundamentado levantamento biográfico do músico e sua produção, tendo como pano de fundo um amplo panorama da música regionalista, nativista e missioneira. Com esse ensaio primoroso, o autor resgata do ostracismo um artista que empolgou grande massa de admiradores em todo o país e fez escola na sua área de atuação. “As mídias televisivas, os jornais, as rádios e as revistas de hoje, na grande maioria, não divulgam esses artistas do passado. Somente nós, que somos idealistas, é que divulgamos esses artistas que tanto fizeram por nossa cultura musical” – escreve ele em justificado desabafo. Como em tudo o mais, a falta de memória brasileira também atinge o setor musical. Mas é fora de dúvida que Israel Lopes domina com segurança o assunto e tem ampla visão do panorama musical, seus expoentes e suas obras.

Pedro Raymundo era filho de Santa Catarina, nascido na cidade de Imaruí, ao sul do Estado, mas se tornou um catarinense agauchado, abraçando com fervor a cultura popular do vizinho Estado, ainda que algumas de suas composições indiquem que nutria saudade do chão natal. Filho de pescador e músico, desde muito cedo revelou pendores para a música e com poucos anos de idade já dedilhava uma sanfona de oito baixos, presente paterno. Estudou por algum tempo e exerceu várias atividades até decidir se transferir para o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, seu primeiro emprego foi o de condutor de bondes até que começou a se apresentar como músico, tocando uma “gaita de botão” (cromática?). Começou executando jazz, cedendo à moda da época, antes de abraçar o cancioneiro gaúcho. Aos poucos foi conquistando espaço nas emissoras de rádio e granjeou fama em todo o país. Com a ajuda de amigos, vai tentar a sorte no Rio de Janeiro onde, aos poucos, as portas se abrem. Seguem-se as apresentações em grande estilo, gravações de discos, publicações de músicas de sua autoria, entrevistas e reportagens. Torna-se um ícone da música regional gauchesca festejado em toda parte. “Adeus Mariana” é seu primeiro sucesso nacional. Apresenta-se nas rádios Tupi, Mayrink Veiga, Nacional, Tamoio e Globo. Excursiona pelo país levando a música regional. É uma carreira vitoriosa que se estende por longos anos.

Passo a passo, o biógrafo rastreia a trajetória do artista e suas obras. Locais onde se apresentou, conjuntos a que pertenceu, personalidades com quem se relacionou, tudo é revelado em minúcia sem esquecer os eventos do momento histórico vivido. O livro é rico em documentos e fotos, muitas delas retratando o artista com seus companheiros e conhecidos, sempre vestido no rigor da moda gauchesca. São lembrados inúmeros outros músicos e compositores com os quais Pedro Raymundo travou relações.

A realização da obra exigiu ampla e prolongada pesquisa. É impressionante a quantidade de fontes e referências consultadas. Trata-se, enfim, de um trabalho modelar que dignifica o biografado e enaltece o seu autor. Está de parabéns o pesquisador gaúcho por tirar do ostracismo um artista de tanto talento e que jazia esquecido.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/09/2017 às 11h13 | e.atha@terra.com.br

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Lima Barreto na memória alheia

Camilo Castelo Branco, o genial romancista português, dividia os livros em duas categorias: missal (grandes) e cartilha (pequenos). Pois acabo de receber um missal de 810 páginas que me foi oferecido por José Ribamar Garcia, renomado advogado trabalhista no Rio de Janeiro e escritor, integrante da Academia Piauiense de Letras. O cartapácio contém a biografia de Austregésilo de Athayde (1898/1993), jornalista, escritor e presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) por longos anos. “O século de um liberal” (Editora Agir – Rio – 1998), de autoria de Cícero Sandroni e Laura Constância Sandroni, recupera a longa e movimentada vida de um dos mais ativos jornalistas brasileiros, ligado ao grupo dos Diários Associados e, por muito tempo, seu presidente.

Dentre as múltiplas personalidades com quem conviveu, destaca-se o escritor Lima Barreto (1881/1922), de quem foi amigo e confidente nos anos de juventude e que é evocado com saudade inúmeras vezes. Desde moço, ainda preferindo os clássicos, ele já manifestava franca admiração pelo escritor de Todos os Santos.  “Apesar de ler os escritores de seu tempo que a Igreja condenava, entre os quais o de sua preferência era Lima Barreto, ele continuava admirando os que ainda escreviam pelos cânones do século anterior” (p. 109). Essa admiração por Lima Barreto perduraria por toda a vida.

Relata o jornalista que foi visitar a redação do jornal “O País”, de João Lage, na esperança de obter uma colocação. Na saída, deparou com Lima Barreto. Em conversa, fez observações sobre “Policarpo Quaresma” e ele agradeceu. Mas, ao saber que o jovem pretendia ser jornalista, disse o seguinte:

“-Não vale nada. Ou se deixa para ser outra coisa ou se fica na miséria toda a vida. A menos que você tenha talento de cavador... Quando quiser encontrar-me vá ao Café São Paulo, por volta das cinco. Se eu não tiver chegado, espere, eu não tardarei.”

Mais tarde voltou a encontrar o escritor e o conselho se repetiu.

“-Não é negócio.  Peça a seu tio um lugar de amanuense nalguma repartição.  Encaminhe-se para a Prefeitura ou à Central do Brasil.”.

O rapaz alegou que não tinha vocação para o serviço burocrático.

“- Asneira, rapaz  asneira -  disse ele. – Não há nada melhor. É um ponto de partida. Todo mundo aqui no Rio é ou já foi funcionário público. O Machado passou a existência inteira mamando no Tesouro. O Bilac, o Neto, o Alberto de Oliveira... Todo mundo...” (pp. 126/127).

Como se vê, Lima não nutria nenhum apreço pelo jornalismo profissional. Talvez fosse uma reação à maneira como fora tratado por um dos grandes jornais da época onde seu nome era proibido. Também fica claro que o ponto de encontro dos dois, daí por diante, seria o Café São Paulo.

Logo depois ele registra a implicância de Lima Barreto com o futebol. Para o escritor, tratava-se de uma “invasão inglesa em nossa cultura”, um jogo para brutos, a que ele chamaria de “bolapé”, com visível sentido pejorativo.

Ao tomar conhecimento de que o futuro jornalista havia pedido a Coelho Neto o prefácio para um livro, Lima Barreto ficou irritado. “Prefácio que lhe valeu, naquele mesmo ano, descompostura de Lima Barreto. Quando soube da história, o escritor disse a Belarmino (*), muito irritado, que só um cretino chapado pediria prefácio a Coelho Neto; e quanto a considerar-se discípulo de Machado de Assis, não passava de grande estupidez” (p. 139).

Apesar dos arroubos limanos, que tolerava com paciência, sua opinião a respeito dele era a mais positiva. “Os passadistas permaneciam voltados  para a forma, o verbalismo, o fraseado pomposo e a literatice; os novos, como Lima Barreto, desde 1909, com a publicação de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, anunciavam a presença de um espírito inconformista nas letras brasileiras” (p. 140). Ele já antevia, em relação a Lima, o que a grande crítica mais tarde consagraria.

Os encontros com Lima Barreto continuaram.

Um deles aconteceu na esquina da Rua do Ouvidor com a Avenida. “Com a barba por fazer, olhos injetados, roupa suja e em desalinho, Lima mostrou-se paternal... Mas, ao saber que o rapaz conseguira um lugar n’A Tribuna, comentou:

- É burrice meter-se num jornaleco. Você nem parece nortista...” (p. 142).

Em outra ocasião, o aspecto de Lima era desolador. O encontro foi no Café São Paulo e “Lima Barreto estava sentado numa cadeira do fundo com as mãos entre as pernas e a cabeça pendendo. “

Nesse encontro, recomendou ao jovem que não ingressasse em rodinhas literárias, com Coelho Neto e Paulo Barreto (nunca o chamava de João do Rio) e o pessoal do Correio da Manhã.

“ - Essa gente toda não presta para nada e não bota ninguém para diante” – afirmou ele.

Falou mal dos padres e da Igreja. Declarou que não gostava de Cruz e Sousa. Afirmou que seguir Machado constituiria um erro e que “literatura só é genuína quando nasce do povo” (pp. 142, 143, 144 e 145).

Lima Barreto já revelava a decadência de seus últimos anos de vida, embora sua revolta continuasse a mesma.

O livro prefaciado por Coelho Neto nunca foi publicado. Os originais foram consumidos por um incêndio na editora, em Portugal.   

Austregésilo travava uma polêmica com Antônio Torres, crítico severo e sem papas na língua, quando voltou a se encontrar com Lima Barreto.  Ele tornou a aconselhar o jovem a deixar o jornalismo e entrar para o serviço público. Afirmava que trabalho em jornal “só serve para os diretores” e “não dá nada e tira tudo.”  Depois declarou que havia lido um artigo de autoria dele e o considerava grosseiro, tendo o autor do artigo informado que escrevera quando estava irritado. “Quando estiver irritado, não escreva – respondeu o escritor. – No ímpeto da cólera perde-se a noção da dignidade pessoal.”  Em seguida, informou que iria cedo para casa porque andava com dores de cabeça. Recomendaram-lhe que mudasse de vida, disse, mas não pretendia mudar. O pior que poderia acontecer seria morrer e, ainda que a ideia de morrer não o agradasse, não tinha medo da morte. “Afinal, todos morrem.” Ao se despedir, declarou: “Não dê importância às minhas impertinências. Sobretudo não me tome nunca para exemplo...” (pp. 150/151/152);

Aproximando-se as eleições, concorriam Epitácio Pessoa pela situação e Rui Barbosa pela oposição.  O jovem jornalista abraçou de pronto a candidatura do Conselheiro, já derrotado em duas eleições anteriores. Mas o amigo Lima Barreto não concordava: “Lima Barreto era contra os dois candidatos, especialmente contra Rui, de quem discordava do estilo, da linguagem, do liberalismo, das aspirações políticas e do papel que representara no começo da República. Nas conversas no Café São Paulo exprimia seu desagrado em termos veementes...” Para ele, ambos os candidatos eram ruins e Epitácio era ainda pior porque sob o verniz do jurista estava o cangaceiro da Paraíba.

A posição do escritor diante das duas candidaturas conservadoras não era de admirar. Considerando-se maximalista e adepto de uma revolução social no país, Lima não poderia abraçar qualquer delas. “Considerava a sociedade brasileira preconceituosa e injusta, cheia de muitos vícios oriundos de nossa formação lusitana. Precisamos botar tudo isso abaixo! – proclamava. Depois declarou que tencionava mudar-se para a Rússia ou o Paraguai... (pp. 157/158).

“Na noite de Natal de 1919, - escrevem os autores – Lima Barreto foi levado pela segunda vez para o Hospício Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, e submetido a tratamento com “purgativo e poção gomosa de ópio; ali ficou até 2 de fevereiro de 1920. “Estou seguro de que não voltarei a ele pela terceira vez; se não saio dele para o São João Batista, que é próximo”, escreveria Lima mais tarde, em “Cemitério dos Vivos” (p. 159).

A saúde do escritor se agravava a olhos vistos em consequência do reiterado alcoolismo.

Em 18 de janeiro de 1921. Austregésilo elogia em artigo crítico o livro “Histórias e Sonhos”, de Lima Barreto. Este, em carta, agradece: “Meu caro Dr. Austregésilo de Athayde. Saudações. Agradeço-lhe muito a bondade que teve, dirigindo-me a carta aberta que A Tribuna publicou em 18 último. Quisera saber dos termos da excomunhão que mereci do padre-mestre Tadeu...” Estende-se para “definir certas posições intelectuais” e por isso “deveria revestir-se de seriedade.” Indagado, mais tarde, porque havia escrito de maneira tão formal, respondeu que não via nada de formal, pois “precisava deixar aquele documento. Não foi para agradecer nada... E ficou silencioso, com as pernas molemente cruzadas, batendo com o dedo mínimo na mesinha...e então disse: - E não me chame de mestre. Não pense que eu sou o Neto ou o João do Rio, que gostam de discípulos,   de encaminhar rapazes, de fazer escolas... E passou a insultar com palavras grosseiras todas as igrejinhas literárias de então” (pp. 172/173).

Lembrando que Austregésilo era professor de Latim e Grego, Lima Barreto comentou: “Aulas de latim... aulas de latim... Burrice estar ensinando estas coisas aos meninos. Você ensinando latim, sabendo grego e escrevendo n’A Tribuna acaba como o velho Ramiz Galvão...” E deu uma gargalhada rouca, fechando a boca com a mão direita, num acesso de tosse.

Nesse ponto o jornalista  fornece um retrato impressionante do escritor naqueles dias. É um depoimento que nunca encontrei em biografias ou ensaios sobre Lima e que vale a pena transcrever.

“Até que chegasse ao estado de loquacidade que tornava tão agradável a conversa, - escreveu ele – Lima Barreto atravessava um período de confusão, em que as palavras saíam pastosas, interrompidas, e as frases sem sentido, Deixava pender a cabeça, minutos seguidos, quase sobre os joelhos e, de quando em quando, a erguia para uma exclamação insultuosa dirigida a pessoas ou coisas que não estavam em causa. Era preciso ter paciência, ouvir sem réplica, esperar que o mecanismo de seu espírito engrenasse na continuidade de pensamentos e raciocínios, o que demorava algum tempo. Creio que o assunto surgiu na sua plenitude quando falei de certo manifesto do Clarté, assinado por Anatole France. À menção do nome, Lima Barreto encrespou-se e, como se ali eu houvera proferido uma injúria enorme, impeliu-me com a mão insegura e aos berros:

- Não me fale desse homem! É um falsário. É um castrado. Deus tirou-lhe a força da criação. Um simples fazedor de bonecos, falando parlapatices, tiradas dos filósofos da decadência grega, Admira-me que você, um menino ainda com o cheiro dos cueiros, me venha aqui tomar esses ares de desalento e mentiroso cansaço do mundo.

E enfático:

- De hoje em diante não fale mais comigo – ordenou.

Mas como eu tinha de pagar as despesas, aí por uns três mil-réis, voltamos às boas e saímos juntos rumo à Central do Brasil, passando pelo Largo de São Francisco.

E, enquanto andávamos, prosseguiu nos insultos contra aquele que era considerado então o Patriarca da Literatura Universal, em substituição a Tolstoi. Em certo momento ele voltou-se para mim e disse, entre irado e ao mesmo tempo carinhoso, agressivo, mas tentando disfarçar a ternura pelo jovem companheiro:

- Você, com esse Anatole na cabeceira, parece usar sobrecasaca de desembargador de Minas no espírito e lenço de Alcobaça para limpar o rapé.

Eu sorri da comparação, até porque achava que ele tinha um pouco de razão. Também não adiantava responder a Lima Barreto, que não escutava argumentos e cortava logo a pretensão do interlocutor de contradizê-lo usando um vocabulário de pura inspiração rabelaisiana. A verdade é que recebi um sacolejão nas minhas convicções de admirador de Anatole. O primeiro, não porém o definitivo” (pp. 173/174).

Em 1921, na revista Careta, Lima Barreto anunciava sua intenção de concorrer à Academia Brasileira de Letras na vaga de João do Rio. “Sou candidato à Academia. Creio que minha candidatura é perfeitamente legítima” – escreveu. Mas em setembro retirou a candidatura “por motivos particulares e íntimos” (p. 175). Lima jamais entraria para a Academia, mais por seu modo de vida que pela cor da pele – dizem os críticos.

Relata, mais tarde, outro encontro com Lima Barreto. “O melhor seria ir ao Café São Paulo para ver se Lima Barreto ainda estava lá. O bar estava cheio de fregueses que haviam tomado uma xicarazinha de café e ficavam  horas conversando. A maioria falava de futebol ou de corridas de cavalos. Alguns de política. Lima Barreto estava sozinho, encolhido, com as pálpebras meio descidas. Cheguei perto do escritor e saudei-o. Recebeu-me resmungando coisas ininteligíveis, com enfado e evidente vontade de expulsar o intruso. Disse depois que assentasse e mudou de humor. Lera um artigo meu sobre Coelho Neto e observou-me que nunca vira tanta sandice em letra de forma.

- Quando é que vocês vão compreender que o Neto não é literato?

Lima Barreto tinha raiva quase irracional de jogador de futebol, e xingava os jogadores mais famosos. Achava atitude imbecil assistir a onze sujeitos de um lado e onze do outro procurando lançar uma bola a gol, e haja a dizer palavras candentes contra os torcedores. Concentrava seu ódio em Coelho Neto, com quem, por motivos literários, implicava e atribuía-lhe toda a culpa pela popularização e prestígio das pelejas desportivas no Brasil.

Lembro-me que certa vez achei que deveria contrariá-lo, defendendo Neto e o futebol. Exasperou-se, cobrindo-me de invectivas. Como era do meu hábito, não lhe respondi, nem valia a pena, pois Lima era irredutível nas suas ideias e preconceitos, como, por exemplo, sua ojeriza a padres, frades e freiras, aos quais atribuía todos os males do mundo.

Embiocava entre os braços, fechava os olhos e ia distribuindo, entre dentes, descomposturas indiscriminadas. Queria mudar-se para a Cochinchina. Entrecortava longos silêncios com adjetivos contra o mundo em geral. Depois, levantava-se de súbito e dizia-me:

- Paga aí essa despesa...” (p. 176).

Os conselhos de Lima para o jovem jornalista escrever num grande jornal calaram fundo e desde então começou a batalhar por isso.

Quanto ao futebol e os esportes em geral, Austregésilo estava mais para Coelho Neto que para Lima Barreto. Gostava da vida ao ar livre, dos banhos de mar e das caminhadas pela areia da praia, ao contrário dos literatos em geral. Acompanhava os campeonatos e até chegou a ser confundido com célebre jogador de futebol (p. 179). Creio, porém, que não teria coragem de confessá-lo a Lima Barreto.

Num dos últimos encontros com Lima Barreto, no Café São Paulo, o escritor falou:

“- Você anda por aí com o Graça, o Ronald e com outros malucos e beócios. Então você ficará burro e safado!

E repetiu com voz cada vez mais sumida  os dois últimos insultos” (p. 188).

 Nas suas conversas, o jornalista conjeturava sobre a Semana de Arte Moderna, cujos ecos agitavam os meios culturais. “Parecia-nos que da destruição dos valores antigos  surgiria a linha de renovação e da autonomia literária do Brasil, especialmente nas obras de Lima Barreto, Adelino Magalhães e Monteiro Lobato” (Idem).

No dia 1º. de novembro de 1922, justamente no ano da Semana, falece Lima Barreto. Tinha 41 anos de idade. “Os arquivos de Austregésilo de Athayde não guardam qualquer artigo ou nota sobre a morte de Lima Barreto. Na coleção d’A Tribuna, na Biblioteca Nacional, faltam exatamente os exemplares de 2 a 5 de novembro de 1922, dias em que possivelmente Athayde escreveu sobre o seu companheiro de conversas no Café São Paulo” – dizem os biógrafos (p. 196).

Muitos anos depois, Athayde relatou que Lima Barreto e Artur da Costa e Silva conviveram por algum tempo no Hospital Central do Exército, onde o escritor consertava uma clavícula partida. Nessa ocasião Costa contava piadas e casos pitorescos, amenizando os dias de hospital. Lima o considerava inteligente e culto para a idade. Indagado sobre quem era o Costa de quem falava, o escritor respondeu: - Ora essa! O Costa é o Costa e não adiante você saber quem é...” Só mais tarde o jornalista entenderia de quem se tratava (pp. 598 e 599).

Para encerrar, registro um ensaio de Arnaldo Niskier, publicado em importante revista de cunho cultural (**), sob o título de “Lima Barreto, o defensor do tupi-guarani.” Nele o ensaísta acentua que a literatura afro-brasileira é um conceito em construção em nosso país e que a obra de Lima Barreto  não faz parte do programa de nenhum curso de letras. A “cidade letrada” continua fechada para ele como foi em vida.

___________________________

(*) Na juventude, Austregésilo era tratado como Belarmino. Seu
nome completo era Belarmino Maria Austregésilo Augusto de Athayde.
(**) “Revista do Historiador”, publicação da Academia Paulista
de História, S. Paulo, Vol. 181, p. 30.

Escrito por Enéas Athanázio, 28/08/2017 às 11h53 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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