Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O anjo de Hamburgo

“A Aracy, minha mulher,
Ara, pertence este livro.”
      Guimarães Rosa

Importante publicação de cunho histórico e cultural publicou interessante ensaio a respeito de Aracy Guimarães Rosa (1908/2011), de autoria de Ayrton Gonçalves Celestino, e que bem merece algumas considerações (*).

Nascida em Rio Negro (PR), foi registrada como Ema e, mais tarde, mediante sentença judicial, passou e ser Aracy Mebios (que deveria ser Moebius). Ainda criança, mudou-se para São Paulo em companhia da mãe. Em 1929 casou-se com o cidadão alemão Johannes Edward Ludwuig Tess, com quem teve o filho Eduardo Tess. O casamento não durou muito e Aracy, com o filho e a mãe, mudou-se para a Alemanha, onde a vida não foi fácil. Graças ao seu conhecimento de idiomas, conseguiu um emprego no Consulado Brasileiro em Hamburgo, onde lhe cabia tratar dos documentos das pessoas que desejavam emigrar para o Brasil. Aí teve início uma fase gloriosa de sua vida.

Médico, escritor e diplomata de carreira, o mineiro João Guimarães Rosa foi designado titular do mesmo Consulado e lá conheceu Aracy, mulher muito bonita e elegante. Apaixonaram-se e passaram a viver juntos, casando-se anos depois no México, por procuração, uma vez que no Brasil ainda não havia divórcio. Guimarães Rosa também havia saído de um casamento mal sucedido. Passam, então, a trabalhar juntos.

Intensificava-se na Alemanha a perseguição contra os judeus, com a chamada Solução Final em plena execução, enquanto no Brasil o governo Vargas impedia a entrada de semitas. Desesperados, eles buscavam todas as formas para deixar aquele país. E então, correndo o risco de ser descoberta e cair nas mãos da Gestapo, o que lhe custaria a própria vida, Aracy começou a tomar medidas para facilitar a entrada de judeus no Brasil. Omitia nos documentos qualquer menção à condição de judeus dos emigrantes e assim salvou a vida de muitas pessoas de todas as idades. Era um sério risco que ela assumiu com imensa coragem, ciente de que praticava atos de verdadeiro heroísmo e movida por profundo sentimento humanitário. Sabendo das ações da esposa, Guimarães Rosa temia por ela mas jamais interferiu.  “O pavor que você tinha que a Gestapo me pegasse...” – lembrou ela em uma carta.

Retornando ao Brasil, Guimarães Rosa se consagra como um dos maiores expoentes de nossa literatura.  Eleito para a Academia Brasileira de Letras, vai adiando a posse como que tomado de estranha premonição. Falece três dias após a solenidade, aos 59 anos de idade, deixando uma obra imorredoura em que avulta o “Grande sertão: veredas”, romance monumental que até hoje desafia os críticos. Dizia-se, na época de seu lançamento, que ele provocou um abalo sísmico em nosso mundo literário.

Aracy, sempre corajosa e decidida, desafia a ditadura e abriga perseguidos políticos em sua própria casa. Como em tempos de guerra, na Alemanha, afronta todos os riscos.

O reconhecimento pelo seu esforço em favor dos judeus não tarda a aparecer, não apenas aqui mas também no exterior. “Foi a única mulher latino-americana de origem não judia considerada personalidade de relevo internacional pela Comunidade de Israel”, informa o autor. Tornou-se conhecida como o Anjo de Hamburgo, foi homenageada no Museu do Holocausto, em Jerusalém, no Jardim dos Justos, e também no de Washington. Em 1985, com a presença dela, foi inaugurado o Bosque Aracy, em Jerusalém, ocasião em que proferiu bela oração. Em Rio Negro, sua cidade natal, é inaugurada em 2012 a Biblioteca Cidadã Aracy Guimarães Rosa  em festiva e justa homenagem à filha da terra, contando com a presença de seus descendentes e numeroso público.

Aracy viveu até os 102 anos, cercada sempre pelo afeto e pelo reconhecimento por sua corajosa defesa das vítimas do ódio e da desvairada intolerância. Seu nome ficou inscrito de maneira perene nos anais da história mundial.

O ensaio de Ayrton Gonçalves Celestino é rico em material iconográfico e constitui uma bela homenagem a quem a mereceu, além de ser um alerta para que tais monstruosidades nunca mais se repitam.

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(*) Boletim do Instituto Histórico e Geográfico
           do Paraná, Vol. LXX, 2017, p. 23.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/10/2017 às 16h25 | e.atha@terra.com.br

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Ideia Fora do Lugar (2)

Gilberto Amado, expoente do memorialismo nacional, foi diplomata de carreira e viveu inúmeros anos no exterior, quase sempre em países de pequenas dimensões. Com fundamento nessa experiência vital, concluiu que os nativos de países grandes e pequenos são muito diferentes na sua psicologia e na formação da personalidade. Aqueles são criados na largueza, na amplidão, nos vastos espaços, e por isso cultivam o sentimento inato de liberdade e independência, podendo se locomover a grandes distâncias sem encontrar barreiras, alfândegas, fronteiras, revistas e policiamento. Como nós, brasileiros, que podemos palmilhar por dias seguidos ou por horas de voo sem sair do território nacional, sem qualquer obstáculo, e ouvindo a mesma e doce língua portuguesa, uma das mais belas dentre todas.

Por essas e outras, espanta-me o movimento que pretende criar novo país nos Estados do sul. Ele me parece uma ideia fora do lugar porque é a primeira vez na vida que vejo uma luta para deixar de ser grande para se tornar pequeno. Em vez de progredir, regredir; em vez de crescer, minguar. Posso dizer que conheço o Brasil de ponta a ponta, inclusive a região sul, e por isso não vejo como o novo país poderia vingar. Seria inviável e colocaria a população da região numa situação catastrófica. Como tantos países pequenos, seria mais um a tropicar pela estrada da vida, sem perspectiva e sem futuro.

Com efeito, como iria de sustentar? De onde viriam os combustíveis, o gás, a energia elétrica, os medicamentos, os veículos, os alimentos e tudo mais que procede de outras regiões?  E se isso não bastasse, com que recursos criaria um Judiciário federal, um Congresso Nacional, um Executivo com todos seus ministérios, secretarias, departamentos, empresas estatais, polícia federal e rodoviária e toda a parafernália administrativa?  E as Forças Armadas, como seriam mantidas? Como adquirir navios, aviões, veículos e tudo mais? Adotaríamos canoas e barcos a remo? Com que roupa manteríamos o SUS? Ou seria extinto e voltaríamos às meizinhas, garrafadas e benzeduras? Como pagaríamos aos aposentados e pensionistas do INSS? Deixaríamos morrer à míngua? As universidades federais seriam fechadas? É evidente que seria impossível custear tudo com recursos apenas do sul, a menos que não existisse nada disso e se revertesse ao passado remoto, com o presidente legislando por decreto e a justiça se realizando no braço ou no tiro.

Talvez se adotasse uma monarquia, tendo no comando os Orleães e Bragança, já que “Dom” Bertrand é visitante assíduo de nosso Estado. E com ela viria todo o séquito de nobres, barões, condes, viscondes e tudo mais, dos quais seríamos “fiéis vassalos”..

No campo das relações internacionais, seria necessário estabelecer embaixadas em Brasília e em numerosos outros países, salvo que se pretendesse adotar um isolamento suicida. Para ir a São Paulo, à Bahia ou ao Rio de Janeiro seria necessário passaporte e visto do governo brasileiro. E qual seria a capital nacional? E a língua oficial: o alemão estropiado ou o italiano macarrônico? E o vestuário: a pilcha ou as bermudas com suspensório e chapeuzinho com pena? Ora, ora, convenhamos que seria um país digno de pena, um arremedo de país.

Como costuma acontecer em pequenos países sul-americanos, não tardariam a surgir clãs dominadores que tomariam o poder por bem ou por mal e nele se perpetuariam. Aí estão os exemplos históricos da Nicarágua, da República Dominicana, da Guatemala, do Haiti, do Paraguai e outros mais, onde ditadores sanguinários se apossaram do país por décadas.

Para sorte da população sulista, essa campanha está fadada ao fracasso. É cláusula pétrea da Constituição Federal a integridade do território nacional, tema que nem pode ser discutido em termos jurídicos, e a simples tentativa de secessão já constitui crime previsto em lei. Aí está o ponto final desse desvairismo.

Nosso povo é dotado de inato bom senso e não se deixa envolver com facilidade. Prova disso foi o retumbante fracasso do “plebiscito” há pouco realizado sobre o assunto.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/10/2017 às 10h36 | e.atha@terra.com.br

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A Casa da Torre

Em viagem à Bahia, conheci a chamada Casa da Torre, também conhecida como Castelo da Torre, situada na colina de Tatuapara, no município de Mata de São João e nas proximidades da Praia do Forte. Construído por volta de 1608, o prédio ainda permanece em pé, soberbo e majestoso, em meio a imenso jardim gramado e cercado de árvores centenárias, entre elas uma gameleira de imenso tronco. As paredes de pedra, largas e maciças, resistiram por quatro séculos às intempéries e atestam a solidez de uma construção feita para desafiar os tempos e na qual o braço escravo foi decisivo. A capela se encontra em perfeitas condições de conservação. O local é ponto turístico dos mais visitados, tanto pela curiosidade arquitetônica do edifício como pelo seu significado histórico.  Situado no alto, tendo o mar aos fundos e as estradas à frente, o lugar dispõe de uma vista privilegiada, permitindo divisar de longe qualquer aproximação.

A Casa da Torre foi o solar principal de um conjunto residencial e militar, com suas torres e seus anexos. Dali era administrado um dos maiores, se não o maior, latifúndio do país, que se estendia desde a Bahia até o Maranhão, abrangendo uma área aproximada de trezentos mil quilômetros quadrados (300.000 km2), território equivalente ou mesmo maior que o de muitos países, como a Itália, por exemplo.

Naquele local imperava a dinastia dos Garcia D’Ávila, fundada pelo primeiro deles, português nascido em São Pedro de Rates, e que veio ao Brasil na comitiva de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral, de quem seria filho bastardo. Com mão de ferro, instituiu verdadeiro exército composto de súditos, escravos e índios mansos, e foi ampliando suas posses, mesmo destruindo as aldeias indígenas e provocando a matança de seus habitantes. Através da cobrança de aluguéis pelo uso das terras, participação nas plantações e colheitas, criação extensiva de animais, foi consolidando tal poderio que até mesmo o governo central temia, evitando atritos com ele. O governo, por sinal, parecia ver com bons olhos o avanço do magnata pelas terras indígenas, fortalecendo assim a ocupação dos extensos territórios por portugueses e brasileiros fiéis à Metrópole portuguesa.

O primeiro Garcia D’Ávila, fundador do império, teve vários descendentes do mesmo nome, inclusive mulheres, que lutaram pela manutenção do imenso patrimônio e o conseguiram enquanto os sertões eram um imenso vazio. Com a chamada corrida do ouro, as regiões remotas se encheram de estranhos, entre os quais todo tipo de aventureiros, que foram estabelecendo posses e formando vilas. O controle e a dominação de tão vasto território se tornou impossível, mesmo pela força das armas, e o latifúndio entrou em crise. Em 1835 o solar foi abandonado “por ficar isolado no ermo da colina, longe de tudo e de todos. Sua manutenção ficou por demais onerosa para uma família em decadência, despojada, por força do progresso, de suas terras, de suas rendas”, como escreveu Luciano Costa Reis, autor de um livro sobre o assunto (*).

Assim, como tudo que é construído com base na força, o império se esboroou e teve um fim melancólico. O casarão de pedras é o testemunho silencioso e solitário de um poderio imenso que rivalizava com os próprios governos locais da época. Suas paredes maciças parecem ecoar os planos de poder e dominação que por tão longo tempo foram traçados nas amplas e luxuosas dependências. Embora pouco conhecida e divulgada, só a história ainda guarda suas lembranças.

Grandes autores escreveram obras a respeito da espantosa saga dos Garcia D’Ávila, verdadeiro império dentro do país. Entre eles estão Pedro Calmon, magnífico reitor da extinta Universidade do Brasil, e Moniz Bandeira.

É um local que vale visitar.

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(*) “A história do Castelo da Torre”, de Luciano
Costa Reis, JM Gráfica e Editora, Salvador, 2011.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 16/10/2017 às 09h08 | e.atha@terra.com.br

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A vida através das cartas 2

O LIVRO

A carta é um meio de comunicação dos mais antigos e hoje caminha para a extinção. Tenho observado que muitas pessoas não sabem mais escrever uma carta. Mas ela é uma fonte importante de informação e conhecimento e, em muitos casos, mais confiável que documentos oficiais. Ao escrever uma carta, em especial para pessoas mais chegadas, seu autor não tem preocupações estéticas, gramaticais ou com outros leitores, de sorte que redige de maneira livre, sem censura ou reserva. Por isso mesmo, até as cartas de pessoas anônimas do povo vêm sendo valorizadas pelos cientistas sociais como fonte insuspeita de informação sobre épocas ou fatos.

Quando as cartas são de pessoa de realce em qualquer campo, adquirem ainda mais valor. No caso dos escritores, suas cartas ajudam a iluminar sua obra literária e desvendam fatos de sua vida que podem ter influenciado de forma marcante sua criação. Muitos autores, no correr da história literária, só se tornaram totalmente compreendidos após o conhecimento de sua correspondência.

Por isso mesmo, o lançamento do livro “As Cartas de Ernest Hemingway” (Martins Fontes – S. Paulo – 2015), organizado por Sandra Spanier e Robert W. Trogdon,  é um evento importante para os leitores e admiradores do Velho Hem. O volume é o primeiro de uma série prevista para doze e engloba as cartas escritas entre 1907 e 1922, ou seja, a fase de formação do homem e do escritor na luta pela afirmação profissional. É um trabalho criterioso, com milhares de notas explicativas, três ensaios introdutórios, cronologia, mapas, lista de correspondentes com uma súmula biográfica, calendário das cartas e um álbum com excelentes fotos. Trata-se, enfim, de um trabalho minucioso e repleto das mais variadas informações sobre o escritor e sua obra. Ambos os organizadores são professores universitários de literatura nos Estados Unidos. O livro foi traduzido por Rogério Bettoni.

O ESCRITOR

Ernest Miller Hemingway (1889/1961) nasceu em Oak Park, proximidades de Chicago, no Meio Oeste americano. Filho do médico Clarence Edmonds Hemingway e Grace Hall Hemingway, estudou nos colégios locais e não frequentou a universidade. Embora escrevesse desde cedo, teve uma infância ativa e passou muito tempo no meio rural, pescando, caçando e até trabalhando duro nas propriedades da família.  Influenciado pelo pai, seu orientador, tornou-se exímio caçador e pescador. Suas cartas registram inúmeras excursões de caça e pesca.  No decorrer da vida realizaria grandes caçadas, inclusive safáris na África, alguns deles repletos de incidentes cujas notícias correram mundo. Tomado de intenso desejo de aventura, alistou-se como motorista de ambulâncias na Cruz Vermelha Americana e serviu na Itália durante a I Guerra Mundial. Sofreu em ação sérios ferimentos, sendo internado num hospital militar em Milão, e foi condecorado por atos de bravura. Durante a permanência no hospital, apaixonou-se pela enfermeira americana Agnes Von Kurowski, mais velha que ele, mas ela romperia a relação, tempos depois, fato que o marcou por toda a vida. Ao retornar aos Estados Unidos, descobriu que era um herói, admirado e cortejado por todos. Depois de um período incerto, trabalhando em empregos provisórios, casou-se com Elizabeth Hadley Richardson, que seria a primeira de suas quatro esposas. Com ela, decide se mudar para Paris, influenciado pelo escritor Sherwood Anderson, que o recomendou aos amigos lá residentes, entre os quais Gertrude Stein, Ezra Pound e a livreira-editora Sylvia Beach, proprietária da célebre Livraria Shakespeare and Company.  Na capital francesa, sobrevivendo de matérias enviadas a um jornal canadense, do qual era correspondente, e de um pecúlio da mulher, iniciou a luta por um lugar ao sol no mundo das letras. Vida pobre, de poucos recursos, o que, no entanto, não os impediu de viajar à Suíça, Itália e ao interior do país, além de frequentar o hipódromo, as corridas de bicicletas, as lutas de box e outras diversões.  Além disso, como correspondente de jornal, realizou outras viagens internacionais para cobrir eventos importantes. O casal retornou por algum tempo à América para o nascimento do primeiro filho, John Hadley Nicanor Hemingway. Seus trabalhos literários começam a aparecer e ele não tarda a se impor no meio literário e cultural. Esse é o período coberto pelo livro.

BIOGRAFIA EPISTOLAR

Hemingway era arredio à ideia de ser biografado, fosse em vida ou cem anos depois da morte. No entanto, sem querer, acabou se autobiografando nas incontáveis cartas que escreveu aos mais variados destinatários, muitas delas longas e detalhistas. É verdade que desde cedo nutria certa preocupação com a leitura desses documentos íntimos pela posteridade. Em carta de 1950, segundo os organizadores do livro, Hemingway afirmou que havia queimado as cartas daquele período depois de se impressionar com as palavras do escritor Ford Madox Ford: “Um homem sempre deveria escrever suas cartas imaginando como seriam lidas pela posteridade.”

Assim, a correspondência ativa dele foi sempre deixada de lado e jamais destinada à publicação. No entanto, “ela constitui a sua autobiografia narrada em tempo presente. Ela enriquece nossa compreensão de seus processos criativos, oferece informações acerca da cena literária do século XX e documenta a construção e o marketing de um ícone norte-americano” – afirmam os organizadores.

Apesar de contrariar seu desejo, Hemingway teve sua vida examinada nos menores detalhes e inúmeros são os seus biógrafos, sem falar nos ensaios, reportagens, entrevistas, artigos e matérias jornalísticas a seu respeito. As cartas constituíam “a última fronteira inexplorada  de sua obra.”

AS CARTAS

Hemingway escreveu grande quantidade de cartas ao longo de toda a vida. Costumava dizer que elas eram mal escritas, em geral com muita pressa, nos intervalos do longo e cansativo trabalho de jornalista e, mais tarde, de escritor, e por isso elas nem sempre mereciam o cuidado devido. Mas gostava de escrever e exigia dos correspondentes que respondessem. É interessante notar que escreveu numerosas cartas à mãe, com quem sempre teve suas diferenças, e também ao pai. Em algumas passagens revelava irritação com certas atitudes paternas.

As primeiras missivas revelam um caráter ainda infantil, hesitante, redigidas em caligrafia de criança. Tratam de pescarias, acampamentos com amigos, caçadas e assuntos ligados à fazenda da família, onde costumava permanecer nas folgas do colégio. Aos poucos começam a aparecer temas ligados a namoradas, esportes, escritos para jornais escolares e preocupação com o futuro. Depois, já na iniciação no jornalismo, queixa-se do excesso de trabalho, dos parcos salários e da falta de dinheiro. Com o avanço da guerra na Europa, surgem os primeiros desejos de se alistar como voluntário. Mas um defeito na vista impede sua ida; é rejeitado pelas forças regulares. Alguém sugere, então, a Cruz Vermelha, nela se alista como motorista de ambulâncias e ruma para o campo de luta. Ferido com gravidade, em ação, é hospitalizado em Milão e aí acontece a grande paixão de sua vida. Recuperando-se, embora ainda mancando e usando muletas, retorna aos Estados Unidos. Não tarda a chegar a carta de Agnes rompendo o namoro. O choque é tão violento que fica transtornado; na verdade nunca superou o trauma, que carregaria pelo resto da vida. As cartas do período revelam o seu sofrimento. Mas eis que surge Hadley, exuberante moça de Saint Louis, e se apaixona por ela. Muito jovem, casam-se, já com a intenção de se mudar para a Itália. Sherwood Anderson, escritor célebre, o convence a trocar a Itália por Paris, o local adequado para um aspirante a escritor. E assim Hemingway e a jovem esposa se fixam em Paris. Ali ele dá início a uma carreira vitoriosa que o transformará num dos mais lidos e famosos escritores de todo o mundo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/10/2017 às 16h57 | e.atha@terra.com.br

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O segredo do velho Hem

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1962) foi um homem cheio de vida. Atleta, nadador, pescador e caçador aficionado, adepto de touradas, corridas de cavalos e de bicicletas, lutador de box, esquiador e incansável viajante, revelava intenso amor pela vida. Escritor bem sucedido como poucos, amealhou imensa fortuna com seus livros e recebeu o Prêmio Nobel. Mantinha um padrão de vida invejável, tanto na Finca Vigia, em Cuba, como em Ketchum, nos Estados Unidos, em Paris ou Nova York. Não obstante, para espanto e comoção geral, suicidou-se com um tiro de espingarda. Seus incontáveis leitores e amigos, no mundo inteiro, ficaram estarrecidos e todos se indagavam qual teria sido a causa do gesto extremado.

Segundo os médicos e seus amigos mais chegados, entre eles A. E. Hotchner, seu futuro biógrafo, que com ele conviveu nos últimos quatorze anos, o escritor fora acometido de feroz depressão provocada pela ideia fixa de que estava sendo vigiado e perseguido pelo FBI e pelos fiscais do imposto de renda, temores destituídos de qualquer fundamento. Segundo outros, ele estaria convencido de que portava uma doença incurável que o levaria a cruéis sofrimentos, hipótese também desmentida pelas pessoas próximas, entre elas Mary Welch, sua última esposa. Fato inegável é que ele apresentava visíveis sinais de decadência física, emagrecia a olhos vistos, exibia um aspecto flácido e tinha outros problemas de saúde, herdados do grave acidente aéreo que sofrera num safári africano. Nenhum deles, no entanto, seria suficiente para justificar o suicídio.

Qual seria, então, a verdadeira razão?

Na tentativa vã de explicar, surgiram as chamadas teorias conspiratórias, uma delas, muito bem urdida, exposta no livro “Adeus, Hemingway!”, de autoria do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes (Companhia das Letras – S. Paulo – 2001). Jornalista, ensaísta e ficcionista, o autor nasceu em Mantilla, nas proximidades da Finca Vigia, na vila de San Francisco de Paula, em Havana, em 1955. Nesse livro ele engendra uma história das mais curiosas e chocantes, com certeza inspirado em conversas maledicentes ouvidas de gente que conheceu Hemingway ou até mesmo havia trabalhado para ele. Como se informa, cerca de trinta pessoas viviam na dependência do escritor em Cuba.

Pela história de Fuentes, restos mortais de uma pessoa teriam sido encontrados na Finca Vigia, enterrados sob uma das árvores preferidas de Hemingway, quarenta anos após o escritor ter deixado Cuba e se transferido para os Estados Unidos. Concluiu a perícia tratar-se de um homem, e no mesmo local foi encontrado um distintivo do FBI, enferrujado mas ainda reconhecível, além de uma bala que se identificou ser de metralhadora portátil Thompson. O detetive particular Mário Conde, também escritor e grande admirador do americano, decide investigar os fatos. Examina o local, interroga pessoas, consulta os jornais da época e chega à conclusão de que um agente do FBI teria sido designado para vigiar Hemingway, locado junto à embaixada americana em Havana. Na constante vigília, teria invadido a casa do escritor, durante a noite, ameaçando-o de arma em punho, quando foi alvejado e morto, não se sabendo se o autor dos disparos foi Hemingway ou algum de seus homens que tenha acorrido em seu socorro.

A hipótese nunca pôde ser comprovada e, com certeza, jamais o será, mas alguns indícios se juntaram a favor dela. De acordo com os jornais da época, um agente do FBI desapareceu de forma misteriosa em Cuba, a metralhadora Thompson que Hemingway possuía desapareceu sem deixar vestígio e um dos homens que trabalhavam na Finca Vigia foi retirado de Cuba e levado para o México a bordo da lancha “Pilar”, pertencente ao escritor. As pessoas interrogadas foram reticentes nas suas declarações, nada esclarecendo, e o mistério permanece, inviolável, sem que jamais pudesse ser esclarecido.

Seria esse o segredo que tanto angustiava o Velho Hem e que o levou à morte prematura? Teria levado consigo esse segredo? Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/10/2017 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

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A massa e o biscoito

 “A massa, meu caro, há de chegar ao biscoito fino que eu fabrico.”

A biografia é um gênero literário exigente, ainda mais quando o biografado teve uma vida ativa e movimentada, dedicando-se a múltiplas atividades. Foi o que aconteceu com Oswald de Andrade (1890/1954), um dos principais líderes do Movimento Modernista, e que mereceu excelente e minuciosa biografia realizada por Maria Augusta Fonseca, professora da USP e pesquisadora da vida e da obra do biografado. Trata-se de “Oswald de Andrade – Biografia”, publicado pela Editora Globo (São Paulo – 2007).

José Oswald de Sousa Andrade era paulistano e foi em São Paulo que desenvolveu suas atividades como escritor, jornalista, dramaturgo e agitador cultural. Irrequieto, espirituoso, polemista e provocador, conquistava admiradores fervorosos com a mesma facilidade com que colecionava inimigos rancorosos. Não perdia ocasião de fazer uma boa piada, mesmo que isso, não poucas vezes, pudesse ferir as suscetibilidades de alguém. Como diz sua biógrafa, é impossível distinguir os fatos reais das lendas que o envolvem. Filho de pais muito ricos, foi um garoto mimado, cujas vontades eram sempre satisfeitas. Ao longo da vida esbanjou imensa fortuna e terminou os dias na pobreza, dependendo de empréstimos com agiotas e bancos, às vezes em situações humilhantes, Gordo, cabeludo, vestia-se com esmero, embora de forma extravagante e era dotado de intenso magnetismo que atraía desde logo as pessoas. Inteligente como poucos, ainda jovem já armazenava vasta e variada cultura.

Mal entrando na maioridade, trancou a matricula na Faculdade de Direito e foi para Paris, recebendo generosa mesada do pai para viver como um príncipe na Cidade Luz, além de viajar pela Europa, frequentando hotéis, cassinos e recepções de luxo. Para estrear nas suas confusas relações com as mulheres, voltou casado com uma francesa, rainha dos estudantes, a quem chamava de Kamiá. Foi a abertura de um imenso rol de mulheres com quem se envolveu e “casou”, no qual se inscreveram Deisi, Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão (Pagu), Pilar Ferrer, Julieta Bárbara e Maria Antonieta d’Alkmin, afora outras passageiras. Com a francesa teve o primeiro filho, Nonê, que se tornou conhecido artista plástico; com Pagu teve o filho Rudá e com Maria Antonieta outros dois filhos, Paulo Marcos e Marília. Só a bailarina Carmen Lídia resistiu aos seus encantos e não cedeu ao assédio. Casou-se com Pagu, muitos anos mais nova, em pleno cemitério da Consolação.

Retornando à Pauliceia, entregou-se a intensa atividade literária e jornalística. Em co-autoria com Guilherme de Almeida produziu duas peças teatrais, escritas em francês, “Mon coeur balance” e “Leur âme”  Estava ainda sob a forte influência dos autores franceses.

Não tardou, porém, a perceber que a influência gaulesa estava desfigurando a cultura nacional, inclusive a nossa língua, como também observaram outros intelectuais, entre os quais Monteiro Lobato. Voltou-se para a realidade nacional e criou o chamado Movimento Pau Brasil, visando destacar a nossa própria cultura. Segundo Paulo Prado, “Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um ateliê da Place Clichy – umbigo do mundo – descobriu, deslumbrado, a sua própria terra.” Mais tarde, sob o mesmo influxo, lançou o Manifesto Antropófago, ambas iniciativas inovadoras e que sacudiram o meio cultural. É necessário absorver a cultura geral e devolvê-la com as nuances nacionais, assim como o índio, ao devorar outra pessoa, acredita estar adquirindo as qualidades dela. Outros movimentos surgiram em oposição aos criados por Oswald provocando intermináveis debates.

Oswald de Andrade teve ativa participação na chamada Semana de Arte Moderna realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 7, 15 e 17 de fevereiro de 1922, evento considerado até hoje como divisor de águas entre o classicismo conservador e o modernismo. Dela participaram figuras representativas da cultura nacional sob intensas vaias, apupos, gritos, assovios e objetos lançados ao palco. Graça Aranha, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida, Villa Lobos, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros tantos fizeram palestras, declamaram, executaram músicas, discorreram sobre arte moderna e as ideias futuristas que corriam mundo.  Tarsila não participou porque se encontrava na Europa.

Entre a atividade jornalística, viagens pelo mundo e amores sucessivos, Oswald vai publicando seus livros. “Memórias sentimentais de João Miramar”, “Serafim Ponte Grande”, “Os Condenados”, peças teatrais, poesias, manifestos, crônicas e artigos aparecem numa imensa torrente. É um estilo novo, fracionado, quebrando a sequência lógica, repleto de hiatos e surpresas que espantam e intrigam o leitor de obras conservadoras.  Mais tarde publicaria suas memórias sob o título de “Um homem sem profissão.” Isso porque, dizia ele, com amargura: “Aos que se dedicam à carreira de escritor está reservado o papel de pobre-diabo na sociedade. Nada lhes garante a sobrevivência. Uns se vendem, outros se isolam, são muitos os malabarismos, Essa luta do escritor revela um Brasil ainda muito atrasado. “ Escritor, no Brasil, não tem profissão – concluía ele.

“O menino irrequieto do Modernismo”, como foi chamado, exerceu inúmeras atividades.  Foi palestrante e conferencista de raro talento, encantando os ouvintes pela verve e pela espirituosidade. Foi político militante e candidato a deputado federal, sem sucesso. Durante algum tempo se tornou fazendeiro. Dirigiu e fundou jornais, entre eles “O Homem do Povo”, em colaboração com Pagu, e que foi empastelado pelos acadêmicos de Direito da USP. Prestou concurso para professor universitário mas jamais deu aulas. Conviveu com figuras emblemáticas, no Brasil e no Exterior, entre as quais Isadora Duncan, de quem foi amigo, Blaise Cendrars, a quem chamava Sans Bras, uma vez que o poeta perdera um braço na guerra. Travou relações com as grandes figuras do mundo artístico na França e na Europa em geral. No Brasil, pertenceu ao grupo de Ricardo Gonçalves, o Ricardito, figura carismática que frequentava o Café Guarani. Manteve relações de amizade com Joaquim Inojosa, pregador apaixonado do Modernismo no Nordeste, e foi amigo íntimo de Mário de Andrade, com quem se desentendeu, rompendo relações. Tudo fez para se reconciliar com ele, mas Mário jamais o perdoou. Pertenceu ao grupo de D. Olívia Guedes Penteado, foi divulgador de Lasar Segall e parceiro de Flávio de Carvalho em montagens teatrais. Monteiro Lobato pertenceu ao seu círculo de amigos e Oswald reconheceu, com justiça, ter sido ele o mais remoto precursor do Modernismo no país. É inumerável seu círculo de relações.

A vida de Oswald de Andrade foi uma gangorra de altos e baixos. Esteve em plena glória e em total ostracismo. Envolveu-se nos maiores escândalos em virtude de suas atitudes chocantes para a época e pelas posições que assumia. Durante longo período sua obra literária foi esquecida. Hoje, porém, é reconhecida, estudada e aplaudida. Suas Obras Completas foram editadas com sucesso e cresce o interesse pelas suas realizações intelectuais e pelos eventos de sua vida. A biografia de Maria Augusta Fonseca contribui de forma decisiva para realizar a esperada justiça literária. Como ele próprio previa, a massa (popular) está saboreando o biscoito que ele fabricou.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/09/2017 às 08h27 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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