Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

A vida através das cartas 2

O LIVRO

A carta é um meio de comunicação dos mais antigos e hoje caminha para a extinção. Tenho observado que muitas pessoas não sabem mais escrever uma carta. Mas ela é uma fonte importante de informação e conhecimento e, em muitos casos, mais confiável que documentos oficiais. Ao escrever uma carta, em especial para pessoas mais chegadas, seu autor não tem preocupações estéticas, gramaticais ou com outros leitores, de sorte que redige de maneira livre, sem censura ou reserva. Por isso mesmo, até as cartas de pessoas anônimas do povo vêm sendo valorizadas pelos cientistas sociais como fonte insuspeita de informação sobre épocas ou fatos.

Quando as cartas são de pessoa de realce em qualquer campo, adquirem ainda mais valor. No caso dos escritores, suas cartas ajudam a iluminar sua obra literária e desvendam fatos de sua vida que podem ter influenciado de forma marcante sua criação. Muitos autores, no correr da história literária, só se tornaram totalmente compreendidos após o conhecimento de sua correspondência.

Por isso mesmo, o lançamento do livro “As Cartas de Ernest Hemingway” (Martins Fontes – S. Paulo – 2015), organizado por Sandra Spanier e Robert W. Trogdon,  é um evento importante para os leitores e admiradores do Velho Hem. O volume é o primeiro de uma série prevista para doze e engloba as cartas escritas entre 1907 e 1922, ou seja, a fase de formação do homem e do escritor na luta pela afirmação profissional. É um trabalho criterioso, com milhares de notas explicativas, três ensaios introdutórios, cronologia, mapas, lista de correspondentes com uma súmula biográfica, calendário das cartas e um álbum com excelentes fotos. Trata-se, enfim, de um trabalho minucioso e repleto das mais variadas informações sobre o escritor e sua obra. Ambos os organizadores são professores universitários de literatura nos Estados Unidos. O livro foi traduzido por Rogério Bettoni.

O ESCRITOR

Ernest Miller Hemingway (1889/1961) nasceu em Oak Park, proximidades de Chicago, no Meio Oeste americano. Filho do médico Clarence Edmonds Hemingway e Grace Hall Hemingway, estudou nos colégios locais e não frequentou a universidade. Embora escrevesse desde cedo, teve uma infância ativa e passou muito tempo no meio rural, pescando, caçando e até trabalhando duro nas propriedades da família.  Influenciado pelo pai, seu orientador, tornou-se exímio caçador e pescador. Suas cartas registram inúmeras excursões de caça e pesca.  No decorrer da vida realizaria grandes caçadas, inclusive safáris na África, alguns deles repletos de incidentes cujas notícias correram mundo. Tomado de intenso desejo de aventura, alistou-se como motorista de ambulâncias na Cruz Vermelha Americana e serviu na Itália durante a I Guerra Mundial. Sofreu em ação sérios ferimentos, sendo internado num hospital militar em Milão, e foi condecorado por atos de bravura. Durante a permanência no hospital, apaixonou-se pela enfermeira americana Agnes Von Kurowski, mais velha que ele, mas ela romperia a relação, tempos depois, fato que o marcou por toda a vida. Ao retornar aos Estados Unidos, descobriu que era um herói, admirado e cortejado por todos. Depois de um período incerto, trabalhando em empregos provisórios, casou-se com Elizabeth Hadley Richardson, que seria a primeira de suas quatro esposas. Com ela, decide se mudar para Paris, influenciado pelo escritor Sherwood Anderson, que o recomendou aos amigos lá residentes, entre os quais Gertrude Stein, Ezra Pound e a livreira-editora Sylvia Beach, proprietária da célebre Livraria Shakespeare and Company.  Na capital francesa, sobrevivendo de matérias enviadas a um jornal canadense, do qual era correspondente, e de um pecúlio da mulher, iniciou a luta por um lugar ao sol no mundo das letras. Vida pobre, de poucos recursos, o que, no entanto, não os impediu de viajar à Suíça, Itália e ao interior do país, além de frequentar o hipódromo, as corridas de bicicletas, as lutas de box e outras diversões.  Além disso, como correspondente de jornal, realizou outras viagens internacionais para cobrir eventos importantes. O casal retornou por algum tempo à América para o nascimento do primeiro filho, John Hadley Nicanor Hemingway. Seus trabalhos literários começam a aparecer e ele não tarda a se impor no meio literário e cultural. Esse é o período coberto pelo livro.

BIOGRAFIA EPISTOLAR

Hemingway era arredio à ideia de ser biografado, fosse em vida ou cem anos depois da morte. No entanto, sem querer, acabou se autobiografando nas incontáveis cartas que escreveu aos mais variados destinatários, muitas delas longas e detalhistas. É verdade que desde cedo nutria certa preocupação com a leitura desses documentos íntimos pela posteridade. Em carta de 1950, segundo os organizadores do livro, Hemingway afirmou que havia queimado as cartas daquele período depois de se impressionar com as palavras do escritor Ford Madox Ford: “Um homem sempre deveria escrever suas cartas imaginando como seriam lidas pela posteridade.”

Assim, a correspondência ativa dele foi sempre deixada de lado e jamais destinada à publicação. No entanto, “ela constitui a sua autobiografia narrada em tempo presente. Ela enriquece nossa compreensão de seus processos criativos, oferece informações acerca da cena literária do século XX e documenta a construção e o marketing de um ícone norte-americano” – afirmam os organizadores.

Apesar de contrariar seu desejo, Hemingway teve sua vida examinada nos menores detalhes e inúmeros são os seus biógrafos, sem falar nos ensaios, reportagens, entrevistas, artigos e matérias jornalísticas a seu respeito. As cartas constituíam “a última fronteira inexplorada  de sua obra.”

AS CARTAS

Hemingway escreveu grande quantidade de cartas ao longo de toda a vida. Costumava dizer que elas eram mal escritas, em geral com muita pressa, nos intervalos do longo e cansativo trabalho de jornalista e, mais tarde, de escritor, e por isso elas nem sempre mereciam o cuidado devido. Mas gostava de escrever e exigia dos correspondentes que respondessem. É interessante notar que escreveu numerosas cartas à mãe, com quem sempre teve suas diferenças, e também ao pai. Em algumas passagens revelava irritação com certas atitudes paternas.

As primeiras missivas revelam um caráter ainda infantil, hesitante, redigidas em caligrafia de criança. Tratam de pescarias, acampamentos com amigos, caçadas e assuntos ligados à fazenda da família, onde costumava permanecer nas folgas do colégio. Aos poucos começam a aparecer temas ligados a namoradas, esportes, escritos para jornais escolares e preocupação com o futuro. Depois, já na iniciação no jornalismo, queixa-se do excesso de trabalho, dos parcos salários e da falta de dinheiro. Com o avanço da guerra na Europa, surgem os primeiros desejos de se alistar como voluntário. Mas um defeito na vista impede sua ida; é rejeitado pelas forças regulares. Alguém sugere, então, a Cruz Vermelha, nela se alista como motorista de ambulâncias e ruma para o campo de luta. Ferido com gravidade, em ação, é hospitalizado em Milão e aí acontece a grande paixão de sua vida. Recuperando-se, embora ainda mancando e usando muletas, retorna aos Estados Unidos. Não tarda a chegar a carta de Agnes rompendo o namoro. O choque é tão violento que fica transtornado; na verdade nunca superou o trauma, que carregaria pelo resto da vida. As cartas do período revelam o seu sofrimento. Mas eis que surge Hadley, exuberante moça de Saint Louis, e se apaixona por ela. Muito jovem, casam-se, já com a intenção de se mudar para a Itália. Sherwood Anderson, escritor célebre, o convence a trocar a Itália por Paris, o local adequado para um aspirante a escritor. E assim Hemingway e a jovem esposa se fixam em Paris. Ali ele dá início a uma carreira vitoriosa que o transformará num dos mais lidos e famosos escritores de todo o mundo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/10/2017 às 16h57 | e.atha@terra.com.br

O segredo do velho Hem

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1962) foi um homem cheio de vida. Atleta, nadador, pescador e caçador aficionado, adepto de touradas, corridas de cavalos e de bicicletas, lutador de box, esquiador e incansável viajante, revelava intenso amor pela vida. Escritor bem sucedido como poucos, amealhou imensa fortuna com seus livros e recebeu o Prêmio Nobel. Mantinha um padrão de vida invejável, tanto na Finca Vigia, em Cuba, como em Ketchum, nos Estados Unidos, em Paris ou Nova York. Não obstante, para espanto e comoção geral, suicidou-se com um tiro de espingarda. Seus incontáveis leitores e amigos, no mundo inteiro, ficaram estarrecidos e todos se indagavam qual teria sido a causa do gesto extremado.

Segundo os médicos e seus amigos mais chegados, entre eles A. E. Hotchner, seu futuro biógrafo, que com ele conviveu nos últimos quatorze anos, o escritor fora acometido de feroz depressão provocada pela ideia fixa de que estava sendo vigiado e perseguido pelo FBI e pelos fiscais do imposto de renda, temores destituídos de qualquer fundamento. Segundo outros, ele estaria convencido de que portava uma doença incurável que o levaria a cruéis sofrimentos, hipótese também desmentida pelas pessoas próximas, entre elas Mary Welch, sua última esposa. Fato inegável é que ele apresentava visíveis sinais de decadência física, emagrecia a olhos vistos, exibia um aspecto flácido e tinha outros problemas de saúde, herdados do grave acidente aéreo que sofrera num safári africano. Nenhum deles, no entanto, seria suficiente para justificar o suicídio.

Qual seria, então, a verdadeira razão?

Na tentativa vã de explicar, surgiram as chamadas teorias conspiratórias, uma delas, muito bem urdida, exposta no livro “Adeus, Hemingway!”, de autoria do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes (Companhia das Letras – S. Paulo – 2001). Jornalista, ensaísta e ficcionista, o autor nasceu em Mantilla, nas proximidades da Finca Vigia, na vila de San Francisco de Paula, em Havana, em 1955. Nesse livro ele engendra uma história das mais curiosas e chocantes, com certeza inspirado em conversas maledicentes ouvidas de gente que conheceu Hemingway ou até mesmo havia trabalhado para ele. Como se informa, cerca de trinta pessoas viviam na dependência do escritor em Cuba.

Pela história de Fuentes, restos mortais de uma pessoa teriam sido encontrados na Finca Vigia, enterrados sob uma das árvores preferidas de Hemingway, quarenta anos após o escritor ter deixado Cuba e se transferido para os Estados Unidos. Concluiu a perícia tratar-se de um homem, e no mesmo local foi encontrado um distintivo do FBI, enferrujado mas ainda reconhecível, além de uma bala que se identificou ser de metralhadora portátil Thompson. O detetive particular Mário Conde, também escritor e grande admirador do americano, decide investigar os fatos. Examina o local, interroga pessoas, consulta os jornais da época e chega à conclusão de que um agente do FBI teria sido designado para vigiar Hemingway, locado junto à embaixada americana em Havana. Na constante vigília, teria invadido a casa do escritor, durante a noite, ameaçando-o de arma em punho, quando foi alvejado e morto, não se sabendo se o autor dos disparos foi Hemingway ou algum de seus homens que tenha acorrido em seu socorro.

A hipótese nunca pôde ser comprovada e, com certeza, jamais o será, mas alguns indícios se juntaram a favor dela. De acordo com os jornais da época, um agente do FBI desapareceu de forma misteriosa em Cuba, a metralhadora Thompson que Hemingway possuía desapareceu sem deixar vestígio e um dos homens que trabalhavam na Finca Vigia foi retirado de Cuba e levado para o México a bordo da lancha “Pilar”, pertencente ao escritor. As pessoas interrogadas foram reticentes nas suas declarações, nada esclarecendo, e o mistério permanece, inviolável, sem que jamais pudesse ser esclarecido.

Seria esse o segredo que tanto angustiava o Velho Hem e que o levou à morte prematura? Teria levado consigo esse segredo? Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/10/2017 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

A massa e o biscoito

 “A massa, meu caro, há de chegar ao biscoito fino que eu fabrico.”

A biografia é um gênero literário exigente, ainda mais quando o biografado teve uma vida ativa e movimentada, dedicando-se a múltiplas atividades. Foi o que aconteceu com Oswald de Andrade (1890/1954), um dos principais líderes do Movimento Modernista, e que mereceu excelente e minuciosa biografia realizada por Maria Augusta Fonseca, professora da USP e pesquisadora da vida e da obra do biografado. Trata-se de “Oswald de Andrade – Biografia”, publicado pela Editora Globo (São Paulo – 2007).

José Oswald de Sousa Andrade era paulistano e foi em São Paulo que desenvolveu suas atividades como escritor, jornalista, dramaturgo e agitador cultural. Irrequieto, espirituoso, polemista e provocador, conquistava admiradores fervorosos com a mesma facilidade com que colecionava inimigos rancorosos. Não perdia ocasião de fazer uma boa piada, mesmo que isso, não poucas vezes, pudesse ferir as suscetibilidades de alguém. Como diz sua biógrafa, é impossível distinguir os fatos reais das lendas que o envolvem. Filho de pais muito ricos, foi um garoto mimado, cujas vontades eram sempre satisfeitas. Ao longo da vida esbanjou imensa fortuna e terminou os dias na pobreza, dependendo de empréstimos com agiotas e bancos, às vezes em situações humilhantes, Gordo, cabeludo, vestia-se com esmero, embora de forma extravagante e era dotado de intenso magnetismo que atraía desde logo as pessoas. Inteligente como poucos, ainda jovem já armazenava vasta e variada cultura.

Mal entrando na maioridade, trancou a matricula na Faculdade de Direito e foi para Paris, recebendo generosa mesada do pai para viver como um príncipe na Cidade Luz, além de viajar pela Europa, frequentando hotéis, cassinos e recepções de luxo. Para estrear nas suas confusas relações com as mulheres, voltou casado com uma francesa, rainha dos estudantes, a quem chamava de Kamiá. Foi a abertura de um imenso rol de mulheres com quem se envolveu e “casou”, no qual se inscreveram Deisi, Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão (Pagu), Pilar Ferrer, Julieta Bárbara e Maria Antonieta d’Alkmin, afora outras passageiras. Com a francesa teve o primeiro filho, Nonê, que se tornou conhecido artista plástico; com Pagu teve o filho Rudá e com Maria Antonieta outros dois filhos, Paulo Marcos e Marília. Só a bailarina Carmen Lídia resistiu aos seus encantos e não cedeu ao assédio. Casou-se com Pagu, muitos anos mais nova, em pleno cemitério da Consolação.

Retornando à Pauliceia, entregou-se a intensa atividade literária e jornalística. Em co-autoria com Guilherme de Almeida produziu duas peças teatrais, escritas em francês, “Mon coeur balance” e “Leur âme”  Estava ainda sob a forte influência dos autores franceses.

Não tardou, porém, a perceber que a influência gaulesa estava desfigurando a cultura nacional, inclusive a nossa língua, como também observaram outros intelectuais, entre os quais Monteiro Lobato. Voltou-se para a realidade nacional e criou o chamado Movimento Pau Brasil, visando destacar a nossa própria cultura. Segundo Paulo Prado, “Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um ateliê da Place Clichy – umbigo do mundo – descobriu, deslumbrado, a sua própria terra.” Mais tarde, sob o mesmo influxo, lançou o Manifesto Antropófago, ambas iniciativas inovadoras e que sacudiram o meio cultural. É necessário absorver a cultura geral e devolvê-la com as nuances nacionais, assim como o índio, ao devorar outra pessoa, acredita estar adquirindo as qualidades dela. Outros movimentos surgiram em oposição aos criados por Oswald provocando intermináveis debates.

Oswald de Andrade teve ativa participação na chamada Semana de Arte Moderna realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 7, 15 e 17 de fevereiro de 1922, evento considerado até hoje como divisor de águas entre o classicismo conservador e o modernismo. Dela participaram figuras representativas da cultura nacional sob intensas vaias, apupos, gritos, assovios e objetos lançados ao palco. Graça Aranha, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida, Villa Lobos, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros tantos fizeram palestras, declamaram, executaram músicas, discorreram sobre arte moderna e as ideias futuristas que corriam mundo.  Tarsila não participou porque se encontrava na Europa.

Entre a atividade jornalística, viagens pelo mundo e amores sucessivos, Oswald vai publicando seus livros. “Memórias sentimentais de João Miramar”, “Serafim Ponte Grande”, “Os Condenados”, peças teatrais, poesias, manifestos, crônicas e artigos aparecem numa imensa torrente. É um estilo novo, fracionado, quebrando a sequência lógica, repleto de hiatos e surpresas que espantam e intrigam o leitor de obras conservadoras.  Mais tarde publicaria suas memórias sob o título de “Um homem sem profissão.” Isso porque, dizia ele, com amargura: “Aos que se dedicam à carreira de escritor está reservado o papel de pobre-diabo na sociedade. Nada lhes garante a sobrevivência. Uns se vendem, outros se isolam, são muitos os malabarismos, Essa luta do escritor revela um Brasil ainda muito atrasado. “ Escritor, no Brasil, não tem profissão – concluía ele.

“O menino irrequieto do Modernismo”, como foi chamado, exerceu inúmeras atividades.  Foi palestrante e conferencista de raro talento, encantando os ouvintes pela verve e pela espirituosidade. Foi político militante e candidato a deputado federal, sem sucesso. Durante algum tempo se tornou fazendeiro. Dirigiu e fundou jornais, entre eles “O Homem do Povo”, em colaboração com Pagu, e que foi empastelado pelos acadêmicos de Direito da USP. Prestou concurso para professor universitário mas jamais deu aulas. Conviveu com figuras emblemáticas, no Brasil e no Exterior, entre as quais Isadora Duncan, de quem foi amigo, Blaise Cendrars, a quem chamava Sans Bras, uma vez que o poeta perdera um braço na guerra. Travou relações com as grandes figuras do mundo artístico na França e na Europa em geral. No Brasil, pertenceu ao grupo de Ricardo Gonçalves, o Ricardito, figura carismática que frequentava o Café Guarani. Manteve relações de amizade com Joaquim Inojosa, pregador apaixonado do Modernismo no Nordeste, e foi amigo íntimo de Mário de Andrade, com quem se desentendeu, rompendo relações. Tudo fez para se reconciliar com ele, mas Mário jamais o perdoou. Pertenceu ao grupo de D. Olívia Guedes Penteado, foi divulgador de Lasar Segall e parceiro de Flávio de Carvalho em montagens teatrais. Monteiro Lobato pertenceu ao seu círculo de amigos e Oswald reconheceu, com justiça, ter sido ele o mais remoto precursor do Modernismo no país. É inumerável seu círculo de relações.

A vida de Oswald de Andrade foi uma gangorra de altos e baixos. Esteve em plena glória e em total ostracismo. Envolveu-se nos maiores escândalos em virtude de suas atitudes chocantes para a época e pelas posições que assumia. Durante longo período sua obra literária foi esquecida. Hoje, porém, é reconhecida, estudada e aplaudida. Suas Obras Completas foram editadas com sucesso e cresce o interesse pelas suas realizações intelectuais e pelos eventos de sua vida. A biografia de Maria Augusta Fonseca contribui de forma decisiva para realizar a esperada justiça literária. Como ele próprio previa, a massa (popular) está saboreando o biscoito que ele fabricou.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/09/2017 às 08h27 | e.atha@terra.com.br

Uma história de ódio e resistência

Maura Palumbo, advogada e empresária paulista, vem se dedicando há muitos anos ao estudo da II Guerra Mundial e ao holocausto provocado pela chamada solução final do problema judaico. Tornou-se uma expert no intrincado assunto e agora vem colocando em livros os resultados dessas intensas pesquisas. Sua primeira obra abordando o tema é o romance de fundo histórico “O perfume das tulipas” (Duna Dueto Editora – S. Paulo – 2017), que acabo de ler com intenso e crescente interesse. É um livro alentado (350 páginas) que prende o leitor do começo ao fim. Fica claro que a autora tem o fôlego e a paciência indispensáveis para os textos longos como os romances. Não é por acaso que já se anuncia a segunda edição do livro.

Na cidade de Berlim do início do século passado vivia em paz uma família. O marido, holandês de nascimento, cultivava com o maior carinho um canteiro de tulipas; a esposa, pintora de mérito e modista, se dedicava também às atividades domésticas. O gosto pelas tulipas soava algo estranho porque tais flores são reconhecidas mais pela beleza que pelo perfume. Todos eram cidadãos alemães e alguns de seus parentes haviam lutado na I Guerra Mundial pela Alemanha e até pereceram em combate. Consideravam a Alemanha sua pátria e nela viviam e labutavam como quaisquer outros nativos do país. Mas eram judeus e isso marcaria seu destino, submetendo-os ao ódio desvairado e ao medo constante, exigindo imenso esforço para resistir e tentar a sobrevivência.

Eis que surge no horizonte uma nuvem ameaçadora. Adolf Hitler começa a ganhar espaço no panorama político com sua pregação nacionalista e ataques aos judeus, a quem atribuía todos os males do país em crise. Ganha adeptos, lança suas ideias a respeito do espaço vital e insinua a necessidade de uma vingança contra os que derrotaram a Alemanha na I Guerra Mundial, rebaixando-a e humilhando-a. Na prisão, onde esteve por alguns meses, escreve sua cartilha nazista, o “Mein Kanpf”, que é difundido à larga. Judeus mais precavidos, prevendo o pior, tratam de emigrar para lugares seguros. Mas a família em questão é patriota e continua em sua vida normal. O Partido Nacional Socialista, embora perdendo as eleições, já é o segundo do país e não cessa de crescer. Vai conquistando mais e mais seguidores. Em 30 de janeiro de 1933 o presidente Hindenburg nomeia Hitler chanceler da república. Em março o chanceler assume o total controle do governo com poderes ditatoriais. O medo se instala no coração de todos os judeus, apontados como inimigos da nação. Começam a entender que não há mais lugar para eles no país.

As restrições às atividades dos judeus vão num crescendo incontrolável e absurdo. Funcionários públicos dedicados são enxotados de seus cargos, professores e profissionais liberais proibidos de exercer as profissões. Todos os meios são usados para marginalizar os judeus, menosprezados e humilhados em toda parte. A pregação contra eles é constante, maciça, verdadeira lavagem cerebral. Queimas de livros de autores judeus acontecem em macabros autos-de-fé. Obras de Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx, Nelly Sachs, Thomas e Heinrich Mann, Walter Benjamin, Alfred Kerr, Robert Musil e Ricarda Huch, além de muitos outros, ardem nas fogueiras. Não importa o que contenham e o valor de suas lições. São maculados pelas mãos judaicas que os escreveram. É o desvario do ódio e da intolerância.

No plano exterior a guerra vingadora prosseguia vitoriosa. Os exércitos de Hitler dominavam países com extrema facilidade e tudo indicava que dominariam o mundo. Áustria, Tchecoslováquia, Holanda, Bélgica, Grécia, Iugoslávia, França... tudo sob o domínio do Fuhrer. O mundo tremia ante a perspectiva de uma dominação global pelas tropas germânicas. É declarada a guerra contra a União Soviética, cuja derrota estava prevista para cinco meses com a destruição de São Petersburgo. Mas uma coisa é planejar a guerra num gabinete, outra é encarar a realidade. Então tudo começa a mudar. A resistência russa é espantosa. Os Aliados, por sua vez, invadem a Normandia e as tropas alemãs começam a sofrer derrotas. O curso da guerra começa a virar.

Nervosos e agitados, os dirigentes alemães intensificam a solução final. Crescem as deportações, os campos de concentração e extermínio funcionam a pleno vapor e milhões de judeus são executados. Homens, mulheres, crianças, velhos, doentes, ciganos, deficientes, doentes mentais viram fumaça ou são sepultados em valas comuns. Figuras sinistras comandam o grotesco esforço para aniquilar uma raça. Mas a derrota é inevitável, os bombardeios sobre Berlim são terríveis e as tropas soviéticas se aproximam de Auschwitz. Cumpre, então, destruir os vestígios da matança e todas as medidas são tomadas nesse sentido, entre elas a marcha forçada de seres desesperados e famintos. É tarde, porém, e a rendição acontece.

Padecendo toda sorte de sofrimentos, a família de Zacharias Von Hart luta pela sobrevivência. Vale-se de toda sorte de expedientes para fugir dos perseguidores. E o desfecho do romance é imprevisível, deixando o leitor em permanente suspense. “Um dia todos sentirão o perfume das tulipas” – vaticinava ele.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/09/2017 às 09h41 | e.atha@terra.com.br

Ao pé do velho rádio

 Escritor e jornalista experimentado, Danilo Gomes acaba de dar a público um livro  interessante e, ao mesmo tempo, indefinível (*). É uma coletânea de textos que, no fundo, soam como páginas de memórias de acontecimentos vividos e de livros que foram lidos com deleite e deixaram marcas indeléveis. O propósito inicial estava em realçar três figuras marcantes na vida do autor e entrelaçar as relações entre elas: Juscelino Kubitschek, Odilon Behrens e Augusto Frederico Schmidt. Esse trio, de uma forma ou outra, conviveu entre si e com ele o autor manteve relações mais ou menos próximas, pessoais ou através de leituras, e se confessa fiel admirador de todos seus integrantes.

No correr das páginas do livro o autor aborda aspectos biográficos, as atividades de cada um deles, suas realizações, facetas de suas personalidades e o mais. No conjunto, porém, avulta a figura do poeta e memorialista Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), de cuja obra o autor tem sido um leitor aficionado.

Poeta e prosador de talento, Schmidt era um homem múltiplo. Escritor, editor, diplomata, empreendedor, foi assessor de Juscelino e autor de muitos de seus discursos. Figura controvertida, criticado com dureza pelos nacionalistas que viam nele um entreguista a serviço da banca mundial. Não obstante, tinha um faro extraordinário para descobrir escritores ainda inéditos, tendo publicado vários autores que depois se consagraram no mundo das letras, entre eles Graciliano Ramos. Conta-se que, ao ler os célebres relatórios do então prefeito de Palmeira dos Índios, teria afirmado que ele tinha algum romance na gaveta e nisso estava absolutamente certo.

Sempre elegante, ainda que gordo, Schmidt era dono de uma gargalhada fácil, embora na verdade fosse um nostálgico e melancólico, segundo depõem os que o conheceram de perto cujos depoimentos são trazidos pelo autor. O poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens Filho, por exemplo, escreveu: “De Augusto Frederico Schmidt me fica a lembrança de alguém extrovertidamente triste e nostálgico. Nada mais enganador que a sua ruidosa gargalhada...” (p. 52).

De uma viagem à Indonésia, ele e a esposa trouxeram um filhote de galo, muito branco e de crista vermelha. Tratada com desvelo, a bela ave vivia saltitando pela casa, inclusive sobre a mesa do escritório. Coq, como o tratava a mulher de Schmidt, se tornou famoso e seu dono ficou conhecido como o Poeta do Galo Branco, título que daria a um de seus livros de memórias. Muitas fotos em que aparece o célebre galo foram publicadas, até mesmo na capa de uma antologia poética de seu dono.

A poesia de Schmidt conquistou incontáveis leitores e mereceu a aclamação da crítica. Também seus livros de memórias – “O galo branco”, “As florestas” e “Paisagens e seres” – obtiveram a melhor acolhida. “Saudade de coisas perdidas, - escreveu ele – de objetos do passado, de velhos móveis, de ruas antigas por onde não mais passarei talvez. Saudade de amigos mortos, de amigos de infância, que não reverei. (...) Saudade do que não fui, de tudo o que desejava ter sido e não fui. Dos sonhos, das ilusões, do desejo de conforto modesto e de paz que não me coube. Saudade dos filhos que não tive.” (p. 39). Como acentua o autor, o poeta “foi um paradigma do melancólico, do saudosista, do nostálgico incurável” (Idem).

Mesmo tendo vivido tão pouco, Schmidt conquistou posição de destaque em nossas letras e se colocou entre os grandes poetas da literatura nacional. Por tudo isso, muito bem fez Danilo Gomes ao retirá-lo de tão injusto ostracismo.

No correr destas páginas outro tema ocupa as reminiscências do autor. Trata-se da construção de Brasília, projeto que vinha de longe em nossa história e no qual poucos ainda acreditavam. Acompanhando ao pé de um velho rádio Telefunken, o menino de Mariana, se emocionava com o arrojo e a firmeza com que JK tornava realidade a nova capital brasileira. Nem de longe imaginava que um dia, com a mulher e o filho, vindo de Belo Horizonte, “desembarcaria na Rodoviária do Plano Piloto para morar e trabalhar na Capital que então se inaugurava, no meio das nossas lágrimas” (p. 92).

Na abertura do livro, Danilo Gomes homenageia com justiça os cronistas brasileiros de ontem e de hoje. Muitos deles li ao longo da vida. Henrique Pongetti, Stanislaw Ponte Preta, Otto Lara Resende, Rachel de Queiroz, tantos e tantos outros... Que falta eles fazem!

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(*) “Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek. Odilon
Behrens”, de Danilo Gomes, Brasília, Gráfica e Editora Leal, 2017.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 12/09/2017 às 14h22 | e.atha@terra.com.br

A voz dos pampas

Advogado e escritor, Israel Lopes é um pesquisador incansável, daqueles que se debruçam sobre um tema e o esquadrinham até o limite. Admirador de Pedro Raymundo (1906/1973), vem se debruçando há longos anos sobre a vida e a obra do cantor/compositor que se transformou na voz dos pampas. Afora outros trabalhos publicados, incluindo livros, lançou o volume “Pedro Raymundo e o canto monarca” (Letra & Vida Editora – Porto Alegre – 2013), minucioso e fundamentado levantamento biográfico do músico e sua produção, tendo como pano de fundo um amplo panorama da música regionalista, nativista e missioneira. Com esse ensaio primoroso, o autor resgata do ostracismo um artista que empolgou grande massa de admiradores em todo o país e fez escola na sua área de atuação. “As mídias televisivas, os jornais, as rádios e as revistas de hoje, na grande maioria, não divulgam esses artistas do passado. Somente nós, que somos idealistas, é que divulgamos esses artistas que tanto fizeram por nossa cultura musical” – escreve ele em justificado desabafo. Como em tudo o mais, a falta de memória brasileira também atinge o setor musical. Mas é fora de dúvida que Israel Lopes domina com segurança o assunto e tem ampla visão do panorama musical, seus expoentes e suas obras.

Pedro Raymundo era filho de Santa Catarina, nascido na cidade de Imaruí, ao sul do Estado, mas se tornou um catarinense agauchado, abraçando com fervor a cultura popular do vizinho Estado, ainda que algumas de suas composições indiquem que nutria saudade do chão natal. Filho de pescador e músico, desde muito cedo revelou pendores para a música e com poucos anos de idade já dedilhava uma sanfona de oito baixos, presente paterno. Estudou por algum tempo e exerceu várias atividades até decidir se transferir para o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, seu primeiro emprego foi o de condutor de bondes até que começou a se apresentar como músico, tocando uma “gaita de botão” (cromática?). Começou executando jazz, cedendo à moda da época, antes de abraçar o cancioneiro gaúcho. Aos poucos foi conquistando espaço nas emissoras de rádio e granjeou fama em todo o país. Com a ajuda de amigos, vai tentar a sorte no Rio de Janeiro onde, aos poucos, as portas se abrem. Seguem-se as apresentações em grande estilo, gravações de discos, publicações de músicas de sua autoria, entrevistas e reportagens. Torna-se um ícone da música regional gauchesca festejado em toda parte. “Adeus Mariana” é seu primeiro sucesso nacional. Apresenta-se nas rádios Tupi, Mayrink Veiga, Nacional, Tamoio e Globo. Excursiona pelo país levando a música regional. É uma carreira vitoriosa que se estende por longos anos.

Passo a passo, o biógrafo rastreia a trajetória do artista e suas obras. Locais onde se apresentou, conjuntos a que pertenceu, personalidades com quem se relacionou, tudo é revelado em minúcia sem esquecer os eventos do momento histórico vivido. O livro é rico em documentos e fotos, muitas delas retratando o artista com seus companheiros e conhecidos, sempre vestido no rigor da moda gauchesca. São lembrados inúmeros outros músicos e compositores com os quais Pedro Raymundo travou relações.

A realização da obra exigiu ampla e prolongada pesquisa. É impressionante a quantidade de fontes e referências consultadas. Trata-se, enfim, de um trabalho modelar que dignifica o biografado e enaltece o seu autor. Está de parabéns o pesquisador gaúcho por tirar do ostracismo um artista de tanto talento e que jazia esquecido.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/09/2017 às 11h13 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Página 3
Literatura
Por Enéas Athanázio

A vida através das cartas 2

O LIVRO

A carta é um meio de comunicação dos mais antigos e hoje caminha para a extinção. Tenho observado que muitas pessoas não sabem mais escrever uma carta. Mas ela é uma fonte importante de informação e conhecimento e, em muitos casos, mais confiável que documentos oficiais. Ao escrever uma carta, em especial para pessoas mais chegadas, seu autor não tem preocupações estéticas, gramaticais ou com outros leitores, de sorte que redige de maneira livre, sem censura ou reserva. Por isso mesmo, até as cartas de pessoas anônimas do povo vêm sendo valorizadas pelos cientistas sociais como fonte insuspeita de informação sobre épocas ou fatos.

Quando as cartas são de pessoa de realce em qualquer campo, adquirem ainda mais valor. No caso dos escritores, suas cartas ajudam a iluminar sua obra literária e desvendam fatos de sua vida que podem ter influenciado de forma marcante sua criação. Muitos autores, no correr da história literária, só se tornaram totalmente compreendidos após o conhecimento de sua correspondência.

Por isso mesmo, o lançamento do livro “As Cartas de Ernest Hemingway” (Martins Fontes – S. Paulo – 2015), organizado por Sandra Spanier e Robert W. Trogdon,  é um evento importante para os leitores e admiradores do Velho Hem. O volume é o primeiro de uma série prevista para doze e engloba as cartas escritas entre 1907 e 1922, ou seja, a fase de formação do homem e do escritor na luta pela afirmação profissional. É um trabalho criterioso, com milhares de notas explicativas, três ensaios introdutórios, cronologia, mapas, lista de correspondentes com uma súmula biográfica, calendário das cartas e um álbum com excelentes fotos. Trata-se, enfim, de um trabalho minucioso e repleto das mais variadas informações sobre o escritor e sua obra. Ambos os organizadores são professores universitários de literatura nos Estados Unidos. O livro foi traduzido por Rogério Bettoni.

O ESCRITOR

Ernest Miller Hemingway (1889/1961) nasceu em Oak Park, proximidades de Chicago, no Meio Oeste americano. Filho do médico Clarence Edmonds Hemingway e Grace Hall Hemingway, estudou nos colégios locais e não frequentou a universidade. Embora escrevesse desde cedo, teve uma infância ativa e passou muito tempo no meio rural, pescando, caçando e até trabalhando duro nas propriedades da família.  Influenciado pelo pai, seu orientador, tornou-se exímio caçador e pescador. Suas cartas registram inúmeras excursões de caça e pesca.  No decorrer da vida realizaria grandes caçadas, inclusive safáris na África, alguns deles repletos de incidentes cujas notícias correram mundo. Tomado de intenso desejo de aventura, alistou-se como motorista de ambulâncias na Cruz Vermelha Americana e serviu na Itália durante a I Guerra Mundial. Sofreu em ação sérios ferimentos, sendo internado num hospital militar em Milão, e foi condecorado por atos de bravura. Durante a permanência no hospital, apaixonou-se pela enfermeira americana Agnes Von Kurowski, mais velha que ele, mas ela romperia a relação, tempos depois, fato que o marcou por toda a vida. Ao retornar aos Estados Unidos, descobriu que era um herói, admirado e cortejado por todos. Depois de um período incerto, trabalhando em empregos provisórios, casou-se com Elizabeth Hadley Richardson, que seria a primeira de suas quatro esposas. Com ela, decide se mudar para Paris, influenciado pelo escritor Sherwood Anderson, que o recomendou aos amigos lá residentes, entre os quais Gertrude Stein, Ezra Pound e a livreira-editora Sylvia Beach, proprietária da célebre Livraria Shakespeare and Company.  Na capital francesa, sobrevivendo de matérias enviadas a um jornal canadense, do qual era correspondente, e de um pecúlio da mulher, iniciou a luta por um lugar ao sol no mundo das letras. Vida pobre, de poucos recursos, o que, no entanto, não os impediu de viajar à Suíça, Itália e ao interior do país, além de frequentar o hipódromo, as corridas de bicicletas, as lutas de box e outras diversões.  Além disso, como correspondente de jornal, realizou outras viagens internacionais para cobrir eventos importantes. O casal retornou por algum tempo à América para o nascimento do primeiro filho, John Hadley Nicanor Hemingway. Seus trabalhos literários começam a aparecer e ele não tarda a se impor no meio literário e cultural. Esse é o período coberto pelo livro.

BIOGRAFIA EPISTOLAR

Hemingway era arredio à ideia de ser biografado, fosse em vida ou cem anos depois da morte. No entanto, sem querer, acabou se autobiografando nas incontáveis cartas que escreveu aos mais variados destinatários, muitas delas longas e detalhistas. É verdade que desde cedo nutria certa preocupação com a leitura desses documentos íntimos pela posteridade. Em carta de 1950, segundo os organizadores do livro, Hemingway afirmou que havia queimado as cartas daquele período depois de se impressionar com as palavras do escritor Ford Madox Ford: “Um homem sempre deveria escrever suas cartas imaginando como seriam lidas pela posteridade.”

Assim, a correspondência ativa dele foi sempre deixada de lado e jamais destinada à publicação. No entanto, “ela constitui a sua autobiografia narrada em tempo presente. Ela enriquece nossa compreensão de seus processos criativos, oferece informações acerca da cena literária do século XX e documenta a construção e o marketing de um ícone norte-americano” – afirmam os organizadores.

Apesar de contrariar seu desejo, Hemingway teve sua vida examinada nos menores detalhes e inúmeros são os seus biógrafos, sem falar nos ensaios, reportagens, entrevistas, artigos e matérias jornalísticas a seu respeito. As cartas constituíam “a última fronteira inexplorada  de sua obra.”

AS CARTAS

Hemingway escreveu grande quantidade de cartas ao longo de toda a vida. Costumava dizer que elas eram mal escritas, em geral com muita pressa, nos intervalos do longo e cansativo trabalho de jornalista e, mais tarde, de escritor, e por isso elas nem sempre mereciam o cuidado devido. Mas gostava de escrever e exigia dos correspondentes que respondessem. É interessante notar que escreveu numerosas cartas à mãe, com quem sempre teve suas diferenças, e também ao pai. Em algumas passagens revelava irritação com certas atitudes paternas.

As primeiras missivas revelam um caráter ainda infantil, hesitante, redigidas em caligrafia de criança. Tratam de pescarias, acampamentos com amigos, caçadas e assuntos ligados à fazenda da família, onde costumava permanecer nas folgas do colégio. Aos poucos começam a aparecer temas ligados a namoradas, esportes, escritos para jornais escolares e preocupação com o futuro. Depois, já na iniciação no jornalismo, queixa-se do excesso de trabalho, dos parcos salários e da falta de dinheiro. Com o avanço da guerra na Europa, surgem os primeiros desejos de se alistar como voluntário. Mas um defeito na vista impede sua ida; é rejeitado pelas forças regulares. Alguém sugere, então, a Cruz Vermelha, nela se alista como motorista de ambulâncias e ruma para o campo de luta. Ferido com gravidade, em ação, é hospitalizado em Milão e aí acontece a grande paixão de sua vida. Recuperando-se, embora ainda mancando e usando muletas, retorna aos Estados Unidos. Não tarda a chegar a carta de Agnes rompendo o namoro. O choque é tão violento que fica transtornado; na verdade nunca superou o trauma, que carregaria pelo resto da vida. As cartas do período revelam o seu sofrimento. Mas eis que surge Hadley, exuberante moça de Saint Louis, e se apaixona por ela. Muito jovem, casam-se, já com a intenção de se mudar para a Itália. Sherwood Anderson, escritor célebre, o convence a trocar a Itália por Paris, o local adequado para um aspirante a escritor. E assim Hemingway e a jovem esposa se fixam em Paris. Ali ele dá início a uma carreira vitoriosa que o transformará num dos mais lidos e famosos escritores de todo o mundo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/10/2017 às 16h57 | e.atha@terra.com.br

O segredo do velho Hem

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1962) foi um homem cheio de vida. Atleta, nadador, pescador e caçador aficionado, adepto de touradas, corridas de cavalos e de bicicletas, lutador de box, esquiador e incansável viajante, revelava intenso amor pela vida. Escritor bem sucedido como poucos, amealhou imensa fortuna com seus livros e recebeu o Prêmio Nobel. Mantinha um padrão de vida invejável, tanto na Finca Vigia, em Cuba, como em Ketchum, nos Estados Unidos, em Paris ou Nova York. Não obstante, para espanto e comoção geral, suicidou-se com um tiro de espingarda. Seus incontáveis leitores e amigos, no mundo inteiro, ficaram estarrecidos e todos se indagavam qual teria sido a causa do gesto extremado.

Segundo os médicos e seus amigos mais chegados, entre eles A. E. Hotchner, seu futuro biógrafo, que com ele conviveu nos últimos quatorze anos, o escritor fora acometido de feroz depressão provocada pela ideia fixa de que estava sendo vigiado e perseguido pelo FBI e pelos fiscais do imposto de renda, temores destituídos de qualquer fundamento. Segundo outros, ele estaria convencido de que portava uma doença incurável que o levaria a cruéis sofrimentos, hipótese também desmentida pelas pessoas próximas, entre elas Mary Welch, sua última esposa. Fato inegável é que ele apresentava visíveis sinais de decadência física, emagrecia a olhos vistos, exibia um aspecto flácido e tinha outros problemas de saúde, herdados do grave acidente aéreo que sofrera num safári africano. Nenhum deles, no entanto, seria suficiente para justificar o suicídio.

Qual seria, então, a verdadeira razão?

Na tentativa vã de explicar, surgiram as chamadas teorias conspiratórias, uma delas, muito bem urdida, exposta no livro “Adeus, Hemingway!”, de autoria do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes (Companhia das Letras – S. Paulo – 2001). Jornalista, ensaísta e ficcionista, o autor nasceu em Mantilla, nas proximidades da Finca Vigia, na vila de San Francisco de Paula, em Havana, em 1955. Nesse livro ele engendra uma história das mais curiosas e chocantes, com certeza inspirado em conversas maledicentes ouvidas de gente que conheceu Hemingway ou até mesmo havia trabalhado para ele. Como se informa, cerca de trinta pessoas viviam na dependência do escritor em Cuba.

Pela história de Fuentes, restos mortais de uma pessoa teriam sido encontrados na Finca Vigia, enterrados sob uma das árvores preferidas de Hemingway, quarenta anos após o escritor ter deixado Cuba e se transferido para os Estados Unidos. Concluiu a perícia tratar-se de um homem, e no mesmo local foi encontrado um distintivo do FBI, enferrujado mas ainda reconhecível, além de uma bala que se identificou ser de metralhadora portátil Thompson. O detetive particular Mário Conde, também escritor e grande admirador do americano, decide investigar os fatos. Examina o local, interroga pessoas, consulta os jornais da época e chega à conclusão de que um agente do FBI teria sido designado para vigiar Hemingway, locado junto à embaixada americana em Havana. Na constante vigília, teria invadido a casa do escritor, durante a noite, ameaçando-o de arma em punho, quando foi alvejado e morto, não se sabendo se o autor dos disparos foi Hemingway ou algum de seus homens que tenha acorrido em seu socorro.

A hipótese nunca pôde ser comprovada e, com certeza, jamais o será, mas alguns indícios se juntaram a favor dela. De acordo com os jornais da época, um agente do FBI desapareceu de forma misteriosa em Cuba, a metralhadora Thompson que Hemingway possuía desapareceu sem deixar vestígio e um dos homens que trabalhavam na Finca Vigia foi retirado de Cuba e levado para o México a bordo da lancha “Pilar”, pertencente ao escritor. As pessoas interrogadas foram reticentes nas suas declarações, nada esclarecendo, e o mistério permanece, inviolável, sem que jamais pudesse ser esclarecido.

Seria esse o segredo que tanto angustiava o Velho Hem e que o levou à morte prematura? Teria levado consigo esse segredo? Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/10/2017 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

A massa e o biscoito

 “A massa, meu caro, há de chegar ao biscoito fino que eu fabrico.”

A biografia é um gênero literário exigente, ainda mais quando o biografado teve uma vida ativa e movimentada, dedicando-se a múltiplas atividades. Foi o que aconteceu com Oswald de Andrade (1890/1954), um dos principais líderes do Movimento Modernista, e que mereceu excelente e minuciosa biografia realizada por Maria Augusta Fonseca, professora da USP e pesquisadora da vida e da obra do biografado. Trata-se de “Oswald de Andrade – Biografia”, publicado pela Editora Globo (São Paulo – 2007).

José Oswald de Sousa Andrade era paulistano e foi em São Paulo que desenvolveu suas atividades como escritor, jornalista, dramaturgo e agitador cultural. Irrequieto, espirituoso, polemista e provocador, conquistava admiradores fervorosos com a mesma facilidade com que colecionava inimigos rancorosos. Não perdia ocasião de fazer uma boa piada, mesmo que isso, não poucas vezes, pudesse ferir as suscetibilidades de alguém. Como diz sua biógrafa, é impossível distinguir os fatos reais das lendas que o envolvem. Filho de pais muito ricos, foi um garoto mimado, cujas vontades eram sempre satisfeitas. Ao longo da vida esbanjou imensa fortuna e terminou os dias na pobreza, dependendo de empréstimos com agiotas e bancos, às vezes em situações humilhantes, Gordo, cabeludo, vestia-se com esmero, embora de forma extravagante e era dotado de intenso magnetismo que atraía desde logo as pessoas. Inteligente como poucos, ainda jovem já armazenava vasta e variada cultura.

Mal entrando na maioridade, trancou a matricula na Faculdade de Direito e foi para Paris, recebendo generosa mesada do pai para viver como um príncipe na Cidade Luz, além de viajar pela Europa, frequentando hotéis, cassinos e recepções de luxo. Para estrear nas suas confusas relações com as mulheres, voltou casado com uma francesa, rainha dos estudantes, a quem chamava de Kamiá. Foi a abertura de um imenso rol de mulheres com quem se envolveu e “casou”, no qual se inscreveram Deisi, Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão (Pagu), Pilar Ferrer, Julieta Bárbara e Maria Antonieta d’Alkmin, afora outras passageiras. Com a francesa teve o primeiro filho, Nonê, que se tornou conhecido artista plástico; com Pagu teve o filho Rudá e com Maria Antonieta outros dois filhos, Paulo Marcos e Marília. Só a bailarina Carmen Lídia resistiu aos seus encantos e não cedeu ao assédio. Casou-se com Pagu, muitos anos mais nova, em pleno cemitério da Consolação.

Retornando à Pauliceia, entregou-se a intensa atividade literária e jornalística. Em co-autoria com Guilherme de Almeida produziu duas peças teatrais, escritas em francês, “Mon coeur balance” e “Leur âme”  Estava ainda sob a forte influência dos autores franceses.

Não tardou, porém, a perceber que a influência gaulesa estava desfigurando a cultura nacional, inclusive a nossa língua, como também observaram outros intelectuais, entre os quais Monteiro Lobato. Voltou-se para a realidade nacional e criou o chamado Movimento Pau Brasil, visando destacar a nossa própria cultura. Segundo Paulo Prado, “Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um ateliê da Place Clichy – umbigo do mundo – descobriu, deslumbrado, a sua própria terra.” Mais tarde, sob o mesmo influxo, lançou o Manifesto Antropófago, ambas iniciativas inovadoras e que sacudiram o meio cultural. É necessário absorver a cultura geral e devolvê-la com as nuances nacionais, assim como o índio, ao devorar outra pessoa, acredita estar adquirindo as qualidades dela. Outros movimentos surgiram em oposição aos criados por Oswald provocando intermináveis debates.

Oswald de Andrade teve ativa participação na chamada Semana de Arte Moderna realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 7, 15 e 17 de fevereiro de 1922, evento considerado até hoje como divisor de águas entre o classicismo conservador e o modernismo. Dela participaram figuras representativas da cultura nacional sob intensas vaias, apupos, gritos, assovios e objetos lançados ao palco. Graça Aranha, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida, Villa Lobos, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros tantos fizeram palestras, declamaram, executaram músicas, discorreram sobre arte moderna e as ideias futuristas que corriam mundo.  Tarsila não participou porque se encontrava na Europa.

Entre a atividade jornalística, viagens pelo mundo e amores sucessivos, Oswald vai publicando seus livros. “Memórias sentimentais de João Miramar”, “Serafim Ponte Grande”, “Os Condenados”, peças teatrais, poesias, manifestos, crônicas e artigos aparecem numa imensa torrente. É um estilo novo, fracionado, quebrando a sequência lógica, repleto de hiatos e surpresas que espantam e intrigam o leitor de obras conservadoras.  Mais tarde publicaria suas memórias sob o título de “Um homem sem profissão.” Isso porque, dizia ele, com amargura: “Aos que se dedicam à carreira de escritor está reservado o papel de pobre-diabo na sociedade. Nada lhes garante a sobrevivência. Uns se vendem, outros se isolam, são muitos os malabarismos, Essa luta do escritor revela um Brasil ainda muito atrasado. “ Escritor, no Brasil, não tem profissão – concluía ele.

“O menino irrequieto do Modernismo”, como foi chamado, exerceu inúmeras atividades.  Foi palestrante e conferencista de raro talento, encantando os ouvintes pela verve e pela espirituosidade. Foi político militante e candidato a deputado federal, sem sucesso. Durante algum tempo se tornou fazendeiro. Dirigiu e fundou jornais, entre eles “O Homem do Povo”, em colaboração com Pagu, e que foi empastelado pelos acadêmicos de Direito da USP. Prestou concurso para professor universitário mas jamais deu aulas. Conviveu com figuras emblemáticas, no Brasil e no Exterior, entre as quais Isadora Duncan, de quem foi amigo, Blaise Cendrars, a quem chamava Sans Bras, uma vez que o poeta perdera um braço na guerra. Travou relações com as grandes figuras do mundo artístico na França e na Europa em geral. No Brasil, pertenceu ao grupo de Ricardo Gonçalves, o Ricardito, figura carismática que frequentava o Café Guarani. Manteve relações de amizade com Joaquim Inojosa, pregador apaixonado do Modernismo no Nordeste, e foi amigo íntimo de Mário de Andrade, com quem se desentendeu, rompendo relações. Tudo fez para se reconciliar com ele, mas Mário jamais o perdoou. Pertenceu ao grupo de D. Olívia Guedes Penteado, foi divulgador de Lasar Segall e parceiro de Flávio de Carvalho em montagens teatrais. Monteiro Lobato pertenceu ao seu círculo de amigos e Oswald reconheceu, com justiça, ter sido ele o mais remoto precursor do Modernismo no país. É inumerável seu círculo de relações.

A vida de Oswald de Andrade foi uma gangorra de altos e baixos. Esteve em plena glória e em total ostracismo. Envolveu-se nos maiores escândalos em virtude de suas atitudes chocantes para a época e pelas posições que assumia. Durante longo período sua obra literária foi esquecida. Hoje, porém, é reconhecida, estudada e aplaudida. Suas Obras Completas foram editadas com sucesso e cresce o interesse pelas suas realizações intelectuais e pelos eventos de sua vida. A biografia de Maria Augusta Fonseca contribui de forma decisiva para realizar a esperada justiça literária. Como ele próprio previa, a massa (popular) está saboreando o biscoito que ele fabricou.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/09/2017 às 08h27 | e.atha@terra.com.br

Uma história de ódio e resistência

Maura Palumbo, advogada e empresária paulista, vem se dedicando há muitos anos ao estudo da II Guerra Mundial e ao holocausto provocado pela chamada solução final do problema judaico. Tornou-se uma expert no intrincado assunto e agora vem colocando em livros os resultados dessas intensas pesquisas. Sua primeira obra abordando o tema é o romance de fundo histórico “O perfume das tulipas” (Duna Dueto Editora – S. Paulo – 2017), que acabo de ler com intenso e crescente interesse. É um livro alentado (350 páginas) que prende o leitor do começo ao fim. Fica claro que a autora tem o fôlego e a paciência indispensáveis para os textos longos como os romances. Não é por acaso que já se anuncia a segunda edição do livro.

Na cidade de Berlim do início do século passado vivia em paz uma família. O marido, holandês de nascimento, cultivava com o maior carinho um canteiro de tulipas; a esposa, pintora de mérito e modista, se dedicava também às atividades domésticas. O gosto pelas tulipas soava algo estranho porque tais flores são reconhecidas mais pela beleza que pelo perfume. Todos eram cidadãos alemães e alguns de seus parentes haviam lutado na I Guerra Mundial pela Alemanha e até pereceram em combate. Consideravam a Alemanha sua pátria e nela viviam e labutavam como quaisquer outros nativos do país. Mas eram judeus e isso marcaria seu destino, submetendo-os ao ódio desvairado e ao medo constante, exigindo imenso esforço para resistir e tentar a sobrevivência.

Eis que surge no horizonte uma nuvem ameaçadora. Adolf Hitler começa a ganhar espaço no panorama político com sua pregação nacionalista e ataques aos judeus, a quem atribuía todos os males do país em crise. Ganha adeptos, lança suas ideias a respeito do espaço vital e insinua a necessidade de uma vingança contra os que derrotaram a Alemanha na I Guerra Mundial, rebaixando-a e humilhando-a. Na prisão, onde esteve por alguns meses, escreve sua cartilha nazista, o “Mein Kanpf”, que é difundido à larga. Judeus mais precavidos, prevendo o pior, tratam de emigrar para lugares seguros. Mas a família em questão é patriota e continua em sua vida normal. O Partido Nacional Socialista, embora perdendo as eleições, já é o segundo do país e não cessa de crescer. Vai conquistando mais e mais seguidores. Em 30 de janeiro de 1933 o presidente Hindenburg nomeia Hitler chanceler da república. Em março o chanceler assume o total controle do governo com poderes ditatoriais. O medo se instala no coração de todos os judeus, apontados como inimigos da nação. Começam a entender que não há mais lugar para eles no país.

As restrições às atividades dos judeus vão num crescendo incontrolável e absurdo. Funcionários públicos dedicados são enxotados de seus cargos, professores e profissionais liberais proibidos de exercer as profissões. Todos os meios são usados para marginalizar os judeus, menosprezados e humilhados em toda parte. A pregação contra eles é constante, maciça, verdadeira lavagem cerebral. Queimas de livros de autores judeus acontecem em macabros autos-de-fé. Obras de Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx, Nelly Sachs, Thomas e Heinrich Mann, Walter Benjamin, Alfred Kerr, Robert Musil e Ricarda Huch, além de muitos outros, ardem nas fogueiras. Não importa o que contenham e o valor de suas lições. São maculados pelas mãos judaicas que os escreveram. É o desvario do ódio e da intolerância.

No plano exterior a guerra vingadora prosseguia vitoriosa. Os exércitos de Hitler dominavam países com extrema facilidade e tudo indicava que dominariam o mundo. Áustria, Tchecoslováquia, Holanda, Bélgica, Grécia, Iugoslávia, França... tudo sob o domínio do Fuhrer. O mundo tremia ante a perspectiva de uma dominação global pelas tropas germânicas. É declarada a guerra contra a União Soviética, cuja derrota estava prevista para cinco meses com a destruição de São Petersburgo. Mas uma coisa é planejar a guerra num gabinete, outra é encarar a realidade. Então tudo começa a mudar. A resistência russa é espantosa. Os Aliados, por sua vez, invadem a Normandia e as tropas alemãs começam a sofrer derrotas. O curso da guerra começa a virar.

Nervosos e agitados, os dirigentes alemães intensificam a solução final. Crescem as deportações, os campos de concentração e extermínio funcionam a pleno vapor e milhões de judeus são executados. Homens, mulheres, crianças, velhos, doentes, ciganos, deficientes, doentes mentais viram fumaça ou são sepultados em valas comuns. Figuras sinistras comandam o grotesco esforço para aniquilar uma raça. Mas a derrota é inevitável, os bombardeios sobre Berlim são terríveis e as tropas soviéticas se aproximam de Auschwitz. Cumpre, então, destruir os vestígios da matança e todas as medidas são tomadas nesse sentido, entre elas a marcha forçada de seres desesperados e famintos. É tarde, porém, e a rendição acontece.

Padecendo toda sorte de sofrimentos, a família de Zacharias Von Hart luta pela sobrevivência. Vale-se de toda sorte de expedientes para fugir dos perseguidores. E o desfecho do romance é imprevisível, deixando o leitor em permanente suspense. “Um dia todos sentirão o perfume das tulipas” – vaticinava ele.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/09/2017 às 09h41 | e.atha@terra.com.br

Ao pé do velho rádio

 Escritor e jornalista experimentado, Danilo Gomes acaba de dar a público um livro  interessante e, ao mesmo tempo, indefinível (*). É uma coletânea de textos que, no fundo, soam como páginas de memórias de acontecimentos vividos e de livros que foram lidos com deleite e deixaram marcas indeléveis. O propósito inicial estava em realçar três figuras marcantes na vida do autor e entrelaçar as relações entre elas: Juscelino Kubitschek, Odilon Behrens e Augusto Frederico Schmidt. Esse trio, de uma forma ou outra, conviveu entre si e com ele o autor manteve relações mais ou menos próximas, pessoais ou através de leituras, e se confessa fiel admirador de todos seus integrantes.

No correr das páginas do livro o autor aborda aspectos biográficos, as atividades de cada um deles, suas realizações, facetas de suas personalidades e o mais. No conjunto, porém, avulta a figura do poeta e memorialista Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), de cuja obra o autor tem sido um leitor aficionado.

Poeta e prosador de talento, Schmidt era um homem múltiplo. Escritor, editor, diplomata, empreendedor, foi assessor de Juscelino e autor de muitos de seus discursos. Figura controvertida, criticado com dureza pelos nacionalistas que viam nele um entreguista a serviço da banca mundial. Não obstante, tinha um faro extraordinário para descobrir escritores ainda inéditos, tendo publicado vários autores que depois se consagraram no mundo das letras, entre eles Graciliano Ramos. Conta-se que, ao ler os célebres relatórios do então prefeito de Palmeira dos Índios, teria afirmado que ele tinha algum romance na gaveta e nisso estava absolutamente certo.

Sempre elegante, ainda que gordo, Schmidt era dono de uma gargalhada fácil, embora na verdade fosse um nostálgico e melancólico, segundo depõem os que o conheceram de perto cujos depoimentos são trazidos pelo autor. O poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens Filho, por exemplo, escreveu: “De Augusto Frederico Schmidt me fica a lembrança de alguém extrovertidamente triste e nostálgico. Nada mais enganador que a sua ruidosa gargalhada...” (p. 52).

De uma viagem à Indonésia, ele e a esposa trouxeram um filhote de galo, muito branco e de crista vermelha. Tratada com desvelo, a bela ave vivia saltitando pela casa, inclusive sobre a mesa do escritório. Coq, como o tratava a mulher de Schmidt, se tornou famoso e seu dono ficou conhecido como o Poeta do Galo Branco, título que daria a um de seus livros de memórias. Muitas fotos em que aparece o célebre galo foram publicadas, até mesmo na capa de uma antologia poética de seu dono.

A poesia de Schmidt conquistou incontáveis leitores e mereceu a aclamação da crítica. Também seus livros de memórias – “O galo branco”, “As florestas” e “Paisagens e seres” – obtiveram a melhor acolhida. “Saudade de coisas perdidas, - escreveu ele – de objetos do passado, de velhos móveis, de ruas antigas por onde não mais passarei talvez. Saudade de amigos mortos, de amigos de infância, que não reverei. (...) Saudade do que não fui, de tudo o que desejava ter sido e não fui. Dos sonhos, das ilusões, do desejo de conforto modesto e de paz que não me coube. Saudade dos filhos que não tive.” (p. 39). Como acentua o autor, o poeta “foi um paradigma do melancólico, do saudosista, do nostálgico incurável” (Idem).

Mesmo tendo vivido tão pouco, Schmidt conquistou posição de destaque em nossas letras e se colocou entre os grandes poetas da literatura nacional. Por tudo isso, muito bem fez Danilo Gomes ao retirá-lo de tão injusto ostracismo.

No correr destas páginas outro tema ocupa as reminiscências do autor. Trata-se da construção de Brasília, projeto que vinha de longe em nossa história e no qual poucos ainda acreditavam. Acompanhando ao pé de um velho rádio Telefunken, o menino de Mariana, se emocionava com o arrojo e a firmeza com que JK tornava realidade a nova capital brasileira. Nem de longe imaginava que um dia, com a mulher e o filho, vindo de Belo Horizonte, “desembarcaria na Rodoviária do Plano Piloto para morar e trabalhar na Capital que então se inaugurava, no meio das nossas lágrimas” (p. 92).

Na abertura do livro, Danilo Gomes homenageia com justiça os cronistas brasileiros de ontem e de hoje. Muitos deles li ao longo da vida. Henrique Pongetti, Stanislaw Ponte Preta, Otto Lara Resende, Rachel de Queiroz, tantos e tantos outros... Que falta eles fazem!

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(*) “Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek. Odilon
Behrens”, de Danilo Gomes, Brasília, Gráfica e Editora Leal, 2017.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 12/09/2017 às 14h22 | e.atha@terra.com.br

A voz dos pampas

Advogado e escritor, Israel Lopes é um pesquisador incansável, daqueles que se debruçam sobre um tema e o esquadrinham até o limite. Admirador de Pedro Raymundo (1906/1973), vem se debruçando há longos anos sobre a vida e a obra do cantor/compositor que se transformou na voz dos pampas. Afora outros trabalhos publicados, incluindo livros, lançou o volume “Pedro Raymundo e o canto monarca” (Letra & Vida Editora – Porto Alegre – 2013), minucioso e fundamentado levantamento biográfico do músico e sua produção, tendo como pano de fundo um amplo panorama da música regionalista, nativista e missioneira. Com esse ensaio primoroso, o autor resgata do ostracismo um artista que empolgou grande massa de admiradores em todo o país e fez escola na sua área de atuação. “As mídias televisivas, os jornais, as rádios e as revistas de hoje, na grande maioria, não divulgam esses artistas do passado. Somente nós, que somos idealistas, é que divulgamos esses artistas que tanto fizeram por nossa cultura musical” – escreve ele em justificado desabafo. Como em tudo o mais, a falta de memória brasileira também atinge o setor musical. Mas é fora de dúvida que Israel Lopes domina com segurança o assunto e tem ampla visão do panorama musical, seus expoentes e suas obras.

Pedro Raymundo era filho de Santa Catarina, nascido na cidade de Imaruí, ao sul do Estado, mas se tornou um catarinense agauchado, abraçando com fervor a cultura popular do vizinho Estado, ainda que algumas de suas composições indiquem que nutria saudade do chão natal. Filho de pescador e músico, desde muito cedo revelou pendores para a música e com poucos anos de idade já dedilhava uma sanfona de oito baixos, presente paterno. Estudou por algum tempo e exerceu várias atividades até decidir se transferir para o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, seu primeiro emprego foi o de condutor de bondes até que começou a se apresentar como músico, tocando uma “gaita de botão” (cromática?). Começou executando jazz, cedendo à moda da época, antes de abraçar o cancioneiro gaúcho. Aos poucos foi conquistando espaço nas emissoras de rádio e granjeou fama em todo o país. Com a ajuda de amigos, vai tentar a sorte no Rio de Janeiro onde, aos poucos, as portas se abrem. Seguem-se as apresentações em grande estilo, gravações de discos, publicações de músicas de sua autoria, entrevistas e reportagens. Torna-se um ícone da música regional gauchesca festejado em toda parte. “Adeus Mariana” é seu primeiro sucesso nacional. Apresenta-se nas rádios Tupi, Mayrink Veiga, Nacional, Tamoio e Globo. Excursiona pelo país levando a música regional. É uma carreira vitoriosa que se estende por longos anos.

Passo a passo, o biógrafo rastreia a trajetória do artista e suas obras. Locais onde se apresentou, conjuntos a que pertenceu, personalidades com quem se relacionou, tudo é revelado em minúcia sem esquecer os eventos do momento histórico vivido. O livro é rico em documentos e fotos, muitas delas retratando o artista com seus companheiros e conhecidos, sempre vestido no rigor da moda gauchesca. São lembrados inúmeros outros músicos e compositores com os quais Pedro Raymundo travou relações.

A realização da obra exigiu ampla e prolongada pesquisa. É impressionante a quantidade de fontes e referências consultadas. Trata-se, enfim, de um trabalho modelar que dignifica o biografado e enaltece o seu autor. Está de parabéns o pesquisador gaúcho por tirar do ostracismo um artista de tanto talento e que jazia esquecido.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/09/2017 às 11h13 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.