Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

SAPATOS AMARELOS

Afirmavam antigos psicólogos, entre os quais, se não me falha a memória, o Prof. Iago Pimentel, que os seres humanos são dotados de dois tipos de imaginação: os univisivos (monovisivos) e os plurivisivos (multivisivos). Os primeiros enxergam os fatos na sua simplicidade. São capazes de imaginar com precisão como aconteceram, quando não os presenciaram, mas não passam disso. Já os segundos, enxergam variantes de episódios, detalhes, circunstâncias. A imaginação, partindo do real, passa a criar ou seja, a produzir aquilo que os teóricos da literatura denominam de ficção. Fatos vistos, lidos, ouvidos ou lembrados podem ter o mesmo efeito, inspirando a criação. Os primeiros, como se conclui, não têm vocação para a obra ficcional, embora tentem sem qualquer sucesso, como verifiquei várias vezes. Poderão ser historiadores, redatores, jornalistas, mas jamais autores de romances, novelas, contos, crônicas e poemas. Os segundos, ao contrário, dão largas à imaginação e criam as mais diversas e imprevistas histórias que nunca aconteceram com personagens que jamais existiram.

Essas observações me ocorrem ao terminar a leitura de “Maigret e o homem do banco”, mais uma das inúmeras histórias envolvendo o comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária francesa, sem dúvida o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989), publicado pela L&PM (P. Alegre – 2004). Nesse romance o autor se revela o mais completo polivisivo que se possa encontrar na literatura, extraindo de um fato mais ou menos comum numa grande metrópole como Paris (latrocínio) uma história absorvente e que atiça o leitor sequioso de conhecer o desenlace. Partindo do encontro de um morto a facada num beco estreito, ele complica as coisas ao revelar que a vítima, contrariando seus hábitos sedimentados, usava sapatos amarelos e uma gravata espalhafatosa como jamais fizeram antes. Esses detalhes intrigam a polícia e conduzem a uma investigação longa e complexa, envolvendo tempo e trabalho, além de trazerem à tona incontáveis personagens.

Modesto almoxarife de uma empresa há longos anos, Louis Thouret fica desempregado quando ela encerra as atividades. Temeroso da reação da esposa, mulher dominadora, esconde o fato dela e dos familiares e trata de procurar novo emprego. Como não consegue, passa os dias perambulando pela cidade ou sentado num banco de rua onde permanece por longo tempo. Consegue algum dinheiro emprestado e assim vai mantendo as aparências como se continuasse trabalhando e sem que a mulher desconfie da real situação. Tempos depois, sem explicação razoável, começa a dar mostras de possuir muito dinheiro, cuja origem é um mistério. E então, numa segunda-feira chuvosa, é encontrado morto num beco estreito com uma facada nas costas. A equipe de Maigret entra em cena e, depois de muita investigação, acaba chegando ao criminoso e descobre a origem do dinheiro misterioso. A chave do mistério está no tempo em que a vítima permanece sentada no banco da praça. Nessas longas horas de ócio afina o senso de observação, passa a conhecer os detalhes da rotina do comércio da região e articula um plano simples e seguro, cuja prática realiza com a ajuda de um antigo palhaço de circo, desocupado e velho conhecido dos policias. E então se desvenda a incrível vida paralela da vítima e as razões pelas quais foi encontrado calçando sapatos amarelos e usando a extravagante gravata. É uma trama complexa, com inúmeros incidentes e envolvendo grande quantidade de personagens. E mais uma vitória de Maigret, um dos maiores detetives da literatura mundial, ombreando com Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Ao longo do livro, Simenon põe na boca de seu personagem muitas de suas observações pessoais, como apaixonado que foi pela cidade de Paris. Observando a imensa fauna humana que se move pelas ruas da metrópole, ele identifica os ativos, correndo sem trégua atrás de seus objetivos, os vencidos, que andam maquinalmente, sem ânimo e sem vigor, e os cansados, que arrastam os pés nas calçadas. Em várias passagens lança um olhar amoroso sobre a multidão informe e colorida, recordando aquilo que o impressionava antes e agora. Em raro momento de mau humor, reclama da penumbra nos gabinetes da Polícia Judiciária: por que não os iluminam melhor? Numa passagem inesperada, discreto a respeito de sua vida pessoal, Maigret faz a revelação surpreendente de que teve uma filhinha falecida em criança.

Georges Simenon foi um escritor prolífico, tendo publicado mais de duzentos livros e obtendo enorme sucesso em todo o mundo. Escrevia bem, era mestre no diálogo, e tinha uma imaginação sem limites. Contam seus biógrafos que, quando escrevia, se enfurnava no gabinete com o guia telefônico de Paris, do qual retirava os nomes de seus personagens e se isolava do mundo. Não falava com ninguém, não recebia visitas e não atendia ao telefone.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/05/2019 às 10h45 | e.atha@terra.com.br

A OUTRA PÁTRIA

Terminei de reler o livro “Hemingway na Espanha – A outra pátria”, de autoria de Eric Nepomuceno (L&PM Editores – P. Alegre – 1991), uma das melhores biografias parciais do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), não apenas pela precisão dos fatos mas também pela penetração psicológica do biografado, mostrando-o tanto no aspecto físico como no interior. Correspondente internacional do canal televisivo Band News, Eric Nepomuceno se esmerou neste livro pouco volumoso mas denso e repleto de informações que muito contribuem para entender a complexa personalidade daquele que foi um misto de escritor, viajante e aventureiro, sempre em busca de fortes emoções, e que esteve presente em muitos dos mais importantes eventos históricos do século passado.

Desde que descobriu a Espanha, Hemingway se tornou um aficionado daquele país a ponto de considerá-lo a segunda pátria. Tinha especial admiração pela geografia espanhola, pela língua, pelo modo de ser de seu povo e, acima de tudo, pelas touradas, assunto no qual se tornou autoridade. Visitou o país inúmeras vezes, participando das corridas de touros pelas ruas e acompanhando de perto as temporadas de touradas, inclusive penetrando nas arenas e provocando os touros enquanto a multidão se divertia a valer com as proezas do americano grandalhão e barbudo. Fez amizade com toureiros e muitas vezes os acompanhou nas apresentações em diversas cidades por semanas a fio. Tal sua admiração por Nicanor Villalta, célebre toureiro que, em homenagem a ele, chamou seu filho primogênito de John Hadley Nicanor Hemingway. Não contente com tudo isso, cobriu como jornalista a Guerra Civil espanhola e muito batalhou para obter recursos para os republicanos que tentavam salvar o país das garras fascistas de Franco. Nesse período estabeleceu seu quartel-general no célebre Hotel Florida, em Madri, e dali, a pouca distância do fronte de batalha, cobriu a guerra para a grande imprensa. Foi ali, entre estrondos de granadas e zunir de balas que escreveu sua única peça teatral – “A Quina Coluna.” Em consequencia, a Espanha é muito presente em sua obra, tanto nos romances como nos contos e nos textos jornalísticos.

Para ele, Madri era a capital do mundo e alguns lugares nela existentes lhe pareciam sagrados. Assim, o célebre Bar Chicote, onde se reunia a nata dos toureiros, seus acólitos, agentes e pessoas entendidas no assunto era um dos melhores lugares do mundo. Parafraseando um crítico, os tempos ali frequentados foram os “anos moços” do escritor. Na sua visão, as touradas não constituíam apenas um espetáculo, mas um complexo ritual de técnica e coragem que punha à mostra, em público, a verdade verdadeira, quando homem e animal davam tudo de si no trágico desenlace. E nesse instante mágico o toureiro surgia como um ser sobreumano, um semideus que não podia vacilar. Por isso, qualquer vacilação ou demonstração de medo se tornava fatal para o toureiro e muitos deles decaíam de maneira irremediável. Essas figuras tristes, vencidas e empobrecidas também povoam a obra do escritor, ao lado dos grandes vencedores, as mais brilhantes estrelas das principais “fiestas.”

Quanto à Espanha, os tempos da Guerra Civil foram para ele um pesadelo. Desde suas viagens pela Itália de Mussolini fora tomado de profunda aversão pelo fascismo e previu o que viria sob seu domínio. Por isso, costumava dizer que sob o fascismo nenhum escritor pode viver e, muito menos, trabalhar. Em célebre discurso pronunciado em Nova York, em busca de ajuda aos republicados espanhóis, ele que abominava falar em público, afirmou: “Mas o fascismo é incompatível com essa exigência. Porque o fascismo é uma mentira fabricada pelos tiranos. Um escritor que não minta não pode viver nem trabalhar no fascismo, porque o fascismo é uma mentira e está condenado à esterilidade literária...” Palavras proféticas que a história comprovaria dentro de poucos anos.

Pouco depois, com a vitória franquista e suas hostes dominando sua segunda pátria, Ernest Hemingway se retirou da Espanha tomado de uma das maiores tristezas de sua existência.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/04/2019 às 10h16 | e.atha@terra.com.br

A POÉTICA E A POEMÁTICA

Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br

A MISSÃO DO DR. ADROALDO

Pela segunda década do século passado o jovem Adroaldo, pernambucano do Recife e bacharel em Direito, é convidado pelo presidente do Estado a assumir o cargo de Promotor Público da comarca de Majestosa, no sul do país. Tinha como missão conter o separatismo que, segundo diziam, contava com adeptos na cidade, além de combater a criminalidade. Majestosa, situada ao pé da Serra, era uma cidade habitada por descendentes de alemães, cultivava os costumes germânicos e usava uma linguagem típica, engrolando um patuá que misturava o alemão e o português. Adroaldo assume suas funções imbuído das melhores intenções de cumprir à risca a missão que lhe fora confiada mas se depara com obstáculos jamais imaginados. Sem entender com precisão a linguagem local, provoca toda sorte de confusões, sempre interpretadas por outro prisma pela população, cuja opinião a respeito dele se divide. Ele enxerga maquinações separatistas até em reuniões de senhoras conversadeiras; vê indícios de crimes em atitudes triviais das pessoas, influenciado pela constante leitura de romances policiais. Até que, depois de tantas e tão variadas confusões, se convence de que a ameaça separatista na verdade não existe e a criminalidade local é escassa e leve. Para completar, apaixona-se pela bibliotecária Gertrude, cujo falecimento precoce o deixa arrasado. Durante muitos anos exerce as funções na comarca e morre solteiro, sem deixar descendentes e sem merecer nome de rua ou avenida. Até que um jornalista, tomado pela curiosidade histórica e pela originalidade do personagem, resolve biografá-lo, deparando-se com toda sorte de dificuldades diante da ausência de fontes de informação. Com grande esforço, colhendo dados daqui e dali, consegue reconstituir os passos do aguerrido Promotor e, mais tarde, encontra seu diário cujo conteúdo pouco altera o que havia escrito. Esse é, em grossas pinceladas, o enredo do romance “Adroaldo, de Majestosa”, de autoria de Eduardo Sens, publicado pela Editora Penalux (S. Paulo – 2018).

O autor revela paciência e fôlego para textos prolongados e mantém a narrativa em nível elevado, não permitindo que decaia o interesse do leitor, tarefa nem sempre alcançada no gênero romanesco. Escreve com desenvoltura e correção, enfrentando com habilidade os momentos dramáticos, sentimentais, de ação e de humor. Tem cultura e informação. Tudo indica que inicia com o pé direito uma bela carreira de romancista.

Há personagens e momentos inesquecíveis, a começar pela chegada de Adroaldo a Majestosa e sua condução ao hotel. Mais tarde, o discurso inflamado que profere no auditório vazio deixa as pessoas boquiabertas. Diligente e atento, não é homem de gabinete e busca sempre a ação. E assim, vai ter num chiqueiro de porcos com o objetivo de salvar crianças vítimas de crimes hediondos, embora tudo não fosse além de suas dificuldades com a fala local. Em outra diligência, imaginando maquinações separatistas, invade mu milharal numa das situações mais insólitas de todo o livro. Depara-se com inocente reunião de senhoras conversadeiras, enrosca-se numa cerca, é atacado por um velho cão e perde um pé dos sapatos. Mas tudo aceita com dignidade, suportando as agruras como ônus da função. Trata de investigar certo Professor Werner, autor de um livro que lhe infunde suspeitas, especializado na fabricação de salame e surdo quando convém. Para fugir de situações embaraçosas, confunde infame e exame com salame. No final, Adroaldo e Werner se tornam amigos, ainda que este seja suspeito de ter sido correspondente nazista no correr da guerra e, por contraditório que fosse, o único separatista verdadeiro da cidade. Como se vê, o romance tem ação, humor e registra os “devaneios alucinados” do jovem Promotor.

Mário de Andrade estudou as diferenças entre a língua e a fala. Aquela obedece aos cânones e às regras, esta é a maneira como o povo se expressa. No caso do romance, a diferença entre elas é ainda maior e às vezes ininteligível para ouvidos pouco treinados em virtude da influência estrangeira. Nesse aspecto o romance tem um fundo documental.

Saúdo o novel romancista, duas vezes colega, como escritor e membro do Ministério Público, desejando-lhe um futuro de muitas realizações e conquistas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/04/2019 às 15h48 | e.atha@terra.com.br

PITIGRILLI

Como tantos escritores que desfrutaram de grande popularidade, Pitigrilli anda esquecido. Nascido Dino Segre (1883/1975), adotou o pseudônimo cantante com o qual se consagrou e que usou até falecer, em Turim, onde veio à luz e morou a maior parte da existência. Como auto-exilado, residiu por algum tempo na Argentina, porque “gostava de por os pingos nos ii no que escrevia” e, em conseqüência, o ar da Itália estava ficando denso em demasia. Como sempre, ao longo da História, a pena dos escritores incomodava os mandões do momento.

Segundo relatou em suas memórias, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, saiu de casa, certa manhã, com a intenção de se matricular no curso de medicina. Como a fila estava muito longa, acabou se matriculando na Faculdade de Direito, ainda que jamais tivesse a menor intenção de fazer uso do diploma. Não tardou a se destacar como cronista, contista e romancista, e seus livros obtiveram grande aceitação, impulsionados também pela figura curiosa e carismática do próprio autor. Vários de seus livros se transformaram em best-sellers mundiais e conquistaram considerável público no Brasil, onde foram traduzidos e publicados pela extinta Editora Vecchi, do Rio de Janeiro.

Entre suas obras mais conhecidas alinham-se “A loura dolicocéfala”, cujo título vulgarizou a expressão e a colocou na boca do povo, “Cocaína”, no qual descreveu com humor e acuidade suas experiências com o uso da droga, fato raro na época, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, autobiografia escrita com ironia e onde revelou, ao final, suas preocupações místicas e certa inclinação pelo espiritismo. Publicou ainda um volume de crônicas saborosas, dentre as quais se destaca “ite” e “ose”, comentando as enfermidades agudas e crônicas, reais e imaginárias. Também fez sucesso entre nós o romance “O farmacêutico a cavalo”, tremenda sátira aos heróis consagrados, em especial nas pequenas comunidades. Traduzido por Marina Guaspari, renomada tradutora da época, foi publicado em 1951 num daqueles feios volumes da Editora Vecchi, em papel escuro, áspero e grosso.

Esse romance relata a história de uma cidade que, de repente, se deu conta de que não possuía nenhuma estátua glorificando algum herói da terra. Começam, então, as discussões sobre o local e o tipo do monumento a ser erigido em praça pública. Ficou decidido que seria uma estátua equestre, como convém a toda cidade que se preze, esculpida em puro bronze, de preferência com o homenageado apontando a espada para o alto. Muitos e inflamados foram os debates mas, afinal, chegou-se ao consenso.

As dificuldades surgiram mesmo na escolha do conterrâneo a ser homenageado, ou melhor, em encontrá-lo. O primeiro foi descartado porque se descobriu que era estrangeiro; o segundo foi deixado de lado porque não gozava de reputação ilibada; o terceiro, enfim, havia escrito coisas ofensivas à cidade. E assim, de exclusão em exclusão, chegaram à melancólica conclusão de que não havia a quem homenagear. Até que alguém, num rasgo salvador, se lembrou do farmacêutico, cidadão pacato, ilibado, trabalhador, acima de qualquer suspeita. Mas um farmacêutico a cavalo numa estátua em praça pública? Absurdo! Depois de novas e intermináveis discussões, a explicação foi encontrada: o cavalo estaria com as patas dianteiras dobradas, como se estivesse inclinado, e seu cavaleiro com os olhos fitos no solo. Como cientista e pesquisador da farmacologia, estaria procurando ervas naturais que pudessem enriquecer suas curativas poções medicinais. E, naturalmente, a espada foi esquecida.

Dessa forma, entre vivas e discursos, foi encontrada solução. A cidade orgulhosa passou a contar com uma grande estátua equestre no principal logradouro, inaugurada com muita solenidade, homenageando um filho modesto mas legítimo e inatacável. É claro que a cidade em questão não era brasileira; aqui teríamos heróis aos montes e a dificuldade seria decidir qual deles ocuparia o honroso posto.

Para evitar que o leitor apressado vá direto ao desenlace, o romance tem a curiosidade de começar pelo capítulo sexto e todos os demais estão fora de ordem. Essa tática nasceu ao ver uma leitora, no bonde, abrindo com espátula as páginas finais de um livro, desprezando todo o esforço do autor para armar o seu enredo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2019 às 23h59 | e.atha@terra.com.br

A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

_____________________________

(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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SAPATOS AMARELOS

Afirmavam antigos psicólogos, entre os quais, se não me falha a memória, o Prof. Iago Pimentel, que os seres humanos são dotados de dois tipos de imaginação: os univisivos (monovisivos) e os plurivisivos (multivisivos). Os primeiros enxergam os fatos na sua simplicidade. São capazes de imaginar com precisão como aconteceram, quando não os presenciaram, mas não passam disso. Já os segundos, enxergam variantes de episódios, detalhes, circunstâncias. A imaginação, partindo do real, passa a criar ou seja, a produzir aquilo que os teóricos da literatura denominam de ficção. Fatos vistos, lidos, ouvidos ou lembrados podem ter o mesmo efeito, inspirando a criação. Os primeiros, como se conclui, não têm vocação para a obra ficcional, embora tentem sem qualquer sucesso, como verifiquei várias vezes. Poderão ser historiadores, redatores, jornalistas, mas jamais autores de romances, novelas, contos, crônicas e poemas. Os segundos, ao contrário, dão largas à imaginação e criam as mais diversas e imprevistas histórias que nunca aconteceram com personagens que jamais existiram.

Essas observações me ocorrem ao terminar a leitura de “Maigret e o homem do banco”, mais uma das inúmeras histórias envolvendo o comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária francesa, sem dúvida o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989), publicado pela L&PM (P. Alegre – 2004). Nesse romance o autor se revela o mais completo polivisivo que se possa encontrar na literatura, extraindo de um fato mais ou menos comum numa grande metrópole como Paris (latrocínio) uma história absorvente e que atiça o leitor sequioso de conhecer o desenlace. Partindo do encontro de um morto a facada num beco estreito, ele complica as coisas ao revelar que a vítima, contrariando seus hábitos sedimentados, usava sapatos amarelos e uma gravata espalhafatosa como jamais fizeram antes. Esses detalhes intrigam a polícia e conduzem a uma investigação longa e complexa, envolvendo tempo e trabalho, além de trazerem à tona incontáveis personagens.

Modesto almoxarife de uma empresa há longos anos, Louis Thouret fica desempregado quando ela encerra as atividades. Temeroso da reação da esposa, mulher dominadora, esconde o fato dela e dos familiares e trata de procurar novo emprego. Como não consegue, passa os dias perambulando pela cidade ou sentado num banco de rua onde permanece por longo tempo. Consegue algum dinheiro emprestado e assim vai mantendo as aparências como se continuasse trabalhando e sem que a mulher desconfie da real situação. Tempos depois, sem explicação razoável, começa a dar mostras de possuir muito dinheiro, cuja origem é um mistério. E então, numa segunda-feira chuvosa, é encontrado morto num beco estreito com uma facada nas costas. A equipe de Maigret entra em cena e, depois de muita investigação, acaba chegando ao criminoso e descobre a origem do dinheiro misterioso. A chave do mistério está no tempo em que a vítima permanece sentada no banco da praça. Nessas longas horas de ócio afina o senso de observação, passa a conhecer os detalhes da rotina do comércio da região e articula um plano simples e seguro, cuja prática realiza com a ajuda de um antigo palhaço de circo, desocupado e velho conhecido dos policias. E então se desvenda a incrível vida paralela da vítima e as razões pelas quais foi encontrado calçando sapatos amarelos e usando a extravagante gravata. É uma trama complexa, com inúmeros incidentes e envolvendo grande quantidade de personagens. E mais uma vitória de Maigret, um dos maiores detetives da literatura mundial, ombreando com Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Ao longo do livro, Simenon põe na boca de seu personagem muitas de suas observações pessoais, como apaixonado que foi pela cidade de Paris. Observando a imensa fauna humana que se move pelas ruas da metrópole, ele identifica os ativos, correndo sem trégua atrás de seus objetivos, os vencidos, que andam maquinalmente, sem ânimo e sem vigor, e os cansados, que arrastam os pés nas calçadas. Em várias passagens lança um olhar amoroso sobre a multidão informe e colorida, recordando aquilo que o impressionava antes e agora. Em raro momento de mau humor, reclama da penumbra nos gabinetes da Polícia Judiciária: por que não os iluminam melhor? Numa passagem inesperada, discreto a respeito de sua vida pessoal, Maigret faz a revelação surpreendente de que teve uma filhinha falecida em criança.

Georges Simenon foi um escritor prolífico, tendo publicado mais de duzentos livros e obtendo enorme sucesso em todo o mundo. Escrevia bem, era mestre no diálogo, e tinha uma imaginação sem limites. Contam seus biógrafos que, quando escrevia, se enfurnava no gabinete com o guia telefônico de Paris, do qual retirava os nomes de seus personagens e se isolava do mundo. Não falava com ninguém, não recebia visitas e não atendia ao telefone.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/05/2019 às 10h45 | e.atha@terra.com.br

A OUTRA PÁTRIA

Terminei de reler o livro “Hemingway na Espanha – A outra pátria”, de autoria de Eric Nepomuceno (L&PM Editores – P. Alegre – 1991), uma das melhores biografias parciais do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), não apenas pela precisão dos fatos mas também pela penetração psicológica do biografado, mostrando-o tanto no aspecto físico como no interior. Correspondente internacional do canal televisivo Band News, Eric Nepomuceno se esmerou neste livro pouco volumoso mas denso e repleto de informações que muito contribuem para entender a complexa personalidade daquele que foi um misto de escritor, viajante e aventureiro, sempre em busca de fortes emoções, e que esteve presente em muitos dos mais importantes eventos históricos do século passado.

Desde que descobriu a Espanha, Hemingway se tornou um aficionado daquele país a ponto de considerá-lo a segunda pátria. Tinha especial admiração pela geografia espanhola, pela língua, pelo modo de ser de seu povo e, acima de tudo, pelas touradas, assunto no qual se tornou autoridade. Visitou o país inúmeras vezes, participando das corridas de touros pelas ruas e acompanhando de perto as temporadas de touradas, inclusive penetrando nas arenas e provocando os touros enquanto a multidão se divertia a valer com as proezas do americano grandalhão e barbudo. Fez amizade com toureiros e muitas vezes os acompanhou nas apresentações em diversas cidades por semanas a fio. Tal sua admiração por Nicanor Villalta, célebre toureiro que, em homenagem a ele, chamou seu filho primogênito de John Hadley Nicanor Hemingway. Não contente com tudo isso, cobriu como jornalista a Guerra Civil espanhola e muito batalhou para obter recursos para os republicanos que tentavam salvar o país das garras fascistas de Franco. Nesse período estabeleceu seu quartel-general no célebre Hotel Florida, em Madri, e dali, a pouca distância do fronte de batalha, cobriu a guerra para a grande imprensa. Foi ali, entre estrondos de granadas e zunir de balas que escreveu sua única peça teatral – “A Quina Coluna.” Em consequencia, a Espanha é muito presente em sua obra, tanto nos romances como nos contos e nos textos jornalísticos.

Para ele, Madri era a capital do mundo e alguns lugares nela existentes lhe pareciam sagrados. Assim, o célebre Bar Chicote, onde se reunia a nata dos toureiros, seus acólitos, agentes e pessoas entendidas no assunto era um dos melhores lugares do mundo. Parafraseando um crítico, os tempos ali frequentados foram os “anos moços” do escritor. Na sua visão, as touradas não constituíam apenas um espetáculo, mas um complexo ritual de técnica e coragem que punha à mostra, em público, a verdade verdadeira, quando homem e animal davam tudo de si no trágico desenlace. E nesse instante mágico o toureiro surgia como um ser sobreumano, um semideus que não podia vacilar. Por isso, qualquer vacilação ou demonstração de medo se tornava fatal para o toureiro e muitos deles decaíam de maneira irremediável. Essas figuras tristes, vencidas e empobrecidas também povoam a obra do escritor, ao lado dos grandes vencedores, as mais brilhantes estrelas das principais “fiestas.”

Quanto à Espanha, os tempos da Guerra Civil foram para ele um pesadelo. Desde suas viagens pela Itália de Mussolini fora tomado de profunda aversão pelo fascismo e previu o que viria sob seu domínio. Por isso, costumava dizer que sob o fascismo nenhum escritor pode viver e, muito menos, trabalhar. Em célebre discurso pronunciado em Nova York, em busca de ajuda aos republicados espanhóis, ele que abominava falar em público, afirmou: “Mas o fascismo é incompatível com essa exigência. Porque o fascismo é uma mentira fabricada pelos tiranos. Um escritor que não minta não pode viver nem trabalhar no fascismo, porque o fascismo é uma mentira e está condenado à esterilidade literária...” Palavras proféticas que a história comprovaria dentro de poucos anos.

Pouco depois, com a vitória franquista e suas hostes dominando sua segunda pátria, Ernest Hemingway se retirou da Espanha tomado de uma das maiores tristezas de sua existência.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/04/2019 às 10h16 | e.atha@terra.com.br

A POÉTICA E A POEMÁTICA

Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br

A MISSÃO DO DR. ADROALDO

Pela segunda década do século passado o jovem Adroaldo, pernambucano do Recife e bacharel em Direito, é convidado pelo presidente do Estado a assumir o cargo de Promotor Público da comarca de Majestosa, no sul do país. Tinha como missão conter o separatismo que, segundo diziam, contava com adeptos na cidade, além de combater a criminalidade. Majestosa, situada ao pé da Serra, era uma cidade habitada por descendentes de alemães, cultivava os costumes germânicos e usava uma linguagem típica, engrolando um patuá que misturava o alemão e o português. Adroaldo assume suas funções imbuído das melhores intenções de cumprir à risca a missão que lhe fora confiada mas se depara com obstáculos jamais imaginados. Sem entender com precisão a linguagem local, provoca toda sorte de confusões, sempre interpretadas por outro prisma pela população, cuja opinião a respeito dele se divide. Ele enxerga maquinações separatistas até em reuniões de senhoras conversadeiras; vê indícios de crimes em atitudes triviais das pessoas, influenciado pela constante leitura de romances policiais. Até que, depois de tantas e tão variadas confusões, se convence de que a ameaça separatista na verdade não existe e a criminalidade local é escassa e leve. Para completar, apaixona-se pela bibliotecária Gertrude, cujo falecimento precoce o deixa arrasado. Durante muitos anos exerce as funções na comarca e morre solteiro, sem deixar descendentes e sem merecer nome de rua ou avenida. Até que um jornalista, tomado pela curiosidade histórica e pela originalidade do personagem, resolve biografá-lo, deparando-se com toda sorte de dificuldades diante da ausência de fontes de informação. Com grande esforço, colhendo dados daqui e dali, consegue reconstituir os passos do aguerrido Promotor e, mais tarde, encontra seu diário cujo conteúdo pouco altera o que havia escrito. Esse é, em grossas pinceladas, o enredo do romance “Adroaldo, de Majestosa”, de autoria de Eduardo Sens, publicado pela Editora Penalux (S. Paulo – 2018).

O autor revela paciência e fôlego para textos prolongados e mantém a narrativa em nível elevado, não permitindo que decaia o interesse do leitor, tarefa nem sempre alcançada no gênero romanesco. Escreve com desenvoltura e correção, enfrentando com habilidade os momentos dramáticos, sentimentais, de ação e de humor. Tem cultura e informação. Tudo indica que inicia com o pé direito uma bela carreira de romancista.

Há personagens e momentos inesquecíveis, a começar pela chegada de Adroaldo a Majestosa e sua condução ao hotel. Mais tarde, o discurso inflamado que profere no auditório vazio deixa as pessoas boquiabertas. Diligente e atento, não é homem de gabinete e busca sempre a ação. E assim, vai ter num chiqueiro de porcos com o objetivo de salvar crianças vítimas de crimes hediondos, embora tudo não fosse além de suas dificuldades com a fala local. Em outra diligência, imaginando maquinações separatistas, invade mu milharal numa das situações mais insólitas de todo o livro. Depara-se com inocente reunião de senhoras conversadeiras, enrosca-se numa cerca, é atacado por um velho cão e perde um pé dos sapatos. Mas tudo aceita com dignidade, suportando as agruras como ônus da função. Trata de investigar certo Professor Werner, autor de um livro que lhe infunde suspeitas, especializado na fabricação de salame e surdo quando convém. Para fugir de situações embaraçosas, confunde infame e exame com salame. No final, Adroaldo e Werner se tornam amigos, ainda que este seja suspeito de ter sido correspondente nazista no correr da guerra e, por contraditório que fosse, o único separatista verdadeiro da cidade. Como se vê, o romance tem ação, humor e registra os “devaneios alucinados” do jovem Promotor.

Mário de Andrade estudou as diferenças entre a língua e a fala. Aquela obedece aos cânones e às regras, esta é a maneira como o povo se expressa. No caso do romance, a diferença entre elas é ainda maior e às vezes ininteligível para ouvidos pouco treinados em virtude da influência estrangeira. Nesse aspecto o romance tem um fundo documental.

Saúdo o novel romancista, duas vezes colega, como escritor e membro do Ministério Público, desejando-lhe um futuro de muitas realizações e conquistas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/04/2019 às 15h48 | e.atha@terra.com.br

PITIGRILLI

Como tantos escritores que desfrutaram de grande popularidade, Pitigrilli anda esquecido. Nascido Dino Segre (1883/1975), adotou o pseudônimo cantante com o qual se consagrou e que usou até falecer, em Turim, onde veio à luz e morou a maior parte da existência. Como auto-exilado, residiu por algum tempo na Argentina, porque “gostava de por os pingos nos ii no que escrevia” e, em conseqüência, o ar da Itália estava ficando denso em demasia. Como sempre, ao longo da História, a pena dos escritores incomodava os mandões do momento.

Segundo relatou em suas memórias, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, saiu de casa, certa manhã, com a intenção de se matricular no curso de medicina. Como a fila estava muito longa, acabou se matriculando na Faculdade de Direito, ainda que jamais tivesse a menor intenção de fazer uso do diploma. Não tardou a se destacar como cronista, contista e romancista, e seus livros obtiveram grande aceitação, impulsionados também pela figura curiosa e carismática do próprio autor. Vários de seus livros se transformaram em best-sellers mundiais e conquistaram considerável público no Brasil, onde foram traduzidos e publicados pela extinta Editora Vecchi, do Rio de Janeiro.

Entre suas obras mais conhecidas alinham-se “A loura dolicocéfala”, cujo título vulgarizou a expressão e a colocou na boca do povo, “Cocaína”, no qual descreveu com humor e acuidade suas experiências com o uso da droga, fato raro na época, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, autobiografia escrita com ironia e onde revelou, ao final, suas preocupações místicas e certa inclinação pelo espiritismo. Publicou ainda um volume de crônicas saborosas, dentre as quais se destaca “ite” e “ose”, comentando as enfermidades agudas e crônicas, reais e imaginárias. Também fez sucesso entre nós o romance “O farmacêutico a cavalo”, tremenda sátira aos heróis consagrados, em especial nas pequenas comunidades. Traduzido por Marina Guaspari, renomada tradutora da época, foi publicado em 1951 num daqueles feios volumes da Editora Vecchi, em papel escuro, áspero e grosso.

Esse romance relata a história de uma cidade que, de repente, se deu conta de que não possuía nenhuma estátua glorificando algum herói da terra. Começam, então, as discussões sobre o local e o tipo do monumento a ser erigido em praça pública. Ficou decidido que seria uma estátua equestre, como convém a toda cidade que se preze, esculpida em puro bronze, de preferência com o homenageado apontando a espada para o alto. Muitos e inflamados foram os debates mas, afinal, chegou-se ao consenso.

As dificuldades surgiram mesmo na escolha do conterrâneo a ser homenageado, ou melhor, em encontrá-lo. O primeiro foi descartado porque se descobriu que era estrangeiro; o segundo foi deixado de lado porque não gozava de reputação ilibada; o terceiro, enfim, havia escrito coisas ofensivas à cidade. E assim, de exclusão em exclusão, chegaram à melancólica conclusão de que não havia a quem homenagear. Até que alguém, num rasgo salvador, se lembrou do farmacêutico, cidadão pacato, ilibado, trabalhador, acima de qualquer suspeita. Mas um farmacêutico a cavalo numa estátua em praça pública? Absurdo! Depois de novas e intermináveis discussões, a explicação foi encontrada: o cavalo estaria com as patas dianteiras dobradas, como se estivesse inclinado, e seu cavaleiro com os olhos fitos no solo. Como cientista e pesquisador da farmacologia, estaria procurando ervas naturais que pudessem enriquecer suas curativas poções medicinais. E, naturalmente, a espada foi esquecida.

Dessa forma, entre vivas e discursos, foi encontrada solução. A cidade orgulhosa passou a contar com uma grande estátua equestre no principal logradouro, inaugurada com muita solenidade, homenageando um filho modesto mas legítimo e inatacável. É claro que a cidade em questão não era brasileira; aqui teríamos heróis aos montes e a dificuldade seria decidir qual deles ocuparia o honroso posto.

Para evitar que o leitor apressado vá direto ao desenlace, o romance tem a curiosidade de começar pelo capítulo sexto e todos os demais estão fora de ordem. Essa tática nasceu ao ver uma leitora, no bonde, abrindo com espátula as páginas finais de um livro, desprezando todo o esforço do autor para armar o seu enredo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2019 às 23h59 | e.atha@terra.com.br

A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

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(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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