Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Uma história de ódio e resistência

Maura Palumbo, advogada e empresária paulista, vem se dedicando há muitos anos ao estudo da II Guerra Mundial e ao holocausto provocado pela chamada solução final do problema judaico. Tornou-se uma expert no intrincado assunto e agora vem colocando em livros os resultados dessas intensas pesquisas. Sua primeira obra abordando o tema é o romance de fundo histórico “O perfume das tulipas” (Duna Dueto Editora – S. Paulo – 2017), que acabo de ler com intenso e crescente interesse. É um livro alentado (350 páginas) que prende o leitor do começo ao fim. Fica claro que a autora tem o fôlego e a paciência indispensáveis para os textos longos como os romances. Não é por acaso que já se anuncia a segunda edição do livro.

Na cidade de Berlim do início do século passado vivia em paz uma família. O marido, holandês de nascimento, cultivava com o maior carinho um canteiro de tulipas; a esposa, pintora de mérito e modista, se dedicava também às atividades domésticas. O gosto pelas tulipas soava algo estranho porque tais flores são reconhecidas mais pela beleza que pelo perfume. Todos eram cidadãos alemães e alguns de seus parentes haviam lutado na I Guerra Mundial pela Alemanha e até pereceram em combate. Consideravam a Alemanha sua pátria e nela viviam e labutavam como quaisquer outros nativos do país. Mas eram judeus e isso marcaria seu destino, submetendo-os ao ódio desvairado e ao medo constante, exigindo imenso esforço para resistir e tentar a sobrevivência.

Eis que surge no horizonte uma nuvem ameaçadora. Adolf Hitler começa a ganhar espaço no panorama político com sua pregação nacionalista e ataques aos judeus, a quem atribuía todos os males do país em crise. Ganha adeptos, lança suas ideias a respeito do espaço vital e insinua a necessidade de uma vingança contra os que derrotaram a Alemanha na I Guerra Mundial, rebaixando-a e humilhando-a. Na prisão, onde esteve por alguns meses, escreve sua cartilha nazista, o “Mein Kanpf”, que é difundido à larga. Judeus mais precavidos, prevendo o pior, tratam de emigrar para lugares seguros. Mas a família em questão é patriota e continua em sua vida normal. O Partido Nacional Socialista, embora perdendo as eleições, já é o segundo do país e não cessa de crescer. Vai conquistando mais e mais seguidores. Em 30 de janeiro de 1933 o presidente Hindenburg nomeia Hitler chanceler da república. Em março o chanceler assume o total controle do governo com poderes ditatoriais. O medo se instala no coração de todos os judeus, apontados como inimigos da nação. Começam a entender que não há mais lugar para eles no país.

As restrições às atividades dos judeus vão num crescendo incontrolável e absurdo. Funcionários públicos dedicados são enxotados de seus cargos, professores e profissionais liberais proibidos de exercer as profissões. Todos os meios são usados para marginalizar os judeus, menosprezados e humilhados em toda parte. A pregação contra eles é constante, maciça, verdadeira lavagem cerebral. Queimas de livros de autores judeus acontecem em macabros autos-de-fé. Obras de Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx, Nelly Sachs, Thomas e Heinrich Mann, Walter Benjamin, Alfred Kerr, Robert Musil e Ricarda Huch, além de muitos outros, ardem nas fogueiras. Não importa o que contenham e o valor de suas lições. São maculados pelas mãos judaicas que os escreveram. É o desvario do ódio e da intolerância.

No plano exterior a guerra vingadora prosseguia vitoriosa. Os exércitos de Hitler dominavam países com extrema facilidade e tudo indicava que dominariam o mundo. Áustria, Tchecoslováquia, Holanda, Bélgica, Grécia, Iugoslávia, França... tudo sob o domínio do Fuhrer. O mundo tremia ante a perspectiva de uma dominação global pelas tropas germânicas. É declarada a guerra contra a União Soviética, cuja derrota estava prevista para cinco meses com a destruição de São Petersburgo. Mas uma coisa é planejar a guerra num gabinete, outra é encarar a realidade. Então tudo começa a mudar. A resistência russa é espantosa. Os Aliados, por sua vez, invadem a Normandia e as tropas alemãs começam a sofrer derrotas. O curso da guerra começa a virar.

Nervosos e agitados, os dirigentes alemães intensificam a solução final. Crescem as deportações, os campos de concentração e extermínio funcionam a pleno vapor e milhões de judeus são executados. Homens, mulheres, crianças, velhos, doentes, ciganos, deficientes, doentes mentais viram fumaça ou são sepultados em valas comuns. Figuras sinistras comandam o grotesco esforço para aniquilar uma raça. Mas a derrota é inevitável, os bombardeios sobre Berlim são terríveis e as tropas soviéticas se aproximam de Auschwitz. Cumpre, então, destruir os vestígios da matança e todas as medidas são tomadas nesse sentido, entre elas a marcha forçada de seres desesperados e famintos. É tarde, porém, e a rendição acontece.

Padecendo toda sorte de sofrimentos, a família de Zacharias Von Hart luta pela sobrevivência. Vale-se de toda sorte de expedientes para fugir dos perseguidores. E o desfecho do romance é imprevisível, deixando o leitor em permanente suspense. “Um dia todos sentirão o perfume das tulipas” – vaticinava ele.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/09/2017 às 09h41 | e.atha@terra.com.br

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Ao pé do velho rádio

 Escritor e jornalista experimentado, Danilo Gomes acaba de dar a público um livro  interessante e, ao mesmo tempo, indefinível (*). É uma coletânea de textos que, no fundo, soam como páginas de memórias de acontecimentos vividos e de livros que foram lidos com deleite e deixaram marcas indeléveis. O propósito inicial estava em realçar três figuras marcantes na vida do autor e entrelaçar as relações entre elas: Juscelino Kubitschek, Odilon Behrens e Augusto Frederico Schmidt. Esse trio, de uma forma ou outra, conviveu entre si e com ele o autor manteve relações mais ou menos próximas, pessoais ou através de leituras, e se confessa fiel admirador de todos seus integrantes.

No correr das páginas do livro o autor aborda aspectos biográficos, as atividades de cada um deles, suas realizações, facetas de suas personalidades e o mais. No conjunto, porém, avulta a figura do poeta e memorialista Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), de cuja obra o autor tem sido um leitor aficionado.

Poeta e prosador de talento, Schmidt era um homem múltiplo. Escritor, editor, diplomata, empreendedor, foi assessor de Juscelino e autor de muitos de seus discursos. Figura controvertida, criticado com dureza pelos nacionalistas que viam nele um entreguista a serviço da banca mundial. Não obstante, tinha um faro extraordinário para descobrir escritores ainda inéditos, tendo publicado vários autores que depois se consagraram no mundo das letras, entre eles Graciliano Ramos. Conta-se que, ao ler os célebres relatórios do então prefeito de Palmeira dos Índios, teria afirmado que ele tinha algum romance na gaveta e nisso estava absolutamente certo.

Sempre elegante, ainda que gordo, Schmidt era dono de uma gargalhada fácil, embora na verdade fosse um nostálgico e melancólico, segundo depõem os que o conheceram de perto cujos depoimentos são trazidos pelo autor. O poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens Filho, por exemplo, escreveu: “De Augusto Frederico Schmidt me fica a lembrança de alguém extrovertidamente triste e nostálgico. Nada mais enganador que a sua ruidosa gargalhada...” (p. 52).

De uma viagem à Indonésia, ele e a esposa trouxeram um filhote de galo, muito branco e de crista vermelha. Tratada com desvelo, a bela ave vivia saltitando pela casa, inclusive sobre a mesa do escritório. Coq, como o tratava a mulher de Schmidt, se tornou famoso e seu dono ficou conhecido como o Poeta do Galo Branco, título que daria a um de seus livros de memórias. Muitas fotos em que aparece o célebre galo foram publicadas, até mesmo na capa de uma antologia poética de seu dono.

A poesia de Schmidt conquistou incontáveis leitores e mereceu a aclamação da crítica. Também seus livros de memórias – “O galo branco”, “As florestas” e “Paisagens e seres” – obtiveram a melhor acolhida. “Saudade de coisas perdidas, - escreveu ele – de objetos do passado, de velhos móveis, de ruas antigas por onde não mais passarei talvez. Saudade de amigos mortos, de amigos de infância, que não reverei. (...) Saudade do que não fui, de tudo o que desejava ter sido e não fui. Dos sonhos, das ilusões, do desejo de conforto modesto e de paz que não me coube. Saudade dos filhos que não tive.” (p. 39). Como acentua o autor, o poeta “foi um paradigma do melancólico, do saudosista, do nostálgico incurável” (Idem).

Mesmo tendo vivido tão pouco, Schmidt conquistou posição de destaque em nossas letras e se colocou entre os grandes poetas da literatura nacional. Por tudo isso, muito bem fez Danilo Gomes ao retirá-lo de tão injusto ostracismo.

No correr destas páginas outro tema ocupa as reminiscências do autor. Trata-se da construção de Brasília, projeto que vinha de longe em nossa história e no qual poucos ainda acreditavam. Acompanhando ao pé de um velho rádio Telefunken, o menino de Mariana, se emocionava com o arrojo e a firmeza com que JK tornava realidade a nova capital brasileira. Nem de longe imaginava que um dia, com a mulher e o filho, vindo de Belo Horizonte, “desembarcaria na Rodoviária do Plano Piloto para morar e trabalhar na Capital que então se inaugurava, no meio das nossas lágrimas” (p. 92).

Na abertura do livro, Danilo Gomes homenageia com justiça os cronistas brasileiros de ontem e de hoje. Muitos deles li ao longo da vida. Henrique Pongetti, Stanislaw Ponte Preta, Otto Lara Resende, Rachel de Queiroz, tantos e tantos outros... Que falta eles fazem!

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(*) “Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek. Odilon
Behrens”, de Danilo Gomes, Brasília, Gráfica e Editora Leal, 2017.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 12/09/2017 às 14h22 | e.atha@terra.com.br

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A voz dos pampas

Advogado e escritor, Israel Lopes é um pesquisador incansável, daqueles que se debruçam sobre um tema e o esquadrinham até o limite. Admirador de Pedro Raymundo (1906/1973), vem se debruçando há longos anos sobre a vida e a obra do cantor/compositor que se transformou na voz dos pampas. Afora outros trabalhos publicados, incluindo livros, lançou o volume “Pedro Raymundo e o canto monarca” (Letra & Vida Editora – Porto Alegre – 2013), minucioso e fundamentado levantamento biográfico do músico e sua produção, tendo como pano de fundo um amplo panorama da música regionalista, nativista e missioneira. Com esse ensaio primoroso, o autor resgata do ostracismo um artista que empolgou grande massa de admiradores em todo o país e fez escola na sua área de atuação. “As mídias televisivas, os jornais, as rádios e as revistas de hoje, na grande maioria, não divulgam esses artistas do passado. Somente nós, que somos idealistas, é que divulgamos esses artistas que tanto fizeram por nossa cultura musical” – escreve ele em justificado desabafo. Como em tudo o mais, a falta de memória brasileira também atinge o setor musical. Mas é fora de dúvida que Israel Lopes domina com segurança o assunto e tem ampla visão do panorama musical, seus expoentes e suas obras.

Pedro Raymundo era filho de Santa Catarina, nascido na cidade de Imaruí, ao sul do Estado, mas se tornou um catarinense agauchado, abraçando com fervor a cultura popular do vizinho Estado, ainda que algumas de suas composições indiquem que nutria saudade do chão natal. Filho de pescador e músico, desde muito cedo revelou pendores para a música e com poucos anos de idade já dedilhava uma sanfona de oito baixos, presente paterno. Estudou por algum tempo e exerceu várias atividades até decidir se transferir para o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, seu primeiro emprego foi o de condutor de bondes até que começou a se apresentar como músico, tocando uma “gaita de botão” (cromática?). Começou executando jazz, cedendo à moda da época, antes de abraçar o cancioneiro gaúcho. Aos poucos foi conquistando espaço nas emissoras de rádio e granjeou fama em todo o país. Com a ajuda de amigos, vai tentar a sorte no Rio de Janeiro onde, aos poucos, as portas se abrem. Seguem-se as apresentações em grande estilo, gravações de discos, publicações de músicas de sua autoria, entrevistas e reportagens. Torna-se um ícone da música regional gauchesca festejado em toda parte. “Adeus Mariana” é seu primeiro sucesso nacional. Apresenta-se nas rádios Tupi, Mayrink Veiga, Nacional, Tamoio e Globo. Excursiona pelo país levando a música regional. É uma carreira vitoriosa que se estende por longos anos.

Passo a passo, o biógrafo rastreia a trajetória do artista e suas obras. Locais onde se apresentou, conjuntos a que pertenceu, personalidades com quem se relacionou, tudo é revelado em minúcia sem esquecer os eventos do momento histórico vivido. O livro é rico em documentos e fotos, muitas delas retratando o artista com seus companheiros e conhecidos, sempre vestido no rigor da moda gauchesca. São lembrados inúmeros outros músicos e compositores com os quais Pedro Raymundo travou relações.

A realização da obra exigiu ampla e prolongada pesquisa. É impressionante a quantidade de fontes e referências consultadas. Trata-se, enfim, de um trabalho modelar que dignifica o biografado e enaltece o seu autor. Está de parabéns o pesquisador gaúcho por tirar do ostracismo um artista de tanto talento e que jazia esquecido.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/09/2017 às 11h13 | e.atha@terra.com.br

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Lima Barreto na memória alheia

Camilo Castelo Branco, o genial romancista português, dividia os livros em duas categorias: missal (grandes) e cartilha (pequenos). Pois acabo de receber um missal de 810 páginas que me foi oferecido por José Ribamar Garcia, renomado advogado trabalhista no Rio de Janeiro e escritor, integrante da Academia Piauiense de Letras. O cartapácio contém a biografia de Austregésilo de Athayde (1898/1993), jornalista, escritor e presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) por longos anos. “O século de um liberal” (Editora Agir – Rio – 1998), de autoria de Cícero Sandroni e Laura Constância Sandroni, recupera a longa e movimentada vida de um dos mais ativos jornalistas brasileiros, ligado ao grupo dos Diários Associados e, por muito tempo, seu presidente.

Dentre as múltiplas personalidades com quem conviveu, destaca-se o escritor Lima Barreto (1881/1922), de quem foi amigo e confidente nos anos de juventude e que é evocado com saudade inúmeras vezes. Desde moço, ainda preferindo os clássicos, ele já manifestava franca admiração pelo escritor de Todos os Santos.  “Apesar de ler os escritores de seu tempo que a Igreja condenava, entre os quais o de sua preferência era Lima Barreto, ele continuava admirando os que ainda escreviam pelos cânones do século anterior” (p. 109). Essa admiração por Lima Barreto perduraria por toda a vida.

Relata o jornalista que foi visitar a redação do jornal “O País”, de João Lage, na esperança de obter uma colocação. Na saída, deparou com Lima Barreto. Em conversa, fez observações sobre “Policarpo Quaresma” e ele agradeceu. Mas, ao saber que o jovem pretendia ser jornalista, disse o seguinte:

“-Não vale nada. Ou se deixa para ser outra coisa ou se fica na miséria toda a vida. A menos que você tenha talento de cavador... Quando quiser encontrar-me vá ao Café São Paulo, por volta das cinco. Se eu não tiver chegado, espere, eu não tardarei.”

Mais tarde voltou a encontrar o escritor e o conselho se repetiu.

“-Não é negócio.  Peça a seu tio um lugar de amanuense nalguma repartição.  Encaminhe-se para a Prefeitura ou à Central do Brasil.”.

O rapaz alegou que não tinha vocação para o serviço burocrático.

“- Asneira, rapaz  asneira -  disse ele. – Não há nada melhor. É um ponto de partida. Todo mundo aqui no Rio é ou já foi funcionário público. O Machado passou a existência inteira mamando no Tesouro. O Bilac, o Neto, o Alberto de Oliveira... Todo mundo...” (pp. 126/127).

Como se vê, Lima não nutria nenhum apreço pelo jornalismo profissional. Talvez fosse uma reação à maneira como fora tratado por um dos grandes jornais da época onde seu nome era proibido. Também fica claro que o ponto de encontro dos dois, daí por diante, seria o Café São Paulo.

Logo depois ele registra a implicância de Lima Barreto com o futebol. Para o escritor, tratava-se de uma “invasão inglesa em nossa cultura”, um jogo para brutos, a que ele chamaria de “bolapé”, com visível sentido pejorativo.

Ao tomar conhecimento de que o futuro jornalista havia pedido a Coelho Neto o prefácio para um livro, Lima Barreto ficou irritado. “Prefácio que lhe valeu, naquele mesmo ano, descompostura de Lima Barreto. Quando soube da história, o escritor disse a Belarmino (*), muito irritado, que só um cretino chapado pediria prefácio a Coelho Neto; e quanto a considerar-se discípulo de Machado de Assis, não passava de grande estupidez” (p. 139).

Apesar dos arroubos limanos, que tolerava com paciência, sua opinião a respeito dele era a mais positiva. “Os passadistas permaneciam voltados  para a forma, o verbalismo, o fraseado pomposo e a literatice; os novos, como Lima Barreto, desde 1909, com a publicação de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, anunciavam a presença de um espírito inconformista nas letras brasileiras” (p. 140). Ele já antevia, em relação a Lima, o que a grande crítica mais tarde consagraria.

Os encontros com Lima Barreto continuaram.

Um deles aconteceu na esquina da Rua do Ouvidor com a Avenida. “Com a barba por fazer, olhos injetados, roupa suja e em desalinho, Lima mostrou-se paternal... Mas, ao saber que o rapaz conseguira um lugar n’A Tribuna, comentou:

- É burrice meter-se num jornaleco. Você nem parece nortista...” (p. 142).

Em outra ocasião, o aspecto de Lima era desolador. O encontro foi no Café São Paulo e “Lima Barreto estava sentado numa cadeira do fundo com as mãos entre as pernas e a cabeça pendendo. “

Nesse encontro, recomendou ao jovem que não ingressasse em rodinhas literárias, com Coelho Neto e Paulo Barreto (nunca o chamava de João do Rio) e o pessoal do Correio da Manhã.

“ - Essa gente toda não presta para nada e não bota ninguém para diante” – afirmou ele.

Falou mal dos padres e da Igreja. Declarou que não gostava de Cruz e Sousa. Afirmou que seguir Machado constituiria um erro e que “literatura só é genuína quando nasce do povo” (pp. 142, 143, 144 e 145).

Lima Barreto já revelava a decadência de seus últimos anos de vida, embora sua revolta continuasse a mesma.

O livro prefaciado por Coelho Neto nunca foi publicado. Os originais foram consumidos por um incêndio na editora, em Portugal.   

Austregésilo travava uma polêmica com Antônio Torres, crítico severo e sem papas na língua, quando voltou a se encontrar com Lima Barreto.  Ele tornou a aconselhar o jovem a deixar o jornalismo e entrar para o serviço público. Afirmava que trabalho em jornal “só serve para os diretores” e “não dá nada e tira tudo.”  Depois declarou que havia lido um artigo de autoria dele e o considerava grosseiro, tendo o autor do artigo informado que escrevera quando estava irritado. “Quando estiver irritado, não escreva – respondeu o escritor. – No ímpeto da cólera perde-se a noção da dignidade pessoal.”  Em seguida, informou que iria cedo para casa porque andava com dores de cabeça. Recomendaram-lhe que mudasse de vida, disse, mas não pretendia mudar. O pior que poderia acontecer seria morrer e, ainda que a ideia de morrer não o agradasse, não tinha medo da morte. “Afinal, todos morrem.” Ao se despedir, declarou: “Não dê importância às minhas impertinências. Sobretudo não me tome nunca para exemplo...” (pp. 150/151/152);

Aproximando-se as eleições, concorriam Epitácio Pessoa pela situação e Rui Barbosa pela oposição.  O jovem jornalista abraçou de pronto a candidatura do Conselheiro, já derrotado em duas eleições anteriores. Mas o amigo Lima Barreto não concordava: “Lima Barreto era contra os dois candidatos, especialmente contra Rui, de quem discordava do estilo, da linguagem, do liberalismo, das aspirações políticas e do papel que representara no começo da República. Nas conversas no Café São Paulo exprimia seu desagrado em termos veementes...” Para ele, ambos os candidatos eram ruins e Epitácio era ainda pior porque sob o verniz do jurista estava o cangaceiro da Paraíba.

A posição do escritor diante das duas candidaturas conservadoras não era de admirar. Considerando-se maximalista e adepto de uma revolução social no país, Lima não poderia abraçar qualquer delas. “Considerava a sociedade brasileira preconceituosa e injusta, cheia de muitos vícios oriundos de nossa formação lusitana. Precisamos botar tudo isso abaixo! – proclamava. Depois declarou que tencionava mudar-se para a Rússia ou o Paraguai... (pp. 157/158).

“Na noite de Natal de 1919, - escrevem os autores – Lima Barreto foi levado pela segunda vez para o Hospício Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, e submetido a tratamento com “purgativo e poção gomosa de ópio; ali ficou até 2 de fevereiro de 1920. “Estou seguro de que não voltarei a ele pela terceira vez; se não saio dele para o São João Batista, que é próximo”, escreveria Lima mais tarde, em “Cemitério dos Vivos” (p. 159).

A saúde do escritor se agravava a olhos vistos em consequência do reiterado alcoolismo.

Em 18 de janeiro de 1921. Austregésilo elogia em artigo crítico o livro “Histórias e Sonhos”, de Lima Barreto. Este, em carta, agradece: “Meu caro Dr. Austregésilo de Athayde. Saudações. Agradeço-lhe muito a bondade que teve, dirigindo-me a carta aberta que A Tribuna publicou em 18 último. Quisera saber dos termos da excomunhão que mereci do padre-mestre Tadeu...” Estende-se para “definir certas posições intelectuais” e por isso “deveria revestir-se de seriedade.” Indagado, mais tarde, porque havia escrito de maneira tão formal, respondeu que não via nada de formal, pois “precisava deixar aquele documento. Não foi para agradecer nada... E ficou silencioso, com as pernas molemente cruzadas, batendo com o dedo mínimo na mesinha...e então disse: - E não me chame de mestre. Não pense que eu sou o Neto ou o João do Rio, que gostam de discípulos,   de encaminhar rapazes, de fazer escolas... E passou a insultar com palavras grosseiras todas as igrejinhas literárias de então” (pp. 172/173).

Lembrando que Austregésilo era professor de Latim e Grego, Lima Barreto comentou: “Aulas de latim... aulas de latim... Burrice estar ensinando estas coisas aos meninos. Você ensinando latim, sabendo grego e escrevendo n’A Tribuna acaba como o velho Ramiz Galvão...” E deu uma gargalhada rouca, fechando a boca com a mão direita, num acesso de tosse.

Nesse ponto o jornalista  fornece um retrato impressionante do escritor naqueles dias. É um depoimento que nunca encontrei em biografias ou ensaios sobre Lima e que vale a pena transcrever.

“Até que chegasse ao estado de loquacidade que tornava tão agradável a conversa, - escreveu ele – Lima Barreto atravessava um período de confusão, em que as palavras saíam pastosas, interrompidas, e as frases sem sentido, Deixava pender a cabeça, minutos seguidos, quase sobre os joelhos e, de quando em quando, a erguia para uma exclamação insultuosa dirigida a pessoas ou coisas que não estavam em causa. Era preciso ter paciência, ouvir sem réplica, esperar que o mecanismo de seu espírito engrenasse na continuidade de pensamentos e raciocínios, o que demorava algum tempo. Creio que o assunto surgiu na sua plenitude quando falei de certo manifesto do Clarté, assinado por Anatole France. À menção do nome, Lima Barreto encrespou-se e, como se ali eu houvera proferido uma injúria enorme, impeliu-me com a mão insegura e aos berros:

- Não me fale desse homem! É um falsário. É um castrado. Deus tirou-lhe a força da criação. Um simples fazedor de bonecos, falando parlapatices, tiradas dos filósofos da decadência grega, Admira-me que você, um menino ainda com o cheiro dos cueiros, me venha aqui tomar esses ares de desalento e mentiroso cansaço do mundo.

E enfático:

- De hoje em diante não fale mais comigo – ordenou.

Mas como eu tinha de pagar as despesas, aí por uns três mil-réis, voltamos às boas e saímos juntos rumo à Central do Brasil, passando pelo Largo de São Francisco.

E, enquanto andávamos, prosseguiu nos insultos contra aquele que era considerado então o Patriarca da Literatura Universal, em substituição a Tolstoi. Em certo momento ele voltou-se para mim e disse, entre irado e ao mesmo tempo carinhoso, agressivo, mas tentando disfarçar a ternura pelo jovem companheiro:

- Você, com esse Anatole na cabeceira, parece usar sobrecasaca de desembargador de Minas no espírito e lenço de Alcobaça para limpar o rapé.

Eu sorri da comparação, até porque achava que ele tinha um pouco de razão. Também não adiantava responder a Lima Barreto, que não escutava argumentos e cortava logo a pretensão do interlocutor de contradizê-lo usando um vocabulário de pura inspiração rabelaisiana. A verdade é que recebi um sacolejão nas minhas convicções de admirador de Anatole. O primeiro, não porém o definitivo” (pp. 173/174).

Em 1921, na revista Careta, Lima Barreto anunciava sua intenção de concorrer à Academia Brasileira de Letras na vaga de João do Rio. “Sou candidato à Academia. Creio que minha candidatura é perfeitamente legítima” – escreveu. Mas em setembro retirou a candidatura “por motivos particulares e íntimos” (p. 175). Lima jamais entraria para a Academia, mais por seu modo de vida que pela cor da pele – dizem os críticos.

Relata, mais tarde, outro encontro com Lima Barreto. “O melhor seria ir ao Café São Paulo para ver se Lima Barreto ainda estava lá. O bar estava cheio de fregueses que haviam tomado uma xicarazinha de café e ficavam  horas conversando. A maioria falava de futebol ou de corridas de cavalos. Alguns de política. Lima Barreto estava sozinho, encolhido, com as pálpebras meio descidas. Cheguei perto do escritor e saudei-o. Recebeu-me resmungando coisas ininteligíveis, com enfado e evidente vontade de expulsar o intruso. Disse depois que assentasse e mudou de humor. Lera um artigo meu sobre Coelho Neto e observou-me que nunca vira tanta sandice em letra de forma.

- Quando é que vocês vão compreender que o Neto não é literato?

Lima Barreto tinha raiva quase irracional de jogador de futebol, e xingava os jogadores mais famosos. Achava atitude imbecil assistir a onze sujeitos de um lado e onze do outro procurando lançar uma bola a gol, e haja a dizer palavras candentes contra os torcedores. Concentrava seu ódio em Coelho Neto, com quem, por motivos literários, implicava e atribuía-lhe toda a culpa pela popularização e prestígio das pelejas desportivas no Brasil.

Lembro-me que certa vez achei que deveria contrariá-lo, defendendo Neto e o futebol. Exasperou-se, cobrindo-me de invectivas. Como era do meu hábito, não lhe respondi, nem valia a pena, pois Lima era irredutível nas suas ideias e preconceitos, como, por exemplo, sua ojeriza a padres, frades e freiras, aos quais atribuía todos os males do mundo.

Embiocava entre os braços, fechava os olhos e ia distribuindo, entre dentes, descomposturas indiscriminadas. Queria mudar-se para a Cochinchina. Entrecortava longos silêncios com adjetivos contra o mundo em geral. Depois, levantava-se de súbito e dizia-me:

- Paga aí essa despesa...” (p. 176).

Os conselhos de Lima para o jovem jornalista escrever num grande jornal calaram fundo e desde então começou a batalhar por isso.

Quanto ao futebol e os esportes em geral, Austregésilo estava mais para Coelho Neto que para Lima Barreto. Gostava da vida ao ar livre, dos banhos de mar e das caminhadas pela areia da praia, ao contrário dos literatos em geral. Acompanhava os campeonatos e até chegou a ser confundido com célebre jogador de futebol (p. 179). Creio, porém, que não teria coragem de confessá-lo a Lima Barreto.

Num dos últimos encontros com Lima Barreto, no Café São Paulo, o escritor falou:

“- Você anda por aí com o Graça, o Ronald e com outros malucos e beócios. Então você ficará burro e safado!

E repetiu com voz cada vez mais sumida  os dois últimos insultos” (p. 188).

 Nas suas conversas, o jornalista conjeturava sobre a Semana de Arte Moderna, cujos ecos agitavam os meios culturais. “Parecia-nos que da destruição dos valores antigos  surgiria a linha de renovação e da autonomia literária do Brasil, especialmente nas obras de Lima Barreto, Adelino Magalhães e Monteiro Lobato” (Idem).

No dia 1º. de novembro de 1922, justamente no ano da Semana, falece Lima Barreto. Tinha 41 anos de idade. “Os arquivos de Austregésilo de Athayde não guardam qualquer artigo ou nota sobre a morte de Lima Barreto. Na coleção d’A Tribuna, na Biblioteca Nacional, faltam exatamente os exemplares de 2 a 5 de novembro de 1922, dias em que possivelmente Athayde escreveu sobre o seu companheiro de conversas no Café São Paulo” – dizem os biógrafos (p. 196).

Muitos anos depois, Athayde relatou que Lima Barreto e Artur da Costa e Silva conviveram por algum tempo no Hospital Central do Exército, onde o escritor consertava uma clavícula partida. Nessa ocasião Costa contava piadas e casos pitorescos, amenizando os dias de hospital. Lima o considerava inteligente e culto para a idade. Indagado sobre quem era o Costa de quem falava, o escritor respondeu: - Ora essa! O Costa é o Costa e não adiante você saber quem é...” Só mais tarde o jornalista entenderia de quem se tratava (pp. 598 e 599).

Para encerrar, registro um ensaio de Arnaldo Niskier, publicado em importante revista de cunho cultural (**), sob o título de “Lima Barreto, o defensor do tupi-guarani.” Nele o ensaísta acentua que a literatura afro-brasileira é um conceito em construção em nosso país e que a obra de Lima Barreto  não faz parte do programa de nenhum curso de letras. A “cidade letrada” continua fechada para ele como foi em vida.

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(*) Na juventude, Austregésilo era tratado como Belarmino. Seu
nome completo era Belarmino Maria Austregésilo Augusto de Athayde.
(**) “Revista do Historiador”, publicação da Academia Paulista
de História, S. Paulo, Vol. 181, p. 30.

Escrito por Enéas Athanázio, 28/08/2017 às 11h53 | e.atha@terra.com.br

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Lima Barreto em evidência

Afonso Henriques de Lima Barreto (13/05/1881 – 1º./11/1922) foi uma das maiores figuras do pré-modernismo nas letras nacionais. Não obstante, foi em vida um injustiçado. Embora outros escritores e muitos leitores reconhecessem seu talento, nunca foi aceito pela sociedade em geral, observado com desprezo e tido como um boêmio, o que não refletia a realidade. Foi, na verdade, um intelectual sério e encarava com rara consciência profissional sua carreira de escritor. Leitor incansável, lutou com denodo para criar uma obra de valor, ainda que despindo-a da literatice dominante e do hermetismo inacessível. Seu ideal ara uma literatura que chegasse ao povo e pudesse ser absorvida por qualquer pessoa letrada. Postura nem sempre compreendida. Suburbano, como dizia, morador do subúrbio de Todos os Santos, mulato e pobre, nos últimos anos de vida se entregou ao alcoolismo que o matou aos 41 anos de idade.

Lima Barreto cultivava a simplicidade sem ser simplório. Escrevia de forma direta e sem rodeios, expondo suas ideias com clareza e precisão. Com isso, contrariava a opinião de muitos eruditos que viam a cultura em geral e até a alfabetização como um privilégio das classes mais abonadas. O pensador francês Gustave Le Bon, que exerceu grande influência no Brasil, sustentava que “havia evidências estatísticas de que a criminalidade aumentava com a disseminação da educação e de que a escolarização criava inimigos da sociedade.” Lima, ao contrário, previa o surgimento da sociedade de massas e desejava que sua obra chegasse até ela. Mais tarde, Anísio Teixeira e Monteiro Lobato sustentariam que educação é um direito e jamais um privilégio. Além disso, nas suas publicações em revistas e jornais, Lima Barreto praticava uma literatura militante, desancando as mazelas dos políticos da Velha República.   

Neste ano de 2017 os fados têm socorrido o escritor e vários acontecimentos o colocaram em evidência. Foi o homenageado da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), onde sua obra foi debatida por estudiosos, entre os quais Antônio Arnoni Prado, Lilia Moriiz Schwarcz, Felipe Botelho Corrêa, Christian Schwartz, Beatriz Resende, Edmilson de Almeida Pereira e outros. Seus livros foram vendidos e debatidos com o público e muitos episódios de sua vida foram lembrados. Até mesmo o povão da cidade e dos arredores aprovou a escolha do homenageado em quem via um igual. Muitas foram as manifestações publicadas nos jornais nesse sentido. Durante todo o evento foi o centro das atenções.  

Além disso, foi dado a público o livro  “Lima Barreto – Triste Visionário”, de Lilia Moritz Schwarcz (Companhia das Letras – S. Paulo – 2017), monumental biografia crítica do escritor e que exigiu imensa pesquisa da autora ao longo de muitos anos. É um livro com 645 páginas, minucioso e fundamentado, desvendando todos os passos do biografado e analisando toda sua obra. Lastreado em impressionante bibliografia, é bem ilustrado e se impõe desde já como a biografia definitiva do escritor. Antes dela, muito conhecida e aplaudida, destacava-se “A vida de Lima Barreto”, de autoria de Francisco de Assis Barbosa.

Inspirado nesse livro, o repórter Maurício Meireles, do jornal “Folha de S. Paulo”, realizou curiosa reportagem de duas páginas visitando os lugares por onde andou Lima Barreto, conversando com as pessoas e traçando um mapa do Rio de Janeiro de 1911. A Ilha do Governador, a Central do Brasil, o bairro de Todos os Santos, o Cemitério São João Batista, os trilhos da ferrovia, logradouros e ruas palmilhados por Lima Barreto foram visitados, imaginando-se neles Clara dos Anjos, Policarpo Quaresma, personagens do autor, e pessoas com quem conviveu. Publicou interessantes ilustrações e fotos. Foi acompanhado na excursão pela própria autora do livro.

No mesmo jornal, Christian Schwartz e Felipe Botelho Corrêa estamparam o interessante ensaio “Inculta e Bela – Lima Barreto e a busca de uma ficção popular”, onde analisam a obra do carioca “que fez carreira num momento de expansão e de discussão sobre formas de atingir o novo leitorado, opondo-se ao hermetismo e vendo no advento da sociedade de massas a chance de propor mudanças de mentalidade.” É um trabalho bem feito e que evidencia uma das antecipações de Lima Barreto, como diria Gilberto Freyre.    

Está de parabéns Lima Barreto por tantas homenagens recebidas. Atos de pura justiça.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/08/2017 às 20h50 | e.atha@terra.com.br

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O Banco do PTB

Nos começos da carreira de Promotor Público tínhamos a incumbência de dar assistência aos empregados nos seus pleitos trabalhistas. Tratava-se de uma atribuição anômala, imposta por velho decreto-lei da era getuliana, para as comarcas onde não funcionava a Justiça do Trabalho. Embora fosse uma tarefa trabalhosa, eu sempre a exerci com prazer. É que o Promotor, naquelas regiões remotas, constituía a única mão em que os miseráveis explorados poderiam se agarrar na busca de seus direitos miúdos, porque pobre nunca tem grandes direitos. Eles sabiam que dos políticos só poderiam esperar promessas vãs e mirabolantes e que os juízes só agiriam mediante provocação da parte. E quanto aos advogados, é claro que teriam que cobrar honorários porque, afinal, viviam disso. Restava-lhes o Promotor como tábua de salvação.

E eles vinham de longe, dos ínvios, dos socavões, muitas vezes a pé e descalços, molambentos e ressabiados. Pleiteavam quase sempre coisas elementares, direitos básicos não respeitados em virtude da absoluta ausência de fiscalização. Assim, quando eu entrava no Fórum, pela manhã, havia sempre diversos reclamantes à minha espera, sentados num longo banco rente à parede do corredor. Tratava-se do Banco do PTB, como fora apelidado pelos serventuários.

Com a maior paciência eu os recebia, tratava-os com dignidade, ouvia suas queixas e, - mais que isso, - tomava as providências necessárias. Jamais esquecerei a surpresa que lia nos olhos deles quando lhes dava atenção e me interessava pelos seus problemas; os coitados se sentiam gente, talvez numa rara oportunidade de toda uma vida. Depois, quando resolvidas as pendências, vinham os protestos de gratidão e os inevitáveis presentinhos. Por mais que eu recusasse, afirmando que não os aceitava, eles voltavam com alguma oferta das mais modestas como comprovação do reconhecimento. Um deles apareceu com um porquinho limpo e preparado para o forno; outro chegou com uma balaiada de laranjas colhidas a capricho no seu próprio pomar. Dois rapagões morenos e sérios levaram uma carrocinha carregada de lenha picada, do mais puro guamirim, “para enfrentar a friagem do inverno...” Entre constrangido e conformado, só me restava receber aquelas manifestações espontâneas de seres humildes, esquecidos e abandonados nas quebradas dos morros.

Mais interessante, porém, foi a chegada do pato. Numa tarde qualquer apareceu lá em casa um cidadão levando sob o braço um pato vivo. Um pato acinzentado, novo e gordo, bonito de se ver e que logo começou a caminhar pelo pátio, grasnando solitário. Tratava-se de mais um presente trazido de muito longe. Logo todos se apegaram ao pato, as crianças lhe davam milho e ele estava sempre andando atrás delas. Ninguém tinha coragem de tocar na simpática ave e ela foi ficando por ali, com suas penas brilhantes, cada vez mais gorda. Todas as manhãs, quando as crianças saíam para a escola, ficava à espera delas, empoleirado nos degraus da escadinha, sabendo que receberia alguma comidinha.

Os meses passaram e o pato cinzento lá permanecia. Chegou, afinal, a promoção e tivemos que carregar a mudança. Com grande tristeza de todos, o simpático pato foi entregue aos cuidados de um vizinho. Nunca perguntamos e nem quisemos saber do seu destino.

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Republico esta crônica para assinalar o Ano I
da instauração da servidão no país graças à
chamada reforma trabalhista. Justamente no dia
14 de julho, data da tomada da Bastilha, quando
os franceses exigiam liberdade, fraternidade e,
acima de tudo, igualdade.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/08/2017 às 14h18 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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