Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A dolorosa luta pela Independência

Diplomata, historiador e escritor, William Agel de Mello é reconhecido africanista e muito tem escrito sobre a África. Entre seus ensaios, avultam os que abordam a África do Sul, a Tanzânia e a Namíbia.  A respeito desta última, escreveu “O processo de independência da Namíbia”, ensaio substancioso, fundamentado e esclarecedor, ora incorporado ao terceiro volume de suas Obras Completas (Editora Kelps – Goiânia – 2016) e que bem merece um comentário;

Situada na África Meridional ou Austral, à margem do Oceano Atlântico, a Namíbia é uma república com a área superficial de 824.285 Km2 e uma população estimada em 1.781.000 habitantes. Tem a capital na cidade de Windhoek e as línguas faladas são o  africâner, o alemão, o inglês e idiomas tribais. É um dos países mais áridos do planeta e o deserto de Namib, na faixa costeira, funcionou, ao longo da história, como uma espécie de escudo natural contra invasões. Foi o último país africano a obter a independência, libertando-se de longo e penoso colonialismo. Antigamente denominado Sudoeste Africano, foi uma colônia da Alemanha desde 1884 até o término da II Guerra Mundial, quando passou a ser administrada pela extinta Liga das Nações, em consonância com o entendimento da época em relação a territórios pouco desenvolvidos. Em seguida o país foi invadido e ocupado pela África do Sul (RAS), que o recebeu como mandato da Liga das Nações, em nome da Grã-Bretanha. Iniciou-se, então, um longo período de exploração das riquezas do país e violência inaudita contra a população nativa. Extinta a Liga das Nações, a África do Sul se recusou o desocupar o território, transformando-o numa espécie de colônia de fato. Rico em urânio e metais, o território da Namíbia foi submetido a verdadeira pilhagem. Os alemães e depois os bôeres lançaram mão de estratagemas engenhosos para evitar o surgimento de uma consciência nacional. Mantiveram as comunidades étnicas física e intelectualmente separadas, como de resto tem acontecido em regimes autoritários.

O nascimento de uma consciência nacionalista, patriótica ou que outro nome tenha parece inevitável, por mais rígida que seja a repressão, e isso também se verificou na Namíbia. Os espíritos mais atilados começaram a perceber a exploração de que o povo era vítima, a sucção das riquezas nacionais em benefício do colonizador e a servidão disfarçada a que a população foi submetida. Surgem lideranças populares que iniciam a pregação em favor da independência do país. A resistência nacional em oposição ao colonizador toma forma através de chefes tradicionais, da igreja, dos intelectuais e dos trabalhadores dos principais centros do país. O movimento cresce e se transforma em aspiração nacional. A independência de outros países africanos impulsiona a ideia de liberdade.

Para conter o movimento nacionalista, a África do Sul implanta o apartheid no território, tal como o existente naquele país, instituindo os chamados buntustões ou homelands e assim seccionando o país com critérios étnicos. Iniciava-se na inacreditável série de manobras e artimanhas de que lançaria mão para prolongar o domínio sobre a Namíbia, de onde não desejava arredar pé. Manobras e artimanhas capazes de causar inveja aos mais reles politiqueiros, praticadas por longos anos às claras e aos olhos de uma sociedade internacional hipócrita e tolerante.

Com absoluto domínio do assunto e lastreado em impressionante bibliografia, o ensaísta vai desenrolando, passo a passo, o penoso processo rumo à independência. Mostra a revolta de um povo cansado do julgo estrangeiro, superando a violência, os massacres, as invasões, anexações de territórios, a boataria e toda sorte de artimanhas com o objetivo de retardar o inevitável. Conta com o apoio de muitos países, inclusive do Brasil, embora os Estados Unidos, alinhados à África do Sul, procurem criar embaraços. Assim, aos trancos e barrancos, com a supervisão da ONU, a Namíbia realiza sua primeira eleição geral, instala a Assembleia Constituinte e, enfim respira como nação livre e dona de seu próprio destino. A independência se consumou em 21 de março de 1990, portanto é acontecimento de hoje, de nossos dias, da história contemporânea.

A SWAPO, aguerrido partido de oposição ao colonialismo, liderado pelo carismático Sam Nujoma, e que lutava contra ele há muitos anos, obtém uma vitória incontestável nas urnas, tanto para o Executivo como para o Legislativo. Conquistou 41cadeiras num total de 72, derrotando com larga margem o principal adversário, na verdade um preposto da África do Sul. Apesar da opressão e da exploração que sofreu, o Governo independente não se entregou a vinditas ou caça às bruxas. Procurou agir de forma conciliatória, buscando a paz, para realizar as promessas tão aguardadas pela população: reforma agrária, equilíbrio, assistência e justiça social. E assim, depois de sustentar uma luta árdua, conquistou a duras penas o direito de agir com inteira liberdade, como país independente e soberano.

A história da Namíbia, se conhecida pelos nossos homens públicos, na hipótese de que lessem alguma coisa, seria um notável exemplo para nós, brasileiros. Conquistamos a independência sem sangue e com pouco esforço, ao contrário dela, cujo povo sofreu, foi espoliado, perseguido e humilhado, mas nunca deixou de defender o patrimônio nacional. Enquanto aqui a soberania nacional é alienada às claras em favor de interesses subalternos da politicalha. 

Escrito por Enéas Athanázio, 30/04/2018 às 11h57 | e.atha@terra.com.br

Nossa embaixadora

Mineira de Belo Horizonte, Teresinka Pereira está radicada há longos anos nos Estados Unidos. Escritora, poeta e conferencista de larga experiência, ela é uma presença forte na imprensa cultural de muitos países, inclusive do Brasil. Mantém uma extensa rede de intercâmbio com escritores, poetas, artistas, professores, intelectuais e figuras de destaque de todos os cantos do mundo, empenhada sempre em divulgar os brasileiros, enviando suas obras, comentando-as e divulgando-as num trabalho incansável e permanente. Também viaja com frequência para proferir palestras, lançar livros e manter contatos diretos com a intelectualidade. Graças ao seu empenho, muitos escritores e artistas brasileiros ficaram conhecidos em outros países e estabeleceram relações profissionais e de amizade com colegas de ofício de distantes regiões do planeta. É por isso que se reconhece em Teresinka a embaixadora das letras e artes nacionais.

Há muitos anos ela preside a International Writters and Artists Association (IWA), entidade internacional que congrega escritores e artistas de todo o mundo. Fundada em 1978, com sua sede em Toledo, Ohio, tem como língua oficial o inglês, embora também opere em francês, espanhol, italiano e português. Em virtude de seus objetivos universais, ela mantém diretores em diversos países, como Estados Unidos, Rússia, República Checa, Cuba, Turquia, Tunísia, Algéria, Coréia, Japão e Brasil.

Além das atividades no campo cultural, a IWA luta pela defesa dos direitos e liberdades consagrados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pelo respeito a todas as culturas e tradições étnicas, à completa liberdade de expressão, e propugna por um mundo mais justo. Combate o racismo, o sexismo, o tribalismo, o preconceito contra os idosos e todas as outras formas de preconceito. Empenha-se em cultivar os valores que conduzem à felicidade do ser humano. Trata-se, portanto, de uma entidade com profundas raízes democráticas.

É ardorosa defensora do meio ambiente, pregando que a “Terra não é mais do que uma grande nação e a raça humana é o conjunto dos cidadãos de todo o mundo.” Lembra o pensamento do associado espanhol Luis Cuevas Lopez: “Só depois de cortar as últimas árvores, depois de envenenar o último rio, depois de pescar o último peixe, aprenderemos que o dinheiro não é comestível.” Com tão justa e correta advertência, busca conscientizar as pessoas para que preservem o mundo em que vivemos.

Como entidade com ramificações mundiais, a IWA faz indicações para o Prêmio Nobel de Literatura e para o Prêmio Nobel da Paz, além de indicações para premiações de outras categorias. Anuncia e apóia concursos de literatura e artes que concedem prêmios a escritores e artistas patrocinados por diversas organizações. Prestigia e homenageia escritores e artistas anônimos, tirando-os do ostracismo.

A IWA conta atualmente com 1760 associados, distribuídos em 156 países, contando entre seus membros com figuras de grande destaque, como detentores do Prêmio Nobel da Paz e de Literatura, chefes de estado, acadêmicos, professores, escritores, poetas, artistas e intelectuais de variadas áreas, inclusive muitos brasileiros. A entidade ainda confere prêmios de diversas categorias.

Tive o prazer de receber em minha residência a visita de Teresinka Pereira em uma de suas vindas ao Brasil, levando-a a conhecer recantos de nossa cidade e de Blumenau. Na ocasião ela concedeu entrevistas à televisão e a uma de nossas emissoras de rádio sobre as atividades e os objetivos da IWA. Espero recebê-la em sua nova vinda ao país, ocasião em que pretendo levá-la à redação do nosso “Página 3.” Participei com contos de minha autoria em duas coletâneas por ela patrocinadas, uma em inglês e outra em português, e que foram amplamente distribuídas.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/04/2018 às 15h50 | e.atha@terra.com.br

Passeio pela “Revista da AML” (2)

Tenho em mãos o mais recente número da “Revista da Academia Mineira de Letras”, instituição que, como se sabe, é uma das mais ativas e respeitadas dentre suas congêneres (*). Neste número, muitos são os trabalhos merecedores de atenção e sobre os quais tentarei dar aqui uma pálida ideia.

A revista se abre com um pequeno e substancioso ensaio de Elizabeth Rennó, atual presidente da Academia, abordando a obra de dois autores indianistas de forte presença em nossas letras: José de Alencar e Gonçalves Dias, um prosador e um poeta. Alencar pintou o índio ideal e fez dele o símbolo do nacionalismo, exaltando a natureza brasileira. “Sua obra, – escreve a ensaísta – principalmente em “O Guarani”, polariza-se em duas vertentes: a aristocrática, em que as suas personagens atuam no ambiente da Corte ou das fazendas ricas do Brasil do século XIX e a popular, nas cantigas nordestinas, também manifestada na literatura de cordel.” José de Alencar exerceu grande influência, contribuindo para a formação de uma consciência nacional, além de ter sido, acredito eu, o mais remoto precursor do regionalismo literário no país.

Quanto a Gonçalves Dias, depõe Rennó, “substituiu o mito e a ideologia pela realidade humana e fantasiosa do indígena. Foi autêntico pelo sangue e pelo viver com os índios, assimilando-lhes os hábitos e culturas e pelos estudos deixados em “Brasil e Oceania”, escrito para o Instituto Histórico, e no “Vocabulário da Língua Tupi.” Apesar de ter sido estudado etnológica e socialmente, o seu índio é o herói idealizado. O indianismo gonçalvino é específico, autobiográfico, inerente à sua imaginação poética, substância de sua obra. Não se liga ao europeu, repassado à concepção do bom selvagem. O brasileirismo que impregna a sua obra é simples e puro. Gonçalves Dias não foi o introdutor do tema indianista na literatura brasileira, mas a esta predileção do sentimento nacional, insuflou vida.”

A abordagem do indianismo é mais que oportuna, uma vez que no momento os indígenas brasileiros estão acuados e sob constante ataque dos gananciosos. Além disso, traz-me à lembrança outros autores que fizeram do índio personagem destacado de suas obras: Montaigne, Darcy Ribeiro, Antonio Callado.

Em inspirada crônica, José Maria Couto Moreira evoca Ernest Hemingway e seu livro “Paris é uma festa.” Nessa obra o escritor americano rememora sua vida em Paris, no início da carreira, ainda casado com Hadley Richardson, período de muita pobreza, por ele descrito com evidente exagero. Integrando a chamada “geração perdida”, conviveu com Gertrude Stein, James Joyce, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Ford Madox Ford e outros americanos auto-exilados na Cidade Luz. Inspirado pelo livro, o cronista faz um périplo pela cidade, destacando suas obras de arte, museus, prédios ilustres, ruas célebres, locais de importância histórica e turística,  transmitindo ao leitor o clima da cidade e da extraordinária cultura francesa. Uma crônica admirável, sintética mas sem perda de conteúdo.

Paulo Fernando Silveira, por sua vez, aborda a figura e a obra de Mário Palmério, romancista cujos livros me fascinam e sobre os quais escrevi mais de uma vez. Educador, político e dotado de espírito de aventura, viveu em um barco na região amazônica, provocando geral admiração. “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” são obras de leitura absorvente e seus personagens são inesquecíveis, em especial o mascate Xixi-Piriá, sempre aprumado, a percorrer a região, vendendo de porta em porta, mas, para surpresa de todos, capaz de uma reação à altura no momento necessário. Essas obras – diz o autor – “são monumentos perenes, que desafiaram o tempo, por várias gerações, e mantiveram incólume o seu estético valor artístico, como esteios e fundamentos da literatura regionalista brasileira.” Após outras oportunas considerações a respeito do escritor mineiro, arremata o autor: “Mário Palmério é nome definitivo na renovação do regionalismo na ficção brasileira.”

Já Petrônio Braz, em alentada aula, proferida na Universidade Livre, focaliza o mineiro de Montes Claros, ou Moc, como ele dizia, Darcy Ribeiro. Antropólogo, professor, político, ensaísta, romancista, memorialista, criador de museu e de universidade, além de dotado de espírito de aventura, como revelou nos “Diários Índios.” Uma das mais extraordinárias figuras do mundo cultural brasileiro do século passado, sempre apaixonado pelo povo de um Brasil que tanto quis explicar. “Darcy Ribeiro foi, sem dúvida, um dos antropólogos brasileiros que mais diversificaram suas atividades”, afirmou com razão Luís Lopes Borges de Mattos, citado pelo autor. Nesse ensaio o autor faz uma análise do romance “Maíra”, publicado há quarenta anos mas que continua atual, uma vez que os indígenas brasileiros vivem as mesmas angústias. Mostra a genialidade com que a obra foi construída, os personagens bem identificados e coerentes, suas aflições e conflitos, numa trama que fascina o leitor até o fim. É a mais completa análise desse romance que encontrei. O desaparecimento de Darcy Ribeiro comoveu o mundo cultural e, dentre múltiplas manifestações de pesar, lembra o autor as palavras de Zuenir Ventura: “Morreu o grande pajé, foi embora o nosso bom selvagem, subiu aos céus o nosso feiticeiro. A utopia ficou sem sua encarnação. A política, a ética, a erótica e a poética perderam sua rima rica.” Darcy Ribeiro faz muita falta, inclusive no Senado Federal, ainda mais quando tramitam projetos prejudiciais aos povos indígenas.

 Jornalista e acadêmico, Manoel Hygino dos Santos, o colunista mais lido da imprensa mineira, publica interessante crônica a respeito da cidade de Santos Dumont, terra natal do célebre inventor. Situada no sopé da Serra da Mantiqueira, orgulha-se do filho ilustre, ali nascido em 20 de julho de 1873. Como quem pega o leitor pela mão e o conduz, o cronista palmilha pelas ruas da cidade exibindo suas realizações, suas indústrias, sua cultura e o modus vivendi de um povo acolhedor e amigo. É um texto que divulga a gentil cidade das Gerais e instiga o leitor a conhecê-la.

Por fim, mas não menos importante, destaco o ensaio de Carlos Perktold, crítico de artes, sobre o conjunto arquitetônico da Pampulha, um dos recantos mais interessantes e belos do país, obra de Niemeyer e Portinari, realizada por JK quando prefeito de Belo Horizonte. Sobre o conjunto, agora declarado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, o autor ministra verdadeira aula, abordando sua história, aspectos arquitetônicos, detalhes estéticos e tudo mais, numa orientação segura para que o leitor melhor aproveite a eventual visita.

Concluindo, diria que a “Revista da AML” é um grande manancial de cultura e conhecimento, merecedora de atenta leitura.

__________________________

(*) “Revista da Academia Mineira de Letras”, Belo Horizonte,
Ano 96, Vol. LXXVII, 2017.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/04/2018 às 14h33 | e.atha@terra.com.br

SAVARY: A AMAZÔNIA E A URBE

Olga Savary é poeta universal mas não se desliga jamais de suas origens amazônicas. Nascida em Belém do Pará, gosta de lembrar que teve uma bisavó índia. Sua poesia, em grande parte, se estriba em temas amazônicos, região que ela conhece por dentro e por fora. A cultura regional, a formação e a psicologia de seu povo, o modus vivendi, os problemas de natureza social e tudo que respeita à imensidão da floresta repercute de forma artística em seus versos cuja estética é sempre ressaltada pela mais categorizada crítica. O fundo telúrico de sua poética contracena com a sensualidade que permeia importante parcela de sua produção. O telurismo e a sensualidade, o amor à terra e ao ser humano são as vigas mestras de sua obra.

Não obstante, sua vivência urbana. no Rio de Janeiro, também a colocou em destacada posição no meio cultural, literário e social. O escritor Ruy Castro, em livro de sucesso, lhe dedicou todo um verbete onde aponta suas realizações e o espírito de liderança com que ela promovia os mais diversos eventos. Segundo o autor, Savary foi a criadora do “mito” de Ipanema. “Este se criou a partir das festas pré-carnavalescas da poetisa Olga Savary, então casada com o cartunista Jaguar, em fins dos anos 50. Foi nelas que as diversas turmas se agruparam e veio à tona, publicamente, a Ipanema boêmia, excêntrica e criativa que, na década de 60, se tornaria a “Ipanema” oficial” (*).

Segundo o mesmo autor, as festas cresceram, tomaram o bairro, a cidade  e, “quando se viu, o Olimpo.” Decidida e organizada, a poeta era “a mentora intelectual, produtora e responsável por tudo.” Agarrada ao telefone, convidava jornalistas, escritores, poetas, cartunistas, atores, artistas plásticos, as grandes mulheres, a turma da praia e os amigos. (Conhecendo o espírito carioca, imagino que não faltavam “penetras”).  Músicos amadores levavam seus instrumentos e compunham a orquestra. Cada um dos participantes levava sua bebida. E assim, num clima alegre e descontraído, a festa se transformava num evento cultural cujas notícias logo ganhavam todo o país e mereciam a cobertura da imprensa.

As festas de Olga cresceram tanto que não cabiam mais em casas particulares e passaram a ser realizadas em bares, restaurantes e até mesmo em teatros.

Outro feito de Olga, muito comentado na época, foi a disseminação da expressão “dicas”, ou seja, indicações de locais, restaurantes, bebidas, preços e tudo o mais. Trouxe a palavra para a letra impressa e hoje está dicionarizada com crédito para ela.

Mesmo ativa e ocupada, nunca a paraense se afastou das letras e continuava produzindo bastante e bem. Recebeu o Prêmio Jabuti e publicou as Obras Completas, na verdade nada completas porque continuou produzindo, como faz até hoje.  Também se tornou conhecida como protetora de escritores e poetas iniciantes, espécie de madrinha dos novatos. Não são poucos os que muito lhe devem.

Em 2016, em primorosa edição artesanal de Mac/Feira, ela publicou o livro “Ara”, coletânea de poemas, fato que considerou uma honra porque são volumes feitos à mão, um a um, mediante uma escolha criteriosa e exigente. “Ara”, em tupi, significa luz, dia. O livro se divide em cinco partes, partindo da gênese em busca da essência. Os poemas contemplam a origem, o índio, a iara, a mulher, a nudez, a erótica, a água, o mar, o rio, a poesia e, enfim, a vida. Culmina no poema-título, dizendo: “O dia não está/ pra peixe, o dia/ só serve à poesia.”  Porque é a poesia que salva, revigora, eleva.

Em 1955, homenageando Savary, Carlos Drummond de Andrade compôs o poema


MIRAGEM

Chegou, impressentida e silenciosa,
com uma saudade eslava nos cabelos
e um ritmo de crepúsculo ou de rosa.

Os olhos eram suaves, e eis que ao vê-los,
outra paisagem, fluida, na distância,
sugeria doçuras e desvelos.

No coração, agora já sem ânsia,
paira a serenidade comovida
que lembra os puros cânticos da infância.

Logo depois se foi, mas refletida
nesse espelho interior, onde as imagens
se libertam do tempo, além da vida.

Olenka permanece, entre miragens. (**)

_______________________________

(*) “Ela é carioca”, Ruy Castro, S. Paulo, Cia. das Letras, 1999, p. 277;

(**) Olenka é diminutivo de Olga, em russo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2018 às 10h22 | e.atha@terra.com.br

TARTARIN DE TARASCON

 Leio nos suplementos literários que surgiu na França um renovado movimento em torno da figura e da obra de Alphonse Daudet (1840/1897), autor da célebre novela “Tartarin de Tarascon”, publicada em 1872, e que logo se tornou conhecida em todo o mundo, ganhando posição de realce entre as grandes obras da extraordinária literatura francesa. Nela aparece, como personagem central, um certo Tartarin, nascido e morador na cidade de Tarascon, leitor incansável de livros de aventuras e cujo sonho maior era praticar a caça ao leão. Naquela região, à falta de caça, exceto um velho coelho tão experiente em escapar das perseguições que ninguém o encontrava, os bravos caçadores usavam suas poderosas armas atirando contra seus próprios bonés, voltando com eles furados, em triunfo, para sua pacata cidade. Tornaram-se caçadores de bonés, esporte que se tornou corriqueiro, encarado com naturalidade pelos moradores.

Dono de fértil imaginação, Tartarin não se conformava com aquilo e alimentava o sonho de realizar grandes caçadas na África, sonho que se misturava à fantasia que o levava a inventar fabulosas histórias de aventuras que relatava nas reuniões do grêmio e nas conversas com os amigos. Não havendo outro, a pacata cidade o elevou à condição de herói e o aclamava em todas as oportunidades. Assim foi até que Tartarin anunciou que partiria para a África em busca da realização de seu sonho de aventura e glória. A cidade vibrou e Tartarin se lançou aos preparativos. Mas o tempo passava e ele não partia. A cidade começou a duvidar dele, surgiram comentários maledicentes e passou a ser ridicularizado como um farsante, um mentiroso.

Enquanto isso, os preparativos para a longa jornada prosseguiam em ritmo lento. Havia uma grande caixa de armas, outra com conservas alimentícias, uma terceira com produtos de farmácia, uma barraca moderníssima e outros apetrechos indispensáveis numa grande e perigosa excursão pelos ínvios africanos.

Mas, apesar de tanta pompa e tantos preparativos, Tartarin não partia. As troças e risotas aconteciam em todas as esquinas. Foi quando o comandante Bravida, do exército local, o visitou, deixando claro que a viagem teria, por força, que começar. Posto em brios, Tartarin abandonou sua porção Sancho Pança, envergou a de Dom Quixote, e até que enfim partiu para a Argélia. Passou muito mal a bordo do navio em virtude do mar agitado. Já se arrependia de ter deixado a casinha confortável, com seu jardinzinho florido, suas conversas na farmácia de Bézuquet, na loja do armeiro Costecalde, no comércio de Bompard e Tastavin e nas intermináveis prosas com o presidente Ladevèze. Mas sua reputação estava em jogo e teria que exibir as peles dos leões que matasse, como havia prometido. Ele, que nunca havia saído de sua cidade, exceto para ir a Beaucaire, cidade vizinha, ligada por uma ponte, sentia calafrios ao pensar na aventura que se iniciava.

Em Argel, por fim, instalado em confortável quarto de hotel, planejava suas ações. Numa noite, em silêncio, com suas armas, duas carabinas, revólver, faca de caça e tudo mais, cobrindo-se com um barrete vermelho e vestido no rigor do traje oriental, partiu para o deserto, ou o que imaginava fosse o deserto, pronto para tocaiar os ferozes leões. Depois de longa espera, avistou um animal que se aproximava com lentidão, silencioso e escuro, movendo as patas sobre a areia fofa. Era, sem dúvida, um grande leão! Quando ele apareceu em meio à vegetação áspera e espinhenta, típica dos desertos, Tartarin dormiu na pontaria e atirou: pan! pan! Dois tiros certeiros derrubaram a fera que ficou sangrando e se contorcendo no chão. Os estampidos, no entanto, acordaram a vizinhança e uma velha raivosa avançou contra ele, gritando e agredindo-o, enquanto o dia raiava e Tartarin percebeu que não se encontrava no deserto mas em um bairro distante do centro da cidade. E, para seu azar, não abatera nenhum leão mas um pacífico e inofensivo burrico de nome Moreno, cujo valor teve que pagar à rabugenta proprietária.

Desanimado, retornou ao hotel. Sempre que aludia ao propósito de caçar leões as pessoas riam e afirmavam que eles não existiam mais na Argélia, estavam extintos. Talvez no sul, bem no sul, ainda se pudesse encontrar um ou outro. Tartarin, então, decide viajar ao sul.

Após uma penosa viagem de diligência, Tartarin chega ao sul. No caminho, porém, se apaixona por uma moura da qual vira apenas os olhos e sentira-lhe o perfume. Põe-se a procurá-la e, com o auxílio de um príncipe montenegrino, que depois vem a saber que era falso, acaba por encontrar, ainda que lhe parecesse não ser bem aquela. Vive com ela por algum tempo, esquecido do real objetivo de sua presença no chão africano. Mas afinal, depois de marchas e contramarchas, acaba abatendo um leão, ainda que fosse velho, meio cego, manso e domesticado. As consequências são sérias, mas ele envia a pele do animal para Tarascon, aos cuidados do comandante Bravida, e prossegue na sua excursão. Adquire um camelo, - o Chameau -_animal velho e de corcova desabada, com o qual prossegue nas andanças. Entrega os valores que portava ao falso príncipe e ele o trai e  desaparece, deixando-o só e sem dinheiro. Desiludido e desanimado, retorna a Argel, onde flagra sua moura (também falsa) em altas festas com o comandante do navio que o levara à África. No caminho, tenta se livrar do camelo mas o animal havia se apegado a ele e o segue por onde vai.

Resolve voltar a Tarascon e nota, alarmado, que o camelo o segue, inclusive se lançando à água no momento do embarque. O comandante do navio resolve içar o animal para bordo, imaginando vendê-lo a algum zoológico na França. Chegando a Marselha, Tartarin, sem dinheiro, sem bagagem e sem ilusões, embarca em um trem com destino à sua cidade, em vagão de terceira classe, e ao chegar se depara com o camelo que havia seguido a composição de maneira incansável. E assim ambos chegam a Tarascon, sujos, pobres e cansados.

Mas a surpresa o aguarda. A cidade inteira está na estação para saudá-lo como o grande herói da terra. É aclamado, carregado nos ombros do povo, glorificado e saudado com discursos e foguetório. O camelo, por sua vez, faz o maior sucesso. Era a glória tão duramente conquistada.

Assim que retorna, outra vez com os pés no chão natal, Tartarin dá largas à imaginação e volta a relatar aventuras que jamais aconteceram.

- Imaginem vocês – dizia ele – que certa noite, em pleno Saara . . .

É como termina essa novela que tanto encantava o Grupo de Minarete, liderado por Monteiro Lobato, cujos integrantes a liam sem cessar e até adotavam os nomes de seus personagens como pseudônimos. E que agora vem sendo objeto de grande interesse no meio literário francês.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/04/2018 às 09h16 | e.atha@terra.com.br

Quem conhece a Tanzânia?

 Quase desconhecida no Brasil, a Tanzânia é um importante país da África Oriental, situado na costa do Oceano Índico. Tem uma área territorial de 939.760 Km2 e uma população estimada em 25.635.000 habitantes (1). Seu idioma oficial é o swahili, um dos mais importantes do continente africano, falado por cerca de 50 milhões de pessoas, e em regiões de outros países, como Quênia, Uganda, Ruanda, Burúndi, Zaire, Zâmbia, Moçambique, Comor e Madagáscar. Originário do árabe, o nome significa costa. Foi a língua falada nas costas da África Oriental (2). O inglês também é usado no país.

A Tanzânia foi a antiga Tanganica, colônia e depois protetorado da Inglaterra. Tinha sua capital em Dar-as- Salaam, a maior cidade do país e importante porto marítimo que serve, inclusive, a outros países africanos. Mais tarde foi construída a nova capital, Dodoma, situada no centro do país.

Conquistada a independência, depois de longa e penosa luta para se livrar do colonialismo e vencendo as tramas e manobras da Inglaterra, Tanganica se uniu a Zanzibar e constituiu a República Unida da Tanzânia, em 1964. Zanzibar é constituído de um arquipélago situado na costa tanzaniana, composto pelo próprio Zanzibar e pela ilha de Pemba, além de outras ilhotas circundantes. É um território semi-autônomo, que elege seu presidente e seu legislativo. Segundo os africanistas, essa união dos dois países foi a única que prosperou e se consolidou no território africano.

O novo país logo se consagrou como vanguardista, tomando posições claras contra o colonialismo, o neo-colonialismo, o apartheid e todas as formas de preconceito e discriminação. Numa atitude arrojada e pioneira, implantou um regime socialista sui generis, não inspirado em Marx ou Lênin, mas com raízes nos costumes ancestrais das comunidades populares onde tudo pertencia a todos, inclusive a terra, que podia ser cultivada, embora não fosse permitida a propriedade. Era considerada um bem comum. Caso a gleba não fosse usada, revertia à comunidade. Não se discutia a luta de classes, mesmo porque não existiam classes nas organizações tribais do país.

Colocou em prática também uma reforma agrária tão ampla como jamais havia acontecido em qualquer ponto do globo e que atingiu milhões de pessoas. Como a população fosse muito disseminada e percebendo que nessas condições o Estado não poderia lhe dar assistência de maneira eficaz, adotou o sistema chamado “vilagização” (vilagization), consistente em reunir as famílias em vilas, facilitando-lhe assim o acesso à

educação, saúde, assistência social e tudo o mais. Em consequência, numerosas famílias formaram incontáveis vilas espalhadas pelo país. Também foram criadas as fazendas comunitárias. Todo esse processo foi executado através da persuasão e do convencimento, sem violência, salvo em casos extremos de recalcitrantes que colocavam em risco o programa. O convencimento da população se fez através do partido único, cujos integrantes se entregavam a esse trabalho de catequização. Usavam métodos democráticos para a obtenção dos resultados.

País agrícola por excelência, a Tanzânia busca sem cansaço a autossuficiência num regime que procura promover uma justa distribuição da riqueza nacional. Como nem tudo transcorreu conforme o planejado, inclusive em decorrência de crises internacionais e fatores climáticos, como longas secas, foram feitas concessões, a exemplo de um acordo financeiro com o FMI, sem, contudo, desfigurar o sistema. Ao longo de sua história contemporânea, desde a independência até a consolidação de suas linhas básicas de ação, a Tanzânia contou com a clarividência de um líder carismático e de grande prestígio político e envergadura moral: Julius Kambarage Nyerere (1922/1999). Presidente da República e do Partido, governou o país com segurança e clareza de objetivos, projetando-se inclusive como líder africanista e condutor seguro de seus povos. Ficou conhecido como Mwalimu (professor).

Todas estas considerações foram inspiradas pela leitura do excelente ensaio “Ujamaa – O socialismo africano: o modelo da Tanzânia”, de autoria de William Agel de Mello, escritor e diplomata, publicado no terceiro volume de suas Obras Completas (pp. 7 a 166). É um trabalho de fôlego, escrito por quem domina os temas africanistas e conhece a Tanzânia por dentro, abordando os mais variados aspectos daquele país, inclusive em suas relações internacionais, até mesmo com o Brasil. Conhecedor de imensa bibliografia assinada por reconhecidos especialistas, na grande maioria estrangeiros, William Agel de Mello presta um grande serviço ao divulgar um país tão interessante e pouco conhecido. De minha parte, confesso que ele contribuiu de forma decisiva para ampliar meus horizontes geográficos.

William Agel de Mello, além de consumado africanista e linguista, é autor de dicionários e inspirador do idioma Panlatino, uma espécie de fusão das línguas originárias do latim. Também escreveu substanciosos ensaios sobre a independência da Namíbia e a dissolução do apartheid na África do Sul.

_________________________

(1) - Atlas Geográfico Mundial, Folha de S. Paulo/The New York Times, 1993, pp.74 e 149;

(2) - William Agel de Mello, op. cit., p. 503.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/03/2018 às 08h43 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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