Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Repórter do Cotidiano

Disse alguém que o cronista é uma espécie de repórter do cotidiano. Isso porque ele tem que estar sempre atento, com as antenas ligadas, para captar o que acontece ao seu redor, muitas vezes fatos mínimos, para transformá-los em belas páginas literárias. Grandes cronistas têm se valido de acontecimentos que outras pessoas nem sequer percebem para produzirem maravilhosas crônicas. Lembro-me, por exemplo, de que Rubem Braga fez do voo de pequena borboleta amarela uma de suas melhores páginas, sempre selecionada entre as mais perfeitas produções do gênero entre nós. Fernando Sabino, notável cronista, denominava sua coluna de aventura do cotidiano, mostrando que fatos inexpressivos na aparência poderiam ser travestidos em excelentes crônicas.

Gênero leve e breve, integrante do chamado jornalismo cultural, o local mais adequado para a crônica é a página do jornal ou da revista. Reunida em livro ela perde muito de seu viço e de seu frescor, exceto quando se trata de uma coletânea de excepcional qualidade literária, como tem acontecido com obras que contenham trabalhos de cronistas de grande talento para o gênero. Aliás, a literatura brasileira tem contado com excelentes cronistas, desde os mais antigos, como Machado de Assis e Humberto de Campos, até os mais modernos, como o referido Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Henrique Pongetti, Carlos Drummond de Andrade e mais alguns, que se tornaram conhecidos do grande público e conquistaram lugar de destaque na história literária.

Muitos outros cronistas também se destacaram no gênero, ainda que não conquistassem tal renome porque escreveram fora do chamado eixo Rio-São Paulo. Foi o caso, por exemplo, do catarinense Jair Francisco Hamms, primoroso cronista, autor de excelentes páginas, permeadas de criatividade e humor. Seu livro “O vendedor de maravilhas” é uma leitura que encanta sempre. Outro caso bem típico foi o de Luís da Câmara Cascudo, que se dizia um provinciano incurável e que sempre se recusou a deixar Natal, sua cidade. Embora considerado o maior folclorista brasileiro e com reputação internacional, sua obra de cronista não encontrou a mesma ressonância porque publicada em jornal local, mesmo que em nada perdesse para os textos de seus colegas de ofício dos grandes centros.

Por tudo isso, muito bem fez o escritor Franklin Jorge ao selecionar a reunir em belo livro as “Actas Diurnas”, crônicas de Cascudo publicadas originalmente no jornal “A República.” É um conjunto de textos escolhidos com critério, mostrando o talento e a versatilidade do mestre potiguar para o apreciado gênero. Ali estão bem visíveis a sua segurança no manejo das palavras, o senso arguto de observação, o humor suave e bem dosado, o domínio do gênero, enfim. Nada lhe escapa, desde os detalhes da cidade, os perfis de figuras anônimas ou de destaque, acontecimentos maiores ou menores, a paisagem, o mar, as feiras e tudo mais. Ressalta, no correr do texto, a admirável cultura do autor, revelando minúcias, corrigindo equívocos, acrescentando informações. Seus olhos se voltaram também para figuras interessantes que povoavam a cidade como, de resto, todas as outras, sem que sejam notadas pelo comum dos mortais. Assim, a morte de uma mulher conhecida como hamburguesa, a prisão de um certo Lourival Açucena, as atividades do Zé da Banda, as excentricidades de Urbano Hermilo, Chico Gordo e outros são imortalizados em deliciosas crônicas. Sem falar em fatos do dia-a-dia da cidade, daqueles que nem são mais notados porque se repetem: os sinos da matriz e os significados de seus toques, o galo da torre da igreja, a chaminé da fábrica e sua fumaça, tudo vira crônica nas mãos mágicas do escritor que vivia no casarão da Avenida Junqueira Aires, hoje Avenida Câmara Cascudo, e que só recebia visitas à tarde porque virava a noite com o nariz enterrado nos seus livros. O livro devolve ao leitor o Câmara Cascudo com toda sua verve e sua cultura. A leitura foi um agradável reencontro com ele e por isso vão meus aplausos a Franklin Jorge pela justiceira iniciativa.

Tive o prazer de conhecer Câmara Cascudo. Passei toda uma tarde na casa dele, em 1983, três anos antes de seu falecimento, quando muito conversamos. Recebi dele, na ocasião, o livro “Anúbis e outros ensaios”, que guardo até hoje com muito carinho. Trocamos muitas cartas, ele escreveu sobre meus contos e costumava me qualificar como o mais meridional de seus correspondentes. É uma figura que faz falta e que deixou saudades.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/03/2018 às 09h19 | e.atha@terra.com.br

Apego à terra

Como tantos catarinenses, Carlos da Costa Pereira (1890/1967) anda muito esquecido, a ele não se ouvindo referências. Foi, no entanto, uma figura admirável e de destaque nos meios culturais e literários de nosso Estado. Nascido em São Francisco do Sul, onde passou quase toda a vida, foi um autodidata que à custa de muito empenho e esforço amealhou vasto conhecimento em vários campos da cultura. Foi jornalista, contista, cronista, ensaísta, historiador e tradutor, tendo fundado e dirigido jornais, além de ter escrito com assiduidade para muitos outros, tanto da cidade natal, como de Joinville e Florianópolis. Ocupou diversos cargos públicos, inclusive o de Diretor da Biblioteca Pública Estadual, função que na época mantinha o status de secretário estadual, e que foi ocupada por outras figuras de relevo. Foi também suplente de senador.

Caracterizava-o, porém, imenso amor à terra natal, forte apego às suas geografias e agarramento com o chão, como dizia Guimarães Rosa, o que o levava a retornar a ela tão logo se desincumbia das missões. Era na antiga cidade ilhoa que se sentia bem, no contato com a família e os amigos, palmilhando as velhas ruas estreitas e curvas que tão bem conhecia.

Foi sócio-correspondente e depois titular da Academia Catarinense de Letras, ocupando a Cadeira número 4, e diretor da revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC). Entre seus trabalhos, destacam-se “Um capítulo da expansão bandeirante”, “O nascimento de frei Fernando Trejo & Sanabria em São Francisco”, “Toponímia antiga da costa do Brasil”, “Um ponto controvertido da história”, “A Revolução Federalista de 1893 em Santa Catarina”, “Riscos e traços”, “Traços da vida da poetisa Júlia da Costa” e “História de São Francisco do Sul”, sem contar seus incontáveis textos jornalísticos. No campo da tradução, citam-se: “Viagem à Província de Santa Catarina”, de Auguste de Saint Hilaire (tradução, notas e prefácio), “A Província de Santa Catarina e a colonização do Brasil”, de Léonce Aubé (tradução e notas) e “Viagem à Comarca de Curitiba”, de Auguste de Saint Hilaire, todos vertidos do francês, idioma que revelava dominar. O ensaio sobre frei Fernando Trejo foi realizado a pedido do então governador Nereu Ramos.

“Minhas Memórias”, pequeno volume em que reuniu suas reminiscências, publicado por FCC Edições/Editora da UFSC (Florianópolis – 1996), revela um homem estudioso, integrado no seu meio, bem humorado e feliz. Dotado de memória invulgar, minucioso e atento nos relatos de sua vida, traça um panorama preciso da São Francisco de dantes, desde os tempos anteriores à estrada de ferro e do auge da exportação da erva-mate até épocas mais modernas. São evocados lugares, estabelecimentos, pessoas e fatos envoltos nas neblinas do passado. Não faltam as referências aos livros e autores que lia, as descobertas que o encantavam e as lições que retirava de suas constantes leituras. Lia de um tudo, sempre com intensa curiosidade. Lia estudando. Lia cientistas, historiadores, ficcionistas, poetas, exploradores, aventureiros, pensadores, gramáticos, dicionaristas. É curioso notar que muitos desses autores, talvez a maioria, estão hoje esquecidos ou fora de moda. Salvam-se um Cervantes, um Eça de Queirós, um Jack London, um Machado de Assis e mais alguns, assim como certos cientistas e filósofos cujas obras deixaram marcas indeléveis na trajetória da ciência ou do pensamento. Luís Buchner, Pascal, Maeterlinck, Darwin são alguns exemplos. Interessou-se pela botânica, pela astronomia, pela entomologia, pelas religiões. Deixando o catolicismo caseiro, fez-e protestante, tentou o espiritismo e acabou livre pensador, isento de qualquer credo específico. Embora vivendo numa pacata cidade do interior, seu espírito vagava nas distâncias e estava atento ao que ocorria neste velho mundão sem fronteiras.

A inclinação para as letras se manifestou muito cedo e não tardou a dar início aos primeiros exercícios literários. Com esforço e dedicação dominou a arte da escrita, compondo textos corretos, coerentes e eruditos em todos os gêneros a que se entregou. Enfrentou com bravura acaloradas polêmicas das quais se saiu bem.

Mesmo lendo, escrevendo e estudando não foi um intelectual de gabinete, com as janelas fechadas para o mundo. Participava da vida em família, das festas e troças com os amigos e dos eventos de sua cidade. O capítulo dedicado aos amigos é dos mais interessantes do livro. Eles todos calaram fundo nas suas lembranças e são evocados com ternura e saudade. Não faltaram, como é de ver, alguns inimigos, mesmo porque – como diz o povo – homem que é homem terá por força alguns desafetos.

“Minhas Memórias” teve estabelecimento do texto, introdução e notas de Tânia Regina Oliveira Ramos e cronologia, bibliografia de/sobre o autor por Iaponan Soares. A introdução é um modelo de presunção e eruditismo de biblioteca, em estilo espanta-leitor. Seria dispensável. Não faria a menor falta.

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Registro aqui o meu aplauso ao escritor Silvério da Costa que, no seu Fronte Cultural, publicado no Jornal Sul Brasil, de Chapecó, vem há longos anos divulgando os autores catarinenses e de outros recantos do país. Incansável e dedicado, ele estabelece uma ponte com escritores de todo o país, o que é sobremodo admirável porque aqui, com raras exceções, impera o silêncio. Por tudo isso, Silvério é hoje um dos nossos escritores mais conhecidos no país, como tenho observado nas minhas andanças. Meus parabéns ao amigo Silvério, com votos de que os céus lhe deem muita saúde e disposição para prosseguir na sua faina em benefício das letras e da cultura.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/03/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br

Por que ler Lobato?

Essa é uma interpelação que me fazem alguns dos que me honram com sua leitura. Qual o motivo para se dedicar à leitura de um escritor que faleceu em 1948, portanto há quase setenta anos, e cuja obra foi produzida, em boa parte, há um século? A resposta é simples, ainda mais que Monteiro Lobato (1882/1948) continua sendo um dos autores nacionais mais estudados e a bibliografia a seu respeito só rivaliza com as de Machado de Assis e Euclides da Cunha.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, porque a obra de Lobato semeia cultura geral e transmite conhecimentos em variadas áreas no correr da leitura, sem qualquer pretensão pedagógica. Em “Idéias de Jaca Tatu”, por exemplo, ele desenvolve verdadeiro curso de artes plásticas, ministrando rudimentos de estética; em “Críticas e Outras Notas”, ele ministra noções de interpretação da obra literária; em “A Onda Verde” ele mostra a importância das florestas, do reflorestamento e da preservação de nossas matas. E assim em outros de seus livros.

Em segundo lugar, Lobato nos ensina a conhecer o Brasil, ou seja, a ser brasileiros. Não faz isso de forma professoral mas mostrando os fatos e inspirando o senso crítico do leitor. “O Escândalo do Petróleo” e “Ferro” são livros que todo brasileiro deveria ler, inclusive os entreguistas de plantão. Eles contêm lições fundamentais para quem deseja um país livre e soberano. O mesmo acontece em “Mr. Slang e o Brasil”, onde ele discute os mais variados problemas brasileiros.

Como se isso não bastasse, sua leitura nos ensina a escrever com clareza, precisão e elegância. Grande conhecedor da língua, leitor incansável de dicionários, ele conquistou um estilo muito pessoal, único e inigualável, imitado por muitos mas jamais alcançado.

Além disso, em sua obra está registrada uma imensa experiência de vida exercida com intensidade e nos mais diversos setores. Lobato foi um caso raro de escritor e homem de ação, a exemplo de Jack London, George Orwell, Ernest Hemingway e poucos outros. Não foi daqueles intelectuais que fecham a janela para o mundo. Basta lembrar que foi Promotor Público, fazendeiro-empreendedor, editor, livreiro, jornalista, tradutor, empresário, diplomata, crítico de artes e pintor. Isso tudo numa existência de apenas 66 anos. E tudo se refletindo na sua arte literária.

Embora constitua um lugar-comum, Lobato foi um homem adiante de seu tempo. Foi pedagogo sem conhecer Pedagogia; foi semioticista sem conhecer Semiótica; foi Letrador muito antes que essa palavra entrasse em cena com esse sentido e foi Professor sem jamais ter dado aulas. Mas em tudo que escrevia revelava o propósito de ensinar, semear livros, inundar o país de livros, educar o povo. “Uma criatura sem educação é como um terreno onde só há mato. A educação é que transforma esse terreno em canteiro de cultura das artes e ciências, úteis e belas” – falou ele pela boca da boneca Emília.

Para completar, a obra infanto-juvenil de Lobato constitui um imenso mundo de sonho, fantasia e imaginação que encanta a jovens e adultos. Nela há folclore, mitologia, lendas, humor, aventuras e as intermináveis narrações de Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, a proprietária do Sítio do Picapau Amarelo, sentadinha na sua velha cadeira de pernas serradas e cercada por personagens inesquecíveis, como Pedrinho, Narizinho, Emília, Tia Nastácia e o Visconde de Sabugosa, sem falar nos mais estranhos visitantes.

Quem nunca leu Lobato perdeu um precioso momento de vida.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/03/2018 às 11h50 | e.atha@terra.com.br

O fotógrafo do Contestado

Claro (Gustavo) Jansson (1877/1954) é considerado o fotógrafo da Guerra do Contestado, movimento revolucionário que agitou o Planalto Catarinense entre 1912 e 1916. A ele é atribuída a mais importante documentação fotográfica sobre aqueles acontecimentos, inclusive algumas das fotos mais conhecidas e que têm sido publicadas em diversos órgãos da imprensa, muitas vezes sem mencionar a autoria. Nascido na cidade de Hedemora, na Suécia, vem para o Brasil aos 14 anos de idade, em companhia dos pais, e vai morar no Paraná e, mais tarde, em Porto União da Victoria, então pertencente ao vizinho Estado. Inicia uma série de viagens, inclusive pela Argentina, e depois reside em Três Barras (SC), na qualidade de funcionário da Companhia Lumber (Sothern Brazil Lumber and Colonization Company). Recebe a patente de primeiro tenente, outorgada pelo presidente da República, e exerce as funções de delegado e juiz de paz. Por fim, transferido para Itararé, no Estado de São Paulo, continua prestando serviços à sucursal da Companhia Lumber, na Fazenda Morungava.

Vivia o Brasil um período conturbado do qual Claro foi testemunha, tudo registrando nas suas fotos. Durante a Guerra do Contestado esteve em vários campos de luta, travou conhecimento com muitos personagens envolvidos e fotografou locais e pessoas que participaram do conflito. Esteve no front, registrando in loco os fatos no fragor da luta. São muito conhecidas suas fotos sobre a barricada construída pela Lumber, em Calmon; a que fixou para sempre os “vaqueanos” dessa empresa em Três Barras; o desfile das tropas legais em Porto União da Victoria, rumando para a luta; o último dia de vida do Coronel João Gualberto saindo dessa cidade em direção ao Irani, em cujo combate pereceu; a força pública do Paraná aquartelada em Porto União da Victoria e numerosas outras. São fotos conhecidas de quantos se interessam pelo assunto. Registrou inclusive a célebre metralhadora, a “matadeira”, com a qual as forças legais pretendiam “costurar” os revoltosos em Irani e cujo enguiço seria fatal. Fixou também locais e pessoas que participaram de outros movimentos revolucionários do período.

As atividades da Companhia Lumber, em Três Barras, empenhada em devorar a imensidão de árvores que serrou, também foram documentadas por ele. As imensas pilhas de madeira, os poderosos guindastes e guinchos, o transporte das toras em velhos caminhões e carros de tração animal, as locomotivas pertencentes à ferrovia da própria empresa, nada escapou ao olhar arguto do fotógrafo, permitindo uma visão aproximada do que foi a ação da maior serraria da América Latina.

Numerosas fotos foram realizadas no estúdio do fotógrafo, como era de praxe na época, e outras tantas captaram instantâneos inspirados pelo momento. Assim, aparecem o coronel Gualberto, em pose oficial, a famosa curandeira e benzedeira Nhá Emígdia, funcionários americanos, graduados, da Lumber, o próprio Percival Farquhar, poderoso dono e senhor daquilo tudo, Henrique Wolland, o famoso Alemãozinho, suspeito de traição, militares, políticos, revolucionários, figurões, fotos de famílias, do próprio fotógrafo e seus familiares. Não poderiam faltar registros dos velhos trens da São Paulo-Rio Grande, depois rebatizada de Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC). Há ainda excelentes fotos das pontes sobre o rio Iguaçu, em Porto União da Victoria, e sobre o rio Uruguai, em Marcelino Ramos. Aquela era considerada a mais longa dentre as congêneres da época; esta, em sua primeira versão, desabou e foi arrastada pela enchente. São fotos impressionantes.

Tudo isso e muito mais consta do belo livro-álbum “Claro Jansson – O fotógrafo do Contestado”, de autoria de Rosa Maria Tesser, publicado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) em 2016. É um memorial comemorativo dos 100 anos do final da Geurra do Contestado. A autora se valeu do livro “Clato Gustavo Jansson, o fotógrafo viajante”, de Vito d’Alessio, de entrevistas pessoais com a filha, Dorothy Jansson Moretti, dos acervos dos Arquivos Públicos de Três Barras, Canoinhas e do Paraná, além dos guardados da própria família do fotógrafo e de outras numerosas fontes que pesquisou com empenho. Nascida em Irani, o epicentro do Contestado, a autora é pedagoga com várias especializações e historiadora. Exerceu funções públicas na área cultural.

Nas cenas do cotidiano registradas por Jansson, um detalhe chama a atenção. Refiro-me ao aspecto miserável e andrajoso dos ervateiros, cujas fisionomias estampam visível tristeza, decorrente sem dúvida da desumana exploração a que estavam submetidos. Esse mesmo ar de desalento se vislumbra em outras pessoas do povo cujas efígies foram captadas pelo fotógrafo. Constituem, acredito eu, uma demonstração da miséria reinante no Planalto naquele período histórico, quando imperava a mais calamitosa exploração do homem pelo homem. Circunstância que estava na raiz dos acontecimentos e que impulsionou a sangrenta revolução.

É pena que o livro contenha alguns equívocos, inclusive com o mau uso da crase, o que é lamentável numa obra publicada pela entidade oficial da política cultural do Estado. Isso, porém, não lhe tira o valor histórico e documental.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2018 às 17h32 | e.atha@terra.com.br

Mundo Cão

 Paulo Valença é um escritor pernambucano que vem se projetando no meio literário. Além de criativo e engenhoso na divulgação de sua obra, escreve com fluência e é dotado de senso de observação e boa memória, requisitos indispensáveis ao ficcionista. Não se cansa de alimentar o intercâmbio com os colegas de ofício de todos os cantos, o que está ficando cada vez mais raro. Sua obra tem merecido o aplauso de escritores renomados, a exemplo de Leitão de Assis e Luiz Fernandes da Silva, entre outros.

Seu estilo é muito pessoal e característico. Econômico em palavras, às vezes chega a ser telegráfico, embora diga tudo que é necessário nas circunstâncias, nada havendo de mais ou de menos. Em consequência, a leitura de seus textos se torna ágil e amena.

É novelista e contista, tendo dado a público o volume artesanal “Eterna Esperança”, com ilustrações de Fagner Bezerra, publicado em 2017. É uma coletânea de trabalhos ficcionais (duas novelas e vários contos). Limito-me a comentar em breves apreciações a novela que dá título ao volume.

A novela em questão é um mergulho de cabeça no submundo do crime e das drogas, que o autor descreve com precisão e coragem. Envolve policiais, investigadores, traficantes, drogados e toda a fauna humana que gravita nesse meio obscuro onde a esperança vai se tornando cada vez mais remota, ainda que não desapareça. Num desses paradoxos em que é pródiga a existência humana, a filha do policial correto e honesto penetra no mundo dos drogados, lançando sobre os pais a sombra terrível de um futuro trágico. A tristeza e o sofrimento decorrentes da situação penetram a alma do leitor e levam-no a comungar com eles das incertezas e preocupações. Como se isso não bastasse, um de seus auxiliares de confiança é assassinado e sobre ele recai a suspeita de envolvimento no mundo da traficância. Como dizia Érico Veríssimo, a vida cria situações que superam a mais descabelada das ficções e o novelista pernambucano soube criar um desses paradoxos chocantes em que é mestra a vida.  “O Nestor – escreve ele – encontra-se magro, de cabeça branca, o rosto cortado por rugas, mais calado. . . Um velho!” A vida costuma cobrar seu preço aos que cumprem à risca seus deveres.

Quando acontece o assassinato à luz do dia, na via pública, todos fazem por ignorar e a vizinha fecha a janela. Não quer ver, não quer se comprometer, não quer testemunhar. É o retrato de um mundo cão, lamentável e rude, mas verdadeiro.

Impactante e comovente, a novela de Valença é dura mas reflete uma realidade que estamos acostumados a ver com frequência. E não existe melhor literatura que aquela captada da própria vida cotidiana.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/02/2018 às 16h10 | e.atha@terra.com.br

Nilto Maciel

Nilto Maciel (1945/2014) foi um dos escritores mais dedicados e produtivos que conheci. Ler e escrever foram sempre, desde muito cedo, suas ocupações predominantes, ao passo que abominava as atividades rotineiras e cotidianas. Também não se dava bem com as entidades de escritores, academias literárias e grupos do gênero. Considerava-se um marginal no mundo literário, produzindo, divulgando, mantendo correspondência, inventando engenhosas maneiras de chegar ao leitor. Quase sempre sozinho. Foi romancista, contista, poeta e crítico literário. Publicou numerosos livros, recebeu muitos prêmios, participou de incontáveis coletâneas e aparecia com frequência em suplementos, revistas e jornais. Como ele próprio disse, “menos vivi do que fiei palavras...” (título de um de seus livros mais conhecidos).

Bacharel em Direito, foi funcionário da Câmara Federal, do Supremo Tribunal Federal e da Justiça do Distrito Federal. Nunca quis advogar; creio que não teria paciência para enfrentar juízes, cartórios, oficiais de justiça. Seu mundo era o gabinete de trabalho, escrevendo, corrigindo, revisando, cortando, acrescentando. “Não sou escritor por querer – escreveu ele. – Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio, músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.”

Como revelou em muitos episódios, também não tolerava a conversa fiada, o jogar conversa fora, e nessas situações se fechava ou falava de maneira um tanto ríspida ou irônica. “Conversar sobre tempo de menino, de bola e de bila, eu já fiz muito. Quero falar de literatura. Outro assunto não me interessa.” Repetia isso abertamente a todos e o tempo todo, como depôs um amigo, o que lhe valeu antipatias e até inimizades. Recebia livros em quantidade mas, quando os considerava ruins, não os resenhava, alegando “falta de tempo, morte de parente próximo, incêndio em casa, paralisia nas mãos, cegueira momentânea, doença grave” – segundo um biógrafo. Assim evitava futuros ressentimentos.

Vivendo período de apertura financeira, chegou a abrir um bar e restaurante, tal como Monteiro Lobato fizera em Nova York. O resultado foi o mesmo para ambos: experiências mal sucedidas, deixando dívidas e dissabores. Como, aliás, era de se esperar. Não tolerava ser explorado e farejava de longe os que se aproximavam com segundas intenções. Solitário e marginal, também se recusava a participar de farras desbragadas. Dizia, então, que “encontrou Jesus, embora fosse ateu.” E assim se esquivava desses desregramentos.

Em 1976, com alguns amigos, lançou a revista “O Saco”, experiência das mais criativas e que alcançou grande repercussão. O periódico era apresentado envolvido em um saco de papel, o que contribuía para despertar a curiosidade. Creio que fui dos primeiros colaboradores da revista na região sul do país, com a publicação de meu conto “Formiga Correição”, bem apresentado e ilustrado. Mais tarde, em 1991, criou “Literatura: revista do escritor brasileiro”, com o ambicioso propósito de se tornar nacional, o que, acredito, alcançou, publicando autores e angariando leitores de todos os recantos do país. Integrei o Conselho Editorial desde o número inicial, ao lado de Emanuel Medeiros Vieira (catarinense), Dimas Macedo (cearense) e Uílcon Pereira (paulista). A revista tece 35 números publicados. O número 20 foi dedicado a mim, numa homenagem inesquecível, realizada no auditório da Associação Nacional de Escritores (ANE), em Brasília. Fui matéria de capa e foi publicada ampla entrevista minha ao escritor João Carlos Taveira. Em seguida, Nilto Maciel criou a Editora Códice. Embora se declarasse “doente de vlhice”, tão logo retornou a Fortaleza, depois de longos anos em Brasília, inventou o blog “Literatura sem fronteiras”, esmerado e bonito, que também foi bem recebido e publicou trabalhos meus.

Tive a satisfação de receber a visita de Nilto Maciel em minha casa, onde passamos juntos uma tarde inteira às voltas com um só e único assunto: a literatura. Nessa ocasião, em meu escritório, ele foi fotografado com um chapéu de vaqueiro, foto depois estampada em vários livros seus.

Em merecida homenagem ao talentoso e profícuo escritor, Raymundo Netto deu a público o livro “Nilto Maciel” (Edições Demócrito Rocha – Fortaleza – 2017), comovente e verídico retrato desse incansável batalhador de nossas letras. Desse livro me vali em várias passagens deste comentário. O autor merece o aplauso incontido de quantos conheceram o seu biografado.

Nilto Maciel faz muita falta. Oxalá cada Estado contasse com um só igual a ele!

Escrito por Enéas Athanázio, 14/02/2018 às 11h00 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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