Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Aventura ao redor de meu quarto

À cidade de Balneário Camboriú no seu 53º. aniversário.

Existe com esse título um poema que já foi famoso em que o poeta abordava aventuras psicológicas e imaginárias entre as quatro paredes daquilo que os antigos designavam por alcova (*). Mostrava que para os dotados de imaginação nem as paredes cruas conseguem impor limites. Agora, quando ditas aventuras são reais e vividas, não será tão fácil realizá-las em ambiente assim exíguo. Transpostas as coisas para o ambiente da cidade, nem sempre aventuras inovadoras são possíveis. Depois de muitos anos, tudo parece conhecido, visitado, sabido, palmilhado. Num sentido figurado, a cidade acaba se tornando nosso próprio quarto.

Essa, porém, não é uma regra. Sem sair dos limites urbanos, minha mulher e eu realizamos uma bela aventura aqui mesmo, sem viajar ou gastar, exceto o esforço físico, aliás bastante saudável. Vai o convite para que os curiosos nos acompanhem em imaginação ou refaçam nossos passos.

Percorremos passo a passo a longa passarela que o município construiu sobre as pedreiras situadas após a foz do Marambaia. É uma obra que se transformou em atração turística, uma vez concluída e ajardinada. Vencidas todas as curvinhas, penetramos pelo caminho que sobe o morro, o último, com mostras de ser antigo e bastante usado. Enveredamos por ali, sob o mato, vencendo a subida íngreme e o chão repleto de pedras e mais pedras. Não tardamos a deparar com companheiros de jornada, entre eles um pescador simpático e conversador, contador de “causos”, cuja satisfação maior era ser primo de um construtor arquimilionário que havia edificado este, aquele e aqueloutro prédio. Depois de muito suor, esforço e algumas escorregadelas, avistamos, lá em baixo, a Praia do Buraco, imensa, vazia, bucólica, com muita areia fofa e banhada pelo mar azul. Por ela seguimos, pés dentro d’água, sentindo a carícia do velho Atlântico, muito calmo àquela hora.

Andamos, andamos. Às vezes, solitário, algum praiano aproveitando, deitado ou vagando sem pressa, ruminando secretos pensamentos. Transposto o hotel, cujos fundos vão ter ao mar, chegamos até o penhasco do outro extremo. E ali, como que subindo ao céu, a inacreditável escadaria de concreto que leva ao pico do morro. E então, reunindo ânimo e coragem, iniciamos a escalada, degrau a degrau, dez, vinte, cinquenta, uma paradinha para tomar fôlego, e mais dez, vinte, cinquenta, até os duzentos do total (contados...). Esbofados, suados, arquejantes, entreparamos e olhamos para o mar. Inacreditável a vista que se descortina, compensadora de tanto esforço. Mar largo, azul e calmo, separando-nos da velha África, o misterioso continente negro das aventuras lidas na infância, a África do Sul com suas pradarias povoadas de bichos e a Namíbia com seu inóspito deserto e a maior feira livre do mundo. Além da cidade de Lüderitz, de onde Amir Klink deu a partida na travessia a remo do mar-oceano, como relata em “100 dias entre céu e mar.” Tudo entrevemos com olhos imaginativos, absorvendo em largos goles a beleza sem par do mar sem fim, o “mare magnum” cujo extremo tanto temiam os navegadores de antanho.

Descansados, deixamos de lado o último lanço de escadas que vai ainda mais acima e descemos pela via asfaltada que vai encontrar a Estrada da Rainha. Subindo ao topo, iniciamos a descida, tendo à frente a mole dos prédios que se elevam pela orla. A proximidade afirmava que, ainda que parecesse incrível, estávamos em nosso quarto.

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(*) “Voyage autour de ma chambre”, Xavier de Maistre, poeta francês       (1763/1852), publicado em 1795.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/08/2017 às 11h06 | e.atha@terra.com.br

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Uma análise penetrante

Em longa entrevista a importante revista de cunho cultural (*), o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra, diretor do Centro de Estudos Sociais da mesma Universidade e coordenador do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa, fez uma análise penetrante das democracias na América Latina em geral e no Brasil em particular. Diversos aspectos por ele focalizados lançam luzes sobre a nossa realidade e dos nossos vizinhos, merecedores de um comentário.

Segundo ele, numa visão geral, os países latino-americanos, inclusive o Brasil, têm mantido um regime democrático formal, com as instituições funcionando, mas não existe uma cultura democrática.  Isso significa que “a institucionalidade democrática não está tão ancorada e enraizada na sociedade. A democracia também é uma cultura, uma cultura de argumentação, discussão, que tem seus limites. Tem, por exemplo, o limite do insulto, o limite do apelo ao golpe, das propostas que podem ir para além do democrático. As nossas sociedades ainda se permitem hoje, muitas vezes, que a polarização do debate vá para além do marco daquilo que eu consideraria uma cultura democrática.” Daí os apelos ao golpe em vez de propostas para aprimorar a democracia. Pregar a solução dos problemas pela força, não pela discussão e o debate. Não existe um real apreço pela democracia e todos os abusos se praticam contra ela.

Observa o sociólogo que vários países da América Latina adotaram políticas inclusivas que alteraram o quadro social. “Essas democracias permitiram – diz ele – que entrassem no debate democrático e na vida democrática muitas populações que, durante séculos, estiveram fora do processo político. Grande parte da população nem sabia o que era democracia, não participava e, portanto, estava ausente do processo.  O que aconteceu no Brasil, Equador, Bolívia, Argentina e Chile é que houve uma grande inclusão de classes sociais que não estavam anteriormente integradas no processo democrático. Essa integração se deu  com políticas compensatórias. Isso permitiu criar uma inclusão que gerou uma enorme expectativa de integração na sociedade e no processo político.” Teve início, então, um movimento ascendente que forçou um novo arranjo na pirâmide social, resultando daí um intenso mal estar. As reivindicações aumentaram e a possibilidade de perda provoca as mais variadas reações. E ninguém pode assegurar que tais políticas possam ser mantidas em países de economias modestas.

Acompanhando a evolução de nosso país, em particular, diz ele: “Nos últimos 15 anos, o Brasil teve dois desenvolvimentos importantes. Um foi inclusão intercultural, que democratizou o sistema universitário. O outro foi a ampliação do sistema público, o que foi obviamente importante, mas foi um investimento que precisaria de uma continuação, com valorização do pessoal científico e técnico dessa universidade.”

Por fim, ele comenta as manifestações e protestos públicos que têm acontecido no país. Chega à conclusão de que eles não têm muita lógica e nem rumo definido, ou seja, muitos protestam sem saber exatamente contra o que estão protestando. Isso é perigoso para a democracia porque neles se infiltram os golpistas de todos os tipos, procurando sempre tirar proveito dessas situações. “Nós vemos, em poucos dias, que o perfil de uma mobilização muda da esquerda para a direita. Foi surpreendente observar como algo que tinha um certo perfil de reivindicação social vira uma reivindicação da direita contra o governo.” Num dia bate-se pelo passe livre e contra a inflação; no dia seguinte apela-se à intervenção militar.

Concluindo, uma nota perturbadora. “Existe uma tradição oligárquica vinda do período colonialista que nunca foi curada. Há uma cultura  oligárquica racista no Brasil – afirma ele. – A maneira como certas pessoas se referem  a isso não é apenas o rico versus o pobre, ou o branco descendente de europeus versus negros. É um preconceito que continua vigente na sociedade, apesar da miscigenação.”  Casos recentes, noticiados pela imprensa, parecem confirmar essas palavras. Será que um dia os brasileiros se curarão dessas práticas?____________________________

(*) “Revista E”, publicação do SESC/SP, janeiro de 2016, p. 10 a 15.  

Escrito por Enéas Athanázio, 31/07/2017 às 13h03 | e.atha@terra.com.br

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O Internacional

É provável que muitos não se lembrem, mas existiu um trem internacional que cortava nosso Estado pelo meio-oeste, mais precisamente pelo Vale do Rio do Peixe. Tratava-se de uma composição de luxo, com vagões blindados e todo conforto. Possuía vagão-restaurante, cabines com leitos, fumódromo com poltronas elegantes e garçons solícitos que percorriam os corredores servindo bebidas, petiscos e até mesmo jornais e revistas. Como era uma composição curta, atingia velocidade média bem superior à dos demais trens de passageiros. Além disso, não fazia escala nas pequenas estações, parando apenas nas mais importantes e por poucos minutos. Nas estações menores limitava-se a reduzir a marcha ao entrar no quadro para que o maquinista recebesse do agente o “pode”, ou seja, o passe que permitia o prosseguimento da viagem com a linha livre de outros trens.

O Internacional partia de São Paulo e só fazia escalas em poucas estações de cidades maiores, como Ponta Grossa. Porto União da Vitória, Caçador, Joaçaba e Marcelino Ramos antes de chegar a Porto Alegre, de onde prosseguia até Buenos Aires, após receber novas locomotivas. No território dos Estados do Paraná e Santa Catarina era mantido e dirigido pela Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC) e no Rio Grande do Sul pela Viação Férrea Rio Grande do Sul (VFRGS).

A composição era tirada por locomotivas grandes e possantes, lembrando-se as de números 620 e 644, ambas movidas a lenha como as “marias-fumaças” em geral Essas locomotivas sempre foram admiradas pela potência e pela elegância de seu porte. Mantidas em plena forma, apresentavam-se reluzentes como novas.

A passagem do Internacional pelas cidades menores, mesmo não fazendo escalas, era aguardada com curiosidade e muitas pessoas acorriam às plataformas das estações para apreciar o monstro negro e iluminado que avançava orgulhoso em direção a mundos diferentes. Em cidades maiores, onde fazia uma breve parada, constituía objeto de geral curiosidade e as pessoas o contemplavam com interesse. O trem aceitava passageiros para os trechos entre as cidades maiores e graças a isso tive ocasião de viajar nele algumas vezes. Comentava-se que só ferroviários mais qualificados prestavam seus serviços nesse trem. Inspetores, chefes-de-trem, maquinistas, foguistas, guarda-freios eram selecionados entre os mais esclarecidos e educados.

Como seria previsível, o Internacional provocou muita matéria de jornal e entrou na literatura e na história. Historiadores, contistas e cronistas muito escreveram sobre ele e até mesmo eu o relembrei em alguns escritos. O cronista catarinense Jocely Lona Cleto, nascido e criado em Porto União, viveu durante a melhor fase do luxuoso meio de transporte e o evocou com saudade em algumas de suas crônicas. No livro”Do mundo de minhas saudades”, publicado em 2001, rendeu suas homenagens ao trem  que fazia tanto sucesso, publicando inclusive fotos das célebres locomotivas 620 e 644 que por tantos anos o rebocaram na longa e tortuosa jornada.

“Fosse numa terça-feira, fosse numa sexta-feira, a chegada do Internacional era esperada com expectativa inusitada – escreveu o cronista. – Viesse do sul ou do norte, aqueles momentos de vibração eram vividos em Porto União da Vitória. Lá vem vindo o Internacional, anunciado pelo apito e bater do sino, inolvidáveis, que ainda hoje, na saudade dos momentos vividos, arrepia a todos. Lá vinha o Internacional pelos trilhos que chegavam de Ponta Grossa, atravessavam o rio Iguaçu na majestosa ponte ferroviária que mais tarde foi substituída por outra, feia e inexpressiva. E, quando o Internacional entrava na ponte, aquele apito parecia dizer: Estou chegando, estou chegando para vocês!”

Majestosa e elegante, a locomotiva ingressava no chão catarinense. Entre bufos e rangidos de freios, estacionava nas plataformas da bela Estação União. E ali tomava fôlego para prosseguir numa jornada longa e única, jamais esquecida pelos que conheceram o Internacional.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/07/2017 às 18h47 | e.atha@terra.com.br

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Obras de Péricles Prade

Tenho diante de mim diversos livros de Péricles Prade, um dos escritores mais versáteis e profícuos que conheço. Cada um deles, de gênero diferente, mereceria um comentário especial mas, como não é possível no momento, limitar-me-ei a algumas observações que me ocorrem, iniciando pelos contos reunidos em “Correspondências – Narrativas Mínimas” (Editora Movimento – P. Alegre – 20009).   

O volume reúne 22 contos, todos curtos e alguns curtíssimos, extremamente econômicos em palavras como, por sinal, anuncia o subtítulo. Abstraídas as considerações de ordem teórica que a obra do contista tem suscitado, dessas que poucos leem e muitos não entendem, o que prevalece nessas narrativas é a surpresa, o inesperado, o estranho, o inusitado. Como regra, o leitor é apanhado de surpresa diante do inverossímil e do desconcertante, embora tudo seja apresentado no mesmo plano, sem que o autor estabeleça limites entre o real e o imaginário, o surreal e o fantástico. Alguns exemplos talvez elucidem melhor o que senti e pretendo dizer.

Em “Rabos de Tigre”, conto muito sintético, surge um tigre branco que, mesmo não sendo o preferido do narrador, tem a singular característica de possuir três rabos. O primeiro rabo é muito fino e delicado; o segundo é muito grosso e indelicado. “O terceiro – conclui – não é muito fino e nem muito grosso. Lembra chicote de couro rústico. Inclina-se ora à esquerda, ora à direita...” E quando o leitor, curioso, se indaga da razão disso, lá vem a resposta desconcertante: “sei o porquê mas não digo” (p. 26).

“Esconderijo” é outro caso típico (pp. 9/12). Nesse conto, que não é dos mais curtos, o contista se superou. Sua imaginação fervilhante não encontrou limites e semeou o texto de detalhes incríveis e insólitos que deram ao tema central, objeto da história em si, um ar dos mais pitorescos. Nele o diabo, depois de infernizar Lutero, vai a uma reunião de apreciadores de bons vinhos. Chega adiantado e se esconde na rolha da garrafa do melhor dos vinhos disponíveis. O Presidente da associação, desrespeitando as regras, “resolve colocar a garrafa entre as pernas, furar a rolha com movimentos fortes e puxá-la de um só golpe.” E então o incrível acontece: “Os degustadores tiveram a impressão de ouvir um grito, mas, como estavam muito, muito alegres, limitaram-se a renovar o brinde, sem perceber, nos resquícios da cortiça, minúsculos filamentos de miolos flutuando no copo.”

O diabo, por sinal, assim como outras figuras abissais, são frequentadores da ficção pradiana. Neste caso, ora aparece travestido de mulher, ora em forma de mosca, ou ainda de jovem e aristocrático enólogo. Todos os contos deste livro vão nessa linha, premiando o leitor com o inusitado das surpresas e desafiando-o sempre a exercitar a imaginação.

Em “Pantera em Movimento – Breves poemas de muito amor” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2006), Péricles reúne um conjunto de breves poemas que, na verdade, se constituem num só, impregnados de intenso sentido erótico e sensual. São textos muito trabalhados, precisos e instigantes, e que fogem um pouco à temática poética do autor, em geral voltada ao surreal e ao fantástico.

Versando gênero diverso, “”Revoluções Culturais” (Escrituras – S. Paulo – 2004) enfrenta o difícil campo do ensaio relacionado à Filosofia, à Ciência, às Tradições e às Letras. São cinco ensaios bem pensados, pesquisados e esmerados nos quais o autor confirma sua reconhecida erudição e sua admirável versatilidade. São textos que ilustram e instigam, enriquecendo a nossa ensaística que, nestes últimos tempos, anda em baixa.

Por fim, uma palavra sobre “A Pintura de Sílvio Pléticos” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2010), magnífico livro-álbum em que o escritor, agora no exercício da crítica artística, disseca a obra do conhecido pintor. É um trabalho excelente e que dignifica a ambos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/07/2017 às 12h51 | e.atha@terra.com.br

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MEU EX-AMIGO ESCRITO

Segundo ele afirma, Pedro Albeirice da Rocha e eu nos correspondemos durante 34 anos sem nos encontrarmos. Só no dia 30 de maio passado aconteceu nosso primeiro encontro, quando ele passou um dia em minha casa e pudemos conversar bastante. Assim, Albeirice deixou de ser um amigo escrito e passou a ser um amigo falado.

Fluminense de Volta Redonda, doutor em letras, professor de literatura e escritor, Albeirice é ubíquo. No longo período em que trocamos cartas ele residiu em Tubarão, Chapecó, na Irlanda, em Malta, na Bélgica, no Tocantins e não sei mais onde, fixando-se, por fim, em Joinville, onde hoje se encontra e leciona na UFSC. É um globe-trotter que vive espargindo ensinamentos literários por toda parte. Apaixonado por Santa Catarina, o retorno definitivo está no seu horizonte.

Escreve sempre, onde quer que esteja, e sua obra se estende por vários gêneros. É contista, ensaísta, cronista, tradutor e poeta. Em rápidas pinceladas, procurarei dar uma mostra de seu trabalho.

Como ensaísta, tem se debruçado sobre a obra de Monteiro Lobato. “Esse gênio chamado Lobato”, “O paradoxo de Monteiro Lobato” e  “El fenómeno Monteiro Lobato”, este em espanhol, são alguns de seus trabalhos dedicados ao criador do Sítio do Picapau Amarelo. Observa ele que Lobato passou a vida toda advogando a simplificação da língua, despindo-a de literatice, e, no entanto, sofreu forte influência de Camilo Castelo Branco, por quem tinha verdadeira veneração. Apesar desse paradoxo, enfrentou os defensores do rigorismo gramatical e conseguiu dominar uma linguagem simples e direta, acessível a todos, em especial na literatura infantil. Foi um renovador da linguagem. Como disse Nelson Palma Travassos, Lobato começou camiliano e tertminou taubateano. Em outra passagem analisa as relações conturbadas de Lobato com os modernistas, agravadas pela crítica à pintura de Anita Malfatti. Embora classificado como pré-modernista, não se integrou ao movimento modernista, ainda que Oswald de Andrade o considerasse precursor do modernismo brasileiro. Como tradutor, acentua o ensaísta, o grande mérito de Lobato foi aproximar a linguagem literária das criaturas brasileiras que desejavam livrar-se do difícil português europeu.

Na área do conto, destaco “Leandra”, narrativa dramática em linguagem livre e solta; “Na ponte”, conto nostálgico enfocando o encontro inesperado de dois amigos de infância, na calada da noite, sobre uma ponte isolada, ouvindo-se apenas o marulhar das águas do rio; “Neofarrapo” evoca as múltiplas guerras, maiores e menores, que fazem o mundo sangrar.

O cronista se apresenta em “Crônicas do Tocantins e outras viagens”, reunindo um punhado de textos escritos ao sabor dos acontecimentos e dos eventos da vida do autor. Aqui ele revela que está sempre com as antenas ligadas e atento para captar os temas cronicáveis e transformá-los em belas peças literárias. Destaco a crônica “Lembranças catarinetas”, sentida louvação ao nosso Estado.

Quanto ao tradutor, merece realce o livro “El caso de ‘Mi planta de naranja lima’: literatura brasileña infanto-juvenil traducida al español”, alentado ensaio acadêmico desenvolvido em universidades estrangeiras. É um mergulho profundo na difícil arte da tradução literária, desde as origens dos estudos sobre o tema, os estudos existentes e as normas. Aborda as várias facetas do assunto, inclusive o antigo debate sobre a possibilidade ou não da tradução de poesia e as traduções para crianças. Esmiúça a técnica e a tática da tradução e enfatiza a obra de José Mauro de Vasconcelos.

Ainda no campo da tradução, como professor e orientador, realizou um trabalho que me parece único. Propôs aos seus alunos o desafio de traduzir versos de Rudyard Kipling, publicados em seus “Jungles Books”, em 1894 e 1895, relacionados aos contos de Mowgli, o menino-lobo. Os jovens se entregaram à tarefa com entusiasmo e o resultado está enfeixado no volume “Poemas a muitas mãos.” Foi um trabalho de incentivo ímpar à leitura.

Em 2015 Albeirice foi homenageado na I Coletânea “Viagens pela escrita”, publicada em Volta Redonda por Poeart Editora e com a participação de inúmeros poetas de todo o país. Em apêndice, uma súmula biográfica do escritor e suas realizações.

Para encerrar, uma pequena amostra da obra poética de Albeirice:

FLUMEN (*)

Cheiro de pequi,
gosto de bacaba...
Na cozinha, mamãe prepara a panelada
enquanto a lenha chora no fogão.
Ai, esses meninos que não voltam do rio!
Cuidado, olha as arraias!
Meus olhos, petrificados de terror,
ante as histórias de esporadas.
ataques de piranhas
e abraços de sucuris.
A mamãe não atinava
o que eu, então, já sabia:
suas invenções eram fruto
de um amor cuidadoso.
A mamãe se encontra ausente.
mas o rio segue em frente,
com suas alegres arraias
e suas afoitas piranhas.
Mas, a sucuri que aperta,
tem outro nome: saudade.

________
(*) “O rio”, em latim.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/07/2017 às 09h21 | e.atha@terra.com.br

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No tempo dos redutos

A chamada Guerra do Contestado (1912/1916) tem despertado o interesse de inúmeros pesquisadores e conta hoje com volumosa bibliografia. Creio, no entanto, que ainda não surgiu uma obra unificadora, fornecendo uma visão geral e completa dos acontecimentos. Talvez isso aconteça em virtude da grande extensão do território onde se desenrolaram as hostilidades (cerca de 28.000 Km2), da longa duração do conflito e dos inúmeros locais em que ocorreram combates. Diante disso, as informações são esparsas, colhidas em numerosos livros e outras publicações, dificultando uma visão de conjunto. Nem sempre os relatos coincidem, encontrando-se contradições, omissões e discrepâncias difíceis de explicar. Alguns dos livros publicados, no entanto, fornecem informações minuciosas sobre determinados episódios omitidos em outras obras, permitindo preencher muitas lacunas.

Entre estes, destaca-se “Da cidade santa à corte celeste: memórias de sertanejos e a Guerra do Contestado”, de autoria de Delmir José Valentini, publicado pela Universidade do Contestado – UnC (Caçador – 2003). Professor dessa Instituição e pesquisador na área da História, o autor realizou um trabalho modelar, baseado em vasta bibliografia e valorizando as buscas in loco, entrevistando numerosas pessoas, algumas delas participantes dos acontecimentos ou seus descendentes, além de moradores antigos da região. Graças à história oral, obteve informações inéditas ou pouco conhecidas, enriquecendo sobremodo seu trabalho.

O livro é dividido em cinco capítulos: Cenário e Protagonistas, A Igreja e a Crença, Redutos da Fé, Personagens e Adeodato e o Crepúsculo. No capítulo de abertura o autor descreve o palco dos acontecimentos, sua geografia, fauna e flora, a extração da erva-mate e tudo mais. Examina a situação dos moradores da região, em grande parte caboclos sertanejos submetidos ao despotismo dos latifundiários, entregues à pobreza e ao abandono, sobrevivendo com dificuldade num clima hostil. Sustenta suas observações em manifestações escritas e orais, inclusive de militares e participantes diretos dos eventos. Vale-se, ainda, de seu perfeito conhecimento pessoal da região.

No capítulo seguinte aborda a decisiva influência exercida pelos dois monges que peregrinaram pela região, João Maria Agostini e João Maria de Jesus, em especial a deste último, cujas pregações calaram fundo no coração dos sertanejos. Mostra como, aos poucos, o catolicismo rústico foi superado pela crença na Santa Religião dos redutos, o relacionamento entre os padres franciscanos e os monges e a atmosfera de misticismo que envolveu o Planalto. Descreve, em seguida, a entrada em cena do monge José Maria, curandeiro que se apresentava como irmão de João Maria Agostini e que pereceu no chamado Combate do Irani, no dia 22 de outubro de 1912, sendo sepultado em cova rasa para facilitar sua prometida ressurreição à frente do exército encantado de São Sebastião. Fornece curiosos dados biográficos do monge e reafirma que seu nome era Miguel Lucena de Boaventura, hoje posto em dúvida por outros pesquisadores.

Talvez o mais interessante do livro, o terceiro capítulo aborda os principais redutos ou cidades santas onde se reuniam os revoltosos, a vida dentro deles, suas práticas, hierarquia, orações e tudo mais, a forma de arrecadação de alimentos, vestuário, armas e munições. Taquaruçu, nas proximidades de Fraiburgo, Caraguatá, em Perdizes Grandes, Bom Sossego, Caçador, Santa Maria (Timbó Grande), São Miguel e São Pedro são descritos com suas localizações, organização interna, chefes, quadros santos, sem faltarem as virgens santas e os meninos que “conferenciavam” com o monge. É um conjunto de informações difíceis de serem encontradas.

O capítulo IV se ocupa dos personagens. O primeiro a aparecer é “Dom” Manoel Alves de Assumpção Rocha, sagrado imperador constitucional da Monarquia Sul Brasileira, em agosto de 1914, quando circulou uma carta à nação, espécie de Constituição, a ele atribuída. Curandeiro simplório, que andava descalço e com as calças arregaçadas pelas canelas, analfabeto, conhecido como Mané Rocha, o episódio aparenta ser uma troça e a autoria da Constituição, segundo li em algum lugar, seria de um Promotor Público. Seja como for, a coroação não vingou, e a participação do “imperador constitucional” foi efêmera e apagada. Chica Pelega e Maria Rosa também entram em cena, reforçando a presença feminina. Dentre os comandantes, avultam as figuras de Venuto Baiano (Benevenuto Alves de Lima), sobre quem pouco se sabe, mas que foi “comandante de briga” e chefiou o ataque a São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Natural da Bahia, de origem italiana, teria sido marinheiro e desertou durante a Revolta da Armada, em abril de 1894, em um porto catarinense, segundo afirmou Vinhas de Queiroz. Olegário Ramos, Agostinho Saraiva, Henrique Wolland, Aleixo Gonçalves de Lima, Antônio Tavares Júnior, Bonifácio José dos Santos (Bonifácio Papudo), Conrado Grober e Francisco Alonso de Souza (Chiquinho Alonso) são outras figuras de relevo cujas personalidades e atuação são examinadas.
O último capítulo descreve o período final da revolta e a queda dos redutos diante das forças oficiais. Foi o reinado de Adeodato Manoel Ramos, cujo verdadeiro nome era Joaquim José de Ramos, mais conhecido como Leodato. Governando o reduto com mão de ferro, suas atrocidades teriam sido inumeráveis. Resistiu até o fim, embrenhando-se nas matas, até que foi aprisionado, faminto, molambento e desesperado. Numa desastrada tentativa de fuga da penitenciária de Florianópolis, depois de ter sido condenado, foi morto pelo coronel Trujilo de Melo. Adeodato teria implantado verdadeiro regime do terror durante seu comando e inspirava no povo humilde um misto de medo e admiração. Foi o último jagunço.

A leitura do livro sugere algumas observações. A primeira se prende ao monge João Maria Agostini, o primeiro. Pesquisas posteriores conseguiram rastrear seus passos. Saindo do Brasil, percorreu a América Central e foi ter nos Estados Unidos, onde teria sido morto por índios selvagens no estado do Novo México. No local, segundo consta, foi erigido um marco registrando seu falecimento. É impressionante como ele andou! A segunda observação se refere a Chiquinho Alonso. Segundo alguns autores, ele chefiou o ataque a Calmon, no dia 5 de setembro de 1915, quando teria entre 16 e 17 anos de idade. É uma informação que não fecha com o que se lê neste livro. Antes desse ataque ele já fora comandante de um reduto, sendo pouco provável que fosse tão jovem.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/07/2017 às 16h55 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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