Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Uma ficção sofisticada

Foi agradável surpresa receber o primeiro volume das Obras Completas de William Agel de Mello, escritor goiano, com amável dedicatória do autor. O livro contém os trabalhos de ficção por ele produzidos: dois romances e duas coletâneas de contos.

Destaca-se aos meus olhos o primeiro romance denominado “Epopeia dos Sertões”, que li estudando com a melhor das atenções. É uma obra que se pode considerar regionalista, uma vez que seria impossível transplantá-la para outro cenário sob pena de desfigurá-la por completo. Como diria o crítico Lauro Junkes, na sua conhecida divisão, é um regionalismo mais de fundo que de forma, uma vez que a linguagem empregada é castiça, escorreita e rica, não havendo abuso no emprego de expressões locais. É uma linguagem sofisticada. Em muitos trechos ela se aproxima da melhor prosa poética.

O texto revela um escritor que conhece a fundo os sertões. A paisagem, a geografia, os usos e costumes, a vegetação, os animais, a psicologia do povo que os habita,  as crenças, missas e rezas,  as doenças e os curandeiros, os crimes, vinganças e tocaias. Observador arguto e dono de excelente memória, nada escapa ao seu crivo. Registra em muitos passos os ditos, cantos e versos correntes no meio do povo. Descreve com precisão tudo que acontece, desde os personagens, coerentes e bem identificados, as reuniões e festas, os casamentos com todo seu ritual e, não poderiam faltar, as disputas políticas que acabam descambando para a guerra declarada.  

 O romance, porém, não fica nisso, embora já fosse suficiente para fazê-lo grande. É que o autor, homem de espantosa erudição, entrelaça sua trama com a mitologia grega, latina, germânica e até egípcia. Cada episódio importante pode ser comparado, num aprofundamento da leitura, a episódios míticos, o mesmo acontecendo com numerosos personagens que se afinam com seres da vasta e complexa mitologia. Também há referências sutis e alusões significativas a obras da literatura clássica universal. É uma leitura a ser feita em dois níveis, o literal e o de fundo. As numerosas notas explicativas feitas por Junito de Souza Brandão, expert no tema, indicam os momentos em que se verifica esse curioso entrelaçamento. Creio que é o mais categorizado intérprete da obra do autor. Com muita propriedade, Antônio Olinto se referiu aos mitos de William. “O que o narrador busca, e faz,– diz ele – é ligar o mito à realidade.” Todos esses elementos, conclui o mesmo autor, “tornam este cântico rural chamado “Epopeia dos Sertões” de uma força capaz de marcar a ficção brasileira desta segunda metade do Século XX.” E do novo século também, acrescentaria eu.

O romance tem merecido o incontido aplauso de leitores tão exigentes quanto se possa imaginar. “William Agel de Mello – afirmou Guimarães Rosa – é finíssima e formidavelmente dotado para levantar a incríveis zênites a nossa literatura – o que acho, acho, acho.” Jorge Amado, por sua vez, asseverou: “William Agel de Mello é, hoje, um dos melhores contistas brasileiros. “Epopeia dos Sertões” é um livro de grande força, que prende o leitor da primeira à última linha.” Já o referido Antônio Olinto não titubeia em afirmar que “é um dos melhores romances da literatura brasileira.” Medeiros e Albuquerque e Antônio Houaiss também se manifestaram de maneira enfática em favor do romance.

A obra do escritor de Goiás é oceânica. Além de se dedicar à ficção, é tradutor de numerosas obras, ensaísta, articulista e dicionarista. É reconhecido como destacado africanista. Elaborou cerca de vinte dicionários e sua dominação linguística é desde muito proclamada. Acima de tudo, porém, é um escritor dos mais responsáveis e exigentes. Considera seus livros como obras inacabadas, submetendo-os sempre a meticulosas revisões, sopesando com extremado critério cada palavra e cada detalhe. Talvez por isso tenha interrogado a si próprio: “Cabe indagar: não é terrível a sina do escritor?”

Para um despretensioso resenhista e divulgador de livros, comentar a obra de William Agel de Mello é uma temeridade. Mas, ao mesmo tempo em que me arrisco a fazê-lo, lamento não tê-lo conhecido antes e me debruçado sobre sua obra. Foi uma grande perda que agora tentarei compensar lendo seu livro de ponta a ponta.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 05/02/2018 às 14h04 | e.atha@terra.com.br

O segredo das biografias

Tenho para mim que o biógrafo é um justiceiro porque ele se esconde por detrás da figura do biografado, cuja personalidade tenta absorver em detrimento da sua própria. Como escreveu alguém, é um esforço para não deixar morrer os nossos mortos. Câmara Cascudo escreveu certa vez que a tarefa do biógrafo é ressuscitadora porque torna o biografado uma “entidade viva e comunicante nos caminhos de nosso Entendimento.” Gênero difícil, exigindo intensa pesquisa, visão histórica e informação, o grande segredo da biografia é mostrar o biografado vivo, em ação, agindo e reagindo, pulsando, vivendo, enfim. E isso não é fácil, tanto que muitas biografias não o conseguem, não passando de relatos frios das ações de outrem.

Fabio de Sousa Coutinho se revela portador desses requisitos em seu livro “Lucia – Uma biografia de Lucia Miguel Pereira”, publicado por Outubro Edições (Brasília – 2017). Bem fundamentado, rico em elementos informativos, minucioso, escrito com sinceridade afetiva, o livro reconstitui passo a passo a existência e as realizações de uma das figuras femininas mais importantes da literatura nacional. Ficcionista, biógrafa, crítica literária e tradutora, a biografada chegou a ser considerada a Madame de Srael do século XX.  Em qualquer dos gêneros a que se dedicou, sua produção foi sempre bem acolhida pela crítica e pelos leitores.

Trabalhadora incansável, Lucia Miguel Pereira foi uma presença forte e constante no panorama cultural brasileiro de seu tempo. Entre suas maiores realizações, avulta a consagradora obra “Machado de Assis – Estudo crítico e biográfico”,  enaltecida como autêntica obra-prima e hoje com diversas edições, secundada pela não menos valiosa “A vida de Gonçalves Dias”, recuperando a trajetória do inditoso poeta dos Timbiras, falecido em trágico naufrágio quando já se avistava a terra natal. Ambas se constituem em marcos do gênero biográfico entre nós e conquistaram posição definitiva na estante nacional dedicada à arte biográfica.

Além disso, Lucia Miguel Pereira produziu romances, literatura infantil, ensaios, crítica literária em abundância, e organizou o “Livro do centenário de Eça de Queirós”, o que lhe custou um ano de incansável trabalho. Coordenou os serviços da biblioteca do MAM, do Rio de Janeiro, e ainda encontrou tempo para traduzir Proust, tarefa que realizou com extrema dedicação e exigência perfeccionista. Publicou ainda “Prosa de Ficção – História da literatura brasileira”, livro pelo qual tenho antiga e intensa predileção.

No terreno pessoal, Lucia foi uma mulher corajosa e de atitude. Numa época em que isso constituía um verdadeiro tabu, passou a viver com Octavio Tarquínio de Sousa, ministro do TCU e historiador, desquitado da primeira esposa e com quem se casou no Uruguai, como era de hábito nos tempos pré-divórcio. Com ele formou um casal unido e feliz, convivendo “até que a morte não os separe” – como diz o Autor. É que ambos pareceram juntos em acidente aéreo, quando retornavam de São Paulo, e seus corpos foram identificados com as mãos dadas e dedos entrelaçados. “Felizes os que chegam de mãos dadas, como se fosse o instante da partida”, escrevera o poeta Lêdo Ivo, como quem profetizava o triste desenlace. Foi a tragédia final de Lucia, já marcada por outras ao longo da existência.

Por ocasião do retorno de Santos Dumont ao Brasil, entre as homenagens planejadas, um grupo de intelectuais deveria sobrevoar o transatlântico “Ancona”, em que viajava o herói. Lucia foi convidada a integrar a comitiva, mas sua mãe vetou a presença dela, alegando que não ficaria bem uma moça viajar em meio a tantos varões. Foi a sorte da jovem, ou o destino. Como registrou a história, o avião despencou na Baía da Guanabara, matando todos seus ocupantes. Em face da tragédia, Santos Dumont pediu que todas as solenidades em sua honra fossem canceladas. Coincidência ou alerta do destino?

O livro contém valioso material iconográfico e relaciona a ampla bibliografia relacionada que foi objeto de detida consulta pelo Autor. Conta ainda com excelente prefácio de autoria do poeta Anderson Braga Horta. Está de parabéns Fábio de Sousa Coutinho por nos ter devolvido Lucia Miguel Pereira, rediviva e ativa.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/01/2018 às 16h05 | e.atha@terra.com.br

Lutador solitário

 Em ligeira viagem pelo Estado, chegamos à cidade de Irani, às margens da BR 153 – a Transbrasiliana. Nas cercanias ocorreu o combate que daria início real à Guerra do Contestado que se estenderia até 1916. Ali pereceram, no dia 22 de outubro de 1912, o coronel João Gualberto, comandantes das forças legais, e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Fatos que calaram fundo na alma do povo e transformaram a cidade no local onde foi aceso o estopim da mais sangrenta conflagração civil de nossa história. O cemitério e o monumento do Contestado são atrações turísticas muito visitadas.

Percorrendo o centro urbano, limpo e bem cuidado, conversando com um e outro, logo veio à tona o nome do Prof. Vicente Telles, segundo a vox populi a maior autoridade nos assuntos do Contestado. Já o conhecia de nome há muitos anos, tinha notícia de suas atividades e havia lido trabalhos de sua autoria. Reside numa fazenda, herdada dos antepassados, cerca de dois quilômetros além da cidade, e para lá nos dirigimos. Tem uma casa ampla e bonita, construída num pátio elevado e limpo, de onde de avista o imenso vale verdejante que se estende a perder de vista, com os campos manchados de capões e onde farfalham muitos pinheiros e árvores nativas. Ali não se toca em nada, diria o dono, mais tarde.  Como fosse um sábado, tivemos a sorte de encontrá-lo em casa e ele não tardou a aparecer. Homem alto, com os cabelos pelos ombros, simpático e falante, logo entrosamos uma conversa algo desencontrada, como é comum nos primeiros encontros. Ele nos deixou à vontade e logo pudemos avaliar a amplitude de seus conhecimentos sobre o Contestado, seus feitos, causas e conseqüências. Modesto, ele se considera um rábula da história, embora eu prefira dizer que é doutor pela boca do povo, como se considerava o poeta Ascenso Ferreira. Naquele dia, como em todos os sábados, ele faria um programa na rádio local, “A Voz do Contestado”, para o qual me convidou e lá fomos nós, realizando uma entrevista improvisada na qual pude falar um pouco de minha obra.

Vicente Telles é um lutador solitário. Criou e dirige a “Fundação do Contestado”, cuja sede está instalada numa espécie de museu que construiu por sua conta nas proximidades da casa. Bate-se pela implantação do Parque Temático cuja “maquette” nos exibiu, expondo em detalhes o projeto. Esbarra, como sempre acontece, nas teias da burocracia e nos enredos da política, retardando a consecução de uma obra que introduziria a região no mapa turístico e cultural do Estado de forma destacada. Luta também pela preservação da memória da Guerra, desfigurada em tantos pontos, e, acima de tudo, pela afirmação da identidade catarinense e pelos valores espirituais que nortearam a ação dos revoltosos. Apóia e participa do grupo Folclore Itinerante do Contestado, apresentando peças, montagens e performances de grande porte, algumas em praça pública. Musicista e poeta, é autor de vários trabalhos sobre o assunto, alguns dos quais nos ofertou. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, foi membro do Conselho Estadual de Cultura.

Como tantos que lutam pela cultura em nosso país, ele trabalha só, enfrentando todas as dificuldades. Mas tem a vontade férrea dos idealistas e nada o fará desistir. Está convencido de que, mais dia menos dia, suas realizações integração Irani e a região entre os mais visitados itinerários de nosso Estado.   

________________________________

Outra vez na estrada, pouco adiante de Irani, fazemos uma parada para rever o Monumento do Contestado, erigido em concreto escuro, à margem da BR 1 5 3. São duas imensas mãos que seguram uma cruz em sinal de paz e fé. Está em local estratégico, no pico elevado de um coxilhão, e pode ser visto a grande distância. Tem sido vítima dos vândalos e uma de suas peças foi arrancada e lançada ao chão. Pensei em escrever ao prefeito, mas – que diabo! – eu não sou a palmatória do mundo. Outrem que o faça!

Visitamos, em seguida, o Cemitério do Contestado, na outra margem da rodovia. Tem o portão aberto e contém túmulos muito antigos que guardam os restos mortais de caboclos anônimos que pereceram no primeiro grande embate, aquele que deflagrou a Guerra do Contestado, em 22 de outubro de 1912. Existem também túmulos mais recentes. Está conservado e a grama é baixa, sinal de que é bastante visitado. Como afirmou Vicente Telles, foi a única lembrança que restou daqueles miseráveis que perderam a vida na luta por um pedaço de terras onde plantar para comer. Ao lado, em casarão de madeira imitando rancho caboclo, está o Museu Histórico do Contestado. Como tantos outros pelo país a fora, está fechado.

Dando largas à imaginação, visualizei a luta naquele remoto e trágico dia. À esquerda, descendo pelo coxilhão, avançam os “jagunços” (os “pelados”), maltrapilhos, armados de picapaus, garruchas, lanças e facões feitos de madeira de cerne. À direita, costeando a lagoa, marcham os soldados bem armados (os “peludos”), arrastando a metralhadora – a “matadeira” – que deveria “costurar” os insurgentes. E ali se dá o entrevero, morrendo o coronel João Gualberto, comandante das forças legais, e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Gritos, tiros, relinchos, latidos enchem de sons os descampados e ecoam pelas coxilhas, espantando os bichos e os pássaros, viventes pacíficos daqueles ínvios. Mas o engasgo da metralhadora seria fatal para os fardados, impedindo que o coronel desfilasse “com a caboclada xucra amarrada em cordas” pela Rua XV de Novembro, em Curitiba, como vinha proclamando o comandante. Ali, à beira de uma plácida lagoa campeira, ele derramou seu sangue, regando o chão seco dos campos.

A Guerra durou quatro anos, custou a vida de milhares de pessoas e marcou para sempre a sofrida população da região.

_______________________________

Republico este artigo em homenagem ao Prof. Vicente Telles, falecido no dia 28 de dezembro de 2017, aos 86 anos de idade. Lamentei muito. Perde o nosso Estado um profundo conhecedor da história do Contestado e um divulgador incansável daqueles eventos. Musicista, poeta e historiador.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/01/2018 às 15h12 | e.atha@terra.com.br

Rum e Lama

Romances de amor nunca saem de moda. Existe considerável quantidade de leitores fiel ao gênero. Romances como “Amor de Salvação” e “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, fascinam até hoje numerosas pessoas, em que pese sejam muito antigos. Outros tantos exemplos poderiam ser lembrados. Aliás, a palavra romance, num dos seus sentidos lineares, significa história amorosa.

A produção de um romance exige de seu autor muito fôlego e paciência para escrever textos longos, recheados de incidentes e envolvendo muitos personagens. A escritora catarinense Adair Dittrich revela possuir tais qualidades em sua primeira obra romanesca: “Rum na Lama Vermelha”, publicada pela Editora da UNIUV (2017).

Ambientada numa pequena e remota cidade do interior, destituída dos chamados melhoramentos urbanos, com suas ruas poeirentas nos tempos de seca e com lama vermelha nas chuvaradas, a história decorre num meio rude e pobre onde todos se conhecem e a vida de cada um é vigiada por olhos curiosos. Ali acontece a aproximação de uma médica jovem e bonita com um farmacêutico boêmio inveterado, amante dos bares e do cuba-libre. Ela é uma pessoa sensível, dedicada à profissão e preocupada com a precária condição sanitária dos moradores da cidade e dos arredores. Ele é descuidado, acostumado a dormir até tarde e a gastar suas noites bebericando. Dois temperamentos díspares, indicando um relacionamento problemático. Não obstante, se apaixonam e têm momentos de mútua e total entrega.

Os empecilhos à realização desse amor não são poucos. Enfrentam a oposição do outro médico da cidade e, mais ainda, da esposa dele, uma mulher dada à maledicência descontrolada, ou seja, uma “faladeira”. A maledicência não parte apenas dela, mas também de outras pessoas. As insinuações, os risinhos maldosos, os gestos tendenciosos, sem esquecer a maledicência pesada, aquela que parece urdida para provocar tragédias e desgraças. Mas os apaixonados tudo enfrentam e até planejam recomeçar a vida em outra cidade.

O amor, no entanto, nunca se realiza por inteiro e o rapaz acaba perdendo a amada. Cenas de ciúme, sempre provocadas por ele, discussões, desentendimentos, desconfiança. São circunstâncias que se interpõem no caminho e acabam por separar o rapaz e a moça, apesar de várias tentativas frustradas de reatar o relacionamento. O rompimento é doloroso, traumático, uma punhalada no coração. O casal se ama mas não consegue conviver.

Após longa separação, sobrevém o inesperado, a nota trágica que envolve o rapaz e surpreende o leitor. Para completar, há momentos surreais vividos pelo personagem Joel, o rio e suas águas barrentas. Nada falta, enfim, na trama romanesca.

O romance contém muito de memorialismo, refletindo fatos da vida de sua autora, assim como de suas experiências como médica. O relato é feito em segunda pessoa, o que é bastante raro, mas a autora demonstra dominar com segurança as normas da língua. Também chama a atenção o uso da forma indireta ou inversa das frases, colocando o verbo sempre no final. São detalhes de um estilo próprio e pessoal, pois, como dizia Monteiro Lobato, o estilo é como o nariz, cada um tem o seu.

O romance de Adair é bem estruturado, cada episódio está no lugar e no tempo próprio, os personagens são coerentes e bem definidos, e a leitura prende o leitor curioso até a derradeira página.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/01/2018 às 09h25 | e.atha@terra.com.br

O método de não ter método

O comissário Jules Maigret, integrante da Polícia Judiciária francesa e o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989) é um investigador diferente e que costuma desvendar seus casos de uma maneira muito particular, o que nunca o impediu de chegar a bom resultado. Homem grande e pesadão, envergando sempre o sobretudo preto com gola de lã e sugando o inseparável cachimbo, ele se mostra apático e indiferente diante do crime, mas, na verdade, está atento a tudo e com a máquina cerebral funcionando a todo vapor. Muitas vezes desconcerta as pessoas quando olha para quem fala com seus imensos olhos, fixando-a de perto e, de repente, “grunhir algo ininteligível e virar as costas com jeito de não considerar o outro grande coisa.” Indagado a respeito de algum aspecto, responde sempre: “Não acho nada! Não deduzo nada!” Quando um membro mais jovem de sua equipe procura imitá-lo, explica como procedeu num caso: “Fiz a investigação às avessas, o que não me impedirá, talvez, de fazer a próxima às direitas. É uma questão de atmosfera. Uma questão de caras. Quando cheguei aqui, dei com uma cara que me seduziu e não a larguei mais.”

Aí o comissário se referia à investigação realizada no romance “O Cachorro Amarelo”, publicado pela Cia. das Letras (S. Paulo – 2014) e cujo resultado foi perfeito. Nele, a cidade praiana de Concarneau, tão antiga que ainda ostenta muralhas medievais cercando um populoso bairro, se vê de repente assolada por uma série inexplicável de crimes violentos e que deixam em pânico a população. Maigret para lá se dirige, instalando-se no Hotel de L’Amiral, cujo bar é o ponto de encontro das pessoas gradas: o prefeito, o médico (que não clinica), o jornalista, o negociante matriculado e outros. E nesse caso, como em nenhum outro de que me lembro, fica mais visível que nunca que o método investigativo do célebre comissário é mesmo a falta de método. No correr da leitura fica a impressão de que ele mais adivinha que descobre, mas, no final, o leitor percebe que todos os detalhes se juntam com exatidão como um quebra-cabeça.

É então que entra em cena um misterioso cão amarelo. Grandalhão, desajeitado, feio, sem raça definida (SRD), ninguém o conhece ou sabe a quem pertence. Silencioso e humilde, o animal costuma entrar no bar e ali se enrodilhar aos pés da garçonete Ema, figurante obscura na história e que nem sequer chega a ser mais ou menos bonita. Há no ar vago comentário de que o cão poderia pertencer a um embarcado. Mas fica nisso e, no entanto, nele está a chave do mistério que envolve a série de crimes que vêm ocorrendo. E através do mísero cão, que acaba baleado e morto, o comissário desvenda a trama antiga de um vultoso contrabando de drogas que fracassou e do qual participaram várias pessoas da cidade, entre elas aquela sobre a qual ninguém lançaria a menor suspeita. Tudo termina bem e sobrevém até um final feliz pouco comum no fecho de suas obras.

Simenon foi um prodígio de produtividade. Em seus 86 anos de vida escreveu assombrosa quantidade de obras sem decair na qualidade. Romances, novelas, contos, crônicas, artigos, reportagens e páginas de memórias, estas últimas pouco valorizadas porque, segundo a crítica, são por demais fantasiosas e fogem à realidade. Seu biógrafo Pierre Assouline registrou 171 obras, maiores ou menores, escritas por ele sob pseudônimos e 232 já como Georges Simenon, dentre as quais cerca de 200 romances, e sem contar várias coletâneas posteriores reunindo textos esparsos. Para compensar, a quantidade de trabalhos sobre sua vida/obra é espantosa, sendo detentor de uma das maiores fortunas críticas entre os autores modernos. Sua ficção tem sido aproveitada pelo cinema e televisão, existindo incontáveis filmes nela inspirados.

“O Cachorro Amarelo”, agora publicado pela Cia. das Letras, merece leitura. Existem alguns defeitos visíveis de tradução, como repetição desnecessária de vocábulos e vários lugares-comuns que, por certo, não devem estar no original e que poderiam ser evitados.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/01/2018 às 10h45 | e.atha@terra.com.br

Hemingway e suas histórias

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um “causeur” admirável e suas histórias encantavam os amigos que sempre o cercavam, sequiosos por ouvirem os relatos do Velho Hem. Essas histórias, por inverossímeis e absurdas que fossem, eram sempre contadas com seriedade, sem que esboçasse sequer um sorriso, intrigando os ouvintes admirados de sua inesgotável criatividade. Só relatava histórias que não seriam aproveitadas em sua ficção, nunca aquelas que integrariam os enredos de seus contos e romances. É por isso que se costuma afirmar que ele deixou uma outra obra, oral e paralela, nunca recolhida aos livros.

Muitos desses casos foram anotados por seus biógrafos e mais tarde divulgados. A. E. Hotchner, amigo íntimo do escritor e que com ele conviveu na última fase da vida, tornando-se depois um de seus melhores biógrafos, registrou algumas dessas histórias.

Segundo ele, havia um enorme urso negro que costumava sentar-se no meio da estrada, impedindo a passagem e atemorizando as pessoas. Sabedor do fato, Hemingway teria se dirigido ao local e passado tremenda descompostura no urso, criticando sua conduta inconveniente e que poderia, inclusive, provocar uma tragédia. Para geral surpresa, o animal baixou a cabeça, retirando-se do local e penetrando na floresta. Dali em diante, ao avistar algum carro, o urso se escondia atrás das árvores, tremelicando de medo, temeroso de que nele estivesse o escritor. Indagado a respeito, Hemingway asseverou que havia aprendido a falar com animais, em especial com ursos e leões.

Relata o mesmo autor que Hemingway muito apreciava certo bar de Nova York. Mas aconteceu que um ex-pugilista peso médio deu para aparecer no local tangendo pela corda um grande leão. Embora o animal fosse manso, não rugindo ou grunhindo, costumava sujar o local, provocando náuseas nos frequentadores e mau cheiro no ambiente. Diante disso, o proprietário do bar pediu ao pugilista que não levasse mais o leão ao seu bar, mas ele não atendeu e no dia seguinte lá apareceu com ele. Quando o leão sujou outra vez o soalho, Hemingway não se conteve. “Eu me aproximei, agarrei o pugilista, carreguei-o para fora e joguei-o na rua. Depois voltei, agarrei o leão pela juba e o pus para fora daqui. Já na calçada, o leão lançou-me um olhar, mas afastou-se quietamente” – arrematou o próprio escritor.

Em outra ocasião, relatou ele que nos tempos em que fora correspondente de guerra havia um escritor de “renome” que costumava furtar suas histórias “tão rapidamente quanto eu as escrevia, mudar os nomes dos personagens e dos lugares e vendê-las por mais dinheiro do que eu obtinha. Mas encontrei uma maneira de detê-lo. Deixei de escrever por dois anos, e o filho da mãe morreu de fome.” 

Nos tempos difíceis que viveu em Paris, habitando minúsculo apartamento sobre uma serraria, a comida nas panelas era fraca – contava ele. Gostava muito do Jardim de Luxemburgo porque “nos dias em que a panela do jantar se achava absolutamente vazia de conteúdo, eu colocava Bumby (o filho), que tinha então cerca de um ano de idade, no carrinho de bebê e levava-o a passear no Jardim. Havia sempre, lá, um gendarme em serviço, mas eu sabia que, ali pelas quatro horas, ele costumava ir tomar um copo de vinho num bar situado do outro lado do parque. Era então que eu aparecia com Mr. Bumby – e um punhado de milho para os pombos. Sentava-me a um banco, em meu disfarce de amante apaixonado de pombos, e examinava o bando, para ver qual era o mais gordo e tinha os olhos mais vivos. Uma vez feita a minha escolha, era simples atrair a vítima com o milho, agarrá-la, torcer-lhe o pescoço e metê-la sob o cobertor de Mr. Bumby.” E, muito sério, concluía: “O Luxemburgo sempre foi famoso pela excelência de seus pombos...”

Em outra ocasião, relata o biógrafo Milt Machlin, um soldado de seu batalhão de “provisórios”, indagou porque ele, com tantos serviços prestados e tanta idade nunca passara de capitão. (Na verdade nem militar ele era). Para espanto geral, respondeu: “É que não pude ser promovido porque não sei ler nem escrever....”

São uns poucos exemplos da conhecida obra oral e paralela de Ernest Hemingway.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2018 às 09h17 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br