Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O triste fim do Toinzinho da Badia

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em seu célebre livro “Emílio”, sustentou o princípio da bondade inata do ser humano, ou seja, de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Esse entendimento lhe valeu uma avalanche de críticas e perseguições que o obrigaram a se exilar na Suíça. É que ele contrariava o dogma do pecado original num período histórico em que isso constituía crime punido com penas muito severas. Não obstante, a história está repleta de exemplos, o mesmo acontecendo na literatura. Caso típico é o de Toinzinho da Badia, personagem central do romance “Destino de um criminoso”, de autoria do escritor goiano Edmo Nunes (Editora Kelps – Goiânia – 2011).

Filho de um casal de retirantes que chegou ao centro-oeste em busca de vida melhor, depois de uma viagem penosa e longa, não tinha documentos e nem sequer sobrenome. Mirrado, miúdo, frágil, recebeu a alcunha de Toinzinho que, mais tarde, evoluiria para Tonho. Para surpresa geral, o garoto se revelou precoce, hábil e inteligente. Aos treze anos era um peão consumado, dominando as técnicas e táticas da vida fazendeira. Montava, laçava, campereava, viajava com os tropeiros e ainda prestava serviços em casa, ajudando em variados misteres. Um tanto arredio aos estudos, mesmo assim aprendeu o suficiente. Desde muito cedo se mostrou dedicado à mãe e às pessoas que o ampararam nos momentos de dificuldade; era sincero e leal, conquistando a confiança de todos. Em síntese, pessoa de bons sentimentos, honesta e dedicada ao trabalho. No decorrer dos anos, porém, se transformou num assassino duro e calculista, capaz de execuções a sangue frio, embora agindo sempre por dedicação e lealdade às pessoas que amava. Sua carreira teve início com um ataque ao indivíduo que vivia com sua mãe e que a agredira. Seus crimes provocaram tenaz perseguição, uma vez que as vítimas eram pessoas de famílias poderosas, obrigando-o a uma vida errante até que decidiu se apresentar à polícia na esperança de um julgamento justo. Foi então “suicidado” na cadeia com um tiro na nuca. O menino bom, leal e honesto de outrora teve um fim dos mais tristes.

O romance se insere na corrente regionalista e a ação é ambientada no meio rural com seus povoados, grandes latifúndios, coronéis poderosos e autoritários, tropeiros, peões e a lida com as criações. Não falta sequer a velha política municipal, o ódio partidário, o voto de cabresto dos meros “portadores de cédulas” de que falava Monteiro Lobato. Avulta a figura da mulher decidida e corajosa que toma nas mãos o destino da fazenda, desafia os mandões e se impõe na liderança local. Aparece ainda o “turco”, mascate que fornece artigos necessários aos moradores, trazidos dos centros maiores.

O autor é um narrador de fôlego e vai desfiando seu enredo sem dificuldade, superando obstáculos, até chegar onde deseja. Em certas passagens é de uma fidelidade fotográfica e o leitor observa a cena como se estivesse presente. Nota-se que conhece a fundo os temas sobre os quais escreve. O meio físico, a paisagem, os costumes, o modo de vida, a psicologia dos personagens e seus valores, ele os domina graças à experiência vivida. Sua narrativa é verossímil e convincente porque, como dizia Hemingway, a verdade é a base da boa obra literária.

Também domina a linguagem regional, usando-a com moderação e nos momentos corretos, fugindo das caricaturas ou do caboclismo exagerado. Expressões e palavras locais curiosas aparecem no texto, muitas delas semelhantes às usadas em nossos Campos Gerais. Quando Deus era servido, ajuntamento, farturentas, bois erados, berranteiro, viajor escoteiro, atilho de milho, ficar querelando, cozinhando o galo, fez bonito, comer estrada, rachando taquara, eis alguns exemplos colhidos ao acaso no correr da leitura. Os nomes dos personagens e figurantes são bem apropriados: Quelemente, Badia, Tonho, Tubertino, Bento, Eleutério, Severino, Epitácio.

Trata-se, enfim, de um romance de leitura absorvente e que ensina ao leitor mais um pouco desse Brasil distante e que muitos desconhecem. Embora se diga que o regionalismo literário está morto e sepultado, a corrente não cessa de crescer e novos valores a ela se juntam nas diversas regiões do país.

Além do livro comentado o autor publicou “Últimas bodas” e “Mulheres do pecado”, ambos merecedores de análise mais demorada para, quem sabe, futura oportunidade.

(Contato com o autor: edmo.nunes@hotmail.com)

Escrito por Enéas Athanázio, 01/05/2017 às 23h14 | e.atha@terra.com.br

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Eleições Já!

“Um escritor é um marginal
como um cigano. Se for um
bom escritor nunca poderá
gostar do governo sob cujo
poder vive. A sua mão deve
estar contra ele.”

HEMINGWAY

Em seus poucos meses de duração, o governo-tampão de Michel Temer comprovou que é um absoluto fracasso. É uma sucessão inacreditável de erros, equívocos e gafes que nos dão a sensação de estar vivendo num mundo surreal à moda de Tristan Tzara. A equipe do governo confirma a cada dia que não está preparada para governar o país e que caminhamos a passos largos para o caos.

O presidente parece alimentar estranha predileção por políticos suspeitos para comporem seu staff. No Ministério das Relações Exteriores, sai um suspeito (Serra) e entra outro suspeito (Aloysio). Os presidentes do Senado e da Câmara, homens de sua estrita confiança, são ambos suspeitos. Seis ministros  estão sob suspeição e outros tantos caíram por idêntico motivo. Seu líder no Senado também é suspeito. Inacreditável.

Cada vez que abre a boca – e como fala mal! – o presidente se enrola. Na sua última manifestação, no Dia da Mulher, arranjou uma encrenca com o mundo feminino, provocando a indignação das mulheres de todo o país.

Erigiu como panaceia para todos os males a reforma da Previdência, quando estudiosos do assunto sustentam que não existe rombo no orçamento do setor. Até uma CPI está sendo criada no Senado para demonstrar esse fato. Insiste numa reforma trabalhista que irá prejudicar os trabalhadores e agora já falam em aumento de impostos que, como sempre, recairá sobre os assalariados que não têm como sonegar. O presidente da Câmara, homem de sua estrita confiança, externando sem dúvida o pensamento do governo, afirma que a Justiça do Trabalho não deveria existir. Esse entendimento estava implícito nas atitudes do governo mas nunca havia sido verbalizado de forma tão direta. Sempre entendi que a jurisdição trabalhista poderia ser exercida por varas especializadas da Justiça Comum. Mas daí a extinguir a Justiça do Trabalho vai um mundo. Seria colocar o trabalho ao nível das mercadorias e sujeitar o trabalhador à velha locação de serviços regulada pelo Direito Civil e todas suas graves consequências.

Não satisfeito, o governo faz tremendo estardalhaço com a liberação das contas inativas do FGTS como se estivesse realizando imenso benefício. Ora, essas contas são dos trabalhadores e não do governo, de sorte que ele está fazendo cortesia com o chapéu alheio. Além disso, valores substanciais são gastos em propaganda do governo, martelada dia e noite pela televisão para embair os incautos. Para completar, o presidente se põe a inaugurar obras que não fez, imaginando talvez que pode iludir o povo. Na transposição das águas do São Francisco foi, uma vez mais, vaiado e não teve a grandeza de se referir aos antecessores que realizaram a obra. Anuncia-se que virá a Santa Catarina para inaugurar comportas do Alto Vale do Itajaí que também não fez. Faço votos de que as mesmas vaias o recebam.

Por outro lado, seu apoiador FHC criou nova e inusitada teoria jurídica. Segundo ele, no seu costumeiro estilo confuso e mal articulado, dinheiro roubado usado em campanha eleitoral não é criminoso; só é criminoso quando embolsado por quem o recebeu. Campanha eleitoral “lava” as propinas. É claro que ele perdeu ótima oportunidade de ficar calado.

Para encerrar, vão recomeçar as privatizações, vendendo o patrimônio nacional sem poderes para tanto, em evidente excesso de mandato.

Apesar de tudo, não ouço os costumeiros panelaços. Parece que sendo paulista, branco e rico pode fazer o que bem tender.

O Brasil nunca deixa de andar em círculos. É o país de um futuro que nunca chega.

Deus do céu! Não é possível continuar assim.

Precisamos de eleições diretas e já!

Escrito por Enéas Athanázio, 24/04/2017 às 09h50 | e.atha@terra.com.br

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Na cidade dos príncipes


Enéas é recebido na Academia Joinvilense de Letras

Convidado pela Academia Joinvilense de Letras, estive naquela cidade no dia 23 de março para fazer uma palestra a respeito de episódios pouco conhecidos da Guerra do Contestado (1912/1916). Recebidos no suntuoso e centenário prédio da Sociedade Harmonia Lyra, lá permanecemos, minha esposa e eu, durante várias horas de intenso e agradável convívio com os integrantes da entidade e convidados. Discorri sobre o tema proposto e em seguida respondi às perguntas que me foram formuladas em uma agradável troca de ideias e informações. Estiveram presentes os escritores Milton Maciel, presidente, Carlos Adauto Vieira, ex-presidente, David Gonçalves, Wilson Gelbcke, Nelci Seibel, Salustiano Luiz de Souza e vários outros, além de João Alberto Nicolazzi, meu antigo colega de Colégio. Foi uma noitada das mais agradáveis. O evento havia sido bastante divulgado.

A Academia Joinvilense é muito ativa e seus associados produzem trabalhos dos mais variados gêneros literários. Ela publica um suplemento mensal denominado “Hekademia”, adotando a forma original e mais antiga da palavra Academia e que conta com vários números publicados. Entre eles saíram edições especiais dedicadas a “Nossos cronistas, “Nossos contistas”, “Nossos romancistas”, “Nossos historiadores” e “Nossas escritoras.” O suplemento, editado com esmero, contém significativas amostras das obras e súmula biográfica de cada participante, sugerindo um contato mais longo e demorado com sua produção.

Dentre os múltiplos livros de autoria dos acadêmicos, tomei conhecimento de “Contos vaticanos” e “Como é caro ser mulher”, ambos de Milton Maciel, escritor experiente e de visível exigência em sua produção, criativo e dono da boa técnica da short story e também ensaísta de pulso; “O balaio gigante”, de autoria de Nelci Seibel, versando o gênero memorialista e descortinando as reminiscências da vida em família, escrito com emoção e justificada saudade; “O eterno Barnes”, de Salustiano Luiz de Souza, alentado e esmerado ensaio; “Varandão de luar” e “Bico de ouro”, ambos de David Gonçalves, escritor dos mais conhecidos e autor de uma obra robusta e variada.

Manuseei ainda a coletânea “Ensaio”, publicada pela própria Academia, reunindo textos em prosa e verso de Milton Maciel, Herculano Vicenzi, Carlos Adauto Vieira, Wilson Gelbcke, Jura Arruda, Nelci Seibel, Hilton Gorressen, Raquel S. Thiago, George Postai de Souza, Marcelo Harger, Irmã Cléa Fuck e Paulo Roberto da Silva. Bem editado, o livro contém substantiva amostra dos talentos acadêmicos, elementos da história da própria entidade e notas biográficas de alguns dos fundadores, além de curioso material iconográfico.

A Academia Joinvilense é um modelo para suas congêneres e faço votos de que seja sempre organizada e produtiva.

Devo, por fim, uma palavra sobre o amigo Carlos Adauto Vieira, decano dos advogados joinvilenses, com 60 anos de vida forense, incansável batalhador pelas coisas da cultura em geral e das letras em particular. Meu contemporâneo dos velhos tempos de Faculdade, nosso relacionamento vem de muito longe, sempre trocando livros e opiniões. Militante da cultura, sua presença na Academia é, por certo, motivo de estímulo para todos os demais.

Essa noite de convívio com os colegas de ofício da Cidade dos Príncipes foi muito estimulante e deixará saudades pela forma amiga com que fomos recebidos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/04/2017 às 09h40 | e.atha@terra.com.br

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Do cangaço ao estrelato

O cangaço foi um fenômeno que não cessa de instigar a curiosidade dos pesquisadores e a bibliografia a respeito do tema só faz crescer. Entre os lançamentos mais recentes está o livro “Sila – Do cangaço ao estrelato”, de autoria de Elane Marques (Infographics – Aracaju – 2016), onde a autora aborda diferentes aspectos desse tipo de associação característico do Brasil e sem similar em qualquer recanto do mundo. O fio central da pesquisa foi biografar uma ex-cangaceira que se transformou em escritora e costureira de renome, obtendo grande notoriedade, mas alargou os limites para estudar a presença da mulher nos grupos cangaceiros e suas consequências. Estudou também os inúmeros casais que se formaram dentro dos bandos, seu modo de vida, a forma como as mulheres eram tratadas, os problemas decorrentes da gravidez e as implacáveis punições em caso de traição. Nesse sentido o livro é inovador, uma vez que não conheço obra semelhante.

O ingresso de mulheres nos grupos cangaceiros provocou muita controvérsia. Profetizaram alguns que seria o fim do cangaço; outros aplaudiram sem reservas. Admitida a entrada, a partir de 1929, os benefícios foram visíveis, como demonstra a autora. Desde então os cangaceiros teriam se humanizado, houve mais paz e tranquilidade no recesso dos bandos, reduziram-se os casos de estupros nas invasões de cidades e vilas e as doenças contraídas no baixo meretrício. Por outro lado, as mulheres tratavam da alimentação e do vestuário dos parceiros, contribuindo para a melhoria de sua saúde e higiene. Também não foram poucas as vidas poupadas graças à interferência delas.

Num levantamento que me parece único, a autora relacionou os inúmeros casais que se integraram nesses grupos. Dentre eles, avultam o de Lampião e Maria Bonita, ela tratada como uma rainha, sempre elegante, respeitada e querida por todos; Corisco, o Diabo Louro, e Dadá, mulher das mais corajosas e guerreiras, que não fugia aos combates, de arma na mão, e assumiu a liderança após o ferimento que impedia o marido de usar armas longas: Zé Baiano e Lídia, ele um cangaceiro feroz e desumano, célebre por marcar mulheres com ferro em brasa, e que assassinou a companheira a pauladas, depois de amarrá-la a uma árvore, em virtude de uma traição. Curioso no episódio é que o cangaceiro que a denunciou também foi sacrificado. A “ética” cangaceira não perdoava os “dedos-duros.” Destacou ainda, de maneira muito especial, a jovem Sila, quase menina na época, e seu companheiro e depois marido Zé Sereno.

Sila (Hermecília Braz São Mateus, depois Ilda Ribeiro de Souza) nasceu em Poço Redondo, Estado de Sergipe. Aos 14 anos de idade foi raptada pelo cangaceiro Zé Sereno, pertencente ao grupo de Lampião, e com ele conviveu até que a morte o levou. Permaneceu por dois anos no cangaço, tendo acompanhado o bando nas suas andanças, fugas das volantes, combates, assaltos e tropelias. Engravidou e teve um filho na caatinga, criança que foi entregue aos cuidados de coiteiros, uma vez que a presença delas era proibida. Mais interessante, porém, em sua vida cangaceira foi o fato de estar presente ao ataque das forças policiais na Grota do Angico na ocasião em que foram mortos Lampião, Maria Bonita e vários outros cangaceiros, em 1938, e que, segundo os historiadores, pôs fim ao cangaço. Desesperada, amedrontada, observando os que caíam em meio ao tiroteio e à fumaça das armas, Sila conseguiu escapar ao cerco e se tornou uma das sobreviventes da tocaia fatídica, como também aconteceu com Zé Sereno. Beneficiados pela anistia decretada por Getúlio Vargas, entregaram-se às autoridades, e iniciaram a longa e penosa viagem em busca de um recomeço de vida, Foram para Salvador, dali marcharam para Minas e, por fim, para São Paulo, onde se fixaram. O temível Zé Sereno, por ironia do destino, se tornou inspetor de alunos em um colégio e Sila granjeou grande renome como costureira, publicando também livros sobre sua terrível experiência e participando de novelas e seriados televisivos. Recebia frequentes convites para entrevistas e passou a proferir palestras sobre o cangaço e as minúcias da vida naquele meio. Andou por muitas cidades, falando e lançando suas obras, colaborando nas pesquisas sobre o assunto e contribuindo na sua divulgação. Tornou-se, em suma, verdadeira estrela, obtendo destaque na imprensa e entre os pesquisadores do fenômeno.

Graças ao meticuloso trabalho de Elane Marques, Sila foi alvo de importante ensaio biográfico e os estudos sobre o cangaço receberam significativa contribuição.

(Contato com a Autora: marqueselane2@bol.com.br)

Escrito por Enéas Athanázio, 10/04/2017 às 15h25 | e.atha@terra.com.br

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Em busca do tempo vivido

Não são muitos os memorialistas nas letras catarinenses. É um gênero literário em que poucos se destacaram no país, lembrando-se sempre os casos de Humberto de Campos, Gilberto Amado e Pedro Nava como os mais expressivos. Surge agora, entre nós, um livro marcante e cuja leitura me comoveu porque retrata com fidelidade a cidade de Canoinhas e, em especial, o distrito de Marcílio Dias, terra natal da autora. Há bons momentos de lirismo e poesia, outros tantos com mergulhos na intimidade subjetiva da autora e retratos enternecedores de figuras que marcaram sua trajetória de vida. As reminiscências, em forma de crônicas, fogem sempre das tão frequentes poses encontradiças em obras do gênero. O estilo é leve, a linguagem é correta e desenvolta e a autora se revela arguta observadora do meio e dos fatos, condição essencial ao cronista. Para quem residiu em Canoinhas, como eu, o livro é uma rara oportunidade de reencontro com a cidade e sua gente.

Refiro-me a “O Meu Lugar”, de autoria de Adair Dittrich (UNIUV – União da Vitória – 2016). Nascida em Marcílio Dias e médica de profissão, a autora é testemunha presencial de considerável período da história local em contato direto com o povo na sua lida cotidiana. Começa relembrando a instalação da família naquele distrito na luta árdua para a construção de um hotel e restaurante à margem da estrada de ferro, destacando a atividade de seus pais e a fama dos pastéis preparados pela mãe, sempre procurados pelos viajantes e ferroviários. Lembra, de passagem, a cerveja “Nó de Pinho” e as gasosas de “seu” Loefler, e que ainda conheci. Marcílio Dias se ligava a Canoinhas através de um ramal percorrido pelo Trenzinho, distinguindo-se do Trem Grande, aquele que fazia o trajeto entre Porto União e Mafra. Ali ela viveu inesquecíveis momentos de uma infância livre e feliz, relembrados com justificada saudade.

São tantas as lembranças evocadas que não é fácil destacar algumas nos limites de um artigo. No conjunto, elas revelam como são lentos e tortuosos os caminhos para a construção de uma cidade e os esforços de seus habitantes, ainda mais em uma região do Estado que sempre padeceu do mais completo abandono. Entre tantos acontecimentos, ressalta a memorialista a luta para a construção do hospital, a ampliação do colégio, a criação da fábrica para produzir cafeína, o Salão Metzger e suas festas e o chamado Campo de Trigo. E surgem retratos de épocas que parecem longínquas mas que, para nossa geração, são de ontem. Os carros movidos a gasogênio em face da escassez de gasolina, o estafeta que transportava de carroça as malas do correio, os sons sinistros dos machados e das serras na devastação da mata verde, os festejos de Natal, da Semana Santa e as domingueiras em que se espalhava serragem no soalho, a confraternização com amigas e colegas, a lembrança imorredoura dos dias do internato, as mestras que deixaram marcas, as peraltices, a rotina de uma vida disciplinada. Também não faltam os amores e as desilusões, os sonhos e as decepções inevitáveis na caminhada terrena, mas tudo contribuindo para a formação do ser humano e profissional em que se tornou.

Mas nem sempre foi um mar de rosas. Momentos chocantes deixaram marcas indeléveis. Assim foi quando fecharam a Escola Alemã, no correr da Guerra Mundial, e a prisão de conhecidos que falavam alemão. Num desabafo repleto de amarga surpresa, a menina confessou compungida: “E então eu entendi que o mundo não era feito de irmãos.” Tempos depois, em outra fase, aconteceu o cerco do distrito de Marcílio Dias. Com armas nas mãos, em aparatosa operação militar, varejaram a casa dos pais da autora em busca do “perigoso comunista”, seu irmão, Aldo Pedro Dittrich, num episódio deprimente e desnecessário. Meu contemporâneo de Faculdade, Aldo foi um homem de extraordinária coragem, firme nas suas convicções inabaláveis e, mais tarde, ainda que padecendo os efeitos das torturas, exerceu a advocacia na comarca com dedicação e dignidade. “Foi um dia inútil – escreveu a autora -, de uma imobilização inútil, por causa de uma inútil denúncia de algum inútil, onde muitos pagaram um preço de algo que nunca haviam ficado devendo.”

Muito bem fez Adair ao lançar no papel suas lembranças. Elas ficarão para sempre como um documento vivo das lutas e vitórias de seu povo. “A narrativa escrita – afirmou a escritora Zenilda Lins – pereniza a memória e materializa as observações. De que outra forma é possível compor as imagens, reter as cores, descrever as emoções? O livro é mágico: cristaliza as memórias perecíveis, evitando que se apaguem e se percam no nevoeiro do tempo e no emaranhado de novas experiências.”

Minhas saudações a Adair, uma escritora que já veio feita da experiência jornalística e que ingressa no mundo literário com passo firme. Ao contrário de Proust, que buscava o tempo perdido, ela recupera um tempo muito bem vivido.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/04/2017 às 09h47 | e.atha@terra.com.br

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Não conteste o Contestado ...

Não são muitas as tentativas de levar ao palco os eventos da Guerra do Contestado (1912/1916), pelo menos que eu saiba. Entre elas, no entanto, avulta “O Contestado”, de Romário José Borelli, publicada em livro por Orion Editora (Curitiba – 2006). Historiador, musicista e dramaturgo, o autor nasceu em Porto União e vem realizando longa e bem sucedida carreira na arte cênica, tanto no país como no exterior. A peça em questão foi montada pela primeira vez em 1972, numa época em que a bibliografia a respeito do Contestado ainda era bastante resumida. Ademais, havia no ar o risco da censura pelo governo autoritário de então, mas a peça foi exibida em diversas localidades, algumas delas em plena rua, e sempre com grande sucesso. Segundo o autor, até a época da publicação a peça fora montada mais de vinte vezes e nela haviam trabalhado mais de quinhentos atores, desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. Como se vê, fez uma brilhante carreira.

A primeira observação que se impõe é de que o autor conhece bem o assunto, os personagens, a geografia da região onde se desenrolou o conflito, percebendo-se que palmilhou por lá e escreveu com base na experiência própria. Foi fiel aos usos e costumes locais, ao modo de vida dos nossos caboclos, suas crenças e convicções e, acima de tudo, procurou manter absoluta fidelidade à linguagem rude, ao mesmo tempo conservadora e criativa, falada pelos habitantes da Serra-Acima. Também foi muito feliz na construção dos diálogos, aliando assim duas condições que Hemingway considerava básicas na arte literária: a sinceridade e a expressão exata nas conversações dos personagens.

Quanto a estes, são numerosos e muitos deles pinçados da realidade histórica. O monge João Maria, cuja visita era esperada com ansiedade; a entrada em cena do monge José Maria, cuja morte no Combate do Irani semeou um rastro de ódio e um grito de vingança pelos campos e matos; as virgens santas Maria Teodora e Maria Rosa; o prefeito Amazonas Marcondes; Elias e Euzébio; o tenente Kirk e seu aeroplano; o temível Adeodato, por eles chamado Leodato, derradeiro chefe dos revoltosos no momento em que os redutos caíam um a um. Além de incontáveis atores e figurantes.

Também os locais dos acontecimentos são mencionados, desde os rios Iguaçu e Uruguai, dentro de cujos limites o conflito se estendeu, o rio Timbó, Porto Amazonas, Valões, Porto União, Calmon e Curitibanos, sem faltarem os redutos de maior expressão. A fuga em massa dos habitantes de Porto União na iminência da invasão dos revoltosos, os ataques a Calmon e Curitibanos, tudo é recordado com tintas fortes e sugestivas. Como se vê, tantos foram os acontecimentos, espalhados por uma imensa região e com tais detalhes que colocá-los numa peça teatral se torna uma tarefa das mais complexas. Mas o dramaturgo catarinense conseguiu e sua obra fornece um panorama geral do conflito e seu impacto emociona o leitor. Não tive oportunidade de vê-la no palco mas imagino o seu efeito.

O autor insistiu sempre na necessidade de conservar a linguagem regional “para manter a autenticidade do processo cultural através da fala e dessa forma o documento linguístico complementa o documento histórico. Não é uma imitação, não é uma caricatura. É, antes de tudo, um resgate preciso e assim deve ser tratado.” Também o ambiente de revolta dominante na região em face da exploração, da miséria e do abandono daquele povo fica bem visível, justificando o nascimento de um movimento espontâneo, de baixo para cima, tentando transformar pela força o statu quo vigente. Nesse contexto, o conflito do Contestado, segundo os cânones da Ciência Política, foi uma verdadeira revolução para a qual não faltaram razões. Pois, como diz o refrão tantas vezes lembrado na peça:

“Não conteste o Contestado,
sem sabê sua razão. .
.”

Escrito por Enéas Athanázio, 27/03/2017 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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