Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

DOS ESCANINHOS DA MEMÓRIA

Folclorista por vocação e estudioso da música popular brasileira, além de autor de vasta obra literária, Francisco de Vasconcellos viveu os anos da juventude no Rio de Janeiro, período em que acompanhou de perto o panorama artístico da cidade e da região. Atento ao que acontecia no teatro, no rádio, na televisão e na música, manteve um relacionamento pessoal e íntimo com inúmeras figuras de destaque no meio artístico, o que lhe permitiu testemunhar e participar de muito do que ocorria. Colega na Faculdade de Direito e amigo íntimo do cantor e compositor João Roberto Kelly, a quem considerava como irmão, esteve sempre ao lado dele desde o início da carreira até sua definitiva consagração como autor de músicas célebres e aclamadas pelo povo.

Rebuscando nos escaninhos da memória e se valendo de bem organizado arquivo pessoal, ele reconstituiu grande parte do que viveu nessa época no delicioso livro “Boêmios... Malandros...Irmãos...” (Arteg – Juiz de Fora – 2018). Esclarece o autor, em preliminar, que a palavra malandro integrante do título não tem nada de pejorativo, mas designa aquele que sabe sair das enrascadas da vida sem se machucar e sem ferir os circunstantes. No conjunto, o livro oferece um panorama amplo e colorido do meio artístico do período, recordando incontáveis figuras de grande talento que pontificavam com brilhantismo numa das fases mais ricas da cultura popular brasileira. Encontrei referências a inúmeras pessoas que se destacaram e hoje estão em completo ostracismo.

Em primeiro plano o autor destaca o grande talento poético-musical de João Roberto Kelly, autor de sambas e marchinhas memoráveis, acompanhando a luta pela conquista de um lugar ao sol no mundo artístico. Ambos muito jovens, viviam com intensidade os dias agitados e as noites movimentadas da então capital da República. Faz uma espécie da biografia paralela de ambos e vai registrando, passo a passo, as realizações e as conquistas de Kelly. Ele defendia o chamado samba do telecoteco, o samba de raiz autenticamente nacional, a “marca registrada dos morros cariocas.” Com essa diretriz, não se deixava seduzir por modismos musicais importados. Dotado de grande sensibilidade, captava os fatos ao seu redor e os musicava com inteligência e humor. “Sempre com muito bom humor – escreve o autor – e valendo-se de terminologia calcada no linguajar do povo comum e corrente, ele é o caricaturista dos sentimentos mal resolvidos, o filósofo da saudade e da dor de cotovelo.”

No curso do livro o autor acaba por realizar um levantamento completo da obra de Kelly, sempre auxiliado por um excelente e organizado arquivo pessoal.

Mas o livro não se resume a tais assuntos. O autor recorda outros eventos importantes, como o fenômeno Maysa, o sucesso de Aracy Côrtes e de Emilinha Borba, de Colé, Consuelo Leandro, Carmélia Alves, Virgínia Lane, Elizeth Cardoso, cantores e cantoras, compositores, músicos, radialistas, apresentadores de televisão, conjuntos musicais de sucesso e carnavais que deixaram lembrança. Programas de sucesso, atrizes e atores, gente do teatro e do meio musical. Os bares famosos, as boates, os clubes. Aborda ainda outros gêneros musicais, como o frevo e a marchinha, bem como grandes intérpretes musicais da época e tudo aquilo que acontecia nesse meio. É o depoimento de quem viu tudo de perto, teve a sorte de presenciar e participar, enquanto a nós outros só foi permitido acompanhar a distância. Segundo ele, “o samba do telecoteco foi a ratificação do sentimento de brasilidade que pautou o itinerário musical de João Roberto Kelly enquanto me foi possível testemunhar sua brilhante escalda rumo ao sucesso.” Em tudo diferente das cópias e imitações de coisas estrangeiras que vemos hoje, inclusive na literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2019 às 10h04 | e.atha@terra.com.br

A chave do mistério

Dimas Macedo, doublé de jurista e escritor, escreve como poucos e sabe prender o leitor. Tenho lido com prazer muitos de seus textos e acabo de me deliciar com “A Face do Enigma” (Imprece – Fortaleza – 2012), segunda edição da biografia e análise da obra de José Alcides Pinto (1923/2008), uma das figuras mais inteligentes e pitorescas do mundo literário. Sei de experiência própria o quanto é difícil o gênero biográfico, dificuldade que se agrava quando se trata de uma personalidade tão complexa como a do biografado, ainda por cima autor de uma obra vasta e diversificada que se espraia pela poesia, o romance, o conto, a novela, o teatro, o ensaio, a crítica literária e os textos variados a que denominou miscelânea. Parece não haver gênero que permaneceu alheio à curiosidade e à inquietação intelectual de José Alcides Pinto, cuja vida, por sinal, já constitui autêntica peça literária. Mas Dimas Macedo enfrentou e superou todos esses entraves, penetrou no mar de letras produzidas pelo seu biografado e compôs um texto delicioso, leve e repleto de informações.

Nascido nas brenhas do interior cearense, José Alcides Pinto teve a infância típica dos meninos do sertão. Perambulava pelos campos e pelas estradas, sonhava, inventava maneiras de enganar a monotonia. Já deveria estar inoculado pelo carnegão literário, eis que as letras parecem ter predileção pelos garotos das pequenas vilas. Graças a um protetor, andou por outros rincões e acabou em Fortaleza, a capital, onde já escrevia para a imprensa. Depois, tomado pelo ímpeto ambulatório, viajou para o Rio de Janeiro, fazendo uma prolongada escala no Recife. Ali se envolveu em manifestações socialistas e provou a cadeia, iniciando uma série de detenções por razões ideológicas. Naquele meio efervescente, lançou-se à campanha de Yedo Fiúza, candidato das esquerdas à presidência e, por outro lado, fez contato com escritores importantes, como Gilberto Freyre e Mauro Mota. A paixão pelo jornalismo e pela literatura, no entanto, o salvou da política e o período recifense foi significativo para sua formação intelectual. Já no Rio de Janeiro, entregou-se a mil atividades e teve toda sorte de experiências. Uma vida de gangorra, ora abrigado sob um teto seguro, ora dormindo ao relento em bancos de praças públicas. Mesmo assim estudou, ingressou no serviço público e retornou a Fortaleza como funcionário público federal. Mais tarde abandonaria o cargo para se tornar fazendeiro, entregando-se à administração da Fazenda “Terras do Dragão”, em Santana do Acaraú. Mais curioso ainda é que o socialista ardoroso da juventude se tornou um místico e passou a envergar, do dia para a noite e até o fim da vida, o hábito religioso dos franciscanos. “Com ele desfilou pelos espaços públicos de Fortaleza e Santana do Acaraú, aprofundando-se também na mística de Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, e adotando a oração e a renúncia como norma de vida” – escreveu o autor (p. 35).

Quanto à obra, parece inexistir caminho por onde sua inquietação não o tenha levado. Foi pioneiro e mentor do concretismo, mas também produziu poemas nos moldes tradicionais. Incursionou pelo fantástico, pelo surreal e pelo maravilhoso. Foi vanguardista e experimental. Praticou variados gêneros com criatividade incomum e produziu em quantidade sem jamais perder a qualidade. “Seria muito difícil ao crítico acompanhar a trajetória desse escritor multifacetado, cuja escritura abrange quase todos os gêneros literários”, mesmo porque “a literatura é o pano de fundo de sua própria existência, isto é, a arte literária em estado de realização humana e de mistério” (pp. 52 e 49). Como escreveu o grande Gilberto Amado, “concretismo, pós-surrealismo, qualquer que seja o rótulo, seus poemas rápidos, intensos, são poesia ressonante, reveladora de seu talento admirável” (p. 52).

Em síntese, José Alcides Pinto viveu com intensidade a vida do escritor e legou uma obra vasta e admirável. Com imenso trabalho e dedicação invulgar, Dimas Macedo realizou um excelente serviço para divulgar e preservar sua memória e forneceu a chave para desvendar o mistério de sua obra.

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Tamara Kaufmann, escritora radicada em Balneário Camboriú, está publicando “Meu Livro”, alentado volume memorialístico que lhe custou longo e persistente trabalho (Editora Kayngangue – 2018).

Nascida na Rússia, a autora passou na Alemanha os anos da II Guerra Mundial em companhia da mãe, do padrasto e da irmã. Viveu os horrores dos bombardeios aéreos de Berlim, refugiando-se nos abrigos anteaéreos sem saber se sobreviveria ao minuto seguinte. O medo, a escassez de suprimentos, as privações e a fome os acompanhavam no dia a dia. Na busca desesperada de maior segurança, tentaram ingressar na Suíça, depois de caminharem centenas de quilômetros a pé, nas piores condições imagináveis, pedindo abrigo e alimentação em casas onde muitas vezes as portas lhes eram batidas na cara. O esforço foi inútil: não conseguiram varar a fronteira. Foram, então, para Munique, onde se viram internados num campo de concentração para refugiados. Depois de mil padecimentos, obtiveram autorização para emigrar para o Brasil graças à ajuda do governo americano. Embarcados em um lerdo e fumarento navio misto de passageiros e cargas, depois de uma viagem complicada, desembarcaram no Rio de Janeiro, onde também enfrentaram toda sorte de dificuldades, até que se transferiram para São Paulo e lá se fixaram.

Na capital paulista, vencendo todos os obstáculos, o preconceito, a barreira da língua desconhecida, a indiferença e tudo mais, trataram de procurar empregos e trabalhar em qualquer atividade, por modesta e humilhante que fosse. A autora se empenhou nas mais diversas ocupações, lutando para conquistar um lugar ao sol na terra estranha. Acabou se casando e viveu muitos anos de vida conjugal feliz, mas perdeu o marido e se viu sozinha. E então alguém a convidou a se transferir para uma pequena cidade praiana em busca de paz e tranquilidade. Assim se estabeleceu em Balneário Camboriú, iniciando nova fase de vida, toda dedicada à cultura e às letras.

O relato de Tamara é minucioso, documental, revelando uma pessoa organizada e dotada de excelente memória. É de uma sinceridade realista surpreendente, penetrando até mesmo nos mais íntimos detalhes. Fica a impressão de que ela está praticando uma catarse, talvez para se livrar de lembranças pouco agradáveis ao despejá-las no papel. Nisso, revela a mesma coragem com que enfrentou uma vida dura e sofrida.

Concluída a leitura, fico afirmando a mim mesmo que tudo aquilo que eu considerava sofrimento na minha vida pessoal não passa de brincadeira diante do que a autora padeceu. Também faz crescer minha admiração por alguém que viveu tudo aquilo, conseguiu apagar as marcas deixadas e construir uma vida normal.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2018 às 12h21 | e.atha@terra.com.br

Vidas perdidas

Com esse título, o escritor goiano Edmo Nunes acaba de publicar seu segundo romance (Editora Kelps – Goiânia – 2018). Trata-se de um enredo longo e minucioso ambientado nos confins goianos dos tempos de antanho, em pleno sertão bruto, abordando a saga da família de “seu” Olegar, fazendeiro que se fez à custa de trabalho árduo, persistência e inaudita coragem. A figura central, no entanto, e que toma para si as rédeas da narrativa é sua filha, Dina, mulher resoluta e forte, que acaba por dominar o cenário, não titubeando nem mesmo diante de atos de extrema violência.

Tudo tem início quando ela, moça muito linda e disputada na região, se apaixona por um certo Chico Mulato, boêmio incorrigível, violeiro e cantor sem paragem certa e inimigo declarado de qualquer trabalho. Contrariando a opinião geral e agindo com fria determinação, ela decide viver com ele em uma pequena fazenda pertencente ao pai, isolada de tudo, em pleno sertão, e sem as mínimas condições de conforto e segurança. Mal se instalam, o marido ganha o mundo e só aparece depois de longas ausências, permanecendo por alguns dias antes de nova ausência. É brutal no trato à mulher, exigente e arrogante, mas ela, de maneira surpreendente, a tudo se submete. Seguem-se anos de trabalho duro, cuidando sozinha da casa, lavrando e plantando para a subsistência e dando atenção aos filhos que vão nascendo. Descuidada de si mesma, vestida em molambos, suja e desgrenhada, ela trabalha, trabalha e trabalha. É uma submissão total aos caprichos de um marido vadio e grosseiro que chega a provocar a perplexidade do leitor diante de tanta carneirice. Até que um dia, não suportando mais, sobrevém a reação e ela elimina o malsinado Chico Mulato de maneira fria, calculada e precisa. Consumado o crime, toma dos filhos e da tralha e se transfere para a fazenda do pai, assumindo sua administração e guardando a sete chaves o segredo do desaparecimento do marido.

Tem início nova fase de uma vida difícil e sofrida. Cabe-lhe a direção da fazenda, tendo que cuidar do pai doente, de um irmão deficiente e das crianças. A morada é distante de tudo, isolada do mundo; as viagens são longas e penosas, em lombo de cavalo. A violência impera e tanto o pai, velho e doente, como os dois irmãos, são assassinados. Sobre eles recai a acusação de um duplo homicídio frio e cruel motivado por questões de divisas de terras. A própria Dina, por fim, acaba se envolvendo em projetos de vingança, eliminando o autor das mortes de seus familiares. É vítima, no momento da execução, de um ferimento que desfigura um dos lados de seu rosto. Não obstante, ela se empenha com toda determinação pela direção da família no sentido da paz e da harmonia, criando filhos honestos e trabalhadores. Carrega no peito, em silêncio, o peso da morte do marido e só descansa depois de uma confissão completa e espontânea à família e à autoridade. Mas tempo é remédio e os muitos anos decorridos impõem o esquecimento. Nenhuma providência é tomada contra ela e a mulher, enfim, pode suspirar, aliviada do peso que carregava na alma.

A trama é envolvente e a narrativa desperta a curiosidade do leitor pelos acontecimentos seguintes. Não há como largar o livro antes do final. No correr do texto o autor revela perfeito conhecimento do que descreve. Tudo lhe é familiar, desde a natureza selvagem do sertão até os costumes, a linguagem, os alimentos, s plantações, os animais e tudo mais. É um conhecimento feito de experiência própria, essencial à verossimilhança de uma narrativa do gênero. Por fim, o autor revela agudo senso de observação e memória impecável, o que faz de seu romance um documento completo da vida humana nos grotões arredios de civilização. Edmo Nunes está diplomado em romance.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/12/2018 às 19h27 | e.atha@terra.com.br

A HISTÓRIA DO MUNDO

Godofredo Rangel (1884/1951), o amigo escrito de Monteiro Lobato, foi um dos mais festejados tradutores de sua época, vertendo do inglês, do francês e do italiano inúmeros livros que ficaram ao alcance do leitor brasileiro. Numa carta de 1941, a ele dirigida, Lobato assinalava que Rangel já havia traduzido 60 livros, mas, como continuou traduzindo até o fim de seus dias, é bem provável que tenha traduzido mais. O Dr. Nello Rangel, filho mais velho de Godofredo, afirmava que o pai havia traduzido uma centena de livros. Nas buscas que venho fazendo de longos anos e nas mais diferentes fontes só consegui arrolar 61 traduções, acreditando que esse seja o número real aproximado das traduções de Rangel. Muitos dos livros traduzidos são obras volumosas e complexas, o que revela o quanto de dedicação e esforço foram necessários para a realização de tão hercúlea tarefa.

Entre as traduções de Rangel está o livro “Pequena história do mundo para crianças”, de autoria do americano V. M. Hillyer, publicado pela Cia. Editora Nacional (S. Paulo – 1951), no ano em que o tradutor faleceu. Rangel, além de traduzir, adaptou a obra para o Brasil. Trata-se de uma raridade bibliográfica, dessas que os colecionadores disputam a tapas, e que me foi oferecida pelo lobatiano Trajano Pereira da Silva, de Taubaté. E foi um livro antigo que li com grande prazer.

Embora seja uma panorâmica da história universal, o livro contém inúmeros e interessantes detalhes. Mas a impressão dominante que fica da leitura é a de que os homens não se entendem e têm gasto seu tempo em permanentes conflitos. As guerras têm sido numerosas e cada vez mais sangrentas. Houve uma guerra de 100 anos, outra de 30, uma de 14, várias de sete, cinco, quatro três, dois e um. Houve várias instantâneas, mas não menos mortíferas, bem como declaradas e não declaradas, locais, regionais e mundiais. Pelo menos duas vezes esteve o mundo à beira da hecatombe nuclear que transformaria em pó esta velha Terra. Para os ataques se alegaram os mais absurdos pretextos. Exércitos monstruosos foram mantidos à custa do trabalho e do sacrifício de pobres populações espoliadas. E para quê? Para satisfazer a ganância e a ambição dos senhoreantes do momento. Em muitas delas os mais fortes se prevaleceram dos mais fracos, tal como acontece entre os indivíduos. Por essas e outras, diz o Autor que certas figuras históricas, cortejadas em sua época, foram mais prejudiciais à humanidade que meros ladrões e assassinos. Muitas roubaram no atacado e mataram em massa.

Por outro lado, os homens sempre viveram o pavor de seus medos. Os primitivos temiam os fenômenos naturais, que não sabiam explicar, como o sol, a lua, o raio, o trovão, o eclipse, o vento. Então os endeusavam, criando os mais estranhos deuses, alguns sanguinários e sedentos de bárbaros sacrifícios. Temiam os grandes animais e, mais ainda, os homens de outras tribos, com eles se atracando em lutas mortais e, quando venciam, os escravizavam ou devoravam em lautos festins canibalescos. Mais adiante, no correr dos tempos, passaram a temer o fim do mundo. Segundo o cálculo dos sábios, ele aconteceria no ano 1000 D. C. Todos se prepararam para o momento final, rezando, purgando seus pecados, realizando boas ações. Mas o ano fatídico chegou e nada aconteceu. Houve erro na contagem dos anos, alegaram os mesmos sábios, e o fim virá em breve. Certo e inapelável. No entanto, mais de mil anos volveram sobre os mil anteriores e o velho mundo continua a girar. Devastado, poluído, superlotado e violento, ainda não acabou. Mais adiante, já na fase das navegações, temiam o fim da Terra, que julgavam plana e com o mar terminando de repente num vazio onde os navios seriam tragados. Até que alguém, mais prático e observador, concluiu que a Terra era redonda, podendo ser circundada para voltar ao ponto de partida. E assim os medos foram se sucedendo, desaparecendo alguns e surgindo outros, mas sempre perturbando o sono dos viventes.

E hoje, que temem os homens? Muitas coisas, entre elas o câncer de próstata ou das mamas. Compungidos, humilhados, eles se submetem a sucessivas “dedadas”, que têm início por volta dos 45 anos, e a vexatórias vistorias dos seios e das partes pudendas. Temem os gráficos, tabelas, bolsas, PIB, SELIC, porcentagens e rendimentos. Qualquer queda inesperada pode destruir o trabalho de uma vida. E ainda temem os assaltantes e ladrões, entre estes os que roubam dentro da lei.

Para que, então, estudar a história? – indagará o leitor, com inteira razão. Para aprender com as experiências do passado e evitar os funestos erros cometidos. Mas, ao que parece, as lições não têm sido bem aprendidas.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2018 às 11h36 | e.atha@terra.com.br

O HAGIÓGRAFO SEM FÉ

Hagiografia, definem os dicionários, é a arte de escrever a vida dos santos. São em geral as pessoas religiosas e de profunda fé que se entregam à reconstituição das vidas daqueles que foram santificados e elevados aos altares. No caso do escritor franco-suiço Blaise Cendrars (1887/1961), no entanto, as coisas foram bem diferentes. Com um dos filhos engajado nos combates da I Guerra Mundial (1914/1918), como piloto de caça, Cendrars prometera a ele encontrar um santo que pudesse ser eleito o novo patrono da aviação e tratou de se entregar à pesquisa. O filho, vítima de um ataque aéreo, não chegou a tomar conhecimento da escolha do pai, mas Cendrars, em compensação, foi tomado de viva admiração por São José de Cupertino, cuja existência rebuscou em todas as fontes ao seu alcance. Giuseppe Desa, mais conhecido como São José de Cupertino (1603/1663), teve um lugar destacado na história da Igreja e, em especial, da levitação. Segundo as informações do escritor, ele não apenas levitava com grande facilidade como foi o único levita de que se tem notícia capaz de levitar em marcha a ré! Seus voos eram tão frequentes que chegavam a perturbar a paz do convento, razão pela qual os demais padres costumavam excluí-lo das atividades públicas. E o mais curioso é que foi considerado homem de inteligência limitada, ingênuo e um tanto simplório, concluindo-se que a santidade não depende de elevados dotes mentais. Segundo Cendrars, ninguém mais indicado que o levita para ser o novo patrono da aviação. Influenciado pela sua história, o escritor realizou um levantamento completo de todos os levitas reconhecidos, século a século, ocupando grande parte de seu livro “O Loteamento do Céu”, publicado entre nós pela Cia. das Letras (2009). Para concluir o rol de curiosidades, anote-se que Blaise Cendrars se declarava um homem sem fé, um ateu confesso, que se transformou no minucioso hagiógrafo de um santo humilde e pouco conhecido dos crentes em geral.

“O Loteamento do Céu” é um dos chamados “livros brasileiros” de Cendrars, uma vez que numerosas páginas são dedicadas ao nosso país, pelo qual o escritor tinha imensa admiração e onde esteve pelo menos três vezes. Tudo que diz respeito ao Brasil é registrado em termos superlativos e exagerados que o tradutor e o coordenador se apressam a corrigir em frequentes notas de rodapé. Embora considerado um volume de memórias, a realidade e a fantasia se misturam de tal forma que em muitas passagens é impossível separá-las.

Capítulo dos mais interessantes é “A torre Eiffel sideral”, onde ele relata sua permanência, em parte imaginária e sempre exagerada, na Fazenda Morro Azul, no interior paulista. Dirigindo um Alfa Romeo cor de vinho, que na verdade nunca esteve no Brasil, e tomando por uma estrada errada, saltando sobre pedras e buracos, vai ter, afinal, na monumental sede da fazenda cafeeira, esta sim autêntica. Lá é recebido pelo proprietário, homem estranho, solitário e gentil, apaixonado por Sarah Bernhardt, para quem escreve cartas e poemas que vai empilhando sem jamais chegarem ao conhecimento dela. Além disso, nas suas observações de astrônomo amador, perscrutando o céu límpido em noites salpicadas de estrelas, está convencido de que havia descoberto uma nova constelação, “roubando” astros de outras, com o perfeito formato da torre parisiense – a torre Eiffel sideral. Ainda que jamais reconhecida a admirável descoberta, pela qual Cendrars e ele próprio teriam movido fundos e mundos, o assunto ocupa as atenções do escritor ao longo de numerosas páginas. Nessas longas noites de silêncio e paz, as lembranças do anfitrião e do hóspede vagam pelos mais estranhos caminhos. Enquanto aquele recorda o beijo imaginário que teria recebido de Sarah Bernhardt, ocasião em que ela lhe dera um pedaço da renda de sua roupa (depois emoldurada no gabinete de trabalho), o hóspede relembra o que teria escrito em Kyoto, onde nunca estivera, confunde o número de degraus da entrada de seu aposento, mistura paulistas com gaúchos pilchados e se equivoca na biografia do próprio pai, além de divisar serpentes inexistentes e desvendar mistérios insondáveis. Como ele próprio dizia, “escrever é descer como um mineiro ao fundo da mina, com uma lâmpada de grade na testa, pavio de duvidosa luminosidade e que tudo deforma...” (pág. 325). Não foi por mero acaso que este livro deixou perplexa a crítica francesa! Mas é uma leitura inesquecível que nos conduz pelo mundo sem limites da imaginação criadora.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/12/2018 às 10h24 | e.atha@terra.com.br

A RESTINGA

A Restinga! Ali na canhada, entre dois coxilhões, ela se estendia por quilômetros, campo a fora. Bem na baixada, através de curvas caprichosas, o riacho escorria águas claras e geladas, alisando sem cansaço os seixos encontrados no caminho. Em ambas as margens o mato fechado crescia exuberante, formando uma muralha viva e esvoaçante de mil tons de verde. Parecia a linha divisória entre campos, como se a natureza desejasse demarcá-los por razões desconhecidas. Flores do mato, em cores vivas, vermelhas, brancas, amarelas, roxas, enfeitavam um dos panoramas mais lindos daqueles campos. A passarada, com seus cantos e gritos, não silenciava nunca, revezando dia e noite na inesgotável alegria de viver em liberdade.

Cortando-a em diagonal, uma estradinha coleante cruzava a Restinga. Seu leito de chão vermelho semelhava uma cicatriz gigantesca no verde campeiro. Por ela transitavam veículos e cavaleiros, levantando nuvens de poeira, e todos acelerando a marcha na passagem, como se temessem alguma coisa. É que a Restinga, apesar da beleza esfuziante, amargava a triste fama de mal-assombrada. Naquele trecho o viajante, mesmo o mais valente, não escapava do receio atávico que vem do sobrenatural. Persignando-se ou balbuciando alguma oração, tratava de se afastar o quanto antes. A pressa aumentava quando o acaso o levava à noite por tão temidas paragens.

Na Restinga, dizia a voz do povo, morava uma bola de fogo que perseguia os cavaleiros estrada a fora, assustando as montarias, e dispersando tropas. Nas noites escuras, um cavaleiro fantasma troteava em silêncio ao lado do viajante solitário, e isso por longo trecho, só desaparecendo com as luzes da cidade. Um negro velho, morto nos tempos de dantes, quando cavava por ali na busca de uma panela de ouro ao pé de um pinheirão, também costumava se mostrar. Molambento e desgrenhado, corria pela estrada, gritando palavrões e pragas. Pedrinhas e gravetos, jogados por mãos misteriosas de dentro do mato, atingiam os viajeiros com precisão. Gritos, gemidos dolorosos e risadas se ouviam com frequência, ecoando nas coxilhas silenciosas. E além disso, nas noites de sextas-feiras, um carro iluminado e barulhento, apitando e rangendo, percorria aquele mato, com as rodas martelando trilhos inexistentes... Um mistério insondável, a Restinga!

Com escritório na cidade próxima, onde atendia às terças-feiras, muitas vezes cruzei por ali, algumas delas à noite. Embora a experiência não fosse agradável, jamais presenciei tais fenômenos, limitando-me a narrar um pouco do muito que ouvi.

Com a construção da nova estrada, na mexida das pontes e aterros, a Restinga quase desapareceu com sua fama de mistério e assombro. O progresso parece ter desalojado os fantasmas que a habitavam.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/11/2018 às 12h19 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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DOS ESCANINHOS DA MEMÓRIA

Folclorista por vocação e estudioso da música popular brasileira, além de autor de vasta obra literária, Francisco de Vasconcellos viveu os anos da juventude no Rio de Janeiro, período em que acompanhou de perto o panorama artístico da cidade e da região. Atento ao que acontecia no teatro, no rádio, na televisão e na música, manteve um relacionamento pessoal e íntimo com inúmeras figuras de destaque no meio artístico, o que lhe permitiu testemunhar e participar de muito do que ocorria. Colega na Faculdade de Direito e amigo íntimo do cantor e compositor João Roberto Kelly, a quem considerava como irmão, esteve sempre ao lado dele desde o início da carreira até sua definitiva consagração como autor de músicas célebres e aclamadas pelo povo.

Rebuscando nos escaninhos da memória e se valendo de bem organizado arquivo pessoal, ele reconstituiu grande parte do que viveu nessa época no delicioso livro “Boêmios... Malandros...Irmãos...” (Arteg – Juiz de Fora – 2018). Esclarece o autor, em preliminar, que a palavra malandro integrante do título não tem nada de pejorativo, mas designa aquele que sabe sair das enrascadas da vida sem se machucar e sem ferir os circunstantes. No conjunto, o livro oferece um panorama amplo e colorido do meio artístico do período, recordando incontáveis figuras de grande talento que pontificavam com brilhantismo numa das fases mais ricas da cultura popular brasileira. Encontrei referências a inúmeras pessoas que se destacaram e hoje estão em completo ostracismo.

Em primeiro plano o autor destaca o grande talento poético-musical de João Roberto Kelly, autor de sambas e marchinhas memoráveis, acompanhando a luta pela conquista de um lugar ao sol no mundo artístico. Ambos muito jovens, viviam com intensidade os dias agitados e as noites movimentadas da então capital da República. Faz uma espécie da biografia paralela de ambos e vai registrando, passo a passo, as realizações e as conquistas de Kelly. Ele defendia o chamado samba do telecoteco, o samba de raiz autenticamente nacional, a “marca registrada dos morros cariocas.” Com essa diretriz, não se deixava seduzir por modismos musicais importados. Dotado de grande sensibilidade, captava os fatos ao seu redor e os musicava com inteligência e humor. “Sempre com muito bom humor – escreve o autor – e valendo-se de terminologia calcada no linguajar do povo comum e corrente, ele é o caricaturista dos sentimentos mal resolvidos, o filósofo da saudade e da dor de cotovelo.”

No curso do livro o autor acaba por realizar um levantamento completo da obra de Kelly, sempre auxiliado por um excelente e organizado arquivo pessoal.

Mas o livro não se resume a tais assuntos. O autor recorda outros eventos importantes, como o fenômeno Maysa, o sucesso de Aracy Côrtes e de Emilinha Borba, de Colé, Consuelo Leandro, Carmélia Alves, Virgínia Lane, Elizeth Cardoso, cantores e cantoras, compositores, músicos, radialistas, apresentadores de televisão, conjuntos musicais de sucesso e carnavais que deixaram lembrança. Programas de sucesso, atrizes e atores, gente do teatro e do meio musical. Os bares famosos, as boates, os clubes. Aborda ainda outros gêneros musicais, como o frevo e a marchinha, bem como grandes intérpretes musicais da época e tudo aquilo que acontecia nesse meio. É o depoimento de quem viu tudo de perto, teve a sorte de presenciar e participar, enquanto a nós outros só foi permitido acompanhar a distância. Segundo ele, “o samba do telecoteco foi a ratificação do sentimento de brasilidade que pautou o itinerário musical de João Roberto Kelly enquanto me foi possível testemunhar sua brilhante escalda rumo ao sucesso.” Em tudo diferente das cópias e imitações de coisas estrangeiras que vemos hoje, inclusive na literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2019 às 10h04 | e.atha@terra.com.br

A chave do mistério

Dimas Macedo, doublé de jurista e escritor, escreve como poucos e sabe prender o leitor. Tenho lido com prazer muitos de seus textos e acabo de me deliciar com “A Face do Enigma” (Imprece – Fortaleza – 2012), segunda edição da biografia e análise da obra de José Alcides Pinto (1923/2008), uma das figuras mais inteligentes e pitorescas do mundo literário. Sei de experiência própria o quanto é difícil o gênero biográfico, dificuldade que se agrava quando se trata de uma personalidade tão complexa como a do biografado, ainda por cima autor de uma obra vasta e diversificada que se espraia pela poesia, o romance, o conto, a novela, o teatro, o ensaio, a crítica literária e os textos variados a que denominou miscelânea. Parece não haver gênero que permaneceu alheio à curiosidade e à inquietação intelectual de José Alcides Pinto, cuja vida, por sinal, já constitui autêntica peça literária. Mas Dimas Macedo enfrentou e superou todos esses entraves, penetrou no mar de letras produzidas pelo seu biografado e compôs um texto delicioso, leve e repleto de informações.

Nascido nas brenhas do interior cearense, José Alcides Pinto teve a infância típica dos meninos do sertão. Perambulava pelos campos e pelas estradas, sonhava, inventava maneiras de enganar a monotonia. Já deveria estar inoculado pelo carnegão literário, eis que as letras parecem ter predileção pelos garotos das pequenas vilas. Graças a um protetor, andou por outros rincões e acabou em Fortaleza, a capital, onde já escrevia para a imprensa. Depois, tomado pelo ímpeto ambulatório, viajou para o Rio de Janeiro, fazendo uma prolongada escala no Recife. Ali se envolveu em manifestações socialistas e provou a cadeia, iniciando uma série de detenções por razões ideológicas. Naquele meio efervescente, lançou-se à campanha de Yedo Fiúza, candidato das esquerdas à presidência e, por outro lado, fez contato com escritores importantes, como Gilberto Freyre e Mauro Mota. A paixão pelo jornalismo e pela literatura, no entanto, o salvou da política e o período recifense foi significativo para sua formação intelectual. Já no Rio de Janeiro, entregou-se a mil atividades e teve toda sorte de experiências. Uma vida de gangorra, ora abrigado sob um teto seguro, ora dormindo ao relento em bancos de praças públicas. Mesmo assim estudou, ingressou no serviço público e retornou a Fortaleza como funcionário público federal. Mais tarde abandonaria o cargo para se tornar fazendeiro, entregando-se à administração da Fazenda “Terras do Dragão”, em Santana do Acaraú. Mais curioso ainda é que o socialista ardoroso da juventude se tornou um místico e passou a envergar, do dia para a noite e até o fim da vida, o hábito religioso dos franciscanos. “Com ele desfilou pelos espaços públicos de Fortaleza e Santana do Acaraú, aprofundando-se também na mística de Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, e adotando a oração e a renúncia como norma de vida” – escreveu o autor (p. 35).

Quanto à obra, parece inexistir caminho por onde sua inquietação não o tenha levado. Foi pioneiro e mentor do concretismo, mas também produziu poemas nos moldes tradicionais. Incursionou pelo fantástico, pelo surreal e pelo maravilhoso. Foi vanguardista e experimental. Praticou variados gêneros com criatividade incomum e produziu em quantidade sem jamais perder a qualidade. “Seria muito difícil ao crítico acompanhar a trajetória desse escritor multifacetado, cuja escritura abrange quase todos os gêneros literários”, mesmo porque “a literatura é o pano de fundo de sua própria existência, isto é, a arte literária em estado de realização humana e de mistério” (pp. 52 e 49). Como escreveu o grande Gilberto Amado, “concretismo, pós-surrealismo, qualquer que seja o rótulo, seus poemas rápidos, intensos, são poesia ressonante, reveladora de seu talento admirável” (p. 52).

Em síntese, José Alcides Pinto viveu com intensidade a vida do escritor e legou uma obra vasta e admirável. Com imenso trabalho e dedicação invulgar, Dimas Macedo realizou um excelente serviço para divulgar e preservar sua memória e forneceu a chave para desvendar o mistério de sua obra.

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Tamara Kaufmann, escritora radicada em Balneário Camboriú, está publicando “Meu Livro”, alentado volume memorialístico que lhe custou longo e persistente trabalho (Editora Kayngangue – 2018).

Nascida na Rússia, a autora passou na Alemanha os anos da II Guerra Mundial em companhia da mãe, do padrasto e da irmã. Viveu os horrores dos bombardeios aéreos de Berlim, refugiando-se nos abrigos anteaéreos sem saber se sobreviveria ao minuto seguinte. O medo, a escassez de suprimentos, as privações e a fome os acompanhavam no dia a dia. Na busca desesperada de maior segurança, tentaram ingressar na Suíça, depois de caminharem centenas de quilômetros a pé, nas piores condições imagináveis, pedindo abrigo e alimentação em casas onde muitas vezes as portas lhes eram batidas na cara. O esforço foi inútil: não conseguiram varar a fronteira. Foram, então, para Munique, onde se viram internados num campo de concentração para refugiados. Depois de mil padecimentos, obtiveram autorização para emigrar para o Brasil graças à ajuda do governo americano. Embarcados em um lerdo e fumarento navio misto de passageiros e cargas, depois de uma viagem complicada, desembarcaram no Rio de Janeiro, onde também enfrentaram toda sorte de dificuldades, até que se transferiram para São Paulo e lá se fixaram.

Na capital paulista, vencendo todos os obstáculos, o preconceito, a barreira da língua desconhecida, a indiferença e tudo mais, trataram de procurar empregos e trabalhar em qualquer atividade, por modesta e humilhante que fosse. A autora se empenhou nas mais diversas ocupações, lutando para conquistar um lugar ao sol na terra estranha. Acabou se casando e viveu muitos anos de vida conjugal feliz, mas perdeu o marido e se viu sozinha. E então alguém a convidou a se transferir para uma pequena cidade praiana em busca de paz e tranquilidade. Assim se estabeleceu em Balneário Camboriú, iniciando nova fase de vida, toda dedicada à cultura e às letras.

O relato de Tamara é minucioso, documental, revelando uma pessoa organizada e dotada de excelente memória. É de uma sinceridade realista surpreendente, penetrando até mesmo nos mais íntimos detalhes. Fica a impressão de que ela está praticando uma catarse, talvez para se livrar de lembranças pouco agradáveis ao despejá-las no papel. Nisso, revela a mesma coragem com que enfrentou uma vida dura e sofrida.

Concluída a leitura, fico afirmando a mim mesmo que tudo aquilo que eu considerava sofrimento na minha vida pessoal não passa de brincadeira diante do que a autora padeceu. Também faz crescer minha admiração por alguém que viveu tudo aquilo, conseguiu apagar as marcas deixadas e construir uma vida normal.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2018 às 12h21 | e.atha@terra.com.br

Vidas perdidas

Com esse título, o escritor goiano Edmo Nunes acaba de publicar seu segundo romance (Editora Kelps – Goiânia – 2018). Trata-se de um enredo longo e minucioso ambientado nos confins goianos dos tempos de antanho, em pleno sertão bruto, abordando a saga da família de “seu” Olegar, fazendeiro que se fez à custa de trabalho árduo, persistência e inaudita coragem. A figura central, no entanto, e que toma para si as rédeas da narrativa é sua filha, Dina, mulher resoluta e forte, que acaba por dominar o cenário, não titubeando nem mesmo diante de atos de extrema violência.

Tudo tem início quando ela, moça muito linda e disputada na região, se apaixona por um certo Chico Mulato, boêmio incorrigível, violeiro e cantor sem paragem certa e inimigo declarado de qualquer trabalho. Contrariando a opinião geral e agindo com fria determinação, ela decide viver com ele em uma pequena fazenda pertencente ao pai, isolada de tudo, em pleno sertão, e sem as mínimas condições de conforto e segurança. Mal se instalam, o marido ganha o mundo e só aparece depois de longas ausências, permanecendo por alguns dias antes de nova ausência. É brutal no trato à mulher, exigente e arrogante, mas ela, de maneira surpreendente, a tudo se submete. Seguem-se anos de trabalho duro, cuidando sozinha da casa, lavrando e plantando para a subsistência e dando atenção aos filhos que vão nascendo. Descuidada de si mesma, vestida em molambos, suja e desgrenhada, ela trabalha, trabalha e trabalha. É uma submissão total aos caprichos de um marido vadio e grosseiro que chega a provocar a perplexidade do leitor diante de tanta carneirice. Até que um dia, não suportando mais, sobrevém a reação e ela elimina o malsinado Chico Mulato de maneira fria, calculada e precisa. Consumado o crime, toma dos filhos e da tralha e se transfere para a fazenda do pai, assumindo sua administração e guardando a sete chaves o segredo do desaparecimento do marido.

Tem início nova fase de uma vida difícil e sofrida. Cabe-lhe a direção da fazenda, tendo que cuidar do pai doente, de um irmão deficiente e das crianças. A morada é distante de tudo, isolada do mundo; as viagens são longas e penosas, em lombo de cavalo. A violência impera e tanto o pai, velho e doente, como os dois irmãos, são assassinados. Sobre eles recai a acusação de um duplo homicídio frio e cruel motivado por questões de divisas de terras. A própria Dina, por fim, acaba se envolvendo em projetos de vingança, eliminando o autor das mortes de seus familiares. É vítima, no momento da execução, de um ferimento que desfigura um dos lados de seu rosto. Não obstante, ela se empenha com toda determinação pela direção da família no sentido da paz e da harmonia, criando filhos honestos e trabalhadores. Carrega no peito, em silêncio, o peso da morte do marido e só descansa depois de uma confissão completa e espontânea à família e à autoridade. Mas tempo é remédio e os muitos anos decorridos impõem o esquecimento. Nenhuma providência é tomada contra ela e a mulher, enfim, pode suspirar, aliviada do peso que carregava na alma.

A trama é envolvente e a narrativa desperta a curiosidade do leitor pelos acontecimentos seguintes. Não há como largar o livro antes do final. No correr do texto o autor revela perfeito conhecimento do que descreve. Tudo lhe é familiar, desde a natureza selvagem do sertão até os costumes, a linguagem, os alimentos, s plantações, os animais e tudo mais. É um conhecimento feito de experiência própria, essencial à verossimilhança de uma narrativa do gênero. Por fim, o autor revela agudo senso de observação e memória impecável, o que faz de seu romance um documento completo da vida humana nos grotões arredios de civilização. Edmo Nunes está diplomado em romance.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/12/2018 às 19h27 | e.atha@terra.com.br

A HISTÓRIA DO MUNDO

Godofredo Rangel (1884/1951), o amigo escrito de Monteiro Lobato, foi um dos mais festejados tradutores de sua época, vertendo do inglês, do francês e do italiano inúmeros livros que ficaram ao alcance do leitor brasileiro. Numa carta de 1941, a ele dirigida, Lobato assinalava que Rangel já havia traduzido 60 livros, mas, como continuou traduzindo até o fim de seus dias, é bem provável que tenha traduzido mais. O Dr. Nello Rangel, filho mais velho de Godofredo, afirmava que o pai havia traduzido uma centena de livros. Nas buscas que venho fazendo de longos anos e nas mais diferentes fontes só consegui arrolar 61 traduções, acreditando que esse seja o número real aproximado das traduções de Rangel. Muitos dos livros traduzidos são obras volumosas e complexas, o que revela o quanto de dedicação e esforço foram necessários para a realização de tão hercúlea tarefa.

Entre as traduções de Rangel está o livro “Pequena história do mundo para crianças”, de autoria do americano V. M. Hillyer, publicado pela Cia. Editora Nacional (S. Paulo – 1951), no ano em que o tradutor faleceu. Rangel, além de traduzir, adaptou a obra para o Brasil. Trata-se de uma raridade bibliográfica, dessas que os colecionadores disputam a tapas, e que me foi oferecida pelo lobatiano Trajano Pereira da Silva, de Taubaté. E foi um livro antigo que li com grande prazer.

Embora seja uma panorâmica da história universal, o livro contém inúmeros e interessantes detalhes. Mas a impressão dominante que fica da leitura é a de que os homens não se entendem e têm gasto seu tempo em permanentes conflitos. As guerras têm sido numerosas e cada vez mais sangrentas. Houve uma guerra de 100 anos, outra de 30, uma de 14, várias de sete, cinco, quatro três, dois e um. Houve várias instantâneas, mas não menos mortíferas, bem como declaradas e não declaradas, locais, regionais e mundiais. Pelo menos duas vezes esteve o mundo à beira da hecatombe nuclear que transformaria em pó esta velha Terra. Para os ataques se alegaram os mais absurdos pretextos. Exércitos monstruosos foram mantidos à custa do trabalho e do sacrifício de pobres populações espoliadas. E para quê? Para satisfazer a ganância e a ambição dos senhoreantes do momento. Em muitas delas os mais fortes se prevaleceram dos mais fracos, tal como acontece entre os indivíduos. Por essas e outras, diz o Autor que certas figuras históricas, cortejadas em sua época, foram mais prejudiciais à humanidade que meros ladrões e assassinos. Muitas roubaram no atacado e mataram em massa.

Por outro lado, os homens sempre viveram o pavor de seus medos. Os primitivos temiam os fenômenos naturais, que não sabiam explicar, como o sol, a lua, o raio, o trovão, o eclipse, o vento. Então os endeusavam, criando os mais estranhos deuses, alguns sanguinários e sedentos de bárbaros sacrifícios. Temiam os grandes animais e, mais ainda, os homens de outras tribos, com eles se atracando em lutas mortais e, quando venciam, os escravizavam ou devoravam em lautos festins canibalescos. Mais adiante, no correr dos tempos, passaram a temer o fim do mundo. Segundo o cálculo dos sábios, ele aconteceria no ano 1000 D. C. Todos se prepararam para o momento final, rezando, purgando seus pecados, realizando boas ações. Mas o ano fatídico chegou e nada aconteceu. Houve erro na contagem dos anos, alegaram os mesmos sábios, e o fim virá em breve. Certo e inapelável. No entanto, mais de mil anos volveram sobre os mil anteriores e o velho mundo continua a girar. Devastado, poluído, superlotado e violento, ainda não acabou. Mais adiante, já na fase das navegações, temiam o fim da Terra, que julgavam plana e com o mar terminando de repente num vazio onde os navios seriam tragados. Até que alguém, mais prático e observador, concluiu que a Terra era redonda, podendo ser circundada para voltar ao ponto de partida. E assim os medos foram se sucedendo, desaparecendo alguns e surgindo outros, mas sempre perturbando o sono dos viventes.

E hoje, que temem os homens? Muitas coisas, entre elas o câncer de próstata ou das mamas. Compungidos, humilhados, eles se submetem a sucessivas “dedadas”, que têm início por volta dos 45 anos, e a vexatórias vistorias dos seios e das partes pudendas. Temem os gráficos, tabelas, bolsas, PIB, SELIC, porcentagens e rendimentos. Qualquer queda inesperada pode destruir o trabalho de uma vida. E ainda temem os assaltantes e ladrões, entre estes os que roubam dentro da lei.

Para que, então, estudar a história? – indagará o leitor, com inteira razão. Para aprender com as experiências do passado e evitar os funestos erros cometidos. Mas, ao que parece, as lições não têm sido bem aprendidas.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2018 às 11h36 | e.atha@terra.com.br

O HAGIÓGRAFO SEM FÉ

Hagiografia, definem os dicionários, é a arte de escrever a vida dos santos. São em geral as pessoas religiosas e de profunda fé que se entregam à reconstituição das vidas daqueles que foram santificados e elevados aos altares. No caso do escritor franco-suiço Blaise Cendrars (1887/1961), no entanto, as coisas foram bem diferentes. Com um dos filhos engajado nos combates da I Guerra Mundial (1914/1918), como piloto de caça, Cendrars prometera a ele encontrar um santo que pudesse ser eleito o novo patrono da aviação e tratou de se entregar à pesquisa. O filho, vítima de um ataque aéreo, não chegou a tomar conhecimento da escolha do pai, mas Cendrars, em compensação, foi tomado de viva admiração por São José de Cupertino, cuja existência rebuscou em todas as fontes ao seu alcance. Giuseppe Desa, mais conhecido como São José de Cupertino (1603/1663), teve um lugar destacado na história da Igreja e, em especial, da levitação. Segundo as informações do escritor, ele não apenas levitava com grande facilidade como foi o único levita de que se tem notícia capaz de levitar em marcha a ré! Seus voos eram tão frequentes que chegavam a perturbar a paz do convento, razão pela qual os demais padres costumavam excluí-lo das atividades públicas. E o mais curioso é que foi considerado homem de inteligência limitada, ingênuo e um tanto simplório, concluindo-se que a santidade não depende de elevados dotes mentais. Segundo Cendrars, ninguém mais indicado que o levita para ser o novo patrono da aviação. Influenciado pela sua história, o escritor realizou um levantamento completo de todos os levitas reconhecidos, século a século, ocupando grande parte de seu livro “O Loteamento do Céu”, publicado entre nós pela Cia. das Letras (2009). Para concluir o rol de curiosidades, anote-se que Blaise Cendrars se declarava um homem sem fé, um ateu confesso, que se transformou no minucioso hagiógrafo de um santo humilde e pouco conhecido dos crentes em geral.

“O Loteamento do Céu” é um dos chamados “livros brasileiros” de Cendrars, uma vez que numerosas páginas são dedicadas ao nosso país, pelo qual o escritor tinha imensa admiração e onde esteve pelo menos três vezes. Tudo que diz respeito ao Brasil é registrado em termos superlativos e exagerados que o tradutor e o coordenador se apressam a corrigir em frequentes notas de rodapé. Embora considerado um volume de memórias, a realidade e a fantasia se misturam de tal forma que em muitas passagens é impossível separá-las.

Capítulo dos mais interessantes é “A torre Eiffel sideral”, onde ele relata sua permanência, em parte imaginária e sempre exagerada, na Fazenda Morro Azul, no interior paulista. Dirigindo um Alfa Romeo cor de vinho, que na verdade nunca esteve no Brasil, e tomando por uma estrada errada, saltando sobre pedras e buracos, vai ter, afinal, na monumental sede da fazenda cafeeira, esta sim autêntica. Lá é recebido pelo proprietário, homem estranho, solitário e gentil, apaixonado por Sarah Bernhardt, para quem escreve cartas e poemas que vai empilhando sem jamais chegarem ao conhecimento dela. Além disso, nas suas observações de astrônomo amador, perscrutando o céu límpido em noites salpicadas de estrelas, está convencido de que havia descoberto uma nova constelação, “roubando” astros de outras, com o perfeito formato da torre parisiense – a torre Eiffel sideral. Ainda que jamais reconhecida a admirável descoberta, pela qual Cendrars e ele próprio teriam movido fundos e mundos, o assunto ocupa as atenções do escritor ao longo de numerosas páginas. Nessas longas noites de silêncio e paz, as lembranças do anfitrião e do hóspede vagam pelos mais estranhos caminhos. Enquanto aquele recorda o beijo imaginário que teria recebido de Sarah Bernhardt, ocasião em que ela lhe dera um pedaço da renda de sua roupa (depois emoldurada no gabinete de trabalho), o hóspede relembra o que teria escrito em Kyoto, onde nunca estivera, confunde o número de degraus da entrada de seu aposento, mistura paulistas com gaúchos pilchados e se equivoca na biografia do próprio pai, além de divisar serpentes inexistentes e desvendar mistérios insondáveis. Como ele próprio dizia, “escrever é descer como um mineiro ao fundo da mina, com uma lâmpada de grade na testa, pavio de duvidosa luminosidade e que tudo deforma...” (pág. 325). Não foi por mero acaso que este livro deixou perplexa a crítica francesa! Mas é uma leitura inesquecível que nos conduz pelo mundo sem limites da imaginação criadora.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/12/2018 às 10h24 | e.atha@terra.com.br

A RESTINGA

A Restinga! Ali na canhada, entre dois coxilhões, ela se estendia por quilômetros, campo a fora. Bem na baixada, através de curvas caprichosas, o riacho escorria águas claras e geladas, alisando sem cansaço os seixos encontrados no caminho. Em ambas as margens o mato fechado crescia exuberante, formando uma muralha viva e esvoaçante de mil tons de verde. Parecia a linha divisória entre campos, como se a natureza desejasse demarcá-los por razões desconhecidas. Flores do mato, em cores vivas, vermelhas, brancas, amarelas, roxas, enfeitavam um dos panoramas mais lindos daqueles campos. A passarada, com seus cantos e gritos, não silenciava nunca, revezando dia e noite na inesgotável alegria de viver em liberdade.

Cortando-a em diagonal, uma estradinha coleante cruzava a Restinga. Seu leito de chão vermelho semelhava uma cicatriz gigantesca no verde campeiro. Por ela transitavam veículos e cavaleiros, levantando nuvens de poeira, e todos acelerando a marcha na passagem, como se temessem alguma coisa. É que a Restinga, apesar da beleza esfuziante, amargava a triste fama de mal-assombrada. Naquele trecho o viajante, mesmo o mais valente, não escapava do receio atávico que vem do sobrenatural. Persignando-se ou balbuciando alguma oração, tratava de se afastar o quanto antes. A pressa aumentava quando o acaso o levava à noite por tão temidas paragens.

Na Restinga, dizia a voz do povo, morava uma bola de fogo que perseguia os cavaleiros estrada a fora, assustando as montarias, e dispersando tropas. Nas noites escuras, um cavaleiro fantasma troteava em silêncio ao lado do viajante solitário, e isso por longo trecho, só desaparecendo com as luzes da cidade. Um negro velho, morto nos tempos de dantes, quando cavava por ali na busca de uma panela de ouro ao pé de um pinheirão, também costumava se mostrar. Molambento e desgrenhado, corria pela estrada, gritando palavrões e pragas. Pedrinhas e gravetos, jogados por mãos misteriosas de dentro do mato, atingiam os viajeiros com precisão. Gritos, gemidos dolorosos e risadas se ouviam com frequência, ecoando nas coxilhas silenciosas. E além disso, nas noites de sextas-feiras, um carro iluminado e barulhento, apitando e rangendo, percorria aquele mato, com as rodas martelando trilhos inexistentes... Um mistério insondável, a Restinga!

Com escritório na cidade próxima, onde atendia às terças-feiras, muitas vezes cruzei por ali, algumas delas à noite. Embora a experiência não fosse agradável, jamais presenciei tais fenômenos, limitando-me a narrar um pouco do muito que ouvi.

Com a construção da nova estrada, na mexida das pontes e aterros, a Restinga quase desapareceu com sua fama de mistério e assombro. O progresso parece ter desalojado os fantasmas que a habitavam.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/11/2018 às 12h19 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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