Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Memória

O Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC) publicou suas memórias. “Memória do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina”, organizada por Iza Vieira da Rosa Grisard, com a colaboração de Marly A. F. B. Mira, cobre o período de 1896 a 2014 e foi publicada em livro em 2015. É uma homenagem a José Arthur Boiteux, idealizador, proponente do nome, um dos fundadores e presidente da entidade, segundo a organizadora. “Conhecer aqueles que fundaram o IHGSC, – escreve ela – que participaram e contribuíram para o desenvolvimento dessa instituição científica e cultural essencial para o Estado de Santa Catarina, revelou-se não só necessário quanto oportuno para sua história” (p. XV).

Com esse propósito, ela mergulhou em infindáveis leituras de atas, registros e documentos para reconstituir a biografia de uma entidade com fundas raízes em nosso passado histórico. O resultado foi um livro fundamentado e minucioso que retrata a ação do Instituto dos primórdios aos nossos dias.

A primeira parte aborda a vida administrativa, as atas e as diretorias que comandaram a entidade, reproduzindo alguns documentos originais. Em seguida aparecem as notas biográficas dos que exerceram a presidência, iniciando-se por Hercílio Pedro da luz e concluindo com Augusto César Zeferino, atual ocupante do cargo, destacando as realizações de cada um. Na terceira parte são descritas e comentadas as insígnias e as sedes, indicando o significado de cada uma das primeiras, com reprodução de suas imagens. As sedes onde funcionou o Instituto são comentadas em detalhe, com realce para a Casa de Santa Catarina. Também as respectivas fotos são publicadas. A atual sede, prédio ilustre e de rico passado, mereceu abordagem especial. Foi o antigo Instituto Politécnico, hoje Casa de José Boiteux, um edifício imponente, de linhas clássicas e elegantes, onde o Instituto está instalado de maneira condigna.

Seguem-se os estatutos de 1896, 1939, 1971, 1984, 1997 e 2013, acrescidos de comentários que mostram a evolução da entidade, sua organização, métodos de ação e atualização aos novos tempos. Convênios e parcerias são relacionados com seus detalhes.

O quadro associativo merece capítulo especial. São relacionados o presidente honorário, os presidentes e vice-presidentes perpétuos, os membros fundadores e eméritos, os membros efetivos, correspondentes, honorários e beneméritos. As atividades científicas e culturais abrangem congressos, ciclos de estudos, simpósios, cursos, encontros, reuniões, colóquios, paineis, seminários, concursos e fórum, registrando intensa realização nas áreas científica e cultural. Comendas, prêmios e sessões especiais, solenes e comemorativas também são relacionadas, além das publicações do Instituto, como a revista, a coleção catariniana, a série de ensaios e o boletim mensal. Anais, livros, biblioteca, catálogos dos livros digitalizados da Família Boiteux, trabalhos de alunos, periódicos e documentos também merecem minuciosa descrição.

Trata-se, enfim, de um retrato fiel do Instituto como, creio eu, jamais fora realizado.

“A presença do IHGSC, - escreveu Jali Meirinho – no contexto cultural do Estado de Santa Catarina, já está se findando na primeira vintena do seu segundo século de existência, personalizando-o como agente perene de ações interessadas na constituição de estímulos à preservação da memória, formação de acervos e incentivo ao conhecimento do ser catarinense.”

Como demonstra em detalhes esta interessante “Memória”, o IHGSC é uma entidade vitoriosa e tem realizado em plenitude sua importante função científica e cultural. E a organizadora, sua colaboradora e o Instituto merecem efusivos aplausos.

“Tem o Instituto uma sede. Vive. Viverá.
Preservar, preservar; meu caro Lucas. E triunfa-se!
Como é bom triunfar...”
Palavras de José Boiteux ao irmão Lucas, em 1915, prevendo o profícuo futuro da Instituição.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/12/2017 às 16h59 | e.atha@terra.com.br

Zorico contra a Lumber

A formação do chamado Homem do Contestado foi lenta e complexa. Juntaram-se na região os índios, os caboclos autóctones e as levas de gaúchos que se retiraram das revoluções do sul. Gerou-se, em consequência, um habitante com características bem definidas, agarrado ao chão natal, sua geografia, paisagem, flora e fauna típicas da região serrana. Vivendo nos seus ranchos de madeira bruta e cobertos de tabuinhas, explorando a erva-mate, cultivando roças de manutenção e criando seus animais, ali consumia seus dias na paz bucólica daquele sertão. Gerações se sucediam na posse imemorial de terras que nunca precisaram de documentos e que ninguém jamais contestou. Mas o monge João Maria, de longa data, havia profetizado que um monstro de ferro e fogo invadiria o sertão, alterando em tudo o modo de vida daquele povo. Tratava-se do trem-de- ferro, cujos trilhos avançavam sem cessar, trazendo consigo inovações preocupantes. E atrás dele vieram as colonizadoras, em especial a célebre Companhia Lumber, um dos braços do chamado Sindicato Farquhar, que havia recebido uma faixa de quinze quilômetros em cada margem da ferrovia para explorá-la como bem entendesse. Tudo feito nos gabinetes, ignorando a presença dos posseiros, como se estes não existissem. Não tardam a iniciar os despejos sumários e violentos dos posseiros das terras por eles ocupadas dês que o mundo é mundo.

A maioria dos posseiros expulsos reunia o pouco que tinha e se punha nas estradas, mesmo porque contra a força não há resistência. Muitos iriam engrossar a caudal de miseráveis que formariam os redutos que, pouco mais tarde, ingressariam na história da Guerra do Contestado. Alguns poucos, porém, decidiam resistir à sua maneira, mesmo intuindo que se tratava de uma atitude suicida. Foi o caso de Zorico Tamanqueiro, assim conhecido pela rara habilidade com que fabricava tamancos. Inconformado com o despejo, decidiu reagir e realizou uma defesa muito peculiar, aproveitando o conhecimento que tinha da região, suas florestas e seus acidentes.

Tão logo o chefe do grupo de emissários cuspiu no chão e determinou que Zorico desaparecesse antes que seu cuspe secasse, o caboclo pôs em prática sua estratégia e iniciou um combate desesperado e desigual em armas e homens. Traquejado naqueles ínvios, senhor de cada detalhe das redondezas, Zorico se valeu da surpresa e da astúcia e foi eliminando um a um os integrantes do grupo, provocando inclusive a confusão entre eles, o que facilitou sua luta. Para completar, submeteu o chefe a uma humilhação sem precedentes. Naquelas horas de luta Zorico se alçou à condição de um super-herói, embora ciente de que a retaliação viria, violenta e brutal. No entanto, ainda que por pouco tempo, ele pôde saborear o gosto da vitória numa terra de derrotados. “Zorico Tamanqueiro fez seu cavalo empinar, encheu os pulmões com aquele ar que vinha respirando desde criança e soltou um extenso e forte grito de sapucaí que reverberou pelas coxilhas, igual ao grito de guerra de seus antepassados.”

Essa é, em linhas gerais, a trama do romance “Contestado: que o povo fique com a história”, de autoria de Pedro Penteado do Prado (Nova Letra – Blumenau – 2016). Nele, a ficção parece expressar o agudo sentimento de um povo que foi explorado pela ganância sem limites das multinacionais em conluio com vendilhões da pátria.

O volume é recheado de ilustrações, fotografias, mapas e documentos, alguns deles raros e difíceis de encontrar. Reproduz até mesmo as notas de dinheiro utilizadas pela Lumber e que só tinham curso em seus próprios armazéns, prática proibida pela legislação brasileira mas exercida às claras. Lembra ainda que a Lumber tinha suas próprias leis e suas sedes funcionavam como território americano dentro do país, festejando inclusive o 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos.

O sentido do romance é claro: evidencia que nem todos os brasileiros se rendem com facilidade e existem aqueles que resistem, ainda que nas piores circunstâncias.

O autor é professor de Química, integrante da Academia de Letras de Canoinhas e publicou “O Pássaro Abatido” e “Mácula”, além de livros de sua especialidade.

Seu romance é uma boa contribuição para a estante do Contestado e segue rumos inovadores nos trabalhos sobre o tema.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/12/2017 às 11h56 | e.atha@terra.com.br

Vaqueiro e poeta

“Crônica Memorista”, de autoria de José Peixoto Júnior (Editora Kelps – Goiânia – 2017) é um livro escrito com o coração. Ele contém as remembranças de um homem vivido, calejado e sofrido, mas nem por isso brigado com a vida. Revela-se uma pessoa sensível, observador arguto e dono de admirável memória. Como dizia Gilberto Amado, soube prestar atenção à vida e rechear o minuto, condições indispensáveis a um bom memorialista.

Nascido nos ínvios da Chapada do Araripe, de origem modesta, com esforço e tenacidade foi galgando os degraus do sucesso. Estudou sem cansaço, muito aprendeu, conquistou posições. Perambulou no exercício de suas atividades por diversas cidades, cada uma delas deixando marcas nas recordações e, ao mesmo tempo, nelas deixando um pouco de si mesmo, como acontece com aqueles que a carreira leva por diferentes lugares.

Para mim, porém, o período mais interessante foi aquele em que Peixoto Júnior foi vaqueiro. Vaqueiro encourado, com peitoral, gibão, perneiras e chapéu de couro, varando a caatinga áspera e espinhenta na busca do gado xucro criado à solta. Essa fase é relatada no delicioso capítulo “Vaqueiro do derradeiro gado solto campeado na Serra Araripe.” Em linguagem típica, por ele ainda retida na memória de maneira admirável, o autor recorda os tempos aventureiros e brabos num meio rude, em contato com a natureza bruta do sertão nordestino. Apesar de tudo, eleva-se do texto uma aura de nostalgia, tanto pela ação em si como pelo tempo vivido e que já vai longe. Tudo se desenha de forma nítida aos olhos do leitor.

Num desses momentos, noite alta e céu límpido, o vaqueiro jovem observa pela primeira vez um eclipse total da lua, fenômeno jamais esquecido. Espera as reses, campeia-as nos seus pastos, as conduz estrovadas, está presente nos coletivos das apartações dos currais, reúne o gado pasteiro. Participa do esporte da vaquejada urbana, ainda recente naqueles dias, impetuoso pela força da idade, não decepciona seus pares. Enverga com orgulho a vestimenta de couro do vaqueiro, “traje romântico, uma armadura de cavaleiro. Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guarda-peito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino.” E assim entrajado, ele inflete a galope pelo mato a dentro, levando no peito tudo que encontra pela frente, a galharia batendo no peito, nos braços, nas pernas e até no rosto. Defende-se com extrema agilidade e conduz o cavalo com mão firme e segura.

Não raro, os acidentes acontecem.

“Zé nos encontrou caídos – relata ele -, um morto, um arquejando e este seu criado a gemer. Vinte e nove dias de motoro, perna entre duas telhas de barro, amarradas, e muito sumo de mentruz e caldo de pinto pilado com pena e tudo para o osso soldar.”

Os Zés não eram poucos. “Zé-de-Zeca é como me chamam desde eu vaqueiro – explica o memorista. – Somos três primos José e vaqueiros, ao mais velho coube o nome familiar, eu e Zé-de-Luna tomamos o nome paterno para a identificação quando necessário saber quem é quem de nós três.”

Essa vivência de memória saudosa revoluteia na cabeça do antigo vaqueiro e começa a retornar em forma de poemas, contos, novelas. As imagens da Chapada do Araripe, da qual manam as incontáveis fontes que fazem do Cariri um oásis em meio ao deserto, se transmudam em versos, as pessoas se transfundem em personagens, os idos e acontecidos são vertidos em contos, crônicas, novelas. O vaqueiro despiu o gibão, empunhou a pena, deixou de lado a luta com as bestas e travou-a com as palavras. Destacou-se na capital federal, sua obra se impôs, acabou presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE).

Agora, neste livro saboroso, conta aos amigos e leitores o que viveu, sentiu e aprendeu. Tudo num estilo viril e movimentado como as lidas do competente vaqueiro que foi.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2017 às 10h59 | e.atha@terra.com.br

Um mundaréu de histórias

 No correr das Oficinas Literárias promovidas pela Escola do Ministério Público observei que o colega participante Luiz Adalberto Villa Real é dotado de visível pendor literário. Além de escrever bem e com leveza, tem cultura e informação, revelando-se um observador atento dos fatos ao seu redor e das características peculiares das pessoas com as quais convive ou se depara nas atividades cotidianas. Esses são atributos indispensáveis ao escritor, pois, como dizia Gilberto Amado, o distraído, o avoado, o desligado poderá ser tudo, exceto ficcionista.

Agora, transcorrido algum tempo, Villa Real se encarrega de comprovar que minhas observações eram procedentes e apresenta um mundaréu de histórias compondo um volume com cerca de trezentas páginas. É um denso conjunto de contos, crônicas, quadros e aquilo que costumo chamar de fiapos de vida. São histórias captadas ao vivo, no dia-a-dia, nos mais diversos lugares e situações, entremeadas de elementos imaginários produzidos com criatividade e em geral permeados de humor. Ele consegue sempre fixar com precisão os aspectos pitorescos ou engraçados que envolvem os personagens e recriar de forma exata os locais em que estão ambientados.

A galeria de seus personagens é imensa, cada um deles retratado de maneira precisa, com seus hábitos, temperamentos e tendências. Batiza-os com nomes às vezes estranhos mas que se amoldam com justeza aos seus portadores. Também os lugares onde se desenrolam as histórias merecem denominações pouco comuns mas sempre criativas, em especial as pequenas localidades interioranas que servem de palco aos enredos. Em muitos casos o nome das figuras já anuncia por si só a personalidade do seu portador.

O mundo forense, no qual o autor tem vivido, como Promotor de Justiça e Advogado, fornece inspiração para muitas de suas histórias. As atitudes de certos juízes, as manhas de advogados afeitos às atividades do foro, as técnicas dos Promotores, tudo contribui para enriquecer e dar vida às histórias. O Tribunal do Júri, em especial, serve de motivo para  variados casos pelo que costuma fornecer de surpreendente e imprevisível. As questões com que se defronta o Promotor, no exercício de suas funções, também merecem referência. Situações em que ele se vê na contingência de agir como autoridade, mediador, conselheiro e até psicólogo para resolver os conflitos que são submetidos à sua apreciação. Nisso a experiência pessoal se revelou valiosa.

Villa Real escreve de maneira simples sem ser simplório. Utiliza uma linguagem clara e direta sem complicações desnecessárias. É uma linguagem que se casa muito bem com o conteúdo das histórias que abordam situações vividas, na grande maioria, por gente comum do povo. Forma e conteúdo se completam. E o conjunto acentua a inteligência, a esperteza e a inata sabedoria popular.

A leitura deste livro é um mergulho na alma do nosso povo e permite ao leitor agradáveis momentos de contato com textos esculpidos por um exímio contador de histórias. Embora estreante em livro, o autor é um escritor feito.

Rejubilo-me com o lançamento deste livro e estou certo de que alcançará grande sucesso entre os leitores e a crítica. E também pelo fato de que ele é mais um colega do Ministério Público que vem enriquecer a nossa grei de escritores.

O livro foi publicado pela Editora Insular e lançado no dia 9 de novembro na sede da Associação Catarinense do Ministério Público, em Florianópolis.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/12/2017 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

Desprezo pela vida

A França vivia sob o tacão nazista, ocupada pelo exército alemão, durante a II Guerra Mundial. As prisões, torturas e fuzilamentos se tornaram tenebrosa rotina. A vida de um francês nada valia e todos os esforços se faziam necessários para sobreviver. Ocultar-se, omitir-se, evaporar-se eram as melhores fórmulas para continuar vivo. Ou, em contrapartida, aliar-se ao inimigo, ainda que correndo o risco de ser executado pela Resistência. Mesmo assim, essa foi a opção de Lotte, mantendo em sua própria casa um bordel para servir aos oficiais alemães.

Nesse ambiente deletério, misturado às profissionais do sexo – Blanche, Minna, Anny e outras – vivia Frank, filho da proprietária, mocetão bonito e dos seus 19 anos de idade. Alheio ao que se passava a seu redor, o rapaz parecia ausente de tudo aquilo. Bem vestido, envergando um legítimo “pelo de camelo”, trocava pernas pelas ruas recobertas de neve e frequentava os bares do bairro, juntando-se à pior ralé imaginável. Ali conheceu oficiais da ocupação, mulheres e muitos elementos de vida e ocupações duvidosas. Interessado em obter uma arma, tarefa difícil naqueles dias nebulosos, passou a desejar o revólver de um oficial gordo, beberrão e depravado que aparecia no Bar do Timo. Não havendo outro meio, não hesitou a matá-lo a facadas numa noite escura, nas proximidades do muro de um curtume abandonado. Apossou-se da arma ambicionada, mas teve a má sorte de ser visto por um vizinho do mesmo prédio, o motorneiro de bondes Holst, pai de Sissy, de cujo silêncio se tornou refém.

O tempo passa, o motorneiro não abre a boca, a filha dele se apaixona pelo rapaz que arma contra ela a mais indecente das ciladas. Nesse meio, é informado de que certo general, cujo nome nunca se pronunciava, colecionava relógios e pagava fortunas por raridades. Lembra-se, então, do relojoeiro de sua vila natal e resolve assaltá-lo. Reconhecido pela irmã dele, mata-a com o maior sangue-frio. Entregue a encomenda, recebe a metade do butim, importância muito alta, nada comum naqueles tempos de dinheiro curto. Passa a viver como um nababo, exibindo dinheiro e poder. Não contava ele, porém, com o imponderável: o dinheiro fora furtado pelo general e as notas estavam marcadas. Foi a sua perdição.

Quando menos espera, é preso e conduzido a uma escola improvisada em presídio. Não o torturam, preferem vencê-lo no cansaço, submetendo-o a seguidos interrogatórios. Ele resiste. Os dias se sucedem, os interrogatórios continuam e ele vai percebendo que eles tudo sabiam. Para seu espanto, descobre que Anny, uma das pensionistas, era agente da Resistência e emitia mensagens secretas. Como fazia isso constituía um mistério, pois passava os momentos livres lendo revistas. Recebe visitas da mãe e de Sissy. Aconselham-no a colaborar, mas ele resiste, nega e se recusa a responder. Mas o desgaste físico e psicológico é inevitável. Emagrece, vive sujo, barbudo, com os trajes amarrotados. Com dezenove dias de prisão não lembra nem de longe o moço bonito que foi e a vida lá fora parecia algo tão distante como uma miragem. Mas a técnica aplicada acaba mostrando seus resultados e ele se entrega. Confessa tudo, com datas, locais, horários. E depois se cala, sejam quais forem as consequências.  

Espancam-no, deixam-no nu no escritório, dão-lhe joelhadas nas partes genitais, só lhe dão sopa aguada para tomar. Mas ele nada diz, impenetrável no seu mutismo. Até que, numa madrugada fúnebre, o conduzem através do pátio, pisando na neve suja, ao ponto das execuções. Como vira tantos assim fazerem, levanta a gola do sobretudo e ruma cabisbaixo para o trágico desenlace. Entra em longa fila indiana à margem da galeria.

Esse, em breves pinceladas, o entrecho de “A Neve Estava Suja” (Cia. das Letras – S. Paulo – 2014), de Georges Simenon (1903/1989), com justa razão considerado um dos mais instigantes romances ambientados na França ocupada.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/11/2017 às 08h56 | e.atha@terra.com.br

O romance do sofrimento

Rena e Danka Kornreich, moças polonesas e irmãs, viviam numa vila chamada Tylicz, na Polônia. Vida simples, tranquila e honesta. de família judia da classe média. O pai, ortodoxo, usava trancinhas nos cabelos e orientava a família a observar os rituais religiosos. Mas eis que nuvens turvas surgem no horizonte, os nazistas invadem o país e tem início a implacável perseguição aos judeus. Por medida de segurança, as irmãs são enviadas à Eslováquia, cruzando a fronteira de maneira clandestina, na calada da noite, correndo risco de vida caso fossem apanhadas. No país vizinho não acreditavam no que acontecia na Polônia, até que os nazistas lá também chegaram. Como as pessoas que abrigavam judeus eram fuziladas de forma sumária, as duas irmãs decidiram se entregar para salvar os parentes em cuja casa viviam. Imaginavam, na santa ingenuidade, que iriam para um campo de trabalho forçado de onde seriam libertadas mais tarde. Ledo e trágico engano.

Rena tinha 22 anos, Danka um pouco menos.

Conduzidas em um trem destinado ao transporte de gado, foram levadas ao campo de extermínio de Auschwitz, onde funcionavam a pleno vapor as câmaras de gás e as chaminés exalavam dia e noite a fumaça negra e fétida dos crematórios. Faziam parte da primeira leva de moças e mulheres destinadas à execução dentro do plano de “solução final do problema judaico”, arquitetado com técnica e precisão matemáticas. Mas, apesar dos horrores, Rena estava tomada da decisão inabalável de sobreviver e salvar a irmã mais jovem, alimentando o sonho quase impossível de retornarem juntas para casa, um dia. Tem início, então, a luta da inteligência contra a brutalidade.

Observando detalhes, analisando as atitudes dos soldados da SS e das Kapos, obtendo pequenos favores, furtando ínfimas porções de alimentos, negociando a ração diária de pão, ela tentava por todos os meios driblar os perigos e sobreviver. Tiradas das tarimbas em que dormiam às quatro da madrugada, formavam imensas filas para a contagem e depois eram forçadas a trabalhar até o anoitecer nos serviços mais rudes, sem qualquer reclamo, sob pena de açoites, chutes e pancadas. Pisando na neve ou suportando o granizo que caía, penavam com o frio intenso e a fome aguda. Sujas pela falta de água, cheias de sarna, piolhos e percevejos, eram proibidas de usar roupas de baixo. Em conseqiência, o roçar das roupas grosseiras (peças de uniformes de soldados russos fuzilados) feriam os seios, os pescoços e as pernas, transformando-os em verdadeiras chagas. Mas Rena não se rendia e tudo suportava. Cada dia vivido constituía uma vitória. Em momentos de desespero, elevava as mãos aos céus e clamava: Ó Deus, como permitis que isto aconteça?

Sufocando os gritos, as lágrimas e a revolta, assistiram a incontáveis cenas de inaudita brutalidade. Viram moças e mulheres fuziladas ao tentarem se suicidar lançando-se contra as cercas eletrificadas; contemplaram vidas serem tiradas a socos, pontapés, chibatadas e pisoteios; acompanharam as “seleções” para as câmaras de gás e os “experimentos científicos” de Mengele; acompanharam enormes colunas de crianças pequenas conduzidas às câmaras de gás e a chegada de novas levas de mulheres e, mais tarde, de homens cujos destinos estavam traçados. Sob a mira dos fuzis, foram forçadas a enterrar os mortos cujos corpos se deterioravam em toda parte. Enquanto isso, na maior tranquilidade, Irma Geese, brutal soldado da SS, tomava banhos de sol e exigia que Rena esfregasse suas costas bronzeadas com protetor solar, afirmando enfática que os nazistas estavam vencendo a guerra, dominariam o mundo e os poloneses seriam enviados a Madagascar como escravos vitalícios. Ela não contava com a chegada dos soviéticos e a corda com a qual seria enforcada aos 22 anos de idade.

Rena e Danka são transferidas para Birkenau e Neustadt Glewe, esqueléticas, doentes, desdentadas, famintas, mas ainda vivas, como por milagre. Notam que o campo começa a silenciar; muitos soldados fogem. Segue-se a tentativa frenética de esconder os vestígios antes que os soviéticos cheguem. Aviões aliados bombardeiam o campo. O caos se instala e tem início a Marcha da Morte tentando levar os prisioneiros para a Alemanha. Mas é tarde, muito tarde. Entram no campo os soviéticos e depois os britânicos. Rena e Danka são libertadas e ambas iniciam a inacreditável luta para reiniciar a vida.

Muitos anos depois, em depoimento à jornalista americana Heather Dune Macadam, já residindo nos Estados Unidos, Rena relata sua terrível história. O resultado foi o livro “Irmãs em Auschwitz”, publicado no Brasil pela Editora Universo dos Livros (São Paulo – 2015), um verdadeiro romance do sofrimento.

_________________________

O celebrado crítico literário Antônio Torres propunha a criação de um Gabinete de Profilaxia e Extinção de Poetas, anexo à Chefia de Polícia e destinado a catrafilar todo indivíduo que, tendo mais de vinte e cinco anos de idade, tivesse o desaforo de fazer um soneto amoroso. Com agências em todos os Estados, a repartição teria tantos funcionários quantos fossem necessários para deitar a mão aos poetas. Como seria impossível prendê-los todos, uma vez que se reproduzem como coelhos, a eliminação de boa parte serviria de bom exemplo para demover os plumitivos a suspenderem a pena e arquivar o estro. A proposição provocou protestos, em prosa e verso, mas o crítico a sustentou por longos anos, como informou mestre Wilson Martins em sua monumental “História da Inteligência Brasileira.”

Nos dias atuais – penso eu – a competência do tal Gabinete deveria ser estendida aos organizadores e participantes das ditas “antologias” que pululam por aí. Juntam-se algumas pessoas, recolhem uns tantos textos mal acabados, muitas vezes sem pé nem cabeça, e lançam um livro que, de livro mesmo, só tem o formato. Depois, em bombásticos lançamentos, são distribuídos ao público incauto. É dose!

Escrito por Enéas Athanázio, 21/11/2017 às 10h48 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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