Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

LAMPIÃO ANO A ANO

O cangaço foi um fenômeno típico do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Forma de banditismo organizado, vicejou por um século, atingindo todos os Estados nordestinos. Teve como aliados os grandes espaços abertos, a ausência de cercas e estradas, a população rarefeita e a omissão do Estado. Donos de extraordinária coragem, astutos e cruéis, os cangaceiros formavam grupos poderosos e bem armados, invadiam vilas, pequenas cidades, fazendas e sítios isolados saqueando as propriedades e levando tudo que tivesse valor. Nessas incursões nada respeitavam e eliminavam quem se atrevesse a dificultar suas ações.

Lampião e Maria Bonita (Reprodução)

Muitos foram os bandos de cangaceiros que se tornaram famosos e entraram para a história. Nenhum, porém, alcançou a notoriedade nacional e até internacional como o grupo comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897/1898-1938). As façanhas do cangaceiro nascido em Serra Talhada, Estado de Pernambuco, correram o país e ocuparam grandes espaços da imprensa, inclusive de outros países, durante os vinte anos que durou sua carreira. Sua vida e suas ações, incluindo renhidos combates com as volantes policiais, fugas espetaculares, invasões arrojadas, atos de grande generosidade e de extrema crueldade, os misteriosos esconderijos onde se refugiava sempre despertaram a curiosidade de estudiosos do cangaço e da movimentada existência do cangaceiro. Em consequência, surgiu a respeito do tema uma imensa bibliografia que não cessa de crescer. Entre os livros mais interessantes que tenho encontrado está “A Misteriosa Vida de Lampião”, de autoria de Cicinato Ferreira Neto (Premius Editora – Fortaleza – 2010) e que acabo de ler com grande interesse.

Neste livro o autor faz uma abordagem diferente. Dedica um capítulo a cada ano de atividade de Lampião, cerca de vinte, registrando mês a mês as tropelias que praticou e outros eventos acontecidos com ele e seu grupo. Para tanto consultou imensa quantidade de obras, comparando, sopesando, jornais e revistas, literatura de cordel, mensagens e relatórios oficiais, sites e depoimentos. Trabalho hercúleo e que revela um pesquisador exigente. O livro também é rico em fotografias.

A narrativa tem início com o nascimento de Virgulino, em Vila Bela, atual Serra Talhada, sua infância na companhia dos pais lavradores e, pouco depois, suas atividades como almocreve. Surgem então as primeiras desavenças da família com os vizinhos, forçando inclusive a mudança dos Ferreira. Ainda jovem, Virgulino ingressa no bando do famoso cangaceiro Sinhô Pereira. Dizia ele que assim agia para vingar a morte do pai, assassinado pela polícia, fato muito controvertido. Quando Sinhô Pereira decide abandonar o cangaço e se exilar em local desconhecido, Lampião é designado como seu sucessor e assume o comando do grupo. Desde o início se revela um chefe competente, carismático, inteligente e grande estrategista, além de dono de uma coragem fora do comum. Seu bando prospera, chegando a contar com 100 integrantes, é temido em todo o Nordeste. Enfrenta as volantes em violentos combates, desafia os governos e, segundo comentários, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado, ficando ele como dono e senhor do sertão. As invasões e saques são lucrativas e o grupo enriquece. Lampião é vítima de ferimentos, o mesmo acontecendo com sua companheira Maria Bonita. A mobilidade do grupo é fantástica, confundindo as inúmeras volantes policiais que o perseguiam. Suas atividades vão do Rio Grande do Norte à Bahia.

Com o passar do tempo, gera-se um mito em torno do cangaceiro. Para uns é generoso, protetor dos pobres, justiceiro, um Robin Hood das caatingas; para outros é um assassino frio e cruel, capaz das maiores atrocidades, vingativo e ladrão. É considerado invencível e indestrutível, tendo o corpo fechado. Oito vezes sua morte foi anunciada com estardalhaço, mas logo depois ele reaparecia em local inesperado e com toda a força. Os governos estaduais se exasperavam e exigiam que suas forças policiais exterminassem o bando de uma vez por todas. Estas, por sua vez, cometiam toda sorte de arbitrariedades contra aqueles que consideravam coiteiros ou colaboradores de Lampião. O Governo Vargas, depois de 1930, pressionava os interventores estaduais, considerando o cangaço uma vergonha nacional.

Os dados a respeito de Lampião são assustadores. Segundo estimativas, ele matou mais de 1000 pessoas, incendiou mais de 500 propriedades e matou mais de 5000 reses de seus inimigos. Participou de mais de 200 combates com a polícia e violentou mais de 200 mulheres. São informações imprecisas mas devem ter fundamento, considerando-se a violência inaudita com que praticava as invasões e os saques, além do longo período de tempo que durou sua carreira. Existem inúmeros relatos de crimes bárbaros envolvendo o cangaceiro e seu grupo.

Mas tudo tem um fim. No dia 28 de julho de 1938, cercado pela tropa do tenente João Bezerra, no local denominado Grota do Angico, em Sergipe, o grupo de Lampião foi atacado de surpresa e de madrugada. Foram mortos o próprio Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros. Os restantes conseguiram fugir, o que muito me surpreende, uma vez que visitei o lugar em uma de minhas viagens e constatei que só havia uma saída pela qual a volante se aproximou. É um lugar feio, pedregoso, acanhado e com escassa vegetação. Lampião teria sido advertido sobre o perigo que rondava aquele acampamento. A morte de Lampião é apontada como o fim do cangaço. Seu sucessor, Corisco, sobreviveu por mais dois anos e se entregou a inaudita violência para vingar a morte do chefe.

O livro de Cicinato Ferreira Neto é ilustrativo e bem fundamentado. É pena que o uso da crase seja feito de forma equivocada do começo ao fim. Quanto ao título, ele me parece impróprio porque o autor desvendou a vida do cangaceiro mês a mês, não havendo para ele e para nós leitores qualquer mistério.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/01/2020 às 12h18 | e.atha@terra.com.br

CONVERSA COM BRENNAND

Importante revista cultural (*) publicou interessante e rara entrevista com o celebrado artista plástico Francisco Brennand, que não costuma se abrir em conversas públicas com frequência. Graças à habilidade da equipe da revista, ele acabou esclarecendo aspectos de sua obra que são sempre motivos de interrogação.


Brennand

Lembra o artista que, como todo mundo, nutria severo preconceito contra as chamadas artes menores, entre elas a cerâmica. Exercitava-e na pintura a óleo sobre tela, desenho e escultura, mas era no uso do pincel que mais se aplicava e nele projetava uma carreira. Aconteceu, então, a viagem a Paris, nos anos 1940, ocasião em que o pintor Cícero Dias, que vivia na capital francesa, o convidou para visitar uma exposição de obras de Picasso. “Para a minha grande surpresa – confessou ele – era uma exposição de cerâmicas. Essa belíssima exposição me deixou boquiaberto e, mais do que tudo, humilhado porque me demonstrou de imediato que não existia arte maior e arte menor. Esse problema de ser tela, madeira, gesso ou o que for pouco importava.” O deslumbramento aumentou ao constatar que Joan Miró também trabalhava a cerâmica e em quantidade ainda maior que Picasso. Verificou ainda que outros artistas de renome praticavam a cerâmica. E assim, o acaso de uma visita traçou o seu destino e o levou a se dedicar por inteiro à cerâmica, transformando-se num dos maiores artistas plásticos nacionais, praticando também, em menor grau, a pintura, o desenho, a arquitetura e a escultura.

Filhos de empresário que já se dedicava à cerâmica, produzindo telhas, tijolos, porcelanas e azulejos, Brennand e os irmãos herdaram uma olaria nas proximidades do Recife que se encontrava em ruínas. Como os irmãos não se interessavam, teve a ideia de restaurar a velha olaria e transformá-la num grande ateliê. Em homenagem ao pai, retirou das ruínas o que restava do prédio, pedra a pedra, tijolo a tijolo, instalando nele sua monumental oficina artística que abriga um dos patrimônios cerâmicos de importância mundial. O local é visitado todos os dias por turistas do país e do exterior e conhecê-lo é dever de todo brasileiro interessado em nossa cultura.

A cerâmica de Brennand é de formas avantajadas, grandes, exuberantes. Inspira-se, segundo diz, num universo arcaico e em figuras fantásticas. Enquanto na pintura prefere retratar a mulher, as formas femininas, a maciez e as curvas, na cerâmica a mulher pode ser lembrada de forma indireta, num vaso ou outra forma qualquer. Já na cerâmica, valoriza o mundo vegetal, motivos florais e outros aspectos que podem ser aumentados sem se tornar monstruosos. É verdade que muitas de suas obras sugerem várias formas de erotismo, mas isso é acidental. É curioso observar que o artista não gosta de vender suas obras; dizem que a venda o deprime. Ele próprio afirma que está fora do mercado.

Brennand realizou grandes obras no país e no exterior e o acervo de seu ateliê é conhecido em toda parte. Tem obras expostas no centro da cidade de Recife e nas unidades do SESC em Pinheiros, Interlagos e Sorocaba. Aos 87 anos de idade, informa que nos bons tempos chegou a morar no ateliê, mas isso se tornou impossível. Diminuiu o número de viagens e de exposições. Para geral surpresa, afirma que não pertenceu ao Movimento Armorial, fundado por Ariano Suassuna com o objetivo de criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular. Acredita, porém, que Ariano tenha se inspirado em algumas de suas próprias ideias.


(*) “Revista E”, publicação do SESC/SP,
maio de 2015, pp. 10 a 15.

(Republico este artigo em homenagem a
Francisco Brennand, falecido aos 92 anos
no Recife no dia 19 de dezembro. Sua partida
deixa uma grande lacuna no cenário artístico nacional).

 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/01/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br

O MISTÉRIO DA ILHA DO SOLDADO

Rochosa, áspera, quase inabitável, a Ilha do Soldado, na costa britânica, é um local desolado, esbatido pelos ventos marítimos e de difícil acesso. Só com tempo bom e mar calmo pode alguma barco atracar com segurança. Ali, um milionário norte-americano excêntrico construiu uma casa ampla, moderna e luxuosa, no ponto mais elevado, e que pouco se avista do continente. A propriedade, mais tarde, é vendida a um certo Mr. Owen, figura misteriosa e que ninguém encontrou, fosse na ilha ou em terra firme. É partindo desses dados que Agatha Christie (1890/1976), escritora inglesa conhecida como a rainha do crime, engendra a história de seu mais famoso livro: “E não sobrou nenhum” (Globo Livros – Rio de Janeiro – 2018). Como é sabido, ela foi a mais famosa autora de obras policiais em todo o mundo, a mais lida e vendida no gênero e traduzida para inúmeros idiomas. Publicou oitenta livros policiais, várias coletâneas de contos e doze peças teatrais.

Mr. Owen, mesmo sem se mostrar, consegue reunir através de correspondência, dez pessoas que nada têm entre si para alguns dias de descanso no casarão da Ilha do Soldado. Elas vêm de vários pontos do país e são conduzidas por um barqueiro para isso contratado. Instalam-se nos luxuosos quartos e começam a usufruir das mordomias de umas férias que tinham tudo para ser maravilhosas. Mas o inesperado acontece.

Quando todos se encontram na suntuosa sala de estar, uma voz misteriosa surge nítida e clara. Declinando o nome de cada um, vai acusando os visitantes de certos atos que, embora criminosos, escaparam da justiça a permaneceram impunes. O choque é violento porque todos julgavam que o esquecimento havia recaído sobre os fatos e ninguém mais se lembrava deles. Começam, a seguir, as mais misteriosas e inexplicáveis mortes. Varejam a casa e a ilha e constatam que além dos visitantes não havia viva alma no local. O mau tempo e o mar agitado impedem a aproximação de qualquer embarcação. Não obstante, apesar dos extremos cuidados adotados por todos, as mortes continuam. A conclusão inevitável é a de que o criminoso é um deles e todos passam a vigiar uns aos outros com total desconfiança. E o mais curioso é que a cada morte desaparece um dos soldadinhos de porcelana que jaziam sobre uma mesa. Além disso, as mortes coincidem com as palavras de um poema infantil exposto em todos os quartos: “Dez soldadinhos saem para jantar/ a fome os move/ um engasgou, e então sobraram nove...”

Num clima tenso, cria-se um ambiente lúgubre, cheio de medo e expectativa. Quem seria o próximo? As horas escorrem vagarosas, a tempestade ruge lá fora, o mar encapelado martela as rochas da ilha e novas mortes acontecem até que não sobra nenhum. Cada um deles, por sua vez, morre nas mais estranhas circunstâncias, incluindo-se dois suicídios que não me parecem muito convincentes. Mas ao longo de 400 páginas a autora mantém um suspense que quase provoca falta de ar no leitor. As investigações mais minuciosas nada conseguem esclarecer. Só uma carta subscrita pelo juiz Laurence Wargrave, um dos visitantes mortos, enviada à Scotland Yard pelo mestre da traineira Emma Jane põe fim ao mistério e explica tudo. Mas isso não posso expor porque ninguém teria interesse em ler o livro e isso seria lamentável.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2020 às 09h05 | e.atha@terra.com.br

O “CANUDINHO”

A faixa de terras entre os rios Canoas e Pelotas, formadores do Uruguai, foi conhecida em geral como Entre-Rios. Por ela passa a chamada estrada velha, ligando Campos Novos a Lages, fazendo-se a travessia do Canoas através de uma balsa de cabo tirada a muque pelo balseiro (*).

Ali se situa hoje o município de Celso Ramos, desmembrado de Anita Garibaldi, minha primeira comarca como Promotor de Justiça.

Nessa região surgiu, no final do Século XIX, um movimento messiânico sobre o qual ouvi algumas referências mas que foi pouco estudado, sendo, em consequência, um episódio quase desconhecido de nossa história. Lendo agora o excelente livro “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004), deparei com breve relato desse fato que ficou conhecido como “Canudinho”, ou seja, um “Canudos” pequeno, e que julgo merecedor de um comentário.

Paulo Pinheiro Machado (Divulgação)

Segundo o autor, entre agosto e setembro de 1897, um comerciante de nome Francelino Subtil de Oliveira, associado a um homem a quem chamavam “São” Miguel ou “São” Miguelito, que se declarava primo-irmão do “monge” João Maria, “estabeleceram o culto a uma forma rochosa que havia na região, afirmando que a pedra era uma santa que estava encantada.” Para libertar a santa, os devotos tinham que fazer preces e ladainhas sem fim, entoar cantos e confessar-se com Francelino, o “puxador” das orações. Como penitência dos pecados praticados, deveriam permanecer algum tempo com pesada pedra sobre a cabeça. Os devotos da nova fé passaram a se reunir no local, onde não tardou a nascer um vilarejo com cerca de oitenta ranchos e trezentos moradores. E como esse tipo de apelo “religioso” tem grande poder de atração, pessoas pobres, doentes e marginalizadas começaram a afluir ao local, ameaçando a formação de um reduto ou arraial, fato que assustou as autoridades da região (p. 173).

Os “coronéis” Henrique Rupp e Lucidóro Luiz de Mattos, ambos de Campos Novos, solicitaram a intervenção do Estado para debelar o surto messiânico. Soldados do Regimento de Segurança do Estado e homens de confiança daqueles “coronéis” tentaram atacar o povoado, mas, para surpresa deles, foram repelidos a tiros pelos devotos enfurecidos e por estes perseguidos até a entrada da então Vila de Campos Novos, distante cerca de quarenta quilômetros. Foi o vexame dos vexames, e os sertanejos, sagrados heróis pela boca do povo, tiveram sua bravura entoada em prosa e verso, espalhando-se por toda a região. Alarmado, o governador enviou nova expedição armada, contando com auxílio de forças gaúchas, e assim foi debelado o foco revolucionário que ameaçava imitar Canudos, na Bahia, onde as derrotas governistas se repetiam. Destruída a povoação, o episódio logo foi esquecido, ainda que contribuísse para o desgaste político daqueles “coronéis”, cujo prestígio estava em decadência. Segundo o autor, teria havido uma chacina no Entre-Rios (p. 174).

O novo “monge”, que se dizia “São” Miguel, tirou partido da devoção que existia em relação a João Maria, cuja pregação impregnava a região, chamando a atenção do povo e fazendo profecias apocalípticas, como o fim do mundo no virar do Século, as pesadas pragas que viriam e outros males. Com o aumento dos moradores, começaram os inevitáveis abusos, como brigas, saques de roças e fazendas, furto de gado e porcos. Por outro lado, o movimento revelou a existência de uma “população errante, suscetível de seguir até o fim suas lideranças religiosas e as pessoas estavam disponíveis a qualquer tipo de luta” (p. 174).

O “Canudinho”, tema pouco explorado, está à espera dos pesquisadores. E fica aqui no Estado, em região de fácil acesso e investigação.

(*) Hoje existem pontes.  

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2019 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br

O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

LAMPIÃO ANO A ANO

O cangaço foi um fenômeno típico do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Forma de banditismo organizado, vicejou por um século, atingindo todos os Estados nordestinos. Teve como aliados os grandes espaços abertos, a ausência de cercas e estradas, a população rarefeita e a omissão do Estado. Donos de extraordinária coragem, astutos e cruéis, os cangaceiros formavam grupos poderosos e bem armados, invadiam vilas, pequenas cidades, fazendas e sítios isolados saqueando as propriedades e levando tudo que tivesse valor. Nessas incursões nada respeitavam e eliminavam quem se atrevesse a dificultar suas ações.

Lampião e Maria Bonita (Reprodução)

Muitos foram os bandos de cangaceiros que se tornaram famosos e entraram para a história. Nenhum, porém, alcançou a notoriedade nacional e até internacional como o grupo comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897/1898-1938). As façanhas do cangaceiro nascido em Serra Talhada, Estado de Pernambuco, correram o país e ocuparam grandes espaços da imprensa, inclusive de outros países, durante os vinte anos que durou sua carreira. Sua vida e suas ações, incluindo renhidos combates com as volantes policiais, fugas espetaculares, invasões arrojadas, atos de grande generosidade e de extrema crueldade, os misteriosos esconderijos onde se refugiava sempre despertaram a curiosidade de estudiosos do cangaço e da movimentada existência do cangaceiro. Em consequência, surgiu a respeito do tema uma imensa bibliografia que não cessa de crescer. Entre os livros mais interessantes que tenho encontrado está “A Misteriosa Vida de Lampião”, de autoria de Cicinato Ferreira Neto (Premius Editora – Fortaleza – 2010) e que acabo de ler com grande interesse.

Neste livro o autor faz uma abordagem diferente. Dedica um capítulo a cada ano de atividade de Lampião, cerca de vinte, registrando mês a mês as tropelias que praticou e outros eventos acontecidos com ele e seu grupo. Para tanto consultou imensa quantidade de obras, comparando, sopesando, jornais e revistas, literatura de cordel, mensagens e relatórios oficiais, sites e depoimentos. Trabalho hercúleo e que revela um pesquisador exigente. O livro também é rico em fotografias.

A narrativa tem início com o nascimento de Virgulino, em Vila Bela, atual Serra Talhada, sua infância na companhia dos pais lavradores e, pouco depois, suas atividades como almocreve. Surgem então as primeiras desavenças da família com os vizinhos, forçando inclusive a mudança dos Ferreira. Ainda jovem, Virgulino ingressa no bando do famoso cangaceiro Sinhô Pereira. Dizia ele que assim agia para vingar a morte do pai, assassinado pela polícia, fato muito controvertido. Quando Sinhô Pereira decide abandonar o cangaço e se exilar em local desconhecido, Lampião é designado como seu sucessor e assume o comando do grupo. Desde o início se revela um chefe competente, carismático, inteligente e grande estrategista, além de dono de uma coragem fora do comum. Seu bando prospera, chegando a contar com 100 integrantes, é temido em todo o Nordeste. Enfrenta as volantes em violentos combates, desafia os governos e, segundo comentários, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado, ficando ele como dono e senhor do sertão. As invasões e saques são lucrativas e o grupo enriquece. Lampião é vítima de ferimentos, o mesmo acontecendo com sua companheira Maria Bonita. A mobilidade do grupo é fantástica, confundindo as inúmeras volantes policiais que o perseguiam. Suas atividades vão do Rio Grande do Norte à Bahia.

Com o passar do tempo, gera-se um mito em torno do cangaceiro. Para uns é generoso, protetor dos pobres, justiceiro, um Robin Hood das caatingas; para outros é um assassino frio e cruel, capaz das maiores atrocidades, vingativo e ladrão. É considerado invencível e indestrutível, tendo o corpo fechado. Oito vezes sua morte foi anunciada com estardalhaço, mas logo depois ele reaparecia em local inesperado e com toda a força. Os governos estaduais se exasperavam e exigiam que suas forças policiais exterminassem o bando de uma vez por todas. Estas, por sua vez, cometiam toda sorte de arbitrariedades contra aqueles que consideravam coiteiros ou colaboradores de Lampião. O Governo Vargas, depois de 1930, pressionava os interventores estaduais, considerando o cangaço uma vergonha nacional.

Os dados a respeito de Lampião são assustadores. Segundo estimativas, ele matou mais de 1000 pessoas, incendiou mais de 500 propriedades e matou mais de 5000 reses de seus inimigos. Participou de mais de 200 combates com a polícia e violentou mais de 200 mulheres. São informações imprecisas mas devem ter fundamento, considerando-se a violência inaudita com que praticava as invasões e os saques, além do longo período de tempo que durou sua carreira. Existem inúmeros relatos de crimes bárbaros envolvendo o cangaceiro e seu grupo.

Mas tudo tem um fim. No dia 28 de julho de 1938, cercado pela tropa do tenente João Bezerra, no local denominado Grota do Angico, em Sergipe, o grupo de Lampião foi atacado de surpresa e de madrugada. Foram mortos o próprio Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros. Os restantes conseguiram fugir, o que muito me surpreende, uma vez que visitei o lugar em uma de minhas viagens e constatei que só havia uma saída pela qual a volante se aproximou. É um lugar feio, pedregoso, acanhado e com escassa vegetação. Lampião teria sido advertido sobre o perigo que rondava aquele acampamento. A morte de Lampião é apontada como o fim do cangaço. Seu sucessor, Corisco, sobreviveu por mais dois anos e se entregou a inaudita violência para vingar a morte do chefe.

O livro de Cicinato Ferreira Neto é ilustrativo e bem fundamentado. É pena que o uso da crase seja feito de forma equivocada do começo ao fim. Quanto ao título, ele me parece impróprio porque o autor desvendou a vida do cangaceiro mês a mês, não havendo para ele e para nós leitores qualquer mistério.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/01/2020 às 12h18 | e.atha@terra.com.br

CONVERSA COM BRENNAND

Importante revista cultural (*) publicou interessante e rara entrevista com o celebrado artista plástico Francisco Brennand, que não costuma se abrir em conversas públicas com frequência. Graças à habilidade da equipe da revista, ele acabou esclarecendo aspectos de sua obra que são sempre motivos de interrogação.


Brennand

Lembra o artista que, como todo mundo, nutria severo preconceito contra as chamadas artes menores, entre elas a cerâmica. Exercitava-e na pintura a óleo sobre tela, desenho e escultura, mas era no uso do pincel que mais se aplicava e nele projetava uma carreira. Aconteceu, então, a viagem a Paris, nos anos 1940, ocasião em que o pintor Cícero Dias, que vivia na capital francesa, o convidou para visitar uma exposição de obras de Picasso. “Para a minha grande surpresa – confessou ele – era uma exposição de cerâmicas. Essa belíssima exposição me deixou boquiaberto e, mais do que tudo, humilhado porque me demonstrou de imediato que não existia arte maior e arte menor. Esse problema de ser tela, madeira, gesso ou o que for pouco importava.” O deslumbramento aumentou ao constatar que Joan Miró também trabalhava a cerâmica e em quantidade ainda maior que Picasso. Verificou ainda que outros artistas de renome praticavam a cerâmica. E assim, o acaso de uma visita traçou o seu destino e o levou a se dedicar por inteiro à cerâmica, transformando-se num dos maiores artistas plásticos nacionais, praticando também, em menor grau, a pintura, o desenho, a arquitetura e a escultura.

Filhos de empresário que já se dedicava à cerâmica, produzindo telhas, tijolos, porcelanas e azulejos, Brennand e os irmãos herdaram uma olaria nas proximidades do Recife que se encontrava em ruínas. Como os irmãos não se interessavam, teve a ideia de restaurar a velha olaria e transformá-la num grande ateliê. Em homenagem ao pai, retirou das ruínas o que restava do prédio, pedra a pedra, tijolo a tijolo, instalando nele sua monumental oficina artística que abriga um dos patrimônios cerâmicos de importância mundial. O local é visitado todos os dias por turistas do país e do exterior e conhecê-lo é dever de todo brasileiro interessado em nossa cultura.

A cerâmica de Brennand é de formas avantajadas, grandes, exuberantes. Inspira-se, segundo diz, num universo arcaico e em figuras fantásticas. Enquanto na pintura prefere retratar a mulher, as formas femininas, a maciez e as curvas, na cerâmica a mulher pode ser lembrada de forma indireta, num vaso ou outra forma qualquer. Já na cerâmica, valoriza o mundo vegetal, motivos florais e outros aspectos que podem ser aumentados sem se tornar monstruosos. É verdade que muitas de suas obras sugerem várias formas de erotismo, mas isso é acidental. É curioso observar que o artista não gosta de vender suas obras; dizem que a venda o deprime. Ele próprio afirma que está fora do mercado.

Brennand realizou grandes obras no país e no exterior e o acervo de seu ateliê é conhecido em toda parte. Tem obras expostas no centro da cidade de Recife e nas unidades do SESC em Pinheiros, Interlagos e Sorocaba. Aos 87 anos de idade, informa que nos bons tempos chegou a morar no ateliê, mas isso se tornou impossível. Diminuiu o número de viagens e de exposições. Para geral surpresa, afirma que não pertenceu ao Movimento Armorial, fundado por Ariano Suassuna com o objetivo de criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular. Acredita, porém, que Ariano tenha se inspirado em algumas de suas próprias ideias.


(*) “Revista E”, publicação do SESC/SP,
maio de 2015, pp. 10 a 15.

(Republico este artigo em homenagem a
Francisco Brennand, falecido aos 92 anos
no Recife no dia 19 de dezembro. Sua partida
deixa uma grande lacuna no cenário artístico nacional).

 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/01/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br

O MISTÉRIO DA ILHA DO SOLDADO

Rochosa, áspera, quase inabitável, a Ilha do Soldado, na costa britânica, é um local desolado, esbatido pelos ventos marítimos e de difícil acesso. Só com tempo bom e mar calmo pode alguma barco atracar com segurança. Ali, um milionário norte-americano excêntrico construiu uma casa ampla, moderna e luxuosa, no ponto mais elevado, e que pouco se avista do continente. A propriedade, mais tarde, é vendida a um certo Mr. Owen, figura misteriosa e que ninguém encontrou, fosse na ilha ou em terra firme. É partindo desses dados que Agatha Christie (1890/1976), escritora inglesa conhecida como a rainha do crime, engendra a história de seu mais famoso livro: “E não sobrou nenhum” (Globo Livros – Rio de Janeiro – 2018). Como é sabido, ela foi a mais famosa autora de obras policiais em todo o mundo, a mais lida e vendida no gênero e traduzida para inúmeros idiomas. Publicou oitenta livros policiais, várias coletâneas de contos e doze peças teatrais.

Mr. Owen, mesmo sem se mostrar, consegue reunir através de correspondência, dez pessoas que nada têm entre si para alguns dias de descanso no casarão da Ilha do Soldado. Elas vêm de vários pontos do país e são conduzidas por um barqueiro para isso contratado. Instalam-se nos luxuosos quartos e começam a usufruir das mordomias de umas férias que tinham tudo para ser maravilhosas. Mas o inesperado acontece.

Quando todos se encontram na suntuosa sala de estar, uma voz misteriosa surge nítida e clara. Declinando o nome de cada um, vai acusando os visitantes de certos atos que, embora criminosos, escaparam da justiça a permaneceram impunes. O choque é violento porque todos julgavam que o esquecimento havia recaído sobre os fatos e ninguém mais se lembrava deles. Começam, a seguir, as mais misteriosas e inexplicáveis mortes. Varejam a casa e a ilha e constatam que além dos visitantes não havia viva alma no local. O mau tempo e o mar agitado impedem a aproximação de qualquer embarcação. Não obstante, apesar dos extremos cuidados adotados por todos, as mortes continuam. A conclusão inevitável é a de que o criminoso é um deles e todos passam a vigiar uns aos outros com total desconfiança. E o mais curioso é que a cada morte desaparece um dos soldadinhos de porcelana que jaziam sobre uma mesa. Além disso, as mortes coincidem com as palavras de um poema infantil exposto em todos os quartos: “Dez soldadinhos saem para jantar/ a fome os move/ um engasgou, e então sobraram nove...”

Num clima tenso, cria-se um ambiente lúgubre, cheio de medo e expectativa. Quem seria o próximo? As horas escorrem vagarosas, a tempestade ruge lá fora, o mar encapelado martela as rochas da ilha e novas mortes acontecem até que não sobra nenhum. Cada um deles, por sua vez, morre nas mais estranhas circunstâncias, incluindo-se dois suicídios que não me parecem muito convincentes. Mas ao longo de 400 páginas a autora mantém um suspense que quase provoca falta de ar no leitor. As investigações mais minuciosas nada conseguem esclarecer. Só uma carta subscrita pelo juiz Laurence Wargrave, um dos visitantes mortos, enviada à Scotland Yard pelo mestre da traineira Emma Jane põe fim ao mistério e explica tudo. Mas isso não posso expor porque ninguém teria interesse em ler o livro e isso seria lamentável.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2020 às 09h05 | e.atha@terra.com.br

O “CANUDINHO”

A faixa de terras entre os rios Canoas e Pelotas, formadores do Uruguai, foi conhecida em geral como Entre-Rios. Por ela passa a chamada estrada velha, ligando Campos Novos a Lages, fazendo-se a travessia do Canoas através de uma balsa de cabo tirada a muque pelo balseiro (*).

Ali se situa hoje o município de Celso Ramos, desmembrado de Anita Garibaldi, minha primeira comarca como Promotor de Justiça.

Nessa região surgiu, no final do Século XIX, um movimento messiânico sobre o qual ouvi algumas referências mas que foi pouco estudado, sendo, em consequência, um episódio quase desconhecido de nossa história. Lendo agora o excelente livro “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004), deparei com breve relato desse fato que ficou conhecido como “Canudinho”, ou seja, um “Canudos” pequeno, e que julgo merecedor de um comentário.

Paulo Pinheiro Machado (Divulgação)

Segundo o autor, entre agosto e setembro de 1897, um comerciante de nome Francelino Subtil de Oliveira, associado a um homem a quem chamavam “São” Miguel ou “São” Miguelito, que se declarava primo-irmão do “monge” João Maria, “estabeleceram o culto a uma forma rochosa que havia na região, afirmando que a pedra era uma santa que estava encantada.” Para libertar a santa, os devotos tinham que fazer preces e ladainhas sem fim, entoar cantos e confessar-se com Francelino, o “puxador” das orações. Como penitência dos pecados praticados, deveriam permanecer algum tempo com pesada pedra sobre a cabeça. Os devotos da nova fé passaram a se reunir no local, onde não tardou a nascer um vilarejo com cerca de oitenta ranchos e trezentos moradores. E como esse tipo de apelo “religioso” tem grande poder de atração, pessoas pobres, doentes e marginalizadas começaram a afluir ao local, ameaçando a formação de um reduto ou arraial, fato que assustou as autoridades da região (p. 173).

Os “coronéis” Henrique Rupp e Lucidóro Luiz de Mattos, ambos de Campos Novos, solicitaram a intervenção do Estado para debelar o surto messiânico. Soldados do Regimento de Segurança do Estado e homens de confiança daqueles “coronéis” tentaram atacar o povoado, mas, para surpresa deles, foram repelidos a tiros pelos devotos enfurecidos e por estes perseguidos até a entrada da então Vila de Campos Novos, distante cerca de quarenta quilômetros. Foi o vexame dos vexames, e os sertanejos, sagrados heróis pela boca do povo, tiveram sua bravura entoada em prosa e verso, espalhando-se por toda a região. Alarmado, o governador enviou nova expedição armada, contando com auxílio de forças gaúchas, e assim foi debelado o foco revolucionário que ameaçava imitar Canudos, na Bahia, onde as derrotas governistas se repetiam. Destruída a povoação, o episódio logo foi esquecido, ainda que contribuísse para o desgaste político daqueles “coronéis”, cujo prestígio estava em decadência. Segundo o autor, teria havido uma chacina no Entre-Rios (p. 174).

O novo “monge”, que se dizia “São” Miguel, tirou partido da devoção que existia em relação a João Maria, cuja pregação impregnava a região, chamando a atenção do povo e fazendo profecias apocalípticas, como o fim do mundo no virar do Século, as pesadas pragas que viriam e outros males. Com o aumento dos moradores, começaram os inevitáveis abusos, como brigas, saques de roças e fazendas, furto de gado e porcos. Por outro lado, o movimento revelou a existência de uma “população errante, suscetível de seguir até o fim suas lideranças religiosas e as pessoas estavam disponíveis a qualquer tipo de luta” (p. 174).

O “Canudinho”, tema pouco explorado, está à espera dos pesquisadores. E fica aqui no Estado, em região de fácil acesso e investigação.

(*) Hoje existem pontes.  

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2019 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br

O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.