Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Brasil profundo

Como tantos escritores brasileiros, Bernardo Élis está esquecido e sua obra quase não é lembrada. Por tudo isso, é muito bem-vindo o livro “O causo eu conto”, de autoria de Jaime Sautchuk, que aborda a figura do escritor e sua obra, quase toda ambientada no Brasil Central (Geração Editorial – S. Paulo – 2018). Jornalista, o autor da obra é catarinense de nascimento mas radicado em Goiás há muito tempo.

Nascido na então Vila de Corumbá de Goiás, Élis conheceu de perto a dura realidade da vida naqueles rincões nos começo do século passado. Observou desde criança a exploração a que os coroneis submetiam a população mais desfavorecida e as inevitáveis injustiças praticadas sem que houvesse a quem apelar. Ao mesmo tempo, na vida cotidiana, desde criança, esteve em contato com o modo de vida do povo, seus hábitos e costumes e, acima de tudo, com a linguagem característica que mais tarde registraria na sua obra. Vivendo entre a Vila natal e Vila Boa, atual Cidade de Goiás, capital do Estado naquela época, estudou nos colégios locais e depois se formou em Direito, embora jamais tenha exercido a advocacia. Muito cedo se manifestou nele o pendor para as letras; escrevia e lia com afinco. Enquanto isso, crescia dentro dele a revolta contra as injustiças que presenciava, o que o levaria a abraçar o socialismo por toda a vida, mesmo sofrendo as duras consequências, ainda mais após a instalação da ditadura, em 1964. Tornou-se professor secundário e superior e fez do magistério sua profissão.

Sua obra literária, desde o livro de estreia, “Ermos e Gerais”, publicado em 1944, sempre foi bem acolhida pela crítica e pelo público. Seguiram-se “Primeira Chuva”, “O Tronco”, “Caminhos e Descaminhos”, “Veranico de Janeiro”, “Caminhos dos Gerais” e outros livros, além de trabalhos publicados na imprensa. Tristão de Athayde, Antonio Candido, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, entre outros, fizeram apreciações positivas de sua obra, acentuando que ela retratava com rara fidelidade o Brasil profundo da região central. Foi agraciado com prêmios e condecorações.

Episódio curioso de sua carreira, sempre lembrado em sua biografia, foi a candidatura e eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Para a mesma vaga concorria ninguém menos que o ex-presidente Juscelino Kubitschek cuja eventual eleição contrariava os interesses da ditadura que via nele um adversário perigoso e temido. O ex-presidente tivera o mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos; estava no ostracismo. A eleição para a Academia o colocaria outra vez em evidência e isso era inaceitável. O general Golbery, eminência parda do regime, entrou em campo e, por paradoxal que fosse, o governo engoliu a candidatura de Bernardo Élis, socialista confesso e militante, desde que JK fosse derrotado, como de fato aconteceu. Em consequência da situação criada, algumas perguntas ficaram no ar: Élis teria sido usado? Tinha consciência do papel que fazia? Não se constrangeu em servir de instrumento para a ditadura? São indagações que se fazem mas que não têm resposta. O fato é que foi eleito, tomou posse e participou da vida acadêmica, embora mais tarde se confessasse arrependido de ter ingressado na ABL.

Um detalhe do livro desperta a atenção do leitor. À página 102 é estampada uma fotografia das mais conhecidas e publicadas que tem a seguinte legenda: “Guerrilheiros do movimento liderado por Zé Porfírio em Formoso e Trombas de Goiás.” Essa revolta, ocorrida naquele Estado, se opunha à opressão dominante e contou com o apoio de Élis. Existe, no entanto, flagrante equívoco em relação à foto, uma vez que ela retrata pessoas envolvidas na chamada Guerra do Contestado (1912/1916), aqui em Santa Catarina. Prova disso é que no livro “Claro Jansson – O Fotógrafo do Contestado”, de Rosa Maria Tesser, a mesma foto é atribuída a Jansson e aparece à página 18 com a seguinte legenda: “Famosa foto dos vaqueanos da Serraria Lumber, em Três Barras (SC) – 1915.” Já no livro “Guerras e Batalhas”, publicado pela “Folha de S. Paulo”, a mesma foto aparece na capa e na página 6 com esta legenda: “Rebeldes da Guerra do Contestado – Claro Jansson (1877/1954)”. Por fim, no volume “Contestado”, publicado pelo Governo do Estado de Santa Catarina, em 2002, a mesma foto foi reproduzida na capa e na página 7 com esta legenda: “Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.”

Concluindo, parece-me fora de dúvida o equívoco do livro de Jaime Sautchuk. Por outro lado, sou propenso a acreditar que a foto retrata um grupo de rebeldes e não de vaqueanos da Lumber.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/01/2019 às 13h00 | e.atha@terra.com.br

LITERATURA ACREANA

O território do atual Estado do Acre pertencia à Bolívia, como havia sido reconhecido pelo próprio Brasil em uma disputa daquele país com o Peru. Mas os seringueiros brasileiros, na maioria cearenses, haviam invadido em grande quantidade o território na extração do látex, criando uma situação de difícil solução, uma vez que não haveria como expulsá-los de lá. Os brasileiros entendiam que aquele chão lhes pertencia pelo direito de conquista e surgiram movimentos no sentido de sua anexação ao Brasil, entre eles o que foi chefiado pelo gaúcho Plácido de Castro. Em face da situação, o governo brasileiro entrou em ação, representado pelo Barão do Rio Branco, e, depois de longas negociações, o território foi incorporado ao Brasil. A Bolívia recebeu em troca uma indenização em dinheiro e outras vantagens, entre as quais a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a célebre Ferrovia do Diabo, conforme foi estabelecido no chamado Tratado de Petrópolis. Foi criado então o Território Federal do Acre, sob administração direta do Governo Federal, mais tarde elevado a Estado, em 1962. A capital recebeu o nome de Rio Branco em homenagem ao hábil diplomata, e importante cidade do interior recebeu o nome de Plácido de Castro. O nome Acre deriva da palavra Aquiri, usada pelos índios para designar o rio que banha a capital. Os acreanos ou acrianos, como alguns preferem, sentem-se tão brasileiros como os que mais o sejam e vivem antenados ao que acontece no Brasil, como pude verificar quando lá estive, embora seja um Estado jovem. O português é falado em toda parte, ainda que com sotaque próprio, e ninguém mais se lembra do passado boliviano.

Funciona em Rio Branco a Universidade Federal do Acre (UFAC), ampla e bem aparelhada, e que mantém um campus no interior. O Estado conta com apreciável movimentação cultural, o que nos leva a uma pergunta inevitável: existe uma literatura acreana? A resposta é positiva e existem obras ambientadas no Acre de inegável valor literário.

O Prof. Antônio Martins de Araújo, um dos maiores linguistas brasileiros, em livro muito louvado pela crítica especializada (*), dedicou ensaios críticos a três obras fundamentais da literatura daquele Estado. São elas: “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, “Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante, e “Terra Caída”, de José Potyguara. O primeiro é um livro que se tornou muito conhecido, inspirou um seriado televisivo e mereceu os aplausos da melhor crítica. Embora menos conhecidos, os dois outros também são de elevada qualidade literária e retratam a vida nos seringais e o fenômeno natural da terra caída, fato que muito me impressionou nas minhas andanças por lá.

Segundo o crítico, “Galvez, Imperador do Acre” é um folhetim picaresco que retrata a verdadeira história de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, aventureiro, conquistador e autor de curiosas sentenças e frases de efeito que profere. A narrativa se desenvolve com muito humor, registrando situações cômicas, frases com duplos sentidos, metáforas irônicas e variados recursos retóricos que o autor usa com mestria, tornando a leitura um exercício cativante. Entre as situações mais absurdas, surge o caso do nativo que havia se alfabetizado e morreu de convulsões cerebrais ao tentar ler a Summa Teologica de Santo Tomás de Aquino. Certo personagem era carrancudo como ditador latino-americano, frase que me traz à lembrança o general Médici. Depois de tantas lutas, conquistas e vitórias, o imperador compungido concluía: o meu império começa a entrar em crise como um dirigível abandonado que murchasse lentamente, O crítico submete o romance a uma análise ampla e completa, tanto no aspecto literário como gramatical.

Os dois outros romances acima referidos passam pelo mesmo crivo e são analisados nos aspectos literário e linguístico. Revelam a dureza da luta pela vida daqueles homens e mulheres que deixaram o inferno das secas para se embrenharem no inferno verde, afrontando todas as dificuldades daquele mundo regido pela ditadura das águas de que falava Dalcídio Jurandyr. Além da faceta literária, constituem documentos vivos e palpitantes de uma realidade muitas vezes desconhecida e por isso minimizada.

__________________________
(*) “A língua portuguesa no tempo e no espaço”,
Antônio Martins de Araújo, Brasília, Edições do
Senado Federal, Volume 242, 2017, p. 436 e seg.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/01/2019 às 11h26 | e.atha@terra.com.br

Documento histórico e biográfico

Entre os nossos escritores, Celestino Sachet é o que mais se empenha no estudo de temas catarinenses. É autor de três livros fundamentais sobre a literatura praticada no Estado desde o início até os dias atuais. Neles, destaca os aspectos biográficos dos autores, analisa suas obras, as correntes a que se filiam e os pontos relevantes de sua produção. Em pacientes e exaustivas pesquisas, tirou do ostracismo autores só conhecidos em determinadas regiões e os revelou a um público mais numeroso. Publicou ainda inúmeros trabalhos esparsos sobre os escritores e a literatura catarinenses, além de alentado volume sobre o Contestado. No momento em que escrevo, dedica-se a um ensaio a respeito da história da Academia Catarinense de Letras, seus integrantes de ontem e de hoje, comentando as obras de cada um e reproduzindo trechos mais significativos delas. Como se vê, um trabalho de envergadura como jamais foi aqui realizado.

Desviando-se dos temas predominantes, o Prof. Sachet publicou uma obra que é ao mesmo tempo a história de uma personalidade e um resumo da história política do país e do Estado. Refiro-me ao livro “Ivo Silveira – Passos do Estadista”, publicado pela Editora da Unisul (Palhoça – 2018). A par da biografia de um dos políticos mais importantes de Santa Catarina, rastreando seus passos ao longo de toda a existência, o autor expõe um panorama sintético dos principais acontecimentos políticos que ocorreram no país nesse período. As crises, as marchas e contramarchas, as tentativas golpistas, a implantação da ditadura, o reencontro com a democracia e as eleições, tudo é rememorado em pinceladas fortes e oportunas para refrescar a memória do leitor. A melancólica impressão que fica, ainda mais para quem acompanhou os fatos com atenção, é de um país perdido, sem rumo e sem destino, que vai rodando em círculos e sem encontrar o caminho. Mas essa é uma face lateral do livro; importa salientar a carreira e as realizações do biografado.

Nascido em Palhoça, Ivo Silveira desde cedo se mostrou vocacionado para a atividade política. Bacharel em Direito, exerceu funções públicas de livre nomeação até se eleger prefeito da cidade natal, iniciando sua longa trajetória na vida pública. Em sucessivos mandatos, foi eleito para a Assembleia Legislativa do Estado, cuja presidência ocupou, culminando pela conquista do Governo do Estado, em renhido e disputado pleito em que derrotou Antônio Carlos Konder Reis, já no período ditatorial. Mais tarde foi candidato ao Senado, sendo vencido pelo mesmo adversário, que lhe deu o troco. Derrotas e vitórias são eventos inerentes à atividade política. Segundo ele, o desprestígio dos políticos em favor dos tecnocratas exerceu influência decisiva na sua derrota. No conjunto, porém, sempre foi bafejado pelas urnas.

Numa busca criteriosa, o biógrafo aponta as realizações de seu personagem, tanto no Legislativo como no Executivo. Na longa permanência no Parlamento exerceu com afinco suas funções, procurando sempre fortalecer o Legislativo como o mais democrático dos poderes. Já como Governador, empenhou-se em realizar um arrojado e moderno programa de realizações em todos os setores. Deu especial atenção ao Legislativo, ao Judiciário, à educação, à energia elétrica, às rodovias, à saúde, à construção da nova ponte, à agricultura e à pesca, aos bancos estaduais então existentes, ao turismo e ao saneamento, ao funcionalismo e tudo mais, para pinçar alguns itens de sua minuciosa prestação de contas. Recebeu inúmeras homenagens em reconhecimento à sua ação governamental e deixou o cargo com elevados índices de aprovação.

Segundo a opinião geral, Silveira foi um democrata e um homem tolerante e compreensivo, incapaz de retaliações contra adversários. Sachet transcreve significativos depoimentos nesse sentido. Segundo afirmou alguém, Ivo Silveira foi um homem sem medo de fazer o Bem e sem coragem para fazer o Mal.

O livro é escrito em estilo simples e direto, proporcionando uma leitura agradável, contendo também curioso material iconográfico. É, em suma, mais uma importante contribuição do operoso professor, crítico literário e historiador à preservação de nossa memória.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/01/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

DOS ESCANINHOS DA MEMÓRIA

Folclorista por vocação e estudioso da música popular brasileira, além de autor de vasta obra literária, Francisco de Vasconcellos viveu os anos da juventude no Rio de Janeiro, período em que acompanhou de perto o panorama artístico da cidade e da região. Atento ao que acontecia no teatro, no rádio, na televisão e na música, manteve um relacionamento pessoal e íntimo com inúmeras figuras de destaque no meio artístico, o que lhe permitiu testemunhar e participar de muito do que ocorria. Colega na Faculdade de Direito e amigo íntimo do cantor e compositor João Roberto Kelly, a quem considerava como irmão, esteve sempre ao lado dele desde o início da carreira até sua definitiva consagração como autor de músicas célebres e aclamadas pelo povo.

Rebuscando nos escaninhos da memória e se valendo de bem organizado arquivo pessoal, ele reconstituiu grande parte do que viveu nessa época no delicioso livro “Boêmios... Malandros...Irmãos...” (Arteg – Juiz de Fora – 2018). Esclarece o autor, em preliminar, que a palavra malandro integrante do título não tem nada de pejorativo, mas designa aquele que sabe sair das enrascadas da vida sem se machucar e sem ferir os circunstantes. No conjunto, o livro oferece um panorama amplo e colorido do meio artístico do período, recordando incontáveis figuras de grande talento que pontificavam com brilhantismo numa das fases mais ricas da cultura popular brasileira. Encontrei referências a inúmeras pessoas que se destacaram e hoje estão em completo ostracismo.

Em primeiro plano o autor destaca o grande talento poético-musical de João Roberto Kelly, autor de sambas e marchinhas memoráveis, acompanhando a luta pela conquista de um lugar ao sol no mundo artístico. Ambos muito jovens, viviam com intensidade os dias agitados e as noites movimentadas da então capital da República. Faz uma espécie da biografia paralela de ambos e vai registrando, passo a passo, as realizações e as conquistas de Kelly. Ele defendia o chamado samba do telecoteco, o samba de raiz autenticamente nacional, a “marca registrada dos morros cariocas.” Com essa diretriz, não se deixava seduzir por modismos musicais importados. Dotado de grande sensibilidade, captava os fatos ao seu redor e os musicava com inteligência e humor. “Sempre com muito bom humor – escreve o autor – e valendo-se de terminologia calcada no linguajar do povo comum e corrente, ele é o caricaturista dos sentimentos mal resolvidos, o filósofo da saudade e da dor de cotovelo.”

No curso do livro o autor acaba por realizar um levantamento completo da obra de Kelly, sempre auxiliado por um excelente e organizado arquivo pessoal.

Mas o livro não se resume a tais assuntos. O autor recorda outros eventos importantes, como o fenômeno Maysa, o sucesso de Aracy Côrtes e de Emilinha Borba, de Colé, Consuelo Leandro, Carmélia Alves, Virgínia Lane, Elizeth Cardoso, cantores e cantoras, compositores, músicos, radialistas, apresentadores de televisão, conjuntos musicais de sucesso e carnavais que deixaram lembrança. Programas de sucesso, atrizes e atores, gente do teatro e do meio musical. Os bares famosos, as boates, os clubes. Aborda ainda outros gêneros musicais, como o frevo e a marchinha, bem como grandes intérpretes musicais da época e tudo aquilo que acontecia nesse meio. É o depoimento de quem viu tudo de perto, teve a sorte de presenciar e participar, enquanto a nós outros só foi permitido acompanhar a distância. Segundo ele, “o samba do telecoteco foi a ratificação do sentimento de brasilidade que pautou o itinerário musical de João Roberto Kelly enquanto me foi possível testemunhar sua brilhante escalda rumo ao sucesso.” Em tudo diferente das cópias e imitações de coisas estrangeiras que vemos hoje, inclusive na literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2019 às 10h04 | e.atha@terra.com.br

A chave do mistério

Dimas Macedo, doublé de jurista e escritor, escreve como poucos e sabe prender o leitor. Tenho lido com prazer muitos de seus textos e acabo de me deliciar com “A Face do Enigma” (Imprece – Fortaleza – 2012), segunda edição da biografia e análise da obra de José Alcides Pinto (1923/2008), uma das figuras mais inteligentes e pitorescas do mundo literário. Sei de experiência própria o quanto é difícil o gênero biográfico, dificuldade que se agrava quando se trata de uma personalidade tão complexa como a do biografado, ainda por cima autor de uma obra vasta e diversificada que se espraia pela poesia, o romance, o conto, a novela, o teatro, o ensaio, a crítica literária e os textos variados a que denominou miscelânea. Parece não haver gênero que permaneceu alheio à curiosidade e à inquietação intelectual de José Alcides Pinto, cuja vida, por sinal, já constitui autêntica peça literária. Mas Dimas Macedo enfrentou e superou todos esses entraves, penetrou no mar de letras produzidas pelo seu biografado e compôs um texto delicioso, leve e repleto de informações.

Nascido nas brenhas do interior cearense, José Alcides Pinto teve a infância típica dos meninos do sertão. Perambulava pelos campos e pelas estradas, sonhava, inventava maneiras de enganar a monotonia. Já deveria estar inoculado pelo carnegão literário, eis que as letras parecem ter predileção pelos garotos das pequenas vilas. Graças a um protetor, andou por outros rincões e acabou em Fortaleza, a capital, onde já escrevia para a imprensa. Depois, tomado pelo ímpeto ambulatório, viajou para o Rio de Janeiro, fazendo uma prolongada escala no Recife. Ali se envolveu em manifestações socialistas e provou a cadeia, iniciando uma série de detenções por razões ideológicas. Naquele meio efervescente, lançou-se à campanha de Yedo Fiúza, candidato das esquerdas à presidência e, por outro lado, fez contato com escritores importantes, como Gilberto Freyre e Mauro Mota. A paixão pelo jornalismo e pela literatura, no entanto, o salvou da política e o período recifense foi significativo para sua formação intelectual. Já no Rio de Janeiro, entregou-se a mil atividades e teve toda sorte de experiências. Uma vida de gangorra, ora abrigado sob um teto seguro, ora dormindo ao relento em bancos de praças públicas. Mesmo assim estudou, ingressou no serviço público e retornou a Fortaleza como funcionário público federal. Mais tarde abandonaria o cargo para se tornar fazendeiro, entregando-se à administração da Fazenda “Terras do Dragão”, em Santana do Acaraú. Mais curioso ainda é que o socialista ardoroso da juventude se tornou um místico e passou a envergar, do dia para a noite e até o fim da vida, o hábito religioso dos franciscanos. “Com ele desfilou pelos espaços públicos de Fortaleza e Santana do Acaraú, aprofundando-se também na mística de Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, e adotando a oração e a renúncia como norma de vida” – escreveu o autor (p. 35).

Quanto à obra, parece inexistir caminho por onde sua inquietação não o tenha levado. Foi pioneiro e mentor do concretismo, mas também produziu poemas nos moldes tradicionais. Incursionou pelo fantástico, pelo surreal e pelo maravilhoso. Foi vanguardista e experimental. Praticou variados gêneros com criatividade incomum e produziu em quantidade sem jamais perder a qualidade. “Seria muito difícil ao crítico acompanhar a trajetória desse escritor multifacetado, cuja escritura abrange quase todos os gêneros literários”, mesmo porque “a literatura é o pano de fundo de sua própria existência, isto é, a arte literária em estado de realização humana e de mistério” (pp. 52 e 49). Como escreveu o grande Gilberto Amado, “concretismo, pós-surrealismo, qualquer que seja o rótulo, seus poemas rápidos, intensos, são poesia ressonante, reveladora de seu talento admirável” (p. 52).

Em síntese, José Alcides Pinto viveu com intensidade a vida do escritor e legou uma obra vasta e admirável. Com imenso trabalho e dedicação invulgar, Dimas Macedo realizou um excelente serviço para divulgar e preservar sua memória e forneceu a chave para desvendar o mistério de sua obra.

__________________________________

Tamara Kaufmann, escritora radicada em Balneário Camboriú, está publicando “Meu Livro”, alentado volume memorialístico que lhe custou longo e persistente trabalho (Editora Kayngangue – 2018).

Nascida na Rússia, a autora passou na Alemanha os anos da II Guerra Mundial em companhia da mãe, do padrasto e da irmã. Viveu os horrores dos bombardeios aéreos de Berlim, refugiando-se nos abrigos anteaéreos sem saber se sobreviveria ao minuto seguinte. O medo, a escassez de suprimentos, as privações e a fome os acompanhavam no dia a dia. Na busca desesperada de maior segurança, tentaram ingressar na Suíça, depois de caminharem centenas de quilômetros a pé, nas piores condições imagináveis, pedindo abrigo e alimentação em casas onde muitas vezes as portas lhes eram batidas na cara. O esforço foi inútil: não conseguiram varar a fronteira. Foram, então, para Munique, onde se viram internados num campo de concentração para refugiados. Depois de mil padecimentos, obtiveram autorização para emigrar para o Brasil graças à ajuda do governo americano. Embarcados em um lerdo e fumarento navio misto de passageiros e cargas, depois de uma viagem complicada, desembarcaram no Rio de Janeiro, onde também enfrentaram toda sorte de dificuldades, até que se transferiram para São Paulo e lá se fixaram.

Na capital paulista, vencendo todos os obstáculos, o preconceito, a barreira da língua desconhecida, a indiferença e tudo mais, trataram de procurar empregos e trabalhar em qualquer atividade, por modesta e humilhante que fosse. A autora se empenhou nas mais diversas ocupações, lutando para conquistar um lugar ao sol na terra estranha. Acabou se casando e viveu muitos anos de vida conjugal feliz, mas perdeu o marido e se viu sozinha. E então alguém a convidou a se transferir para uma pequena cidade praiana em busca de paz e tranquilidade. Assim se estabeleceu em Balneário Camboriú, iniciando nova fase de vida, toda dedicada à cultura e às letras.

O relato de Tamara é minucioso, documental, revelando uma pessoa organizada e dotada de excelente memória. É de uma sinceridade realista surpreendente, penetrando até mesmo nos mais íntimos detalhes. Fica a impressão de que ela está praticando uma catarse, talvez para se livrar de lembranças pouco agradáveis ao despejá-las no papel. Nisso, revela a mesma coragem com que enfrentou uma vida dura e sofrida.

Concluída a leitura, fico afirmando a mim mesmo que tudo aquilo que eu considerava sofrimento na minha vida pessoal não passa de brincadeira diante do que a autora padeceu. Também faz crescer minha admiração por alguém que viveu tudo aquilo, conseguiu apagar as marcas deixadas e construir uma vida normal.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2018 às 12h21 | e.atha@terra.com.br

Vidas perdidas

Com esse título, o escritor goiano Edmo Nunes acaba de publicar seu segundo romance (Editora Kelps – Goiânia – 2018). Trata-se de um enredo longo e minucioso ambientado nos confins goianos dos tempos de antanho, em pleno sertão bruto, abordando a saga da família de “seu” Olegar, fazendeiro que se fez à custa de trabalho árduo, persistência e inaudita coragem. A figura central, no entanto, e que toma para si as rédeas da narrativa é sua filha, Dina, mulher resoluta e forte, que acaba por dominar o cenário, não titubeando nem mesmo diante de atos de extrema violência.

Tudo tem início quando ela, moça muito linda e disputada na região, se apaixona por um certo Chico Mulato, boêmio incorrigível, violeiro e cantor sem paragem certa e inimigo declarado de qualquer trabalho. Contrariando a opinião geral e agindo com fria determinação, ela decide viver com ele em uma pequena fazenda pertencente ao pai, isolada de tudo, em pleno sertão, e sem as mínimas condições de conforto e segurança. Mal se instalam, o marido ganha o mundo e só aparece depois de longas ausências, permanecendo por alguns dias antes de nova ausência. É brutal no trato à mulher, exigente e arrogante, mas ela, de maneira surpreendente, a tudo se submete. Seguem-se anos de trabalho duro, cuidando sozinha da casa, lavrando e plantando para a subsistência e dando atenção aos filhos que vão nascendo. Descuidada de si mesma, vestida em molambos, suja e desgrenhada, ela trabalha, trabalha e trabalha. É uma submissão total aos caprichos de um marido vadio e grosseiro que chega a provocar a perplexidade do leitor diante de tanta carneirice. Até que um dia, não suportando mais, sobrevém a reação e ela elimina o malsinado Chico Mulato de maneira fria, calculada e precisa. Consumado o crime, toma dos filhos e da tralha e se transfere para a fazenda do pai, assumindo sua administração e guardando a sete chaves o segredo do desaparecimento do marido.

Tem início nova fase de uma vida difícil e sofrida. Cabe-lhe a direção da fazenda, tendo que cuidar do pai doente, de um irmão deficiente e das crianças. A morada é distante de tudo, isolada do mundo; as viagens são longas e penosas, em lombo de cavalo. A violência impera e tanto o pai, velho e doente, como os dois irmãos, são assassinados. Sobre eles recai a acusação de um duplo homicídio frio e cruel motivado por questões de divisas de terras. A própria Dina, por fim, acaba se envolvendo em projetos de vingança, eliminando o autor das mortes de seus familiares. É vítima, no momento da execução, de um ferimento que desfigura um dos lados de seu rosto. Não obstante, ela se empenha com toda determinação pela direção da família no sentido da paz e da harmonia, criando filhos honestos e trabalhadores. Carrega no peito, em silêncio, o peso da morte do marido e só descansa depois de uma confissão completa e espontânea à família e à autoridade. Mas tempo é remédio e os muitos anos decorridos impõem o esquecimento. Nenhuma providência é tomada contra ela e a mulher, enfim, pode suspirar, aliviada do peso que carregava na alma.

A trama é envolvente e a narrativa desperta a curiosidade do leitor pelos acontecimentos seguintes. Não há como largar o livro antes do final. No correr do texto o autor revela perfeito conhecimento do que descreve. Tudo lhe é familiar, desde a natureza selvagem do sertão até os costumes, a linguagem, os alimentos, s plantações, os animais e tudo mais. É um conhecimento feito de experiência própria, essencial à verossimilhança de uma narrativa do gênero. Por fim, o autor revela agudo senso de observação e memória impecável, o que faz de seu romance um documento completo da vida humana nos grotões arredios de civilização. Edmo Nunes está diplomado em romance.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/12/2018 às 19h27 | e.atha@terra.com.br



3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Brasil profundo

Como tantos escritores brasileiros, Bernardo Élis está esquecido e sua obra quase não é lembrada. Por tudo isso, é muito bem-vindo o livro “O causo eu conto”, de autoria de Jaime Sautchuk, que aborda a figura do escritor e sua obra, quase toda ambientada no Brasil Central (Geração Editorial – S. Paulo – 2018). Jornalista, o autor da obra é catarinense de nascimento mas radicado em Goiás há muito tempo.

Nascido na então Vila de Corumbá de Goiás, Élis conheceu de perto a dura realidade da vida naqueles rincões nos começo do século passado. Observou desde criança a exploração a que os coroneis submetiam a população mais desfavorecida e as inevitáveis injustiças praticadas sem que houvesse a quem apelar. Ao mesmo tempo, na vida cotidiana, desde criança, esteve em contato com o modo de vida do povo, seus hábitos e costumes e, acima de tudo, com a linguagem característica que mais tarde registraria na sua obra. Vivendo entre a Vila natal e Vila Boa, atual Cidade de Goiás, capital do Estado naquela época, estudou nos colégios locais e depois se formou em Direito, embora jamais tenha exercido a advocacia. Muito cedo se manifestou nele o pendor para as letras; escrevia e lia com afinco. Enquanto isso, crescia dentro dele a revolta contra as injustiças que presenciava, o que o levaria a abraçar o socialismo por toda a vida, mesmo sofrendo as duras consequências, ainda mais após a instalação da ditadura, em 1964. Tornou-se professor secundário e superior e fez do magistério sua profissão.

Sua obra literária, desde o livro de estreia, “Ermos e Gerais”, publicado em 1944, sempre foi bem acolhida pela crítica e pelo público. Seguiram-se “Primeira Chuva”, “O Tronco”, “Caminhos e Descaminhos”, “Veranico de Janeiro”, “Caminhos dos Gerais” e outros livros, além de trabalhos publicados na imprensa. Tristão de Athayde, Antonio Candido, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, entre outros, fizeram apreciações positivas de sua obra, acentuando que ela retratava com rara fidelidade o Brasil profundo da região central. Foi agraciado com prêmios e condecorações.

Episódio curioso de sua carreira, sempre lembrado em sua biografia, foi a candidatura e eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Para a mesma vaga concorria ninguém menos que o ex-presidente Juscelino Kubitschek cuja eventual eleição contrariava os interesses da ditadura que via nele um adversário perigoso e temido. O ex-presidente tivera o mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos; estava no ostracismo. A eleição para a Academia o colocaria outra vez em evidência e isso era inaceitável. O general Golbery, eminência parda do regime, entrou em campo e, por paradoxal que fosse, o governo engoliu a candidatura de Bernardo Élis, socialista confesso e militante, desde que JK fosse derrotado, como de fato aconteceu. Em consequência da situação criada, algumas perguntas ficaram no ar: Élis teria sido usado? Tinha consciência do papel que fazia? Não se constrangeu em servir de instrumento para a ditadura? São indagações que se fazem mas que não têm resposta. O fato é que foi eleito, tomou posse e participou da vida acadêmica, embora mais tarde se confessasse arrependido de ter ingressado na ABL.

Um detalhe do livro desperta a atenção do leitor. À página 102 é estampada uma fotografia das mais conhecidas e publicadas que tem a seguinte legenda: “Guerrilheiros do movimento liderado por Zé Porfírio em Formoso e Trombas de Goiás.” Essa revolta, ocorrida naquele Estado, se opunha à opressão dominante e contou com o apoio de Élis. Existe, no entanto, flagrante equívoco em relação à foto, uma vez que ela retrata pessoas envolvidas na chamada Guerra do Contestado (1912/1916), aqui em Santa Catarina. Prova disso é que no livro “Claro Jansson – O Fotógrafo do Contestado”, de Rosa Maria Tesser, a mesma foto é atribuída a Jansson e aparece à página 18 com a seguinte legenda: “Famosa foto dos vaqueanos da Serraria Lumber, em Três Barras (SC) – 1915.” Já no livro “Guerras e Batalhas”, publicado pela “Folha de S. Paulo”, a mesma foto aparece na capa e na página 6 com esta legenda: “Rebeldes da Guerra do Contestado – Claro Jansson (1877/1954)”. Por fim, no volume “Contestado”, publicado pelo Governo do Estado de Santa Catarina, em 2002, a mesma foto foi reproduzida na capa e na página 7 com esta legenda: “Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.”

Concluindo, parece-me fora de dúvida o equívoco do livro de Jaime Sautchuk. Por outro lado, sou propenso a acreditar que a foto retrata um grupo de rebeldes e não de vaqueanos da Lumber.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/01/2019 às 13h00 | e.atha@terra.com.br

LITERATURA ACREANA

O território do atual Estado do Acre pertencia à Bolívia, como havia sido reconhecido pelo próprio Brasil em uma disputa daquele país com o Peru. Mas os seringueiros brasileiros, na maioria cearenses, haviam invadido em grande quantidade o território na extração do látex, criando uma situação de difícil solução, uma vez que não haveria como expulsá-los de lá. Os brasileiros entendiam que aquele chão lhes pertencia pelo direito de conquista e surgiram movimentos no sentido de sua anexação ao Brasil, entre eles o que foi chefiado pelo gaúcho Plácido de Castro. Em face da situação, o governo brasileiro entrou em ação, representado pelo Barão do Rio Branco, e, depois de longas negociações, o território foi incorporado ao Brasil. A Bolívia recebeu em troca uma indenização em dinheiro e outras vantagens, entre as quais a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a célebre Ferrovia do Diabo, conforme foi estabelecido no chamado Tratado de Petrópolis. Foi criado então o Território Federal do Acre, sob administração direta do Governo Federal, mais tarde elevado a Estado, em 1962. A capital recebeu o nome de Rio Branco em homenagem ao hábil diplomata, e importante cidade do interior recebeu o nome de Plácido de Castro. O nome Acre deriva da palavra Aquiri, usada pelos índios para designar o rio que banha a capital. Os acreanos ou acrianos, como alguns preferem, sentem-se tão brasileiros como os que mais o sejam e vivem antenados ao que acontece no Brasil, como pude verificar quando lá estive, embora seja um Estado jovem. O português é falado em toda parte, ainda que com sotaque próprio, e ninguém mais se lembra do passado boliviano.

Funciona em Rio Branco a Universidade Federal do Acre (UFAC), ampla e bem aparelhada, e que mantém um campus no interior. O Estado conta com apreciável movimentação cultural, o que nos leva a uma pergunta inevitável: existe uma literatura acreana? A resposta é positiva e existem obras ambientadas no Acre de inegável valor literário.

O Prof. Antônio Martins de Araújo, um dos maiores linguistas brasileiros, em livro muito louvado pela crítica especializada (*), dedicou ensaios críticos a três obras fundamentais da literatura daquele Estado. São elas: “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, “Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante, e “Terra Caída”, de José Potyguara. O primeiro é um livro que se tornou muito conhecido, inspirou um seriado televisivo e mereceu os aplausos da melhor crítica. Embora menos conhecidos, os dois outros também são de elevada qualidade literária e retratam a vida nos seringais e o fenômeno natural da terra caída, fato que muito me impressionou nas minhas andanças por lá.

Segundo o crítico, “Galvez, Imperador do Acre” é um folhetim picaresco que retrata a verdadeira história de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, aventureiro, conquistador e autor de curiosas sentenças e frases de efeito que profere. A narrativa se desenvolve com muito humor, registrando situações cômicas, frases com duplos sentidos, metáforas irônicas e variados recursos retóricos que o autor usa com mestria, tornando a leitura um exercício cativante. Entre as situações mais absurdas, surge o caso do nativo que havia se alfabetizado e morreu de convulsões cerebrais ao tentar ler a Summa Teologica de Santo Tomás de Aquino. Certo personagem era carrancudo como ditador latino-americano, frase que me traz à lembrança o general Médici. Depois de tantas lutas, conquistas e vitórias, o imperador compungido concluía: o meu império começa a entrar em crise como um dirigível abandonado que murchasse lentamente, O crítico submete o romance a uma análise ampla e completa, tanto no aspecto literário como gramatical.

Os dois outros romances acima referidos passam pelo mesmo crivo e são analisados nos aspectos literário e linguístico. Revelam a dureza da luta pela vida daqueles homens e mulheres que deixaram o inferno das secas para se embrenharem no inferno verde, afrontando todas as dificuldades daquele mundo regido pela ditadura das águas de que falava Dalcídio Jurandyr. Além da faceta literária, constituem documentos vivos e palpitantes de uma realidade muitas vezes desconhecida e por isso minimizada.

__________________________
(*) “A língua portuguesa no tempo e no espaço”,
Antônio Martins de Araújo, Brasília, Edições do
Senado Federal, Volume 242, 2017, p. 436 e seg.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/01/2019 às 11h26 | e.atha@terra.com.br

Documento histórico e biográfico

Entre os nossos escritores, Celestino Sachet é o que mais se empenha no estudo de temas catarinenses. É autor de três livros fundamentais sobre a literatura praticada no Estado desde o início até os dias atuais. Neles, destaca os aspectos biográficos dos autores, analisa suas obras, as correntes a que se filiam e os pontos relevantes de sua produção. Em pacientes e exaustivas pesquisas, tirou do ostracismo autores só conhecidos em determinadas regiões e os revelou a um público mais numeroso. Publicou ainda inúmeros trabalhos esparsos sobre os escritores e a literatura catarinenses, além de alentado volume sobre o Contestado. No momento em que escrevo, dedica-se a um ensaio a respeito da história da Academia Catarinense de Letras, seus integrantes de ontem e de hoje, comentando as obras de cada um e reproduzindo trechos mais significativos delas. Como se vê, um trabalho de envergadura como jamais foi aqui realizado.

Desviando-se dos temas predominantes, o Prof. Sachet publicou uma obra que é ao mesmo tempo a história de uma personalidade e um resumo da história política do país e do Estado. Refiro-me ao livro “Ivo Silveira – Passos do Estadista”, publicado pela Editora da Unisul (Palhoça – 2018). A par da biografia de um dos políticos mais importantes de Santa Catarina, rastreando seus passos ao longo de toda a existência, o autor expõe um panorama sintético dos principais acontecimentos políticos que ocorreram no país nesse período. As crises, as marchas e contramarchas, as tentativas golpistas, a implantação da ditadura, o reencontro com a democracia e as eleições, tudo é rememorado em pinceladas fortes e oportunas para refrescar a memória do leitor. A melancólica impressão que fica, ainda mais para quem acompanhou os fatos com atenção, é de um país perdido, sem rumo e sem destino, que vai rodando em círculos e sem encontrar o caminho. Mas essa é uma face lateral do livro; importa salientar a carreira e as realizações do biografado.

Nascido em Palhoça, Ivo Silveira desde cedo se mostrou vocacionado para a atividade política. Bacharel em Direito, exerceu funções públicas de livre nomeação até se eleger prefeito da cidade natal, iniciando sua longa trajetória na vida pública. Em sucessivos mandatos, foi eleito para a Assembleia Legislativa do Estado, cuja presidência ocupou, culminando pela conquista do Governo do Estado, em renhido e disputado pleito em que derrotou Antônio Carlos Konder Reis, já no período ditatorial. Mais tarde foi candidato ao Senado, sendo vencido pelo mesmo adversário, que lhe deu o troco. Derrotas e vitórias são eventos inerentes à atividade política. Segundo ele, o desprestígio dos políticos em favor dos tecnocratas exerceu influência decisiva na sua derrota. No conjunto, porém, sempre foi bafejado pelas urnas.

Numa busca criteriosa, o biógrafo aponta as realizações de seu personagem, tanto no Legislativo como no Executivo. Na longa permanência no Parlamento exerceu com afinco suas funções, procurando sempre fortalecer o Legislativo como o mais democrático dos poderes. Já como Governador, empenhou-se em realizar um arrojado e moderno programa de realizações em todos os setores. Deu especial atenção ao Legislativo, ao Judiciário, à educação, à energia elétrica, às rodovias, à saúde, à construção da nova ponte, à agricultura e à pesca, aos bancos estaduais então existentes, ao turismo e ao saneamento, ao funcionalismo e tudo mais, para pinçar alguns itens de sua minuciosa prestação de contas. Recebeu inúmeras homenagens em reconhecimento à sua ação governamental e deixou o cargo com elevados índices de aprovação.

Segundo a opinião geral, Silveira foi um democrata e um homem tolerante e compreensivo, incapaz de retaliações contra adversários. Sachet transcreve significativos depoimentos nesse sentido. Segundo afirmou alguém, Ivo Silveira foi um homem sem medo de fazer o Bem e sem coragem para fazer o Mal.

O livro é escrito em estilo simples e direto, proporcionando uma leitura agradável, contendo também curioso material iconográfico. É, em suma, mais uma importante contribuição do operoso professor, crítico literário e historiador à preservação de nossa memória.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/01/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

DOS ESCANINHOS DA MEMÓRIA

Folclorista por vocação e estudioso da música popular brasileira, além de autor de vasta obra literária, Francisco de Vasconcellos viveu os anos da juventude no Rio de Janeiro, período em que acompanhou de perto o panorama artístico da cidade e da região. Atento ao que acontecia no teatro, no rádio, na televisão e na música, manteve um relacionamento pessoal e íntimo com inúmeras figuras de destaque no meio artístico, o que lhe permitiu testemunhar e participar de muito do que ocorria. Colega na Faculdade de Direito e amigo íntimo do cantor e compositor João Roberto Kelly, a quem considerava como irmão, esteve sempre ao lado dele desde o início da carreira até sua definitiva consagração como autor de músicas célebres e aclamadas pelo povo.

Rebuscando nos escaninhos da memória e se valendo de bem organizado arquivo pessoal, ele reconstituiu grande parte do que viveu nessa época no delicioso livro “Boêmios... Malandros...Irmãos...” (Arteg – Juiz de Fora – 2018). Esclarece o autor, em preliminar, que a palavra malandro integrante do título não tem nada de pejorativo, mas designa aquele que sabe sair das enrascadas da vida sem se machucar e sem ferir os circunstantes. No conjunto, o livro oferece um panorama amplo e colorido do meio artístico do período, recordando incontáveis figuras de grande talento que pontificavam com brilhantismo numa das fases mais ricas da cultura popular brasileira. Encontrei referências a inúmeras pessoas que se destacaram e hoje estão em completo ostracismo.

Em primeiro plano o autor destaca o grande talento poético-musical de João Roberto Kelly, autor de sambas e marchinhas memoráveis, acompanhando a luta pela conquista de um lugar ao sol no mundo artístico. Ambos muito jovens, viviam com intensidade os dias agitados e as noites movimentadas da então capital da República. Faz uma espécie da biografia paralela de ambos e vai registrando, passo a passo, as realizações e as conquistas de Kelly. Ele defendia o chamado samba do telecoteco, o samba de raiz autenticamente nacional, a “marca registrada dos morros cariocas.” Com essa diretriz, não se deixava seduzir por modismos musicais importados. Dotado de grande sensibilidade, captava os fatos ao seu redor e os musicava com inteligência e humor. “Sempre com muito bom humor – escreve o autor – e valendo-se de terminologia calcada no linguajar do povo comum e corrente, ele é o caricaturista dos sentimentos mal resolvidos, o filósofo da saudade e da dor de cotovelo.”

No curso do livro o autor acaba por realizar um levantamento completo da obra de Kelly, sempre auxiliado por um excelente e organizado arquivo pessoal.

Mas o livro não se resume a tais assuntos. O autor recorda outros eventos importantes, como o fenômeno Maysa, o sucesso de Aracy Côrtes e de Emilinha Borba, de Colé, Consuelo Leandro, Carmélia Alves, Virgínia Lane, Elizeth Cardoso, cantores e cantoras, compositores, músicos, radialistas, apresentadores de televisão, conjuntos musicais de sucesso e carnavais que deixaram lembrança. Programas de sucesso, atrizes e atores, gente do teatro e do meio musical. Os bares famosos, as boates, os clubes. Aborda ainda outros gêneros musicais, como o frevo e a marchinha, bem como grandes intérpretes musicais da época e tudo aquilo que acontecia nesse meio. É o depoimento de quem viu tudo de perto, teve a sorte de presenciar e participar, enquanto a nós outros só foi permitido acompanhar a distância. Segundo ele, “o samba do telecoteco foi a ratificação do sentimento de brasilidade que pautou o itinerário musical de João Roberto Kelly enquanto me foi possível testemunhar sua brilhante escalda rumo ao sucesso.” Em tudo diferente das cópias e imitações de coisas estrangeiras que vemos hoje, inclusive na literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2019 às 10h04 | e.atha@terra.com.br

A chave do mistério

Dimas Macedo, doublé de jurista e escritor, escreve como poucos e sabe prender o leitor. Tenho lido com prazer muitos de seus textos e acabo de me deliciar com “A Face do Enigma” (Imprece – Fortaleza – 2012), segunda edição da biografia e análise da obra de José Alcides Pinto (1923/2008), uma das figuras mais inteligentes e pitorescas do mundo literário. Sei de experiência própria o quanto é difícil o gênero biográfico, dificuldade que se agrava quando se trata de uma personalidade tão complexa como a do biografado, ainda por cima autor de uma obra vasta e diversificada que se espraia pela poesia, o romance, o conto, a novela, o teatro, o ensaio, a crítica literária e os textos variados a que denominou miscelânea. Parece não haver gênero que permaneceu alheio à curiosidade e à inquietação intelectual de José Alcides Pinto, cuja vida, por sinal, já constitui autêntica peça literária. Mas Dimas Macedo enfrentou e superou todos esses entraves, penetrou no mar de letras produzidas pelo seu biografado e compôs um texto delicioso, leve e repleto de informações.

Nascido nas brenhas do interior cearense, José Alcides Pinto teve a infância típica dos meninos do sertão. Perambulava pelos campos e pelas estradas, sonhava, inventava maneiras de enganar a monotonia. Já deveria estar inoculado pelo carnegão literário, eis que as letras parecem ter predileção pelos garotos das pequenas vilas. Graças a um protetor, andou por outros rincões e acabou em Fortaleza, a capital, onde já escrevia para a imprensa. Depois, tomado pelo ímpeto ambulatório, viajou para o Rio de Janeiro, fazendo uma prolongada escala no Recife. Ali se envolveu em manifestações socialistas e provou a cadeia, iniciando uma série de detenções por razões ideológicas. Naquele meio efervescente, lançou-se à campanha de Yedo Fiúza, candidato das esquerdas à presidência e, por outro lado, fez contato com escritores importantes, como Gilberto Freyre e Mauro Mota. A paixão pelo jornalismo e pela literatura, no entanto, o salvou da política e o período recifense foi significativo para sua formação intelectual. Já no Rio de Janeiro, entregou-se a mil atividades e teve toda sorte de experiências. Uma vida de gangorra, ora abrigado sob um teto seguro, ora dormindo ao relento em bancos de praças públicas. Mesmo assim estudou, ingressou no serviço público e retornou a Fortaleza como funcionário público federal. Mais tarde abandonaria o cargo para se tornar fazendeiro, entregando-se à administração da Fazenda “Terras do Dragão”, em Santana do Acaraú. Mais curioso ainda é que o socialista ardoroso da juventude se tornou um místico e passou a envergar, do dia para a noite e até o fim da vida, o hábito religioso dos franciscanos. “Com ele desfilou pelos espaços públicos de Fortaleza e Santana do Acaraú, aprofundando-se também na mística de Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, e adotando a oração e a renúncia como norma de vida” – escreveu o autor (p. 35).

Quanto à obra, parece inexistir caminho por onde sua inquietação não o tenha levado. Foi pioneiro e mentor do concretismo, mas também produziu poemas nos moldes tradicionais. Incursionou pelo fantástico, pelo surreal e pelo maravilhoso. Foi vanguardista e experimental. Praticou variados gêneros com criatividade incomum e produziu em quantidade sem jamais perder a qualidade. “Seria muito difícil ao crítico acompanhar a trajetória desse escritor multifacetado, cuja escritura abrange quase todos os gêneros literários”, mesmo porque “a literatura é o pano de fundo de sua própria existência, isto é, a arte literária em estado de realização humana e de mistério” (pp. 52 e 49). Como escreveu o grande Gilberto Amado, “concretismo, pós-surrealismo, qualquer que seja o rótulo, seus poemas rápidos, intensos, são poesia ressonante, reveladora de seu talento admirável” (p. 52).

Em síntese, José Alcides Pinto viveu com intensidade a vida do escritor e legou uma obra vasta e admirável. Com imenso trabalho e dedicação invulgar, Dimas Macedo realizou um excelente serviço para divulgar e preservar sua memória e forneceu a chave para desvendar o mistério de sua obra.

__________________________________

Tamara Kaufmann, escritora radicada em Balneário Camboriú, está publicando “Meu Livro”, alentado volume memorialístico que lhe custou longo e persistente trabalho (Editora Kayngangue – 2018).

Nascida na Rússia, a autora passou na Alemanha os anos da II Guerra Mundial em companhia da mãe, do padrasto e da irmã. Viveu os horrores dos bombardeios aéreos de Berlim, refugiando-se nos abrigos anteaéreos sem saber se sobreviveria ao minuto seguinte. O medo, a escassez de suprimentos, as privações e a fome os acompanhavam no dia a dia. Na busca desesperada de maior segurança, tentaram ingressar na Suíça, depois de caminharem centenas de quilômetros a pé, nas piores condições imagináveis, pedindo abrigo e alimentação em casas onde muitas vezes as portas lhes eram batidas na cara. O esforço foi inútil: não conseguiram varar a fronteira. Foram, então, para Munique, onde se viram internados num campo de concentração para refugiados. Depois de mil padecimentos, obtiveram autorização para emigrar para o Brasil graças à ajuda do governo americano. Embarcados em um lerdo e fumarento navio misto de passageiros e cargas, depois de uma viagem complicada, desembarcaram no Rio de Janeiro, onde também enfrentaram toda sorte de dificuldades, até que se transferiram para São Paulo e lá se fixaram.

Na capital paulista, vencendo todos os obstáculos, o preconceito, a barreira da língua desconhecida, a indiferença e tudo mais, trataram de procurar empregos e trabalhar em qualquer atividade, por modesta e humilhante que fosse. A autora se empenhou nas mais diversas ocupações, lutando para conquistar um lugar ao sol na terra estranha. Acabou se casando e viveu muitos anos de vida conjugal feliz, mas perdeu o marido e se viu sozinha. E então alguém a convidou a se transferir para uma pequena cidade praiana em busca de paz e tranquilidade. Assim se estabeleceu em Balneário Camboriú, iniciando nova fase de vida, toda dedicada à cultura e às letras.

O relato de Tamara é minucioso, documental, revelando uma pessoa organizada e dotada de excelente memória. É de uma sinceridade realista surpreendente, penetrando até mesmo nos mais íntimos detalhes. Fica a impressão de que ela está praticando uma catarse, talvez para se livrar de lembranças pouco agradáveis ao despejá-las no papel. Nisso, revela a mesma coragem com que enfrentou uma vida dura e sofrida.

Concluída a leitura, fico afirmando a mim mesmo que tudo aquilo que eu considerava sofrimento na minha vida pessoal não passa de brincadeira diante do que a autora padeceu. Também faz crescer minha admiração por alguém que viveu tudo aquilo, conseguiu apagar as marcas deixadas e construir uma vida normal.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2018 às 12h21 | e.atha@terra.com.br

Vidas perdidas

Com esse título, o escritor goiano Edmo Nunes acaba de publicar seu segundo romance (Editora Kelps – Goiânia – 2018). Trata-se de um enredo longo e minucioso ambientado nos confins goianos dos tempos de antanho, em pleno sertão bruto, abordando a saga da família de “seu” Olegar, fazendeiro que se fez à custa de trabalho árduo, persistência e inaudita coragem. A figura central, no entanto, e que toma para si as rédeas da narrativa é sua filha, Dina, mulher resoluta e forte, que acaba por dominar o cenário, não titubeando nem mesmo diante de atos de extrema violência.

Tudo tem início quando ela, moça muito linda e disputada na região, se apaixona por um certo Chico Mulato, boêmio incorrigível, violeiro e cantor sem paragem certa e inimigo declarado de qualquer trabalho. Contrariando a opinião geral e agindo com fria determinação, ela decide viver com ele em uma pequena fazenda pertencente ao pai, isolada de tudo, em pleno sertão, e sem as mínimas condições de conforto e segurança. Mal se instalam, o marido ganha o mundo e só aparece depois de longas ausências, permanecendo por alguns dias antes de nova ausência. É brutal no trato à mulher, exigente e arrogante, mas ela, de maneira surpreendente, a tudo se submete. Seguem-se anos de trabalho duro, cuidando sozinha da casa, lavrando e plantando para a subsistência e dando atenção aos filhos que vão nascendo. Descuidada de si mesma, vestida em molambos, suja e desgrenhada, ela trabalha, trabalha e trabalha. É uma submissão total aos caprichos de um marido vadio e grosseiro que chega a provocar a perplexidade do leitor diante de tanta carneirice. Até que um dia, não suportando mais, sobrevém a reação e ela elimina o malsinado Chico Mulato de maneira fria, calculada e precisa. Consumado o crime, toma dos filhos e da tralha e se transfere para a fazenda do pai, assumindo sua administração e guardando a sete chaves o segredo do desaparecimento do marido.

Tem início nova fase de uma vida difícil e sofrida. Cabe-lhe a direção da fazenda, tendo que cuidar do pai doente, de um irmão deficiente e das crianças. A morada é distante de tudo, isolada do mundo; as viagens são longas e penosas, em lombo de cavalo. A violência impera e tanto o pai, velho e doente, como os dois irmãos, são assassinados. Sobre eles recai a acusação de um duplo homicídio frio e cruel motivado por questões de divisas de terras. A própria Dina, por fim, acaba se envolvendo em projetos de vingança, eliminando o autor das mortes de seus familiares. É vítima, no momento da execução, de um ferimento que desfigura um dos lados de seu rosto. Não obstante, ela se empenha com toda determinação pela direção da família no sentido da paz e da harmonia, criando filhos honestos e trabalhadores. Carrega no peito, em silêncio, o peso da morte do marido e só descansa depois de uma confissão completa e espontânea à família e à autoridade. Mas tempo é remédio e os muitos anos decorridos impõem o esquecimento. Nenhuma providência é tomada contra ela e a mulher, enfim, pode suspirar, aliviada do peso que carregava na alma.

A trama é envolvente e a narrativa desperta a curiosidade do leitor pelos acontecimentos seguintes. Não há como largar o livro antes do final. No correr do texto o autor revela perfeito conhecimento do que descreve. Tudo lhe é familiar, desde a natureza selvagem do sertão até os costumes, a linguagem, os alimentos, s plantações, os animais e tudo mais. É um conhecimento feito de experiência própria, essencial à verossimilhança de uma narrativa do gênero. Por fim, o autor revela agudo senso de observação e memória impecável, o que faz de seu romance um documento completo da vida humana nos grotões arredios de civilização. Edmo Nunes está diplomado em romance.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/12/2018 às 19h27 | e.atha@terra.com.br



3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.