Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

CONTO EM XILOGRAVURA

Edições da Confraria, selo editorial da Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB), com sede em Brasília, publicou um volume que é uma preciosidade. Trata-se do conto “Brutalidade”, de autoria do folclorista e pesquisador Leonardo Mota (1891/1948), única incursão conhecida na área da ficção, resgatada de um jornal que não pode ser identificado e publicada em 1920. Bastante longo, bem escrito e encadeado, o conto constitui-se numa grande surpresa, uma vez que revela o talento de um autor interessado em outras áreas para a short story. A história, chocante, se insere entre as obras da corrente naturalista e agrada pela maneira segura com que é conduzida, além do fato de ser uma raridade.

Mais curioso ainda é que o conto, além de publicado de maneira normal, é reproduzido em 50 xilogravuras de autoria do gravurista José Lourenço (Gonzaga), um dos mais conhecidos expoentes dessa arte tão difícil quanto trabalhosa. Como se sabe, a xilogravura é entalhada em uma prancha de um tipo especial de madeira (umburana ou louro), formando um molde sobre o qual é espalhada a tinta para permitir a impressão em papel. Lourenço é profissional da arte, de renome internacional, tendo realizado exposições em várias partes do mundo e suas obras estão expostas em importantes museus. Tem publicado álbuns, incontáveis capas de cordéis e realizado inúmeras outras obras.

Cada cena do conto é retratada em uma xilogravura conforme a visão do artista, de sorte que o leitor pode acompanhar o desenrolar da história cotejando com as ilustrações. A geografia dos locais, a paisagem, as características dos personagens, as suas fisionomias e reações faciais e tudo mais pode ser observado pelo leitor.

Segundo o editor, esse tipo de publicação é rotulado de Romance Gráfico Sem Palavras (Wordless Graphic Novels) e tem longa tradição em vários países. O processo foi criado pelo belga Frans Mosereel e tem sido praticado tanto na Europa como nos Estados Unidos. Não se confunde com as histórias em quadrinhos porque as ilustrações não têm legendas. (Nos Estados Unidos, novel é o nosso romance).

O livro contém interessante crônica de Mimosa Mota Fernandes sobre o pai Leonardo Mota, também conhecido como Leota, um ensaio de Jorge Brito sobre o contista e outro de Gilmar de Carvalho a respeito do gravurista. O conto, sob o aspecto literário, é analisado pelo crítico Sânzio de Azevedo em substancioso e preciso ensaio introdutório.

Como de costume, o livro é em si mesmo uma obra de arte gráfica. Em tamanho grande, com capa dura e sobrecapa, seus exemplares, numerados, se destinam a cada um dos associados da Confraria na ordem de suas inscrições. É obra para colecionadores, apaixonados por livros e leitores exigentes. Exemplares extras podem ser obtidos pelos interessados

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Escrito por Enéas Athanázio, 20/05/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br

O Exterminador

Desde guri Vico ouvia que o pinheiro prejudica o campo. As grimpas pontudas que se juntam no chão, afiadas e duras, espetam o gado e não permitem que ele paste. E quanto maior a quantidade de grimpas espalhadas, maior o espaço perdido na pastagem. Quando o pai saía para camperear, Vico ia montadinho na frente do arreio e, mais tarde, já mais taludo, na garupa. Nessas andanças pelo campo o pai cortava a facão os pinheirinhos novos que estavam começando a crescer. Pelo menos esses não vão incomodar! – dizia o fazendeiro. E assim Vico se tornou inimigo dos pinheiros.

Com o tempo chegou a primeira serraria. Pequena indústria, usando uma serra Tissot lerda e barulhenta, principiou a devorar os pinheiros de São Simão e das redondezas. Ainda distante das poderosas serras-fitas e com as toras arrastadas do mato por junta de bois, provocou a valorização das árvores e elas ganharam um preço que ninguém poderia imaginar. O pai de Vico encontrou uma aliada e em pouco tempo sua fazenda estava livre dos incômodos pinheiros e suas aguçadas grimpas. Novas serrarias surgiram, o preço dos pinheiros subia sem parar e muitos vizinhos que conservaram os seus enriqueceram do dia para a noite. O pai de Vico ganhava bom dinheiro com a venda de suas árvores e se arrependia em silêncio das que havia abatido. Mas era tarde.

Vico, no entanto, viu ali uma grande oportunidade. Decidiu instalar uma serraria para exterminar os pinheiros e, ao mesmo tempo, obter bons lucros. Estudou o assunto, aconselhou-se com técnicos, adquiriu maquinário moderno, guinchos e caminhões. Visitou a instalação da Companhia Lumber, em Três Barras, então considerada a maior e a mais moderna serraria da América Latina, conhecida como “o colosso”, e tratou de montar a sua. Foi comprando os pinhais da região, cujas árvores eram devoradas com celeridade pelos poderosos dentes das serras-fitas e transformadas em caibros, vigas, pranchões, tábuas, dormentes, sarrafos, ripas e tudo mais, transportados em imensos caminhões de reboque até a ferrovia e dali embarcados em vagões para os mais variados destinos. Os pinhais principiaram a minguar. Vico enriquecia.

Não tardou muito e os pinheiros desapareceram. Nos campos e matos nenhum deles farfalhava ao vento que soprava nas coxilhas e canhadas. Acabado o “material”, não houve outro recurso: a serraria foi desmontada e transplantada para região diferente, agora no Oeste. E lá reiniciou sem cansaço sua faina devoradora. Dia a noite as serras giravam, cresciam os montões de serragem e os aleijados nos acidentes de trabalho. Manetas, pernetas, cotós, cegos, deformados ficariam como testemunhos vivos do monstro nômade e implacável.

Como tudo no mundo, as florestas de araucárias acabam quando não replantadas. E assim, a poderosa serraria de Vico mudou outra vez, agora para o Extremo-Oeste e, depois de algum tempo, para o Paraná, o Mato Grosso e a Amazônia, quando concluíram que árvores de outras espécies também se prestavam ao corte.

E a faina devoradora avançou sem parar, abrindo clareiras monumentais. (Vi muitas em Rondônia, no Tocantins, no Acre, em Roraima).

Orgulhoso, Vico deu entrevistas contando as vanglórias de sua obra e sustentando que as árvores não fizeram falta alguma à natureza. Conquistou seguidores, adeptos, discípulos. E todos eles, ricos, gordos, felizes, prosseguem impávidos, saboreando genuíno prazer a cada árvore que cai.
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Inspirada em entrevista televisiva.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/05/2019 às 20h04 | e.atha@terra.com.br

QUEM MATOU O BUGREIRO?

A ação dos chamados bugreiros em nosso Estado tem provocado inúmeros trabalhos, a grande maioria na área histórica. O assunto é um prato cheio que poderia inspirar a ficção e a poesia, mas muito pouco tem sido aproveitado. Fenômenos locais ou regionais de repercussão, a exemplo do cangaço, dos jagunços, dos santos populares e outros têm dado margem a romances, novelas, contos, crônicas, poemas, filmes e programas televisivos, enquanto o genocídio dos bugres é pouco lembrado. Não me arrisco a pensar que isso se deva à falta de imaginação ou a um secreto pudor ou vergonha de expor o problema aos olhos do grande público. Nascido e criado dentro do território do Contestado, percebi que a população da região nutria tais sentimentos em relação ao movimento, considerando-o coisa de fanáticos e ignorantes. Essa atitude, como se percebe, ocasionou a perda de incontáveis fontes de informação sobre o Contestado. Haveria em relação aos bugreiros algo semelhante?

Paulo Sá Brito, escritor radicado em Florianópolis e veterano no gênero romanesco, enveredou por outro caminho e romanceou a saga dos bugreiros em “Desde menino me choro”, publicado por Quorum Comunicação (Florianópolis – 2019). Conhecedor do tema, leitor atento das obras de outros autores que escreveram a respeito, deu asas à imaginação e criou um romance vivo e absorvente sem, contudo, violar as balizas históricas. Criou um autêntico romance indigenista sem pretensões panfletárias. O título, excelente, é inspirado em verso de Fernando Pessoa.

Tudo tem início quando uma tribo de índios xokleng é atacada pelo bando de Martinho Bugreiro numa escura madrugada. O pequeno Cuitá dormia agarrado à mãe, ao lado dela, a cabeça encaixada nos generosos seios maternos. Gritaria e tiros acordam as pessoas que dormem e o pânico toma conta da aldeia. Sem resistir porque suas armas foram destruídas, os guerreiros procuram fugir levando as mulheres e crianças, enquanto outros procuram se esconder. Mas o ataque é implacável e os índios vão tombando, atingidos pelas balas ou por certeiros golpes de facões, inclusive a mãe do menino. Cuitá se refugia numa das cabanas mas é encontrado e agarrado pelo próprio Martinho em pessoa. Findo o ataque, chorando em desespero, gritando e esperneando, é levado para a cidade e vendido a um casal de imigrantes alemães. É bem tratado pelo casal, “civilizado” e educado, embora sofrendo pela ausência da mãe e das pessoas de sua tribo. Não havendo alternativa, esforça-se para vencer no meio dos brancos. Estuda, aprende e, superando os preconceitos e as dificuldades, se torna professor em Curitiba. Cuitá se transformou em Gunther.

Assim que entendeu o que acontecera, o menino se fixou na ideia da vingança. Houvesse o que houvesse, ele haveria de matar Martinho Bugreiro. Os anos passam e ele se mantém firme nesse propósito. Não haveriam de faltar oportunidades.

Como pano de fundo, o romance descreve os massacres praticados pelo célebre bugreiro, seu esquadrão da morte e outros que se dedicavam à mesma atividade. Sua incrível habilidade em descobrir pistas na mata virgem para localizar as aldeias, os despistes para não ser pressentido, os ataques repentinos enquanto os índios dormiam, o pânico provocado e a mortandade cruel de homens, mulheres e crianças a tiro e a facão, cortando na carne mole onde o fio penetrava como em bananeira, conforme afirmou um dos assassinos. Com extrema frieza, cortava as orelhas das vítimas cujos pares constituíam os documentos para a prestação de contas aos mandantes. Segundo diziam, era escrupuloso nesses acertos e sempre sério. Nunca teria sido visto rindo. Já os “filhotes de bugres”, a exemplo de Cuitá, eram levados para vender como serviçais a famílias da sociedade e quanto mais longe, melhor.

Muitas outras informações curiosas e algumas até surpreendentes vão surgindo no correr do romance. Entre estas últimas, a revelação de que Martinho chegou a agir em Lages e Curitibanos, fatos em geral desconhecidos. Os hábitos dos indígenas, a singularidade da língua xokleng, o consumo de cupins, carrapatos e até piolhos como alimentos, enquanto recusavam a ingestão de peixes, o desconhecimento da existência de outros seres humanos fora de sua etnia e o nomadismo ancestral vão formando um precioso painel a respeito desses gentios. Outros bugreiros, anteriores e contemporâneos de Martinho também são relacionados com seus nomes e regiões de atuação.

A entrada em cena do indianista Eduardo Lima e Silva Hoerhann, depois alcunhado de Katanghara, também enriquece a narrativa. Às margens do rio Plate, curso d’água que entrou na história, ele estabeleceu o primeiro contato dos brancos com os índios da tribo xokleng. Precisou de tempo para conquistar a confiança deles e chegou a ser quase escravizado. Ganhou a admiração dos gentios e estes lhe deram o nome de uma madeira elástica a resistente como homenagem e prova de admiração. Eduardo teria ameaçado Martinho de morte caso prosseguisse em suas matanças. Mais tarde, acabrunhado e triste, Eduardo se afastou de tudo, manifestando arrependimento do que havia feito em face do que acontecia com os índios. Faleceu no ostracismo e está sepultado em Ibirama.

O romance de Paulo Sá Brito é um manual de indigenismo sem propósito didatista. Alia o prazer da boa ficção ao ensinamento e à informação. Indica novo rumo ao romance de fundo histórico em nossa literatura,

Quanto a Cuitá, manteve ao longo da vida o propósito de matar Martinho para vingar a sua tribo. Até que ele de fato faleceu aos cinquenta e poucos anos, envelhecido e decadente. Mas quem o matou não foi Cuitá, apesar do seu ardente desejo, mas o paratifo que grassava na região.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/05/2019 às 13h18 | e.atha@terra.com.br

SAPATOS AMARELOS

Afirmavam antigos psicólogos, entre os quais, se não me falha a memória, o Prof. Iago Pimentel, que os seres humanos são dotados de dois tipos de imaginação: os univisivos (monovisivos) e os plurivisivos (multivisivos). Os primeiros enxergam os fatos na sua simplicidade. São capazes de imaginar com precisão como aconteceram, quando não os presenciaram, mas não passam disso. Já os segundos, enxergam variantes de episódios, detalhes, circunstâncias. A imaginação, partindo do real, passa a criar ou seja, a produzir aquilo que os teóricos da literatura denominam de ficção. Fatos vistos, lidos, ouvidos ou lembrados podem ter o mesmo efeito, inspirando a criação. Os primeiros, como se conclui, não têm vocação para a obra ficcional, embora tentem sem qualquer sucesso, como verifiquei várias vezes. Poderão ser historiadores, redatores, jornalistas, mas jamais autores de romances, novelas, contos, crônicas e poemas. Os segundos, ao contrário, dão largas à imaginação e criam as mais diversas e imprevistas histórias que nunca aconteceram com personagens que jamais existiram.

Essas observações me ocorrem ao terminar a leitura de “Maigret e o homem do banco”, mais uma das inúmeras histórias envolvendo o comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária francesa, sem dúvida o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989), publicado pela L&PM (P. Alegre – 2004). Nesse romance o autor se revela o mais completo polivisivo que se possa encontrar na literatura, extraindo de um fato mais ou menos comum numa grande metrópole como Paris (latrocínio) uma história absorvente e que atiça o leitor sequioso de conhecer o desenlace. Partindo do encontro de um morto a facada num beco estreito, ele complica as coisas ao revelar que a vítima, contrariando seus hábitos sedimentados, usava sapatos amarelos e uma gravata espalhafatosa como jamais fizeram antes. Esses detalhes intrigam a polícia e conduzem a uma investigação longa e complexa, envolvendo tempo e trabalho, além de trazerem à tona incontáveis personagens.

Modesto almoxarife de uma empresa há longos anos, Louis Thouret fica desempregado quando ela encerra as atividades. Temeroso da reação da esposa, mulher dominadora, esconde o fato dela e dos familiares e trata de procurar novo emprego. Como não consegue, passa os dias perambulando pela cidade ou sentado num banco de rua onde permanece por longo tempo. Consegue algum dinheiro emprestado e assim vai mantendo as aparências como se continuasse trabalhando e sem que a mulher desconfie da real situação. Tempos depois, sem explicação razoável, começa a dar mostras de possuir muito dinheiro, cuja origem é um mistério. E então, numa segunda-feira chuvosa, é encontrado morto num beco estreito com uma facada nas costas. A equipe de Maigret entra em cena e, depois de muita investigação, acaba chegando ao criminoso e descobre a origem do dinheiro misterioso. A chave do mistério está no tempo em que a vítima permanece sentada no banco da praça. Nessas longas horas de ócio afina o senso de observação, passa a conhecer os detalhes da rotina do comércio da região e articula um plano simples e seguro, cuja prática realiza com a ajuda de um antigo palhaço de circo, desocupado e velho conhecido dos policias. E então se desvenda a incrível vida paralela da vítima e as razões pelas quais foi encontrado calçando sapatos amarelos e usando a extravagante gravata. É uma trama complexa, com inúmeros incidentes e envolvendo grande quantidade de personagens. E mais uma vitória de Maigret, um dos maiores detetives da literatura mundial, ombreando com Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Ao longo do livro, Simenon põe na boca de seu personagem muitas de suas observações pessoais, como apaixonado que foi pela cidade de Paris. Observando a imensa fauna humana que se move pelas ruas da metrópole, ele identifica os ativos, correndo sem trégua atrás de seus objetivos, os vencidos, que andam maquinalmente, sem ânimo e sem vigor, e os cansados, que arrastam os pés nas calçadas. Em várias passagens lança um olhar amoroso sobre a multidão informe e colorida, recordando aquilo que o impressionava antes e agora. Em raro momento de mau humor, reclama da penumbra nos gabinetes da Polícia Judiciária: por que não os iluminam melhor? Numa passagem inesperada, discreto a respeito de sua vida pessoal, Maigret faz a revelação surpreendente de que teve uma filhinha falecida em criança.

Georges Simenon foi um escritor prolífico, tendo publicado mais de duzentos livros e obtendo enorme sucesso em todo o mundo. Escrevia bem, era mestre no diálogo, e tinha uma imaginação sem limites. Contam seus biógrafos que, quando escrevia, se enfurnava no gabinete com o guia telefônico de Paris, do qual retirava os nomes de seus personagens e se isolava do mundo. Não falava com ninguém, não recebia visitas e não atendia ao telefone.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/05/2019 às 10h45 | e.atha@terra.com.br

A OUTRA PÁTRIA

Terminei de reler o livro “Hemingway na Espanha – A outra pátria”, de autoria de Eric Nepomuceno (L&PM Editores – P. Alegre – 1991), uma das melhores biografias parciais do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), não apenas pela precisão dos fatos mas também pela penetração psicológica do biografado, mostrando-o tanto no aspecto físico como no interior. Correspondente internacional do canal televisivo Band News, Eric Nepomuceno se esmerou neste livro pouco volumoso mas denso e repleto de informações que muito contribuem para entender a complexa personalidade daquele que foi um misto de escritor, viajante e aventureiro, sempre em busca de fortes emoções, e que esteve presente em muitos dos mais importantes eventos históricos do século passado.

Desde que descobriu a Espanha, Hemingway se tornou um aficionado daquele país a ponto de considerá-lo a segunda pátria. Tinha especial admiração pela geografia espanhola, pela língua, pelo modo de ser de seu povo e, acima de tudo, pelas touradas, assunto no qual se tornou autoridade. Visitou o país inúmeras vezes, participando das corridas de touros pelas ruas e acompanhando de perto as temporadas de touradas, inclusive penetrando nas arenas e provocando os touros enquanto a multidão se divertia a valer com as proezas do americano grandalhão e barbudo. Fez amizade com toureiros e muitas vezes os acompanhou nas apresentações em diversas cidades por semanas a fio. Tal sua admiração por Nicanor Villalta, célebre toureiro que, em homenagem a ele, chamou seu filho primogênito de John Hadley Nicanor Hemingway. Não contente com tudo isso, cobriu como jornalista a Guerra Civil espanhola e muito batalhou para obter recursos para os republicanos que tentavam salvar o país das garras fascistas de Franco. Nesse período estabeleceu seu quartel-general no célebre Hotel Florida, em Madri, e dali, a pouca distância do fronte de batalha, cobriu a guerra para a grande imprensa. Foi ali, entre estrondos de granadas e zunir de balas que escreveu sua única peça teatral – “A Quina Coluna.” Em consequencia, a Espanha é muito presente em sua obra, tanto nos romances como nos contos e nos textos jornalísticos.

Para ele, Madri era a capital do mundo e alguns lugares nela existentes lhe pareciam sagrados. Assim, o célebre Bar Chicote, onde se reunia a nata dos toureiros, seus acólitos, agentes e pessoas entendidas no assunto era um dos melhores lugares do mundo. Parafraseando um crítico, os tempos ali frequentados foram os “anos moços” do escritor. Na sua visão, as touradas não constituíam apenas um espetáculo, mas um complexo ritual de técnica e coragem que punha à mostra, em público, a verdade verdadeira, quando homem e animal davam tudo de si no trágico desenlace. E nesse instante mágico o toureiro surgia como um ser sobreumano, um semideus que não podia vacilar. Por isso, qualquer vacilação ou demonstração de medo se tornava fatal para o toureiro e muitos deles decaíam de maneira irremediável. Essas figuras tristes, vencidas e empobrecidas também povoam a obra do escritor, ao lado dos grandes vencedores, as mais brilhantes estrelas das principais “fiestas.”

Quanto à Espanha, os tempos da Guerra Civil foram para ele um pesadelo. Desde suas viagens pela Itália de Mussolini fora tomado de profunda aversão pelo fascismo e previu o que viria sob seu domínio. Por isso, costumava dizer que sob o fascismo nenhum escritor pode viver e, muito menos, trabalhar. Em célebre discurso pronunciado em Nova York, em busca de ajuda aos republicados espanhóis, ele que abominava falar em público, afirmou: “Mas o fascismo é incompatível com essa exigência. Porque o fascismo é uma mentira fabricada pelos tiranos. Um escritor que não minta não pode viver nem trabalhar no fascismo, porque o fascismo é uma mentira e está condenado à esterilidade literária...” Palavras proféticas que a história comprovaria dentro de poucos anos.

Pouco depois, com a vitória franquista e suas hostes dominando sua segunda pátria, Ernest Hemingway se retirou da Espanha tomado de uma das maiores tristezas de sua existência.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/04/2019 às 10h16 | e.atha@terra.com.br

A POÉTICA E A POEMÁTICA

Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

CONTO EM XILOGRAVURA

Edições da Confraria, selo editorial da Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB), com sede em Brasília, publicou um volume que é uma preciosidade. Trata-se do conto “Brutalidade”, de autoria do folclorista e pesquisador Leonardo Mota (1891/1948), única incursão conhecida na área da ficção, resgatada de um jornal que não pode ser identificado e publicada em 1920. Bastante longo, bem escrito e encadeado, o conto constitui-se numa grande surpresa, uma vez que revela o talento de um autor interessado em outras áreas para a short story. A história, chocante, se insere entre as obras da corrente naturalista e agrada pela maneira segura com que é conduzida, além do fato de ser uma raridade.

Mais curioso ainda é que o conto, além de publicado de maneira normal, é reproduzido em 50 xilogravuras de autoria do gravurista José Lourenço (Gonzaga), um dos mais conhecidos expoentes dessa arte tão difícil quanto trabalhosa. Como se sabe, a xilogravura é entalhada em uma prancha de um tipo especial de madeira (umburana ou louro), formando um molde sobre o qual é espalhada a tinta para permitir a impressão em papel. Lourenço é profissional da arte, de renome internacional, tendo realizado exposições em várias partes do mundo e suas obras estão expostas em importantes museus. Tem publicado álbuns, incontáveis capas de cordéis e realizado inúmeras outras obras.

Cada cena do conto é retratada em uma xilogravura conforme a visão do artista, de sorte que o leitor pode acompanhar o desenrolar da história cotejando com as ilustrações. A geografia dos locais, a paisagem, as características dos personagens, as suas fisionomias e reações faciais e tudo mais pode ser observado pelo leitor.

Segundo o editor, esse tipo de publicação é rotulado de Romance Gráfico Sem Palavras (Wordless Graphic Novels) e tem longa tradição em vários países. O processo foi criado pelo belga Frans Mosereel e tem sido praticado tanto na Europa como nos Estados Unidos. Não se confunde com as histórias em quadrinhos porque as ilustrações não têm legendas. (Nos Estados Unidos, novel é o nosso romance).

O livro contém interessante crônica de Mimosa Mota Fernandes sobre o pai Leonardo Mota, também conhecido como Leota, um ensaio de Jorge Brito sobre o contista e outro de Gilmar de Carvalho a respeito do gravurista. O conto, sob o aspecto literário, é analisado pelo crítico Sânzio de Azevedo em substancioso e preciso ensaio introdutório.

Como de costume, o livro é em si mesmo uma obra de arte gráfica. Em tamanho grande, com capa dura e sobrecapa, seus exemplares, numerados, se destinam a cada um dos associados da Confraria na ordem de suas inscrições. É obra para colecionadores, apaixonados por livros e leitores exigentes. Exemplares extras podem ser obtidos pelos interessados

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Escrito por Enéas Athanázio, 20/05/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br

O Exterminador

Desde guri Vico ouvia que o pinheiro prejudica o campo. As grimpas pontudas que se juntam no chão, afiadas e duras, espetam o gado e não permitem que ele paste. E quanto maior a quantidade de grimpas espalhadas, maior o espaço perdido na pastagem. Quando o pai saía para camperear, Vico ia montadinho na frente do arreio e, mais tarde, já mais taludo, na garupa. Nessas andanças pelo campo o pai cortava a facão os pinheirinhos novos que estavam começando a crescer. Pelo menos esses não vão incomodar! – dizia o fazendeiro. E assim Vico se tornou inimigo dos pinheiros.

Com o tempo chegou a primeira serraria. Pequena indústria, usando uma serra Tissot lerda e barulhenta, principiou a devorar os pinheiros de São Simão e das redondezas. Ainda distante das poderosas serras-fitas e com as toras arrastadas do mato por junta de bois, provocou a valorização das árvores e elas ganharam um preço que ninguém poderia imaginar. O pai de Vico encontrou uma aliada e em pouco tempo sua fazenda estava livre dos incômodos pinheiros e suas aguçadas grimpas. Novas serrarias surgiram, o preço dos pinheiros subia sem parar e muitos vizinhos que conservaram os seus enriqueceram do dia para a noite. O pai de Vico ganhava bom dinheiro com a venda de suas árvores e se arrependia em silêncio das que havia abatido. Mas era tarde.

Vico, no entanto, viu ali uma grande oportunidade. Decidiu instalar uma serraria para exterminar os pinheiros e, ao mesmo tempo, obter bons lucros. Estudou o assunto, aconselhou-se com técnicos, adquiriu maquinário moderno, guinchos e caminhões. Visitou a instalação da Companhia Lumber, em Três Barras, então considerada a maior e a mais moderna serraria da América Latina, conhecida como “o colosso”, e tratou de montar a sua. Foi comprando os pinhais da região, cujas árvores eram devoradas com celeridade pelos poderosos dentes das serras-fitas e transformadas em caibros, vigas, pranchões, tábuas, dormentes, sarrafos, ripas e tudo mais, transportados em imensos caminhões de reboque até a ferrovia e dali embarcados em vagões para os mais variados destinos. Os pinhais principiaram a minguar. Vico enriquecia.

Não tardou muito e os pinheiros desapareceram. Nos campos e matos nenhum deles farfalhava ao vento que soprava nas coxilhas e canhadas. Acabado o “material”, não houve outro recurso: a serraria foi desmontada e transplantada para região diferente, agora no Oeste. E lá reiniciou sem cansaço sua faina devoradora. Dia a noite as serras giravam, cresciam os montões de serragem e os aleijados nos acidentes de trabalho. Manetas, pernetas, cotós, cegos, deformados ficariam como testemunhos vivos do monstro nômade e implacável.

Como tudo no mundo, as florestas de araucárias acabam quando não replantadas. E assim, a poderosa serraria de Vico mudou outra vez, agora para o Extremo-Oeste e, depois de algum tempo, para o Paraná, o Mato Grosso e a Amazônia, quando concluíram que árvores de outras espécies também se prestavam ao corte.

E a faina devoradora avançou sem parar, abrindo clareiras monumentais. (Vi muitas em Rondônia, no Tocantins, no Acre, em Roraima).

Orgulhoso, Vico deu entrevistas contando as vanglórias de sua obra e sustentando que as árvores não fizeram falta alguma à natureza. Conquistou seguidores, adeptos, discípulos. E todos eles, ricos, gordos, felizes, prosseguem impávidos, saboreando genuíno prazer a cada árvore que cai.
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Inspirada em entrevista televisiva.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/05/2019 às 20h04 | e.atha@terra.com.br

QUEM MATOU O BUGREIRO?

A ação dos chamados bugreiros em nosso Estado tem provocado inúmeros trabalhos, a grande maioria na área histórica. O assunto é um prato cheio que poderia inspirar a ficção e a poesia, mas muito pouco tem sido aproveitado. Fenômenos locais ou regionais de repercussão, a exemplo do cangaço, dos jagunços, dos santos populares e outros têm dado margem a romances, novelas, contos, crônicas, poemas, filmes e programas televisivos, enquanto o genocídio dos bugres é pouco lembrado. Não me arrisco a pensar que isso se deva à falta de imaginação ou a um secreto pudor ou vergonha de expor o problema aos olhos do grande público. Nascido e criado dentro do território do Contestado, percebi que a população da região nutria tais sentimentos em relação ao movimento, considerando-o coisa de fanáticos e ignorantes. Essa atitude, como se percebe, ocasionou a perda de incontáveis fontes de informação sobre o Contestado. Haveria em relação aos bugreiros algo semelhante?

Paulo Sá Brito, escritor radicado em Florianópolis e veterano no gênero romanesco, enveredou por outro caminho e romanceou a saga dos bugreiros em “Desde menino me choro”, publicado por Quorum Comunicação (Florianópolis – 2019). Conhecedor do tema, leitor atento das obras de outros autores que escreveram a respeito, deu asas à imaginação e criou um romance vivo e absorvente sem, contudo, violar as balizas históricas. Criou um autêntico romance indigenista sem pretensões panfletárias. O título, excelente, é inspirado em verso de Fernando Pessoa.

Tudo tem início quando uma tribo de índios xokleng é atacada pelo bando de Martinho Bugreiro numa escura madrugada. O pequeno Cuitá dormia agarrado à mãe, ao lado dela, a cabeça encaixada nos generosos seios maternos. Gritaria e tiros acordam as pessoas que dormem e o pânico toma conta da aldeia. Sem resistir porque suas armas foram destruídas, os guerreiros procuram fugir levando as mulheres e crianças, enquanto outros procuram se esconder. Mas o ataque é implacável e os índios vão tombando, atingidos pelas balas ou por certeiros golpes de facões, inclusive a mãe do menino. Cuitá se refugia numa das cabanas mas é encontrado e agarrado pelo próprio Martinho em pessoa. Findo o ataque, chorando em desespero, gritando e esperneando, é levado para a cidade e vendido a um casal de imigrantes alemães. É bem tratado pelo casal, “civilizado” e educado, embora sofrendo pela ausência da mãe e das pessoas de sua tribo. Não havendo alternativa, esforça-se para vencer no meio dos brancos. Estuda, aprende e, superando os preconceitos e as dificuldades, se torna professor em Curitiba. Cuitá se transformou em Gunther.

Assim que entendeu o que acontecera, o menino se fixou na ideia da vingança. Houvesse o que houvesse, ele haveria de matar Martinho Bugreiro. Os anos passam e ele se mantém firme nesse propósito. Não haveriam de faltar oportunidades.

Como pano de fundo, o romance descreve os massacres praticados pelo célebre bugreiro, seu esquadrão da morte e outros que se dedicavam à mesma atividade. Sua incrível habilidade em descobrir pistas na mata virgem para localizar as aldeias, os despistes para não ser pressentido, os ataques repentinos enquanto os índios dormiam, o pânico provocado e a mortandade cruel de homens, mulheres e crianças a tiro e a facão, cortando na carne mole onde o fio penetrava como em bananeira, conforme afirmou um dos assassinos. Com extrema frieza, cortava as orelhas das vítimas cujos pares constituíam os documentos para a prestação de contas aos mandantes. Segundo diziam, era escrupuloso nesses acertos e sempre sério. Nunca teria sido visto rindo. Já os “filhotes de bugres”, a exemplo de Cuitá, eram levados para vender como serviçais a famílias da sociedade e quanto mais longe, melhor.

Muitas outras informações curiosas e algumas até surpreendentes vão surgindo no correr do romance. Entre estas últimas, a revelação de que Martinho chegou a agir em Lages e Curitibanos, fatos em geral desconhecidos. Os hábitos dos indígenas, a singularidade da língua xokleng, o consumo de cupins, carrapatos e até piolhos como alimentos, enquanto recusavam a ingestão de peixes, o desconhecimento da existência de outros seres humanos fora de sua etnia e o nomadismo ancestral vão formando um precioso painel a respeito desses gentios. Outros bugreiros, anteriores e contemporâneos de Martinho também são relacionados com seus nomes e regiões de atuação.

A entrada em cena do indianista Eduardo Lima e Silva Hoerhann, depois alcunhado de Katanghara, também enriquece a narrativa. Às margens do rio Plate, curso d’água que entrou na história, ele estabeleceu o primeiro contato dos brancos com os índios da tribo xokleng. Precisou de tempo para conquistar a confiança deles e chegou a ser quase escravizado. Ganhou a admiração dos gentios e estes lhe deram o nome de uma madeira elástica a resistente como homenagem e prova de admiração. Eduardo teria ameaçado Martinho de morte caso prosseguisse em suas matanças. Mais tarde, acabrunhado e triste, Eduardo se afastou de tudo, manifestando arrependimento do que havia feito em face do que acontecia com os índios. Faleceu no ostracismo e está sepultado em Ibirama.

O romance de Paulo Sá Brito é um manual de indigenismo sem propósito didatista. Alia o prazer da boa ficção ao ensinamento e à informação. Indica novo rumo ao romance de fundo histórico em nossa literatura,

Quanto a Cuitá, manteve ao longo da vida o propósito de matar Martinho para vingar a sua tribo. Até que ele de fato faleceu aos cinquenta e poucos anos, envelhecido e decadente. Mas quem o matou não foi Cuitá, apesar do seu ardente desejo, mas o paratifo que grassava na região.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/05/2019 às 13h18 | e.atha@terra.com.br

SAPATOS AMARELOS

Afirmavam antigos psicólogos, entre os quais, se não me falha a memória, o Prof. Iago Pimentel, que os seres humanos são dotados de dois tipos de imaginação: os univisivos (monovisivos) e os plurivisivos (multivisivos). Os primeiros enxergam os fatos na sua simplicidade. São capazes de imaginar com precisão como aconteceram, quando não os presenciaram, mas não passam disso. Já os segundos, enxergam variantes de episódios, detalhes, circunstâncias. A imaginação, partindo do real, passa a criar ou seja, a produzir aquilo que os teóricos da literatura denominam de ficção. Fatos vistos, lidos, ouvidos ou lembrados podem ter o mesmo efeito, inspirando a criação. Os primeiros, como se conclui, não têm vocação para a obra ficcional, embora tentem sem qualquer sucesso, como verifiquei várias vezes. Poderão ser historiadores, redatores, jornalistas, mas jamais autores de romances, novelas, contos, crônicas e poemas. Os segundos, ao contrário, dão largas à imaginação e criam as mais diversas e imprevistas histórias que nunca aconteceram com personagens que jamais existiram.

Essas observações me ocorrem ao terminar a leitura de “Maigret e o homem do banco”, mais uma das inúmeras histórias envolvendo o comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária francesa, sem dúvida o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989), publicado pela L&PM (P. Alegre – 2004). Nesse romance o autor se revela o mais completo polivisivo que se possa encontrar na literatura, extraindo de um fato mais ou menos comum numa grande metrópole como Paris (latrocínio) uma história absorvente e que atiça o leitor sequioso de conhecer o desenlace. Partindo do encontro de um morto a facada num beco estreito, ele complica as coisas ao revelar que a vítima, contrariando seus hábitos sedimentados, usava sapatos amarelos e uma gravata espalhafatosa como jamais fizeram antes. Esses detalhes intrigam a polícia e conduzem a uma investigação longa e complexa, envolvendo tempo e trabalho, além de trazerem à tona incontáveis personagens.

Modesto almoxarife de uma empresa há longos anos, Louis Thouret fica desempregado quando ela encerra as atividades. Temeroso da reação da esposa, mulher dominadora, esconde o fato dela e dos familiares e trata de procurar novo emprego. Como não consegue, passa os dias perambulando pela cidade ou sentado num banco de rua onde permanece por longo tempo. Consegue algum dinheiro emprestado e assim vai mantendo as aparências como se continuasse trabalhando e sem que a mulher desconfie da real situação. Tempos depois, sem explicação razoável, começa a dar mostras de possuir muito dinheiro, cuja origem é um mistério. E então, numa segunda-feira chuvosa, é encontrado morto num beco estreito com uma facada nas costas. A equipe de Maigret entra em cena e, depois de muita investigação, acaba chegando ao criminoso e descobre a origem do dinheiro misterioso. A chave do mistério está no tempo em que a vítima permanece sentada no banco da praça. Nessas longas horas de ócio afina o senso de observação, passa a conhecer os detalhes da rotina do comércio da região e articula um plano simples e seguro, cuja prática realiza com a ajuda de um antigo palhaço de circo, desocupado e velho conhecido dos policias. E então se desvenda a incrível vida paralela da vítima e as razões pelas quais foi encontrado calçando sapatos amarelos e usando a extravagante gravata. É uma trama complexa, com inúmeros incidentes e envolvendo grande quantidade de personagens. E mais uma vitória de Maigret, um dos maiores detetives da literatura mundial, ombreando com Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Ao longo do livro, Simenon põe na boca de seu personagem muitas de suas observações pessoais, como apaixonado que foi pela cidade de Paris. Observando a imensa fauna humana que se move pelas ruas da metrópole, ele identifica os ativos, correndo sem trégua atrás de seus objetivos, os vencidos, que andam maquinalmente, sem ânimo e sem vigor, e os cansados, que arrastam os pés nas calçadas. Em várias passagens lança um olhar amoroso sobre a multidão informe e colorida, recordando aquilo que o impressionava antes e agora. Em raro momento de mau humor, reclama da penumbra nos gabinetes da Polícia Judiciária: por que não os iluminam melhor? Numa passagem inesperada, discreto a respeito de sua vida pessoal, Maigret faz a revelação surpreendente de que teve uma filhinha falecida em criança.

Georges Simenon foi um escritor prolífico, tendo publicado mais de duzentos livros e obtendo enorme sucesso em todo o mundo. Escrevia bem, era mestre no diálogo, e tinha uma imaginação sem limites. Contam seus biógrafos que, quando escrevia, se enfurnava no gabinete com o guia telefônico de Paris, do qual retirava os nomes de seus personagens e se isolava do mundo. Não falava com ninguém, não recebia visitas e não atendia ao telefone.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/05/2019 às 10h45 | e.atha@terra.com.br

A OUTRA PÁTRIA

Terminei de reler o livro “Hemingway na Espanha – A outra pátria”, de autoria de Eric Nepomuceno (L&PM Editores – P. Alegre – 1991), uma das melhores biografias parciais do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), não apenas pela precisão dos fatos mas também pela penetração psicológica do biografado, mostrando-o tanto no aspecto físico como no interior. Correspondente internacional do canal televisivo Band News, Eric Nepomuceno se esmerou neste livro pouco volumoso mas denso e repleto de informações que muito contribuem para entender a complexa personalidade daquele que foi um misto de escritor, viajante e aventureiro, sempre em busca de fortes emoções, e que esteve presente em muitos dos mais importantes eventos históricos do século passado.

Desde que descobriu a Espanha, Hemingway se tornou um aficionado daquele país a ponto de considerá-lo a segunda pátria. Tinha especial admiração pela geografia espanhola, pela língua, pelo modo de ser de seu povo e, acima de tudo, pelas touradas, assunto no qual se tornou autoridade. Visitou o país inúmeras vezes, participando das corridas de touros pelas ruas e acompanhando de perto as temporadas de touradas, inclusive penetrando nas arenas e provocando os touros enquanto a multidão se divertia a valer com as proezas do americano grandalhão e barbudo. Fez amizade com toureiros e muitas vezes os acompanhou nas apresentações em diversas cidades por semanas a fio. Tal sua admiração por Nicanor Villalta, célebre toureiro que, em homenagem a ele, chamou seu filho primogênito de John Hadley Nicanor Hemingway. Não contente com tudo isso, cobriu como jornalista a Guerra Civil espanhola e muito batalhou para obter recursos para os republicanos que tentavam salvar o país das garras fascistas de Franco. Nesse período estabeleceu seu quartel-general no célebre Hotel Florida, em Madri, e dali, a pouca distância do fronte de batalha, cobriu a guerra para a grande imprensa. Foi ali, entre estrondos de granadas e zunir de balas que escreveu sua única peça teatral – “A Quina Coluna.” Em consequencia, a Espanha é muito presente em sua obra, tanto nos romances como nos contos e nos textos jornalísticos.

Para ele, Madri era a capital do mundo e alguns lugares nela existentes lhe pareciam sagrados. Assim, o célebre Bar Chicote, onde se reunia a nata dos toureiros, seus acólitos, agentes e pessoas entendidas no assunto era um dos melhores lugares do mundo. Parafraseando um crítico, os tempos ali frequentados foram os “anos moços” do escritor. Na sua visão, as touradas não constituíam apenas um espetáculo, mas um complexo ritual de técnica e coragem que punha à mostra, em público, a verdade verdadeira, quando homem e animal davam tudo de si no trágico desenlace. E nesse instante mágico o toureiro surgia como um ser sobreumano, um semideus que não podia vacilar. Por isso, qualquer vacilação ou demonstração de medo se tornava fatal para o toureiro e muitos deles decaíam de maneira irremediável. Essas figuras tristes, vencidas e empobrecidas também povoam a obra do escritor, ao lado dos grandes vencedores, as mais brilhantes estrelas das principais “fiestas.”

Quanto à Espanha, os tempos da Guerra Civil foram para ele um pesadelo. Desde suas viagens pela Itália de Mussolini fora tomado de profunda aversão pelo fascismo e previu o que viria sob seu domínio. Por isso, costumava dizer que sob o fascismo nenhum escritor pode viver e, muito menos, trabalhar. Em célebre discurso pronunciado em Nova York, em busca de ajuda aos republicados espanhóis, ele que abominava falar em público, afirmou: “Mas o fascismo é incompatível com essa exigência. Porque o fascismo é uma mentira fabricada pelos tiranos. Um escritor que não minta não pode viver nem trabalhar no fascismo, porque o fascismo é uma mentira e está condenado à esterilidade literária...” Palavras proféticas que a história comprovaria dentro de poucos anos.

Pouco depois, com a vitória franquista e suas hostes dominando sua segunda pátria, Ernest Hemingway se retirou da Espanha tomado de uma das maiores tristezas de sua existência.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/04/2019 às 10h16 | e.atha@terra.com.br

A POÉTICA E A POEMÁTICA

Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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