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Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Não conteste o Contestado ...

Não são muitas as tentativas de levar ao palco os eventos da Guerra do Contestado (1912/1916), pelo menos que eu saiba. Entre elas, no entanto, avulta “O Contestado”, de Romário José Borelli, publicada em livro por Orion Editora (Curitiba – 2006). Historiador, musicista e dramaturgo, o autor nasceu em Porto União e vem realizando longa e bem sucedida carreira na arte cênica, tanto no país como no exterior. A peça em questão foi montada pela primeira vez em 1972, numa época em que a bibliografia a respeito do Contestado ainda era bastante resumida. Ademais, havia no ar o risco da censura pelo governo autoritário de então, mas a peça foi exibida em diversas localidades, algumas delas em plena rua, e sempre com grande sucesso. Segundo o autor, até a época da publicação a peça fora montada mais de vinte vezes e nela haviam trabalhado mais de quinhentos atores, desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. Como se vê, fez uma brilhante carreira.

A primeira observação que se impõe é de que o autor conhece bem o assunto, os personagens, a geografia da região onde se desenrolou o conflito, percebendo-se que palmilhou por lá e escreveu com base na experiência própria. Foi fiel aos usos e costumes locais, ao modo de vida dos nossos caboclos, suas crenças e convicções e, acima de tudo, procurou manter absoluta fidelidade à linguagem rude, ao mesmo tempo conservadora e criativa, falada pelos habitantes da Serra-Acima. Também foi muito feliz na construção dos diálogos, aliando assim duas condições que Hemingway considerava básicas na arte literária: a sinceridade e a expressão exata nas conversações dos personagens.

Quanto a estes, são numerosos e muitos deles pinçados da realidade histórica. O monge João Maria, cuja visita era esperada com ansiedade; a entrada em cena do monge José Maria, cuja morte no Combate do Irani semeou um rastro de ódio e um grito de vingança pelos campos e matos; as virgens santas Maria Teodora e Maria Rosa; o prefeito Amazonas Marcondes; Elias e Euzébio; o tenente Kirk e seu aeroplano; o temível Adeodato, por eles chamado Leodato, derradeiro chefe dos revoltosos no momento em que os redutos caíam um a um. Além de incontáveis atores e figurantes.

Também os locais dos acontecimentos são mencionados, desde os rios Iguaçu e Uruguai, dentro de cujos limites o conflito se estendeu, o rio Timbó, Porto Amazonas, Valões, Porto União, Calmon e Curitibanos, sem faltarem os redutos de maior expressão. A fuga em massa dos habitantes de Porto União na iminência da invasão dos revoltosos, os ataques a Calmon e Curitibanos, tudo é recordado com tintas fortes e sugestivas. Como se vê, tantos foram os acontecimentos, espalhados por uma imensa região e com tais detalhes que colocá-los numa peça teatral se torna uma tarefa das mais complexas. Mas o dramaturgo catarinense conseguiu e sua obra fornece um panorama geral do conflito e seu impacto emociona o leitor. Não tive oportunidade de vê-la no palco mas imagino o seu efeito.

O autor insistiu sempre na necessidade de conservar a linguagem regional “para manter a autenticidade do processo cultural através da fala e dessa forma o documento linguístico complementa o documento histórico. Não é uma imitação, não é uma caricatura. É, antes de tudo, um resgate preciso e assim deve ser tratado.” Também o ambiente de revolta dominante na região em face da exploração, da miséria e do abandono daquele povo fica bem visível, justificando o nascimento de um movimento espontâneo, de baixo para cima, tentando transformar pela força o statu quo vigente. Nesse contexto, o conflito do Contestado, segundo os cânones da Ciência Política, foi uma verdadeira revolução para a qual não faltaram razões. Pois, como diz o refrão tantas vezes lembrado na peça:

“Não conteste o Contestado,
sem sabê sua razão. .
.”

Escrito por Enéas Athanázio, 27/03/2017 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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