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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Uma análise penetrante

Em longa entrevista a importante revista de cunho cultural (*), o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra, diretor do Centro de Estudos Sociais da mesma Universidade e coordenador do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa, fez uma análise penetrante das democracias na América Latina em geral e no Brasil em particular. Diversos aspectos por ele focalizados lançam luzes sobre a nossa realidade e dos nossos vizinhos, merecedores de um comentário.

Segundo ele, numa visão geral, os países latino-americanos, inclusive o Brasil, têm mantido um regime democrático formal, com as instituições funcionando, mas não existe uma cultura democrática.  Isso significa que “a institucionalidade democrática não está tão ancorada e enraizada na sociedade. A democracia também é uma cultura, uma cultura de argumentação, discussão, que tem seus limites. Tem, por exemplo, o limite do insulto, o limite do apelo ao golpe, das propostas que podem ir para além do democrático. As nossas sociedades ainda se permitem hoje, muitas vezes, que a polarização do debate vá para além do marco daquilo que eu consideraria uma cultura democrática.” Daí os apelos ao golpe em vez de propostas para aprimorar a democracia. Pregar a solução dos problemas pela força, não pela discussão e o debate. Não existe um real apreço pela democracia e todos os abusos se praticam contra ela.

Observa o sociólogo que vários países da América Latina adotaram políticas inclusivas que alteraram o quadro social. “Essas democracias permitiram – diz ele – que entrassem no debate democrático e na vida democrática muitas populações que, durante séculos, estiveram fora do processo político. Grande parte da população nem sabia o que era democracia, não participava e, portanto, estava ausente do processo.  O que aconteceu no Brasil, Equador, Bolívia, Argentina e Chile é que houve uma grande inclusão de classes sociais que não estavam anteriormente integradas no processo democrático. Essa integração se deu  com políticas compensatórias. Isso permitiu criar uma inclusão que gerou uma enorme expectativa de integração na sociedade e no processo político.” Teve início, então, um movimento ascendente que forçou um novo arranjo na pirâmide social, resultando daí um intenso mal estar. As reivindicações aumentaram e a possibilidade de perda provoca as mais variadas reações. E ninguém pode assegurar que tais políticas possam ser mantidas em países de economias modestas.

Acompanhando a evolução de nosso país, em particular, diz ele: “Nos últimos 15 anos, o Brasil teve dois desenvolvimentos importantes. Um foi inclusão intercultural, que democratizou o sistema universitário. O outro foi a ampliação do sistema público, o que foi obviamente importante, mas foi um investimento que precisaria de uma continuação, com valorização do pessoal científico e técnico dessa universidade.”

Por fim, ele comenta as manifestações e protestos públicos que têm acontecido no país. Chega à conclusão de que eles não têm muita lógica e nem rumo definido, ou seja, muitos protestam sem saber exatamente contra o que estão protestando. Isso é perigoso para a democracia porque neles se infiltram os golpistas de todos os tipos, procurando sempre tirar proveito dessas situações. “Nós vemos, em poucos dias, que o perfil de uma mobilização muda da esquerda para a direita. Foi surpreendente observar como algo que tinha um certo perfil de reivindicação social vira uma reivindicação da direita contra o governo.” Num dia bate-se pelo passe livre e contra a inflação; no dia seguinte apela-se à intervenção militar.

Concluindo, uma nota perturbadora. “Existe uma tradição oligárquica vinda do período colonialista que nunca foi curada. Há uma cultura  oligárquica racista no Brasil – afirma ele. – A maneira como certas pessoas se referem  a isso não é apenas o rico versus o pobre, ou o branco descendente de europeus versus negros. É um preconceito que continua vigente na sociedade, apesar da miscigenação.”  Casos recentes, noticiados pela imprensa, parecem confirmar essas palavras. Será que um dia os brasileiros se curarão dessas práticas?____________________________

(*) “Revista E”, publicação do SESC/SP, janeiro de 2016, p. 10 a 15.  

Escrito por Enéas Athanázio, 31/07/2017 às 13h03 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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