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Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Ideia Fora do Lugar (2)

Gilberto Amado, expoente do memorialismo nacional, foi diplomata de carreira e viveu inúmeros anos no exterior, quase sempre em países de pequenas dimensões. Com fundamento nessa experiência vital, concluiu que os nativos de países grandes e pequenos são muito diferentes na sua psicologia e na formação da personalidade. Aqueles são criados na largueza, na amplidão, nos vastos espaços, e por isso cultivam o sentimento inato de liberdade e independência, podendo se locomover a grandes distâncias sem encontrar barreiras, alfândegas, fronteiras, revistas e policiamento. Como nós, brasileiros, que podemos palmilhar por dias seguidos ou por horas de voo sem sair do território nacional, sem qualquer obstáculo, e ouvindo a mesma e doce língua portuguesa, uma das mais belas dentre todas.

Por essas e outras, espanta-me o movimento que pretende criar novo país nos Estados do sul. Ele me parece uma ideia fora do lugar porque é a primeira vez na vida que vejo uma luta para deixar de ser grande para se tornar pequeno. Em vez de progredir, regredir; em vez de crescer, minguar. Posso dizer que conheço o Brasil de ponta a ponta, inclusive a região sul, e por isso não vejo como o novo país poderia vingar. Seria inviável e colocaria a população da região numa situação catastrófica. Como tantos países pequenos, seria mais um a tropicar pela estrada da vida, sem perspectiva e sem futuro.

Com efeito, como iria de sustentar? De onde viriam os combustíveis, o gás, a energia elétrica, os medicamentos, os veículos, os alimentos e tudo mais que procede de outras regiões?  E se isso não bastasse, com que recursos criaria um Judiciário federal, um Congresso Nacional, um Executivo com todos seus ministérios, secretarias, departamentos, empresas estatais, polícia federal e rodoviária e toda a parafernália administrativa?  E as Forças Armadas, como seriam mantidas? Como adquirir navios, aviões, veículos e tudo mais? Adotaríamos canoas e barcos a remo? Com que roupa manteríamos o SUS? Ou seria extinto e voltaríamos às meizinhas, garrafadas e benzeduras? Como pagaríamos aos aposentados e pensionistas do INSS? Deixaríamos morrer à míngua? As universidades federais seriam fechadas? É evidente que seria impossível custear tudo com recursos apenas do sul, a menos que não existisse nada disso e se revertesse ao passado remoto, com o presidente legislando por decreto e a justiça se realizando no braço ou no tiro.

Talvez se adotasse uma monarquia, tendo no comando os Orleães e Bragança, já que “Dom” Bertrand é visitante assíduo de nosso Estado. E com ela viria todo o séquito de nobres, barões, condes, viscondes e tudo mais, dos quais seríamos “fiéis vassalos”..

No campo das relações internacionais, seria necessário estabelecer embaixadas em Brasília e em numerosos outros países, salvo que se pretendesse adotar um isolamento suicida. Para ir a São Paulo, à Bahia ou ao Rio de Janeiro seria necessário passaporte e visto do governo brasileiro. E qual seria a capital nacional? E a língua oficial: o alemão estropiado ou o italiano macarrônico? E o vestuário: a pilcha ou as bermudas com suspensório e chapeuzinho com pena? Ora, ora, convenhamos que seria um país digno de pena, um arremedo de país.

Como costuma acontecer em pequenos países sul-americanos, não tardariam a surgir clãs dominadores que tomariam o poder por bem ou por mal e nele se perpetuariam. Aí estão os exemplos históricos da Nicarágua, da República Dominicana, da Guatemala, do Haiti, do Paraguai e outros mais, onde ditadores sanguinários se apossaram do país por décadas.

Para sorte da população sulista, essa campanha está fadada ao fracasso. É cláusula pétrea da Constituição Federal a integridade do território nacional, tema que nem pode ser discutido em termos jurídicos, e a simples tentativa de secessão já constitui crime previsto em lei. Aí está o ponto final desse desvairismo.

Nosso povo é dotado de inato bom senso e não se deixa envolver com facilidade. Prova disso foi o retumbante fracasso do “plebiscito” há pouco realizado sobre o assunto.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/10/2017 às 10h36 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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