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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Libelo contra Lampião

O cangaço existiu desde o final do século XVIII até meados do século XX e constituiu um dos fenômenos mais curiosos de doença social endêmica até hoje registrado pela História. Foi um banditismo típico de nosso país, sem similar em qualquer outro canto do mundo. Bandoleiros e assaltantes existiram em muitos países, mas nunca com a organização interna, a hierarquia, as técnicas e a longevidade do cangaço brasileiro. Por tudo isso, ele tem sido objeto de permanente estudo por parte de historiadores, sociólogos e cientistas sociais, brasileiros e estrangeiros, muitos dos quais se tornaram especialistas no tema. A bibliografia a respeito é imensa, espraiando-se pelo cinema, pela televisão e pelo jornalismo em todas suas modalidades.

Em ordem cronológica, os autores costumam situar os períodos do cangaço conforme a figura do cangaceiro dominante na época. Assim, o mais antigo deles teria sido o Cabeleira, descrito em romance célebre por Franklin Távora. Chamava-se José ou Joaquim Gomes. No mesmo período, ou logo a seguir, pontificava Lucas da Feira, estuprador e torturador que chegou a interessar ao Imperador. Em seguida apareceu Jesuíno Brilhante, chamado o cangaceiro romântico, espécie de justiceiro que tirava dos ricos para dar aos pobres e se recusava a ser considerado ladrão. Também apareceu Antônio Dó, homem revoltado e violento. Depois deles, destacou-se Antônio Silvino, considerado homem de coragem sobre-humana, mas que acabou ferido e preso, cumprindo longa pena na penitenciária de Recife, hoje transformada em centro de cultura popular. Entrou em cena, então, a figura estranha de Sinhô Pereira, cangaceiro de longa carreira que pressentiu o início do fim e se retirou para uma vida pacata, nos confins de Goiás, depois de designar como seu sucessor ninguém menos que Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião. Imperando por 22 anos, Lampião foi morto na Grota do Angico em 28 de julho de 1938, data considerada como o fecho do cangaço. É verdade que Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco, tentou resistir como chefe de bando e praticou as maiores atrocidades como vingança, mas acabou morto em 25 de maio de 1940.

Com o ingresso de Lampião na vida cangaceira, segundo os autores, teve início a era do cangaço sem ética. Para ele e seu bando não existiam limites. Invadia vilas e cidades indefesas, assaltava propriedades, torturava pessoas, sequestrava, surrava, humilhava. Exigia vultosos pagamentos em dinheiro da população sob pena de depredar suas casas. Sua audácia chegou a tal ponto que enviou uma carta ao governador propondo a divisão do Estado em duas partes, ficando ele como governador do sertão. Zé Baiano, um de seus homens, ferrava as mulheres nas faces com um ferro incandescente com suas iniciais. Em suma, Lampião constituía um flagelo para os moradores, sempre temerosos de sua chegada. Qualquer boato nesse sentido levava a população em massa a se refugiar nas matas. Não obstante, Lampião sempre teve um séquito de admiradores que o consideravam o herói que enfrentava o poder público ausente e corrupto.

Foi então que Pedro de Morais, magistrado aposentado, publicou o livro “Lampião, o mata sete” (2011) no qual, além de realçar toda a maldade de Lampião, afirma que o mesmo era  gay, revelando essa tendência desde a infância. Segundo ele, o cangaceiro formava um trio amoroso com Luís Pedro, integrante do grupo e seu protegido, e a célebre Maria Bonita. Para tanto se baseou em vastíssima pesquisa, consultado os mais respeitados especialistas. Como é de imaginar, a obra caiu como autêntica bomba e provocou intensa polêmica. A filha e a neta de Lampião obtiveram uma liminar proibindo a circulação da obra, mas o Tribunal de Justiça a cassou e a venda foi permitida. Archimedes Marques, outro estudioso do assunto, publicou o livro “Lampião contra o mata sete” em que rebate as afirmações de Pedro de Morais e defende a masculinidade de Lampião. E assim a polêmica se instaurou, prosseguindo até hoje, com debates, entrevistas, cartas e o mais. Tudo indica que não terminará tão cedo.

Mesmo deixando de lado essa questão, o livro de Pedro de Morais é um tremendo libelo contra Lampião. Grande conhecedor da biografia do cangaceiro, o autor põe em dúvida sua proclamada valentia, duvida de sua estratégia, afirma que nada entendia de guerrilha e aponta sua extrema crueldade, incapaz de qualquer sentimento mais nobre. Embora invocasse justificativas sentimentais (escudo ético), na verdade teria abraçado o cangaço por pura ganância, como lucrativo meio de vida, tanto que, ao morrer, carregava vultosa quantidade de dinheiro e ouro. Segundo ele, Lampião não passou de um degenerado. É verdade que sua visão é conservadora, não levando em conta as circunstâncias mesológicas, como se o cangaceiro pura e simplesmente decidisse, de um momento para o outro, tornar-se um indivíduo maligno, capaz das maiores atrocidades. Também não explica como, com tantas falhas, Lampião tenha sobrevivido no cangaço por longos 22 anos e só foi morto graças a uma traição e com o sertão fervilhando de volantes à sua procura.

Seja como for, é uma contribuição importante e merece ser lido. Livro bem escrito e fundamentado.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2017 às 10h41 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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