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Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Os bem casados

 O terceiro e último romance do escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951) é uma crítica ao casamento levada às raias da caricatura. A esposa ambiciosa inicia pela dominação do marido, indivíduo fraco, destituído de personalidade, “anêmico de caráter”, acabando por se tornar uma déspota familiar que explora os pobres filhos, molambentos e tristes, e que reduz a autênticos servos-da-gleba. Esta, a gleba, é a fazenda de onde sobrevêm não apenas a subsistência, a riqueza material e o luxo, mas também a dignidade latifundiária.

“Os Bem Casados”, escrito com a mesma correção, limpeza e propriedade de expressão de “Vida Ociosa”, o romance de estreia, é triste, uma sátira terrível dos que  casam bem. Há momentos, porém, em que é impossível conter a gargalhada diante dos retratos de certas figuras ou do ridículo de algumas cenas.

Da mesma forma como ocorreu com “Falange Gloriosa”, o aparecimento do livro era temido pelo autor. Receava ele, sem dúvida, que alguém se identificasse nos seus personagens. Por essa razão, como na anterior, a obra só veio a público quatro anos após a morte do autor. A timidez rangelina manteve o “número três”, como ele dizia, por longos anos no fundo da gaveta.

Baldados foram os esforços de Monteiro Lobato para que o publicasse em vida. “Li o “Bem Casados” de uma assentada – o que quer você mais? Só as novelas muito empolgantes suportam essa prova. Todos os personagens fisgados na vida; e cada um, um tipo. Dona Alípia, ótima! O Coutinho, o Licínio, todos, até a Flausina, ótimos! Só Dona Ismênia me parece algo imaginado – poderá lá existir tamanha carneirice? Mas fica bem num livro de tanto realismo essa leve fuga à realidade. É sal na melancia. Está você, portanto, doutorado em romance” – escrevia-lhe o taubateano (“A Barca de Gleyre”, I/210).

Antonio Candido considera este o melhor livro do escritor mineiro, colocando-o mesmo acima de “Vida Ociosa.”

“Com efeito – escreve ele – para o leitor ainda lembrado das aquarelas pitorescas de “Vida Ociosa”, “Os Bem Casados” revelam um romancista novo e vigoroso, em que as qualidades ali manifestadas se encontram no plano mais alto duma visão novelesca surpreendente pela densidade humana, o equilíbrio da fatura e a nítida linha diretora da concepção. Na literatura brasileira Godofredo Rangel não será mais daqui por diante (penso eu) o autor plácido e humorístico de “Vida Ociosa”, mas sobretudo o autor amargo e destemido de “Os Bem Casados” (“Literatura Caligráfica”, p. 5).

Embora escrito antes dos demais (em fase anterior a 1910) é o romance mais perfeito da trilogia rangelina. Ao que tudo indica, foi totalmente reescrito, revisto e melhorado pelo autor, com paciência, antes do lançamento. Era o único livro de Rangel realmente inédito, jamais publicado, mesmo em jornais ou revistas. Nele, ao contrário do que ocorreu com outros escritos, Rangel abandona os personagens à própria sorte, sem enternecimento algum, aspecto também já anotado pelos seus analistas.

“Os Bem Casados” foi lançado em volume por Edições Melhoramentos, na série Ficção Nacional, e se encontra totalmente esgotado.

Desde 1977 – quarenta anos! – travo uma cruzada em favor de Godofredo Rangel. Perdi a conta dos locais e ocasiões em que falei e escrevi a respeito dele. Apesar de meu esforço, reconheço que o resultado tem sido pífio. Mas não perdi a esperança de que surja um editor corajoso que reedite suas Obras Completas, em volumes caprichados e com grande divulgação. Será prova de que a justiça, incluindo a literária, às vezes tarda mas não falha.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/11/2017 às 18h35 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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