Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A dolorosa luta pela Independência

Diplomata, historiador e escritor, William Agel de Mello é reconhecido africanista e muito tem escrito sobre a África. Entre seus ensaios, avultam os que abordam a África do Sul, a Tanzânia e a Namíbia.  A respeito desta última, escreveu “O processo de independência da Namíbia”, ensaio substancioso, fundamentado e esclarecedor, ora incorporado ao terceiro volume de suas Obras Completas (Editora Kelps – Goiânia – 2016) e que bem merece um comentário;

Situada na África Meridional ou Austral, à margem do Oceano Atlântico, a Namíbia é uma república com a área superficial de 824.285 Km2 e uma população estimada em 1.781.000 habitantes. Tem a capital na cidade de Windhoek e as línguas faladas são o  africâner, o alemão, o inglês e idiomas tribais. É um dos países mais áridos do planeta e o deserto de Namib, na faixa costeira, funcionou, ao longo da história, como uma espécie de escudo natural contra invasões. Foi o último país africano a obter a independência, libertando-se de longo e penoso colonialismo. Antigamente denominado Sudoeste Africano, foi uma colônia da Alemanha desde 1884 até o término da II Guerra Mundial, quando passou a ser administrada pela extinta Liga das Nações, em consonância com o entendimento da época em relação a territórios pouco desenvolvidos. Em seguida o país foi invadido e ocupado pela África do Sul (RAS), que o recebeu como mandato da Liga das Nações, em nome da Grã-Bretanha. Iniciou-se, então, um longo período de exploração das riquezas do país e violência inaudita contra a população nativa. Extinta a Liga das Nações, a África do Sul se recusou o desocupar o território, transformando-o numa espécie de colônia de fato. Rico em urânio e metais, o território da Namíbia foi submetido a verdadeira pilhagem. Os alemães e depois os bôeres lançaram mão de estratagemas engenhosos para evitar o surgimento de uma consciência nacional. Mantiveram as comunidades étnicas física e intelectualmente separadas, como de resto tem acontecido em regimes autoritários.

O nascimento de uma consciência nacionalista, patriótica ou que outro nome tenha parece inevitável, por mais rígida que seja a repressão, e isso também se verificou na Namíbia. Os espíritos mais atilados começaram a perceber a exploração de que o povo era vítima, a sucção das riquezas nacionais em benefício do colonizador e a servidão disfarçada a que a população foi submetida. Surgem lideranças populares que iniciam a pregação em favor da independência do país. A resistência nacional em oposição ao colonizador toma forma através de chefes tradicionais, da igreja, dos intelectuais e dos trabalhadores dos principais centros do país. O movimento cresce e se transforma em aspiração nacional. A independência de outros países africanos impulsiona a ideia de liberdade.

Para conter o movimento nacionalista, a África do Sul implanta o apartheid no território, tal como o existente naquele país, instituindo os chamados buntustões ou homelands e assim seccionando o país com critérios étnicos. Iniciava-se na inacreditável série de manobras e artimanhas de que lançaria mão para prolongar o domínio sobre a Namíbia, de onde não desejava arredar pé. Manobras e artimanhas capazes de causar inveja aos mais reles politiqueiros, praticadas por longos anos às claras e aos olhos de uma sociedade internacional hipócrita e tolerante.

Com absoluto domínio do assunto e lastreado em impressionante bibliografia, o ensaísta vai desenrolando, passo a passo, o penoso processo rumo à independência. Mostra a revolta de um povo cansado do julgo estrangeiro, superando a violência, os massacres, as invasões, anexações de territórios, a boataria e toda sorte de artimanhas com o objetivo de retardar o inevitável. Conta com o apoio de muitos países, inclusive do Brasil, embora os Estados Unidos, alinhados à África do Sul, procurem criar embaraços. Assim, aos trancos e barrancos, com a supervisão da ONU, a Namíbia realiza sua primeira eleição geral, instala a Assembleia Constituinte e, enfim respira como nação livre e dona de seu próprio destino. A independência se consumou em 21 de março de 1990, portanto é acontecimento de hoje, de nossos dias, da história contemporânea.

A SWAPO, aguerrido partido de oposição ao colonialismo, liderado pelo carismático Sam Nujoma, e que lutava contra ele há muitos anos, obtém uma vitória incontestável nas urnas, tanto para o Executivo como para o Legislativo. Conquistou 41cadeiras num total de 72, derrotando com larga margem o principal adversário, na verdade um preposto da África do Sul. Apesar da opressão e da exploração que sofreu, o Governo independente não se entregou a vinditas ou caça às bruxas. Procurou agir de forma conciliatória, buscando a paz, para realizar as promessas tão aguardadas pela população: reforma agrária, equilíbrio, assistência e justiça social. E assim, depois de sustentar uma luta árdua, conquistou a duras penas o direito de agir com inteira liberdade, como país independente e soberano.

A história da Namíbia, se conhecida pelos nossos homens públicos, na hipótese de que lessem alguma coisa, seria um notável exemplo para nós, brasileiros. Conquistamos a independência sem sangue e com pouco esforço, ao contrário dela, cujo povo sofreu, foi espoliado, perseguido e humilhado, mas nunca deixou de defender o patrimônio nacional. Enquanto aqui a soberania nacional é alienada às claras em favor de interesses subalternos da politicalha. 

Escrito por Enéas Athanázio, 30/04/2018 às 11h57 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Diplomata, historiador e escritor, William Agel de Mello é reconhecido africanista e muito tem escrito sobre a África. Entre seus ensaios, avultam os que abordam a África do Sul, a Tanzânia e a Namíbia.  A respeito desta última, escreveu “O processo de independência da Namíbia”, ensaio substancioso, fundamentado e esclarecedor, ora incorporado ao terceiro volume de suas Obras Completas (Editora Kelps – Goiânia – 2016) e que bem merece um comentário;

Situada na África Meridional ou Austral, à margem do Oceano Atlântico, a Namíbia é uma república com a área superficial de 824.285 Km2 e uma população estimada em 1.781.000 habitantes. Tem a capital na cidade de Windhoek e as línguas faladas são o  africâner, o alemão, o inglês e idiomas tribais. É um dos países mais áridos do planeta e o deserto de Namib, na faixa costeira, funcionou, ao longo da história, como uma espécie de escudo natural contra invasões. Foi o último país africano a obter a independência, libertando-se de longo e penoso colonialismo. Antigamente denominado Sudoeste Africano, foi uma colônia da Alemanha desde 1884 até o término da II Guerra Mundial, quando passou a ser administrada pela extinta Liga das Nações, em consonância com o entendimento da época em relação a territórios pouco desenvolvidos. Em seguida o país foi invadido e ocupado pela África do Sul (RAS), que o recebeu como mandato da Liga das Nações, em nome da Grã-Bretanha. Iniciou-se, então, um longo período de exploração das riquezas do país e violência inaudita contra a população nativa. Extinta a Liga das Nações, a África do Sul se recusou o desocupar o território, transformando-o numa espécie de colônia de fato. Rico em urânio e metais, o território da Namíbia foi submetido a verdadeira pilhagem. Os alemães e depois os bôeres lançaram mão de estratagemas engenhosos para evitar o surgimento de uma consciência nacional. Mantiveram as comunidades étnicas física e intelectualmente separadas, como de resto tem acontecido em regimes autoritários.

O nascimento de uma consciência nacionalista, patriótica ou que outro nome tenha parece inevitável, por mais rígida que seja a repressão, e isso também se verificou na Namíbia. Os espíritos mais atilados começaram a perceber a exploração de que o povo era vítima, a sucção das riquezas nacionais em benefício do colonizador e a servidão disfarçada a que a população foi submetida. Surgem lideranças populares que iniciam a pregação em favor da independência do país. A resistência nacional em oposição ao colonizador toma forma através de chefes tradicionais, da igreja, dos intelectuais e dos trabalhadores dos principais centros do país. O movimento cresce e se transforma em aspiração nacional. A independência de outros países africanos impulsiona a ideia de liberdade.

Para conter o movimento nacionalista, a África do Sul implanta o apartheid no território, tal como o existente naquele país, instituindo os chamados buntustões ou homelands e assim seccionando o país com critérios étnicos. Iniciava-se na inacreditável série de manobras e artimanhas de que lançaria mão para prolongar o domínio sobre a Namíbia, de onde não desejava arredar pé. Manobras e artimanhas capazes de causar inveja aos mais reles politiqueiros, praticadas por longos anos às claras e aos olhos de uma sociedade internacional hipócrita e tolerante.

Com absoluto domínio do assunto e lastreado em impressionante bibliografia, o ensaísta vai desenrolando, passo a passo, o penoso processo rumo à independência. Mostra a revolta de um povo cansado do julgo estrangeiro, superando a violência, os massacres, as invasões, anexações de territórios, a boataria e toda sorte de artimanhas com o objetivo de retardar o inevitável. Conta com o apoio de muitos países, inclusive do Brasil, embora os Estados Unidos, alinhados à África do Sul, procurem criar embaraços. Assim, aos trancos e barrancos, com a supervisão da ONU, a Namíbia realiza sua primeira eleição geral, instala a Assembleia Constituinte e, enfim respira como nação livre e dona de seu próprio destino. A independência se consumou em 21 de março de 1990, portanto é acontecimento de hoje, de nossos dias, da história contemporânea.

A SWAPO, aguerrido partido de oposição ao colonialismo, liderado pelo carismático Sam Nujoma, e que lutava contra ele há muitos anos, obtém uma vitória incontestável nas urnas, tanto para o Executivo como para o Legislativo. Conquistou 41cadeiras num total de 72, derrotando com larga margem o principal adversário, na verdade um preposto da África do Sul. Apesar da opressão e da exploração que sofreu, o Governo independente não se entregou a vinditas ou caça às bruxas. Procurou agir de forma conciliatória, buscando a paz, para realizar as promessas tão aguardadas pela população: reforma agrária, equilíbrio, assistência e justiça social. E assim, depois de sustentar uma luta árdua, conquistou a duras penas o direito de agir com inteira liberdade, como país independente e soberano.

A história da Namíbia, se conhecida pelos nossos homens públicos, na hipótese de que lessem alguma coisa, seria um notável exemplo para nós, brasileiros. Conquistamos a independência sem sangue e com pouco esforço, ao contrário dela, cujo povo sofreu, foi espoliado, perseguido e humilhado, mas nunca deixou de defender o patrimônio nacional. Enquanto aqui a soberania nacional é alienada às claras em favor de interesses subalternos da politicalha. 

Escrito por Enéas Athanázio, 30/04/2018 às 11h57 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.