Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A busca da imortalidade

Com as exceções de praxe, as pessoas em geral não desejam morrer e, quando isso acontece, mesmo porque é inevitável, não querem ser esquecidas. Como a morte esconde um mistério insondável, as religiões prometem a vida eterna, após o desenlace, pregando a crença na imortalidade da alma. O ser humano é dúplice, composto de corpo e alma, segundo os que têm fé. Enquanto o corpo acaba, vira pó, a alma galga outros mundos, escondidos sob o véu do mistério. Por via das dúvidas, o ser humano busca outras formas através das quais espera alcançar a imortalidade. Por duvidosas que sejam, não são poucos os que acreditam piamente nisso.

Entre tais meios estão a realização de grandes obras que marquem a passagem terrena da pessoa, como a publicação de livros, a produção de obras de arte, as conquistas científicas, e o ingresso nas agremiações e academias. No que concerne aos escritores, persiste a crença de que o autor desaparece mas a obra fica, embora essa permanência quase sempre seja efêmera. Poucas produções literárias perduram por longo tempo, como acontece com as de Platão, Aristóteles, Goethe, Balzac, Cervantes e outros tantos. A maioria das obras morre com o autor, quando não desaparece antes dele. Tenho conhecido muitos autores de obras mortas. Seja como for, no entanto, a ilusão de perenidade mantém o escritor na labuta, entregue ao mais solitário dos ofícios, esperançoso de que suas palavras cheguem ao futuro.

Outros buscam a imortalidade nas academias. Lutam com todas as forças para obter uma vaga, uma vez que a proposta dessas entidades é a de manter viva a memória de seus integrantes, o que nem sempre acontece. Aqui no Brasil o sonho de muitos é entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), pretensão difícil ao extremo. Há quem batalhe por anos e anos por uma vaga. Outros, no entanto, não se interessam. Escritores de grande renome, cujas obras exerceram notável influência, não foram acadêmicos: Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Lima Barreto, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Sílvio Meira, Joaquim Inojosa. Muitos políticos, por outro lado, usaram a força do cargo para abrir as portas da ABL: Getúlio Vargas, Lauro Muller, Fernando Henrique Cardoso e até ministros da ditadura. Tornaram-se corpos estranhos dentro da Instituição. Diante da dificuldade, muitos se contentam com a imortalidade estadual e até mesmo municipal. Quem não tem cão, caça com gato.

Meu saudoso amigo Nilto Maciel, escritor prolífico e talentoso, costumava dizer que o ingresso nas academias é a imortalidade inventada. Desde cedo – dizia ele – se convenceu de que não tinha alma, sendo, portanto, um mortal comum, e assim só lhe restava escrever e escrever para permanecer na lembrança das pessoas. Sua constante atividade despertou a atenção de alguns acadêmicos e estes decidiram levá-lo para o seu meio. “Pois eis que no meio do caminho desta vida – escreveu ele – me apareceu um desses seres eternos. Chamava-se Almeida Fischer, que queria ser mais imortal do que era, pois pertencia à Academia Brasiliense de Letras. Não se apresentou em corpo e alma, para não se fazer tão objetivo; mandou um seu colega me fazer comunicado quase letal: Eu fora escolhido para constituir a nova casa federal de letras, a Academia de Letras do Brasil. Tomei um susto, mas não morri. Ora, eu não queria vestir fardão. Muito menos farda. . .” Dias depois recebeu a visita do próprio acadêmico e “disse duas ou três frases indecorosas”, alegando que não se sentia acadêmico, considerava-se em fase de crescimento e despreparado para a vida acadêmica e, acima de tudo, não via necessidade da criação de mais uma academia. “Ele parecia não acreditar no que ouvia – disse Nilto. – Talvez eu estivesse brincando. Ou delirando. Você bebeu muito ontem? Certamente me acometia um surto de loucura. Ora, quem não quer ser imortal, quem não se sente excepcionalmente envaidecido e comovido de ser convidado a ingressar no círculo restrito dos olimpianos?” Espantado, incrédulo, olhos esbugalhados, o acadêmico parecia estatelado na cadeira. Onde já se viu alguém recusar semelhante convite? Como esse energúmeno se atreve a tanto?

Para melhor esclarecer as coisas, Nilto prometeu enviar uma carta detalhando seus motivos. Mas a carta chegou tarde demais. “Dias depois eu soube da tragédia: O homem se tinha morrido. Ou tinha deixado de ser vivo. Eu continuei mortal. . .” – concluiu Nilto Maciel.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/06/2018 às 11h30 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A busca da imortalidade

Com as exceções de praxe, as pessoas em geral não desejam morrer e, quando isso acontece, mesmo porque é inevitável, não querem ser esquecidas. Como a morte esconde um mistério insondável, as religiões prometem a vida eterna, após o desenlace, pregando a crença na imortalidade da alma. O ser humano é dúplice, composto de corpo e alma, segundo os que têm fé. Enquanto o corpo acaba, vira pó, a alma galga outros mundos, escondidos sob o véu do mistério. Por via das dúvidas, o ser humano busca outras formas através das quais espera alcançar a imortalidade. Por duvidosas que sejam, não são poucos os que acreditam piamente nisso.

Entre tais meios estão a realização de grandes obras que marquem a passagem terrena da pessoa, como a publicação de livros, a produção de obras de arte, as conquistas científicas, e o ingresso nas agremiações e academias. No que concerne aos escritores, persiste a crença de que o autor desaparece mas a obra fica, embora essa permanência quase sempre seja efêmera. Poucas produções literárias perduram por longo tempo, como acontece com as de Platão, Aristóteles, Goethe, Balzac, Cervantes e outros tantos. A maioria das obras morre com o autor, quando não desaparece antes dele. Tenho conhecido muitos autores de obras mortas. Seja como for, no entanto, a ilusão de perenidade mantém o escritor na labuta, entregue ao mais solitário dos ofícios, esperançoso de que suas palavras cheguem ao futuro.

Outros buscam a imortalidade nas academias. Lutam com todas as forças para obter uma vaga, uma vez que a proposta dessas entidades é a de manter viva a memória de seus integrantes, o que nem sempre acontece. Aqui no Brasil o sonho de muitos é entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), pretensão difícil ao extremo. Há quem batalhe por anos e anos por uma vaga. Outros, no entanto, não se interessam. Escritores de grande renome, cujas obras exerceram notável influência, não foram acadêmicos: Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Lima Barreto, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Sílvio Meira, Joaquim Inojosa. Muitos políticos, por outro lado, usaram a força do cargo para abrir as portas da ABL: Getúlio Vargas, Lauro Muller, Fernando Henrique Cardoso e até ministros da ditadura. Tornaram-se corpos estranhos dentro da Instituição. Diante da dificuldade, muitos se contentam com a imortalidade estadual e até mesmo municipal. Quem não tem cão, caça com gato.

Meu saudoso amigo Nilto Maciel, escritor prolífico e talentoso, costumava dizer que o ingresso nas academias é a imortalidade inventada. Desde cedo – dizia ele – se convenceu de que não tinha alma, sendo, portanto, um mortal comum, e assim só lhe restava escrever e escrever para permanecer na lembrança das pessoas. Sua constante atividade despertou a atenção de alguns acadêmicos e estes decidiram levá-lo para o seu meio. “Pois eis que no meio do caminho desta vida – escreveu ele – me apareceu um desses seres eternos. Chamava-se Almeida Fischer, que queria ser mais imortal do que era, pois pertencia à Academia Brasiliense de Letras. Não se apresentou em corpo e alma, para não se fazer tão objetivo; mandou um seu colega me fazer comunicado quase letal: Eu fora escolhido para constituir a nova casa federal de letras, a Academia de Letras do Brasil. Tomei um susto, mas não morri. Ora, eu não queria vestir fardão. Muito menos farda. . .” Dias depois recebeu a visita do próprio acadêmico e “disse duas ou três frases indecorosas”, alegando que não se sentia acadêmico, considerava-se em fase de crescimento e despreparado para a vida acadêmica e, acima de tudo, não via necessidade da criação de mais uma academia. “Ele parecia não acreditar no que ouvia – disse Nilto. – Talvez eu estivesse brincando. Ou delirando. Você bebeu muito ontem? Certamente me acometia um surto de loucura. Ora, quem não quer ser imortal, quem não se sente excepcionalmente envaidecido e comovido de ser convidado a ingressar no círculo restrito dos olimpianos?” Espantado, incrédulo, olhos esbugalhados, o acadêmico parecia estatelado na cadeira. Onde já se viu alguém recusar semelhante convite? Como esse energúmeno se atreve a tanto?

Para melhor esclarecer as coisas, Nilto prometeu enviar uma carta detalhando seus motivos. Mas a carta chegou tarde demais. “Dias depois eu soube da tragédia: O homem se tinha morrido. Ou tinha deixado de ser vivo. Eu continuei mortal. . .” – concluiu Nilto Maciel.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/06/2018 às 11h30 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.