Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Craque Eterno

Aficionado das biografias e memórias (só me recuso a ler políticos e guerreiros), creio que nunca havia lido a vida de um jogador de futebol. Acabo de quebrar esse longo jejum com a leitura de “O Craque Eterno”, de autoria de Bola Teixeira, e que me foi ofertado por ele (Edição da IOESC – Florianópolis – 2001 – 280 págs.) Como informa o subtítulo, trata-se de “uma biografia de Teixeirinha, jogador símbolo do futebol catarinense.” O livro é bem feito, minucioso, ilustrado e fundamentado, retratando de maneira fiel o biografado, cujos traços físicos e psicológicos são apreendidos pelo leitor. De suas páginas o jogador salta vivo, ativo e participante como de fato é, não a figura inerte e apagada de tantas obras do gênero. Teve o autor a felicidade de reconstituir a vida de uma pessoa ainda presente, dotada de invejável memória e bons arquivos. Não tive essa sorte; meus biografados já “haviam passado para o outro lado do mistério” – como dizia mestre Machado – e os elementos informativos deixavam a desejar. Além do mais, o autor testemunhou parte dos fatos, na condição de filho de seu personagem. Isso, porém, em nada diminui seu trabalho; ao contrário, torna-o mais rico e confiável. Creio que nenhuma homenagem maior poderia prestar ao pai.

Embora Teixeirinha tivesse lavado minha alma catarinense nas célebres vitórias contra os vizinhos do norte e do sul e, mais tarde, morando no mesmo prédio, em Blumenau, nossos encontros fossem mais ou menos freqüentes, só agora posso dizer que o conheço. Sua trajetória de vida revela, antes de mais nada, uma pessoa com a cabeça no lugar, amante da vida provinciana e ligado à família, em tudo diferente dos deslumbrados de hoje. No amor à província ele não estava só, formando ao lado de nada menos que Gilberto Freyre, Érico Veríssimo e Luís da Câmara Cascudo, todos aferrados ao seu chão e que mesmo assim granjearam a consagração. Cascudo, aliás, se vangloriava de ser “provinciano incurável.” Sem poses de estrela, Teixeirinha se tornou uma estrela, ainda que conservando a aura de simpatia que lhe deu amigos e admiradores em todo o país. Resistiu sempre ao profissionalismo; seu amor era o esporte: a bola, a quadra, o jogo, a disputa que estavam no seu sangue.

Foi, de fato, um craque na expressão da palavra. É impressionante a quantidade de jogos em que atuou e, mais ainda, o número de gols que marcou. Raras foram as partidas em que não balançou as redes adversárias. Vestindo as camisas da seleção catarinense, do Palmeiras, do Botafogo, do Bangu, do Renaux (para o qual teve uma passagem traumática), do Olímpico e de outros clubes e combinados, foi permanente destaque, assim proclamado pela imprensa e pela torcida, mesmo numa idade em que seus colegas já haviam pendurado as chuteiras. Encerrada a carreira longa vitoriosa, em 1963, continuou praticando com fervor o tênis, o futebol de areia e outras modalidades. Não esqueço de um advogado blumenauense que enfatizava sua garra: “Nós queremos brincar; ele não – quer ganhar!”

Como em toda carreira, Teixeirinha viveu altos e baixos – o célebre “sube y baja” dos gringos. Ovacionado e carregado nos ombros, também foi vaiado e xingado; seu time infligiu derrota de 8x0 e perdeu por 4x0 para o mesmo adversário (pág. 175); realizou excursão à Europa e jogou em lugarejos do Vale do Itajaí, em estádios sem iluminação e quadras sem gramado; enfrentou a indisciplina de jogadores, o despreparo dos cartolas e as malcheirosas armações de bastidores; recebeu homenagens sem conta, tanto de entidades públicas como privadas. Sempre com a tranqüilidade e simpatia que tanto o marcam. Só não realizou o sonho de ser deputado.

Essa, em poucas linhas, a figura que emerge do livro de corpo inteiro: Nildo Teixeira de Melo, o Teixeirinha, habitante dos corações de tantas gerações catarinenses. Livro que mereceria maior atenção e melhor divulgação mas mergulha no silêncio da apagada e vil tristeza em que se transformou a vida cultural no Estado.

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Republico este artigo em homenagem ao grande Teixeirinha, meu amigo desde os tempos de Blumenau, e que nos deixou no dia 9 de junho. Com ele me associo ao sentimento de sua família, seus amigos e admiradores.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 17h22 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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