Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

ARQUEOLOGIA LITERÁRIA

Como admirador de Lima Barreto (1881/1922) e de sua obra, fiquei deveras surpreso ao tomar conhecimento de que haviam sido identificados inúmeros textos de sua autoria, publicados sob pseudônimos, em revistas e jornais do início do século passado. Imaginava-se que tudo que havia escrito estava incorporado às suas Obras Completas, meticuloso trabalho publicado pela Editora Brasiliense, de São Paulo. Mas a notícia se confirmou e os referidos textos (artigos e crônicas) foram agora publicados no volume “Sátiras e Outras Subversões”, organizado por Felipe Botelho Corrêa e editado por Penguin/Cia. das Letras.

O organizador, professor da Universidade King’s College London, identificou nada menos que 164 textos, versando os mais variados temas, espalhados em periódicos do início do século passado, a maioria deles nas célebres revistas “Careta” e “Fon-Fon”, subscritos pelos mais estranhos pseudônimos. Num prolongado e paciente trabalho de arqueologia literária, comparando estilos, personagens, referências, citações. coincidências e outros detalhes, chegou à conclusão de que eram, sem a menor dúvida, saídos da pena do genial morador de Todos os Santos. Esses escritos eram mesmo desconhecidos dos biógrafos do escritor e especialistas em sua obra. Em longa e minuciosa apresentação, o organizador descreve o método usado e a técnica empregada nesse exaustivo e paciente trabalho, ainda mais no Brasil, onde as fontes de informação, acervos literários, arquivos históricos e documentais costumam ser bastante precários. Mas o livro foi editado, revelando aspectos desconhecidos nas preocupações do escritor carioca e assim enriquecendo sua obra.

Os oito capítulos em que se divide o volume procuram agrupar assuntos correlatos em cada um deles. Todos são interessantes, mas, na impossibilidade de comentá-los todos, destaco “Pistolões e costumes administrativos”, “A sã política é filha da moral e da razão”, “O país das vaidadezinhas” e “Para fazer o país feliz é preciso despovoá-lo pela miséria.” No primeiro deles o escritor fustiga os maus hábitos já então exercidos no reino da política e seus atores, mostrando como certas práticas são antigas e recorrentes no país. O pistolão, o tráfico de influência, as propinas, os jeitinhos e outros meios de burlar a lei são registrados com humor, satirizando os episódios e caricaturando os personagens, muitos deles reconhecíveis com facilidade pelos contemporâneos e, hoje em dia, através da história. Pinheiro Machado, o todo-poderoso da Velha República, está sempre presente e nunca é poupado. Era cortejado por muitos e odiado por outros tantos. Como se sabe, foi morto a punhaladas. Miguel Calmon, Coelho Neto, Epitácio Pessoa, Raul Soares, Urbano dos Santos, Auto de Sá e outros, todos figuras proeminentes da época, recebem verdadeiras sovas bem humoradas e são em geral postos no ridículo. Certo senador conhecido como “Rapadura” mereceu muitas referências pelo fato de que, em vez de encontrar seus eleitores nas urnas, ia procurá-los nos cemitérios, anotando nomes que depois exerciam o sufrágio em favor dele nas eleições a bico-de-pena! Raul Soares, mineiro de Araxá e que mal conhecia o mar, foi nomeado Ministro da Marinha. Apesar do absurdo dessa nomeação, o cronista não deixou de observar a elegante casaca com que tomou posse solene. Os partidos políticos pequenos, hoje considerados de aluguel, também foram abordados. Segundo o cronista, não tinham qualquer programa ou ideologia, tendência ou posição definida, porque seu objetivo único, em geral, consistia em agradar ao chefe e obter recompensas imediatistas. Diante de tudo isso, não é de admirar que a Revolução de 1930 tenha granjeado tantos apoiadores, derrubando o sistema vigente.

No segundo capítulo aqui destacado, Lima lembra a célebre máxima de Bossuet, segundo a qual a sã política é filha da moral e da razão, para concluir o quanto ela se encontrava desmoralizada entre nós. E, por fim, ao analisar as vaidadezinhas, ressalta o amor pelas aparências, ainda que falsas e dedicadas apenas à exibição pública. Não importa a dura e triste realidade, o que vale é a aparência. Em outro tópico, que parece escrito para os dias de hoje, ironiza os atos do governo que parecem desejar a morte dos miseráveis para despovoar o país e fazê-lo mais feliz. Arrocho salarial, aumento de impostos, retirada de auxílios aos menos favorecidos não é bem isso?

Sendo assim, é fácil entender porque o morador de Todos os Santos conquistou tantos desafetos. Mas, como afirmou um crítico, lê-se Lima Barreto para aprender a escrever, mas, acima de tudo, para aprender a ser brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/07/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Como admirador de Lima Barreto (1881/1922) e de sua obra, fiquei deveras surpreso ao tomar conhecimento de que haviam sido identificados inúmeros textos de sua autoria, publicados sob pseudônimos, em revistas e jornais do início do século passado. Imaginava-se que tudo que havia escrito estava incorporado às suas Obras Completas, meticuloso trabalho publicado pela Editora Brasiliense, de São Paulo. Mas a notícia se confirmou e os referidos textos (artigos e crônicas) foram agora publicados no volume “Sátiras e Outras Subversões”, organizado por Felipe Botelho Corrêa e editado por Penguin/Cia. das Letras.

O organizador, professor da Universidade King’s College London, identificou nada menos que 164 textos, versando os mais variados temas, espalhados em periódicos do início do século passado, a maioria deles nas célebres revistas “Careta” e “Fon-Fon”, subscritos pelos mais estranhos pseudônimos. Num prolongado e paciente trabalho de arqueologia literária, comparando estilos, personagens, referências, citações. coincidências e outros detalhes, chegou à conclusão de que eram, sem a menor dúvida, saídos da pena do genial morador de Todos os Santos. Esses escritos eram mesmo desconhecidos dos biógrafos do escritor e especialistas em sua obra. Em longa e minuciosa apresentação, o organizador descreve o método usado e a técnica empregada nesse exaustivo e paciente trabalho, ainda mais no Brasil, onde as fontes de informação, acervos literários, arquivos históricos e documentais costumam ser bastante precários. Mas o livro foi editado, revelando aspectos desconhecidos nas preocupações do escritor carioca e assim enriquecendo sua obra.

Os oito capítulos em que se divide o volume procuram agrupar assuntos correlatos em cada um deles. Todos são interessantes, mas, na impossibilidade de comentá-los todos, destaco “Pistolões e costumes administrativos”, “A sã política é filha da moral e da razão”, “O país das vaidadezinhas” e “Para fazer o país feliz é preciso despovoá-lo pela miséria.” No primeiro deles o escritor fustiga os maus hábitos já então exercidos no reino da política e seus atores, mostrando como certas práticas são antigas e recorrentes no país. O pistolão, o tráfico de influência, as propinas, os jeitinhos e outros meios de burlar a lei são registrados com humor, satirizando os episódios e caricaturando os personagens, muitos deles reconhecíveis com facilidade pelos contemporâneos e, hoje em dia, através da história. Pinheiro Machado, o todo-poderoso da Velha República, está sempre presente e nunca é poupado. Era cortejado por muitos e odiado por outros tantos. Como se sabe, foi morto a punhaladas. Miguel Calmon, Coelho Neto, Epitácio Pessoa, Raul Soares, Urbano dos Santos, Auto de Sá e outros, todos figuras proeminentes da época, recebem verdadeiras sovas bem humoradas e são em geral postos no ridículo. Certo senador conhecido como “Rapadura” mereceu muitas referências pelo fato de que, em vez de encontrar seus eleitores nas urnas, ia procurá-los nos cemitérios, anotando nomes que depois exerciam o sufrágio em favor dele nas eleições a bico-de-pena! Raul Soares, mineiro de Araxá e que mal conhecia o mar, foi nomeado Ministro da Marinha. Apesar do absurdo dessa nomeação, o cronista não deixou de observar a elegante casaca com que tomou posse solene. Os partidos políticos pequenos, hoje considerados de aluguel, também foram abordados. Segundo o cronista, não tinham qualquer programa ou ideologia, tendência ou posição definida, porque seu objetivo único, em geral, consistia em agradar ao chefe e obter recompensas imediatistas. Diante de tudo isso, não é de admirar que a Revolução de 1930 tenha granjeado tantos apoiadores, derrubando o sistema vigente.

No segundo capítulo aqui destacado, Lima lembra a célebre máxima de Bossuet, segundo a qual a sã política é filha da moral e da razão, para concluir o quanto ela se encontrava desmoralizada entre nós. E, por fim, ao analisar as vaidadezinhas, ressalta o amor pelas aparências, ainda que falsas e dedicadas apenas à exibição pública. Não importa a dura e triste realidade, o que vale é a aparência. Em outro tópico, que parece escrito para os dias de hoje, ironiza os atos do governo que parecem desejar a morte dos miseráveis para despovoar o país e fazê-lo mais feliz. Arrocho salarial, aumento de impostos, retirada de auxílios aos menos favorecidos não é bem isso?

Sendo assim, é fácil entender porque o morador de Todos os Santos conquistou tantos desafetos. Mas, como afirmou um crítico, lê-se Lima Barreto para aprender a escrever, mas, acima de tudo, para aprender a ser brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/07/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



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