Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A morte de Stálin

É curioso observar como os assuntos relacionados à extinta URSS e seus personagens continuam a interessar os pesquisadores, aumentando sem cessar a copiosa bibliografia existente. Entre os múltiplos livros que têm sido publicados, é significativo o lançamento de “A Morte de Stálin”, de Fabien Nury e Thierry Robin, editado pela Três Estrelas (S. Paulo – 2015). Em formato de álbum e tamanho grande, o volume em quadrinhos reconstitui os momentos finais e o funeral do líder soviético com base em pesquisas e documentos. Essa forma de apresentação visa alcançar o maior número de pessoas, inclusive aquelas não muito afeitas à leitura, o que parece ter conseguido a julgar pelo sucesso de vendas.

Os desenhos que preenchem as 150 páginas do volume são preciosos, mostrando os ambientes e os locais dos acontecimentos e, mais ainda, retratando os personagens com as características de cada um conforme são vistos em fotografias. Malienkov, Bulganin, Béria, Kaganovitch, Mikoyan, Kruschev e o próprio Stálin em seu costumeiro uniforme são retratados tal como costumávamos vê-los nos jornais da época. O ambiente pesado do Kremlin também transparece na caprichada reconstrução do episódio.

Como se sabe, depois de ouvir um concerto em gravação, Stálin foi acometido de violento derrame cerebral na datcha onde vivia, nos arrabaldes de Moscou. Estava deitado no chão, onde foi encontrado pela camareira. Ela lhe deu um calmante e informou aos que se encontravam no local sobre o fato. Começam, então, as maquinações encabeçadas por Béria, chefe da sinistra NKVD, e Nikita Kruschev, ambos sequiosos por suceder o enfermo na Secretaria-Geral do Partido, o posto mais importante na hierarquia soviética. Decidem, então, realizar uma reunião do comitê para tomar providências enquanto Stálin agoniza sem assistência médica. Passado muito tempo, convocam a equipe de médicos que faz o possível para salvar o doente. Mas era tarde e ele morreu praticamente à míngua. Béria nem sequer se dava o trabalho de esconder a alegria que sentia em face da possibilidade de galgar ao mais alto posto. O fato ocorreu na noite de 28 de fevereiro de 1953.

Acontecem, a seguir, acirradas discussões entre os membros do comitê. Como informar à população? Como evitar a vinda em massa de pessoas a Moscou ao tomarem conhecimento? Como realizar os funerais? Os debates se prolongam e o tempo se escoa. Afinal, depois de muito bate boca fixam as diretrizes e as providências. O Pravda noticia, enfim, que o coração do chefe havia parado de bater. Uma multidão acorre à capital, como se temia, e sua caminhada foi cortada pela força, resultando da repressão muitas vítimas pelas quais Kruschev, o encarregado, foi acusado. Após o apoteótico enterro, no qual não faltaram os discursos eloquentes, as crises e acessos de choro, os lamentos espetaculosos e outras manifestações explícitas de sentimentalismo, começam as conspirações e o jogo de forças dos quais a população nem sequer suspeitava. A imprensa do mundo todo registra o acontecimento em grandes manchetes.

Outro problema se apresenta: como se livrar de Béria, o facinoroso chefe da polícia política? Arma-se, então, nos corredores do Kremlin um verdadeiro golpe e ele é preso quando comparece à reunião, selando-se seu destino. Nikita Kruschev, ligado a Stálin e que havia chorado copiosamente por ocasião de sua morte, é sagrado Secretário-Geral. Figura curiosa, muito calvo e combativo, causou espanto ao tirar o sapato e bater com ele na tribuna de onde discursava numa reunião da ONU. Por surpreendente que fosse, Kruschev denunciaria os crimes de Stálin em público durante o XX Congresso do PC da URSS, fato que afastou simpatizantes de todo o mundo. Segundo os historiadores, nesse momento teve início o fim da URSS. Partidários notórios, entre os quais Jorge Amado e Pablo Neruda, se afastaram do partido.

Os autores reconstituem com precisão o episódio em que o filho de Stálin, general Djugachvili, acusa em altos brados os membros do comitê e os médicos de assassinarem o pai. Como tinha fama de devasso e beberrão, a acusação não foi levada a sério, embora ele fosse internado num estabelecimento próprio para a “reeducação” de recalcitrantes.

O livro focaliza um dos momentos mais graves da política mundial no auge da “guerra fria” e que teria intensa repercussão no futuro. Ali se encerrava um período sinistro da história e tinha início, a passos largos, a desintegração da URSS, colocando os Estados Unidos na posição de onipotência mundial e consolidando o capitalismo em seu apogeu.

Inspirado pelo livro, foi rodado um filme que vem fazendo grande sucesso e ao qual a imprensa tem dedicado inúmeras resenhas.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/08/2018 às 10h28 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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É curioso observar como os assuntos relacionados à extinta URSS e seus personagens continuam a interessar os pesquisadores, aumentando sem cessar a copiosa bibliografia existente. Entre os múltiplos livros que têm sido publicados, é significativo o lançamento de “A Morte de Stálin”, de Fabien Nury e Thierry Robin, editado pela Três Estrelas (S. Paulo – 2015). Em formato de álbum e tamanho grande, o volume em quadrinhos reconstitui os momentos finais e o funeral do líder soviético com base em pesquisas e documentos. Essa forma de apresentação visa alcançar o maior número de pessoas, inclusive aquelas não muito afeitas à leitura, o que parece ter conseguido a julgar pelo sucesso de vendas.

Os desenhos que preenchem as 150 páginas do volume são preciosos, mostrando os ambientes e os locais dos acontecimentos e, mais ainda, retratando os personagens com as características de cada um conforme são vistos em fotografias. Malienkov, Bulganin, Béria, Kaganovitch, Mikoyan, Kruschev e o próprio Stálin em seu costumeiro uniforme são retratados tal como costumávamos vê-los nos jornais da época. O ambiente pesado do Kremlin também transparece na caprichada reconstrução do episódio.

Como se sabe, depois de ouvir um concerto em gravação, Stálin foi acometido de violento derrame cerebral na datcha onde vivia, nos arrabaldes de Moscou. Estava deitado no chão, onde foi encontrado pela camareira. Ela lhe deu um calmante e informou aos que se encontravam no local sobre o fato. Começam, então, as maquinações encabeçadas por Béria, chefe da sinistra NKVD, e Nikita Kruschev, ambos sequiosos por suceder o enfermo na Secretaria-Geral do Partido, o posto mais importante na hierarquia soviética. Decidem, então, realizar uma reunião do comitê para tomar providências enquanto Stálin agoniza sem assistência médica. Passado muito tempo, convocam a equipe de médicos que faz o possível para salvar o doente. Mas era tarde e ele morreu praticamente à míngua. Béria nem sequer se dava o trabalho de esconder a alegria que sentia em face da possibilidade de galgar ao mais alto posto. O fato ocorreu na noite de 28 de fevereiro de 1953.

Acontecem, a seguir, acirradas discussões entre os membros do comitê. Como informar à população? Como evitar a vinda em massa de pessoas a Moscou ao tomarem conhecimento? Como realizar os funerais? Os debates se prolongam e o tempo se escoa. Afinal, depois de muito bate boca fixam as diretrizes e as providências. O Pravda noticia, enfim, que o coração do chefe havia parado de bater. Uma multidão acorre à capital, como se temia, e sua caminhada foi cortada pela força, resultando da repressão muitas vítimas pelas quais Kruschev, o encarregado, foi acusado. Após o apoteótico enterro, no qual não faltaram os discursos eloquentes, as crises e acessos de choro, os lamentos espetaculosos e outras manifestações explícitas de sentimentalismo, começam as conspirações e o jogo de forças dos quais a população nem sequer suspeitava. A imprensa do mundo todo registra o acontecimento em grandes manchetes.

Outro problema se apresenta: como se livrar de Béria, o facinoroso chefe da polícia política? Arma-se, então, nos corredores do Kremlin um verdadeiro golpe e ele é preso quando comparece à reunião, selando-se seu destino. Nikita Kruschev, ligado a Stálin e que havia chorado copiosamente por ocasião de sua morte, é sagrado Secretário-Geral. Figura curiosa, muito calvo e combativo, causou espanto ao tirar o sapato e bater com ele na tribuna de onde discursava numa reunião da ONU. Por surpreendente que fosse, Kruschev denunciaria os crimes de Stálin em público durante o XX Congresso do PC da URSS, fato que afastou simpatizantes de todo o mundo. Segundo os historiadores, nesse momento teve início o fim da URSS. Partidários notórios, entre os quais Jorge Amado e Pablo Neruda, se afastaram do partido.

Os autores reconstituem com precisão o episódio em que o filho de Stálin, general Djugachvili, acusa em altos brados os membros do comitê e os médicos de assassinarem o pai. Como tinha fama de devasso e beberrão, a acusação não foi levada a sério, embora ele fosse internado num estabelecimento próprio para a “reeducação” de recalcitrantes.

O livro focaliza um dos momentos mais graves da política mundial no auge da “guerra fria” e que teria intensa repercussão no futuro. Ali se encerrava um período sinistro da história e tinha início, a passos largos, a desintegração da URSS, colocando os Estados Unidos na posição de onipotência mundial e consolidando o capitalismo em seu apogeu.

Inspirado pelo livro, foi rodado um filme que vem fazendo grande sucesso e ao qual a imprensa tem dedicado inúmeras resenhas.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/08/2018 às 10h28 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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