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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

OCASO

Amigo e confidente de Adolf Hitler, Albert Speer gozou de invulgar prestígio durante o III Reich. Arquiteto de formação e apolítico por temperamento, mesmo assim caiu nas graças do ditador, integrou o grupo de sua intimidade e se transformou no arquiteto do regime. A ele foram confiados importantes projetos e seria o encarregado de projetar as grandiosas obras para a futura Germânia em que se transformaria Berlim como a capital do mundo após a vitória nazista e a dominação global. Foi nomeado Ministro do Armamento, posição de relevo na máquina de guerra, o que lhe permitiu uma aproximação incomum com o ditador, inclusive nos últimos dias de sua vida, quando o sonho de poder mundial se desvaneceu ante o cerco de Berlim pelas tropas soviéticas e a inexorável derrota na guerra. Com o fim das hostilidades, Speer foi preso, julgado pelo Tribunal de Nuremberg e condenado a vinte anos de reclusão na penitenciária de Spandau.

Cumprida a longa pena e colocado em liberdade, Speer concedeu inúmeras entrevistas ao escritor Joachim Fest, o biógrafo de Hitler e especialista mundial em nazismo, fazendo importantes revelações sobre o período da guerra, as atividades do governo e, em especial, sobre o comportamento de Hitler em seu ocaso. Com o título de “Conversas com Albert Speer”, o livro foi lançado no Brasil pela Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro – 2012).

Segundo ele, Hitler seria incapaz de algum gesto ou ato de amor, acreditando que nem mesmo com sua companheira, Eva Braun, tenha havido algo de mais íntimo. Seria incapaz “de fazer até mesmo um pequeno gesto amoroso a outra pessoa, como exige o ato sexual.” Sua atitude em relação a ela seria mais de gratidão por acompanhá-lo até a morte. Temperamento de altos e baixos, o ditador tinha verdadeiros acessos de fúria e momentos de recolhimento com longos períodos de mutismo e até mesmo de soluços e lágrimas. Desejava ficar na história muito mais como protetor das artes que como chefe militar. Tinha verdadeira obsessão pela morte, desejava ser cremado para que não fosse desonrado pelos inimigos e queria ser sepultado no alto de uma torre para ficar bem acima. Imaginava-se em condições idênticas aos de grandes heróis do passado, cujas virtudes admirava, e aos quais se igualava. Chegou a declarar, mais de uma vez, que gostaria de entrar para a história “como um homem que o mundo jamais conhecera” Afirmou Speer que tais foram suas palavras textuais. Seu objetivo, afirmou, seria conquistar a fama por quatro vias: pensador, estadista, patrono das artes e militar invencível.

Os fatos, porém, não permitiram a realização de suas ambições e à medida em que os Aliados venciam ele entrou em pânico. Segundo Speer, adquiriu uma aparência frágil, tornou-se trôpego e nervoso, seus braços tremiam muito, em especial o esquerdo, e sua autoridade entrou em visível declínio. A ordem de praticar a operação “terra arrasada” não foi obedecida e até mesmo nos pequenos atos seu desgaste ficou evidente. No “bunker” onde se refugiava, os subordinados nem mesmo se levantavam em sua presença e até fingiam não vê-lo. Quando o planejado contra-ataque final não aconteceu, foi tomado por violento ataque de fúria. Mesmo correndo risco de vida, Speer foi visitá-lo e se despedir antes do final que já se desenhava próximo. Como todos os ditadores, Hitler teve um fim trágico e violento.

Quanto a Speer, jamais confessou que soubesse das atrocidades do regime, em especial do genocídio dos judeus. Admitiu, quando muito, que alimentava suspeitas em virtude de algumas conversas ou indícios, mas nunca explicou porque não procurou se informar a respeito. Ao que parece, preferiu ignorar. É verdade que considerava o anissemitismo uma anomalia e nunca se enquadrou bem aos postulados nazistas, tornando-se conhecido como o “bom nazista.” Não explicou também sua atitude contraditória de servir a um regime e a seu chefe sem convicção. Não obstante, escapou da pena de morte, cumpriu a pena e ainda viveu muitos anos, tendo publicado livros sobre sua experiência. Também não soube explicar como um povo educado e esclarecido foi conduzido como um rebanho para a derrota e o caos.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/08/2018 às 09h40 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Amigo e confidente de Adolf Hitler, Albert Speer gozou de invulgar prestígio durante o III Reich. Arquiteto de formação e apolítico por temperamento, mesmo assim caiu nas graças do ditador, integrou o grupo de sua intimidade e se transformou no arquiteto do regime. A ele foram confiados importantes projetos e seria o encarregado de projetar as grandiosas obras para a futura Germânia em que se transformaria Berlim como a capital do mundo após a vitória nazista e a dominação global. Foi nomeado Ministro do Armamento, posição de relevo na máquina de guerra, o que lhe permitiu uma aproximação incomum com o ditador, inclusive nos últimos dias de sua vida, quando o sonho de poder mundial se desvaneceu ante o cerco de Berlim pelas tropas soviéticas e a inexorável derrota na guerra. Com o fim das hostilidades, Speer foi preso, julgado pelo Tribunal de Nuremberg e condenado a vinte anos de reclusão na penitenciária de Spandau.

Cumprida a longa pena e colocado em liberdade, Speer concedeu inúmeras entrevistas ao escritor Joachim Fest, o biógrafo de Hitler e especialista mundial em nazismo, fazendo importantes revelações sobre o período da guerra, as atividades do governo e, em especial, sobre o comportamento de Hitler em seu ocaso. Com o título de “Conversas com Albert Speer”, o livro foi lançado no Brasil pela Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro – 2012).

Segundo ele, Hitler seria incapaz de algum gesto ou ato de amor, acreditando que nem mesmo com sua companheira, Eva Braun, tenha havido algo de mais íntimo. Seria incapaz “de fazer até mesmo um pequeno gesto amoroso a outra pessoa, como exige o ato sexual.” Sua atitude em relação a ela seria mais de gratidão por acompanhá-lo até a morte. Temperamento de altos e baixos, o ditador tinha verdadeiros acessos de fúria e momentos de recolhimento com longos períodos de mutismo e até mesmo de soluços e lágrimas. Desejava ficar na história muito mais como protetor das artes que como chefe militar. Tinha verdadeira obsessão pela morte, desejava ser cremado para que não fosse desonrado pelos inimigos e queria ser sepultado no alto de uma torre para ficar bem acima. Imaginava-se em condições idênticas aos de grandes heróis do passado, cujas virtudes admirava, e aos quais se igualava. Chegou a declarar, mais de uma vez, que gostaria de entrar para a história “como um homem que o mundo jamais conhecera” Afirmou Speer que tais foram suas palavras textuais. Seu objetivo, afirmou, seria conquistar a fama por quatro vias: pensador, estadista, patrono das artes e militar invencível.

Os fatos, porém, não permitiram a realização de suas ambições e à medida em que os Aliados venciam ele entrou em pânico. Segundo Speer, adquiriu uma aparência frágil, tornou-se trôpego e nervoso, seus braços tremiam muito, em especial o esquerdo, e sua autoridade entrou em visível declínio. A ordem de praticar a operação “terra arrasada” não foi obedecida e até mesmo nos pequenos atos seu desgaste ficou evidente. No “bunker” onde se refugiava, os subordinados nem mesmo se levantavam em sua presença e até fingiam não vê-lo. Quando o planejado contra-ataque final não aconteceu, foi tomado por violento ataque de fúria. Mesmo correndo risco de vida, Speer foi visitá-lo e se despedir antes do final que já se desenhava próximo. Como todos os ditadores, Hitler teve um fim trágico e violento.

Quanto a Speer, jamais confessou que soubesse das atrocidades do regime, em especial do genocídio dos judeus. Admitiu, quando muito, que alimentava suspeitas em virtude de algumas conversas ou indícios, mas nunca explicou porque não procurou se informar a respeito. Ao que parece, preferiu ignorar. É verdade que considerava o anissemitismo uma anomalia e nunca se enquadrou bem aos postulados nazistas, tornando-se conhecido como o “bom nazista.” Não explicou também sua atitude contraditória de servir a um regime e a seu chefe sem convicção. Não obstante, escapou da pena de morte, cumpriu a pena e ainda viveu muitos anos, tendo publicado livros sobre sua experiência. Também não soube explicar como um povo educado e esclarecido foi conduzido como um rebanho para a derrota e o caos.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/08/2018 às 09h40 | e.atha@terra.com.br



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