Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Por ares nunca dantes navegados

O mundo reconhece a importância dos inventos de Alberto Santos Dumont, em especial o voo pioneiro com o mais pesado que o ar. No entanto, a vida e as peripécias do inventor para chegar a tal resultado nem de longe são conhecidas. Elas se perderiam no esquecimento, não fosse o trabalho ressuscitador e justiceiro dos biógrafos, a exemplo de Fernando Jorge em seu magnífico livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, publicado por Harper Collins Brasil (São Paulo – 2018). É um trabalho minucioso, fundamentado em imensa pesquisa, rigoroso na escolha das fontes e que rastreia os passos do menino mineiro que gostava de balões, de máquinas e de pássaros até o inventor genial que deu asas ao homem e permitiu que ele voasse por ares nunca dantes navegados. Enfrentando toda sorte de obstáculos, afrontando o perigo em suas experiências, sobrevivendo a graves acidentes mas persistindo sempre, acabou por conquistar a glória merecida como, acredito, nenhum outro brasileiro havia conseguido. “Perseverar é cair sete vezes e levantar-se oito”, segundo o provérbio japonês que deveria norteá-lo.

Aclamado onde passasse ou estivesse, era cercado por multidões que desejavam homenageá-lo em solenidades, banquetes e recepções, com discursos, músicas e poemas. Até mesmo as pequenas estações onde faziam escalas os trens em que viajava se viam tomadas pelo povo sequioso por homenageá-lo. Havia uma verdadeira febre de homenagens, o que levou Monteiro Lobato a escrever:

“Não se fala, não se vê, não se ouve, não se come, não se sonha outra coisa que não seja ele, sempre ele, com o histórico panamazinho, sempre sob todas as formas, em todos os estilos, nas gravuras, nos trocadilhos, nos discursos, nos jornais, nos telegramas, nas petas, nos teatros, nos concertos, no céu, na terra, em toda a parte; é sempre ele, é sempre o ilustre brasileiro, o intrépido aeronauta, escalavrado de comentários patrióticos, arranhado, mordido, disputado, é sempre ele, o santo, o herói supremo, o mártir da retórica nacional, o impávido gigante saído incólume dos treze discursos com que Taubaté chimpou-lhe a coragem” (p. 258).

Ou muito me engano, ou vislumbro no texto um fiapo de inveja do jovem Lobato. É de reconhecer, porém, que o culto a Dumont chegou às raias do exagero e tudo indica que ele próprio se sentia constrangido com isso.

Ao contrário do que faziam outros inventores, Dumont realizava suas experiências em público, sob os olhares atentos do povo, com a presença de inúmeros parisienses e da imprensa. O livro está recheado de fotos que assim o comprovam. Ele não escondia os fracassos e buscava o testemunho dos observadores nos sucessos.

O dia 13 de setembro de 1906 se tornou histórico porque pela primeira vez um homem se elevou ao ar por seus próprios meios. Ali Alberto Santos Dumont conquistava “uma glória colossal, ruidosa, incontrolável, esplendente...” Era um dos loucos voadores que teimavam em vencer o que parecia impossível. “E não condenemos todos os malucos de ideias extravagantes: sem eles o mundo se tornaria demasiado enfadonho” – escreveu Fernando Jorge.

Sempre elegante nos seus ternos impecáveis, colarinhos engomados e gravatas estilosas, cobrindo-se com o célebre panamá desabado, até mesmo nas suas experiências, Santos Dumont fruiu a maior glória já atribuída em vida a um brasileiro. Não obstante, entrou em irrefreável processo de profunda depressão que o conduziu a um trágico destino na praia do Guarujá, no litoral paulista. Foi atendido na ocasião pelo escritor Raimundo de Menezes, então delegado de polícia na cidade. Muitos de seus objetos pessoais se encontram em sua casa de Petrópolis, conhecida como a Encantada, hoje convertida em museu.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/08/2018 às 10h49 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O mundo reconhece a importância dos inventos de Alberto Santos Dumont, em especial o voo pioneiro com o mais pesado que o ar. No entanto, a vida e as peripécias do inventor para chegar a tal resultado nem de longe são conhecidas. Elas se perderiam no esquecimento, não fosse o trabalho ressuscitador e justiceiro dos biógrafos, a exemplo de Fernando Jorge em seu magnífico livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, publicado por Harper Collins Brasil (São Paulo – 2018). É um trabalho minucioso, fundamentado em imensa pesquisa, rigoroso na escolha das fontes e que rastreia os passos do menino mineiro que gostava de balões, de máquinas e de pássaros até o inventor genial que deu asas ao homem e permitiu que ele voasse por ares nunca dantes navegados. Enfrentando toda sorte de obstáculos, afrontando o perigo em suas experiências, sobrevivendo a graves acidentes mas persistindo sempre, acabou por conquistar a glória merecida como, acredito, nenhum outro brasileiro havia conseguido. “Perseverar é cair sete vezes e levantar-se oito”, segundo o provérbio japonês que deveria norteá-lo.

Aclamado onde passasse ou estivesse, era cercado por multidões que desejavam homenageá-lo em solenidades, banquetes e recepções, com discursos, músicas e poemas. Até mesmo as pequenas estações onde faziam escalas os trens em que viajava se viam tomadas pelo povo sequioso por homenageá-lo. Havia uma verdadeira febre de homenagens, o que levou Monteiro Lobato a escrever:

“Não se fala, não se vê, não se ouve, não se come, não se sonha outra coisa que não seja ele, sempre ele, com o histórico panamazinho, sempre sob todas as formas, em todos os estilos, nas gravuras, nos trocadilhos, nos discursos, nos jornais, nos telegramas, nas petas, nos teatros, nos concertos, no céu, na terra, em toda a parte; é sempre ele, é sempre o ilustre brasileiro, o intrépido aeronauta, escalavrado de comentários patrióticos, arranhado, mordido, disputado, é sempre ele, o santo, o herói supremo, o mártir da retórica nacional, o impávido gigante saído incólume dos treze discursos com que Taubaté chimpou-lhe a coragem” (p. 258).

Ou muito me engano, ou vislumbro no texto um fiapo de inveja do jovem Lobato. É de reconhecer, porém, que o culto a Dumont chegou às raias do exagero e tudo indica que ele próprio se sentia constrangido com isso.

Ao contrário do que faziam outros inventores, Dumont realizava suas experiências em público, sob os olhares atentos do povo, com a presença de inúmeros parisienses e da imprensa. O livro está recheado de fotos que assim o comprovam. Ele não escondia os fracassos e buscava o testemunho dos observadores nos sucessos.

O dia 13 de setembro de 1906 se tornou histórico porque pela primeira vez um homem se elevou ao ar por seus próprios meios. Ali Alberto Santos Dumont conquistava “uma glória colossal, ruidosa, incontrolável, esplendente...” Era um dos loucos voadores que teimavam em vencer o que parecia impossível. “E não condenemos todos os malucos de ideias extravagantes: sem eles o mundo se tornaria demasiado enfadonho” – escreveu Fernando Jorge.

Sempre elegante nos seus ternos impecáveis, colarinhos engomados e gravatas estilosas, cobrindo-se com o célebre panamá desabado, até mesmo nas suas experiências, Santos Dumont fruiu a maior glória já atribuída em vida a um brasileiro. Não obstante, entrou em irrefreável processo de profunda depressão que o conduziu a um trágico destino na praia do Guarujá, no litoral paulista. Foi atendido na ocasião pelo escritor Raimundo de Menezes, então delegado de polícia na cidade. Muitos de seus objetos pessoais se encontram em sua casa de Petrópolis, conhecida como a Encantada, hoje convertida em museu.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/08/2018 às 10h49 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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