Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O JOVEM HEMINGWAY

O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), nascido em Oak Park, arredores de Chicago, transformou-se num dos mais lidos e populares autores da literatura mundial e um dos nomes da primeira linha das letras de seu país. Além disso, teve a fortuna de encontrar dedicados e competentes biógrafos que souberam registrar sua trajetória de vida e sua carreira de homem de letras, fator importante para a sobrevivência de qualquer autor. Entre os que o biografaram, destacam-se, entre outros, Carlos Baker, autor da mais completa obra a respeito, em dois alentados volumes, o britânico Anthony Burgess, A. E. Hotchner, que muito conviveu com o escritor em seus últimos anos de vida, Milt Machlin, que escreveu uma biografia de excelente leitura, e Peter Griffin, que se dedicou a reconstituir a existência do escritor na sua juventude, desde o nascimento até o primeiro casamento, com Hadley Richardson, no início de 1922. Outros autores também se entregaram à reconstituição da movimentada vida de Hemingway, na totalidade ou apenas em parte, inclusive no Brasil, mas creio que os mencionados são os mais significativos. O número de teses, ensaios, reportagens e matérias jornalísticas sobre Hemingway é imenso e se espalha por muitos países. É curioso lembrar que chegou a se tornar num dos mais lidos e populares na antiga URSS, ainda que nunca tivesse exercido qualquer atividade de natureza política.

Peter Griffin, em seu livro “O Jovem Hemingway” (Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro – 1987), realizou impressionante levantamento dos primeiros vinte e dois anos do escritor. Seu livro é minucioso ao extremo, contendo numerosas datas e muitas vezes até horários em que ocorreram certos fatos. Para tanto o autor teve que examinar avultado número de cartas, tanto de Hemingway e sua primeira esposa como de outras pessoas, os diários da mãe do escritor, manuscritos em diversos volumes, além da impressionante bibliografia existente sobre o tema e depoimentos de inúmeras personalidades. O resultado foi um livro documental, embora com sabor de romance, e que esclarece pormenores não abordados por outros autores. E como se diz que sobre um grande artista das letras tudo é importante, este livro é indispensável aos aficionados do romancista de “O Velho e o Mar.”

A leitura revela, entre outros fatos, que não foi nada fácil o início da carreira de Hemingway. Depois que concluiu o secundário e não quis ingressar numa universidade, para desgosto de seu pai, o médico Clarence Hemingway, o jovem candidato a escritor começou a duras penas o aprendizado. Passou uns tempos cuidando da fazenda paterna, exercendo um trabalho braçal, depois fez um longo estágio como foca de um grande jornal e, por fim, instalou-se em Chicago para trabalhar em publicidade. Esse foi um período duro, vivendo em acomodações miseráveis, alimentando-se mal e vestindo-se ainda pior, embora trabalhando com afinco para afiar o instrumento de trabalho – a linguagem literária. Escrevia e escrevia, lendo, estudando e observando, procurando absorver os ensinamentos dos mestres sobre a arte difícil de escrever. Além disso, exercitava-se de todas as formas, inclusive no box, embora não tivesse uma saúde das melhores. O grandalhão que parecia forte como um touro, na verdade padecia de vários males, entre eles uma renitente inflamação da garganta. Também namorava, bebia e se divertia com os amigos, enquanto tratava de economizar para voltar à Itália, onde pretendia se fixar após o casamento. Copiosa correspondência foi trocada entre ele e Hadley, revelando que a noiva também era doentia, nervosa e insegura, tudo indicando que o casamento estava fadado ao fracasso, como deveras aconteceu.

Sherwood Anderson, escritor célebre e admirador de Hemingway, convenceu o novo colega de que seu lugar não estava na Itália mas em Paris, onde Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce pontificavam e a “geração perdida” buscava conquistar o seu espaço. Hemingway e Hadley trocaram as liras economizadas por francos e partiram para a Cidade Luz, onde foram residir num minúsculo apartamento situado sobre uma serraria. Ali o escritor deu a arrancada na direção no Prêmio Nobel, coroando uma das mais belas carreiras das letras universais.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/09/2018 às 13h13 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), nascido em Oak Park, arredores de Chicago, transformou-se num dos mais lidos e populares autores da literatura mundial e um dos nomes da primeira linha das letras de seu país. Além disso, teve a fortuna de encontrar dedicados e competentes biógrafos que souberam registrar sua trajetória de vida e sua carreira de homem de letras, fator importante para a sobrevivência de qualquer autor. Entre os que o biografaram, destacam-se, entre outros, Carlos Baker, autor da mais completa obra a respeito, em dois alentados volumes, o britânico Anthony Burgess, A. E. Hotchner, que muito conviveu com o escritor em seus últimos anos de vida, Milt Machlin, que escreveu uma biografia de excelente leitura, e Peter Griffin, que se dedicou a reconstituir a existência do escritor na sua juventude, desde o nascimento até o primeiro casamento, com Hadley Richardson, no início de 1922. Outros autores também se entregaram à reconstituição da movimentada vida de Hemingway, na totalidade ou apenas em parte, inclusive no Brasil, mas creio que os mencionados são os mais significativos. O número de teses, ensaios, reportagens e matérias jornalísticas sobre Hemingway é imenso e se espalha por muitos países. É curioso lembrar que chegou a se tornar num dos mais lidos e populares na antiga URSS, ainda que nunca tivesse exercido qualquer atividade de natureza política.

Peter Griffin, em seu livro “O Jovem Hemingway” (Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro – 1987), realizou impressionante levantamento dos primeiros vinte e dois anos do escritor. Seu livro é minucioso ao extremo, contendo numerosas datas e muitas vezes até horários em que ocorreram certos fatos. Para tanto o autor teve que examinar avultado número de cartas, tanto de Hemingway e sua primeira esposa como de outras pessoas, os diários da mãe do escritor, manuscritos em diversos volumes, além da impressionante bibliografia existente sobre o tema e depoimentos de inúmeras personalidades. O resultado foi um livro documental, embora com sabor de romance, e que esclarece pormenores não abordados por outros autores. E como se diz que sobre um grande artista das letras tudo é importante, este livro é indispensável aos aficionados do romancista de “O Velho e o Mar.”

A leitura revela, entre outros fatos, que não foi nada fácil o início da carreira de Hemingway. Depois que concluiu o secundário e não quis ingressar numa universidade, para desgosto de seu pai, o médico Clarence Hemingway, o jovem candidato a escritor começou a duras penas o aprendizado. Passou uns tempos cuidando da fazenda paterna, exercendo um trabalho braçal, depois fez um longo estágio como foca de um grande jornal e, por fim, instalou-se em Chicago para trabalhar em publicidade. Esse foi um período duro, vivendo em acomodações miseráveis, alimentando-se mal e vestindo-se ainda pior, embora trabalhando com afinco para afiar o instrumento de trabalho – a linguagem literária. Escrevia e escrevia, lendo, estudando e observando, procurando absorver os ensinamentos dos mestres sobre a arte difícil de escrever. Além disso, exercitava-se de todas as formas, inclusive no box, embora não tivesse uma saúde das melhores. O grandalhão que parecia forte como um touro, na verdade padecia de vários males, entre eles uma renitente inflamação da garganta. Também namorava, bebia e se divertia com os amigos, enquanto tratava de economizar para voltar à Itália, onde pretendia se fixar após o casamento. Copiosa correspondência foi trocada entre ele e Hadley, revelando que a noiva também era doentia, nervosa e insegura, tudo indicando que o casamento estava fadado ao fracasso, como deveras aconteceu.

Sherwood Anderson, escritor célebre e admirador de Hemingway, convenceu o novo colega de que seu lugar não estava na Itália mas em Paris, onde Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce pontificavam e a “geração perdida” buscava conquistar o seu espaço. Hemingway e Hadley trocaram as liras economizadas por francos e partiram para a Cidade Luz, onde foram residir num minúsculo apartamento situado sobre uma serraria. Ali o escritor deu a arrancada na direção no Prêmio Nobel, coroando uma das mais belas carreiras das letras universais.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/09/2018 às 13h13 | e.atha@terra.com.br



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