Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

GARIMPEIRO DAS LETRAS

Iaponan Soares foi incansável pesquisador de nossa literatura. Nem havia eu estreado em livro, no início dos anos 70, e já andava ele a publicar ensaios e organizar antologias, atividades que continuou a exercitar com permanente dedicação. Garimpeiro das letras, sempre com a bateia entre as mãos, removendo o leito sedimentado por onde se espraiam as letras catarinenses, procurando afastar o cascalho e extrair algumas pepitas que, depois de lapidadas, recolheu ao arcaz em cujos gavetões guardou as preciosidades. Cada um de seus livros é um deles, repleto de achados que vai exibindo ao leitor com a satisfação de quem põe à mostra seus guardados.

Em um desses gavetões, isto é, em livro publicado, são incontáveis os achados que exibe aos curiosos das coisas da literatura e da vida literária no chão catarinense. “Virgílio Várzea & Outros”, tendo como subtítulo “Literatura e Vida Literária em Santa Catarina no Século XIX e início do Século XX” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2002) é um conjunto de ensaios breves, mas nem por isso fáceis ou simplistas, que desvendam um mundo de acontecimentos insuspeitados pelos catarinenses em geral, revelando a efervescência do meio cultual naquele período, às vezes turbulento, mas sempre curioso e rico, reavivando passagens importantes que poderiam se apagar da memória histórica não fosse o faro desse faiscador sem cansaço. Graças a ele, detalhes incontáveis estão a salvo da inclemência do tempo e do esquecimento.

Abrindo o desfile, surge Virgílio Várzea, aquele que mereceu a mais volumosa abordagem. Nessas páginas a ele dedicadas o ensaísta se debruçou sobre a história e a ficção na obra do escritor, o recurso da memória, o desaparecimento da musa, a influência de Eça de Queirós, com quem teria tentado uma aproximação, o mistério reinante sobre o livro “Miudezas” e o sabor da aventura que cerca “O Brigue Flibusteiro”, apontado como um dos melhores livros do ano em que foi publicado. O tema desse romance chegou ao conhecimento do autor no período em que ele viajou por três anos pelos oceanos Atlântico e Índico, integrando a tripulação de um navio espanhol. Merece destaque a página que recorda a polêmica entre novos e velhos, através dos jornais, em conseqüência da qual Eduardo Nunes Pires tentou “a todo custo, socar pela boca do jovem Virgílio Várzea o recorte do jornal que estampava os versos provocativos” (Pág. 36). O episódio teve ampla repercussão, pontilhando a “guerrilha literária” que eclodiu como uma espécie de Questão Coimbrã desterrense. Naqueles dias os embates de ideias incendiavam os corações e, às vezes, levavam até ao desafio para duelos. Hoje só haveria o encolher de ombros da indiferença.

O gaúcho Raul Bopp, celebrado poeta de “Cobra Norato”, conquista espaço no livro por conta de um poema que escreveu sobre a Ilha – “Florianóspi”, - um “registro lírico da capital catarinense em 1928” (Pág. 71), cujo texto é transcrito na íntegra. O poema, no entanto, foi eliminado da obra pelo próprio autor. É que, dizia ele, “teria sido mal interpretado por algumas pessoas que naqueles versos só encontraram um deliberado propósito de ridicularizar a terra e a gente catarinense. E para não ferir mais suscetibilidades, “Florianóspi” foi retirado de circulação...” (Pág. 73). O poema nada tem de ofensivo, é antes uma peça impressionista do que o autor sentiu, mas a censura da opinião pública surtiu efeito.

Curiosas também foram as relações de Araújo Figueredo (sem i) com o espiritismo. Segundo o ensaísta, mais que seus livros foram suas curas que o tornaram conhecido e amado pelos contemporâneos. As notícias dessas curas corriam de boca em boca e a casa do poeta se transformou num consultório onde ele dava conselhos e remédios, por isso cada vez mais concorrida, em especial pela gente pobre. Os poderes mediúnicos do poeta caíram na boca do povo, geraram estórias e lendas, provocaram denúncias à Saúde Pública e deram o tom pitoresco, alheio ao campo literário, à biografia do autor de “Madrigais” e “Ascetério.” Além de tudo, por pouco não foi fuzilado durante a Revolução de 93, tendo que buscar asilo em...Tijucas! Para lá fugiu, vestido de mulher, mas as perseguições não cessaram e foi forçado a retornar ao Desterro, onde sobreviveu com o disfarce de... mendigo! Desconheço páginas memorialistas escritas pelo poeta, mas a vida dele, sem dúvida, daria um romance.

Outros autores surgem no livro, abordados sob os mais variados e curiosos ângulos. Assim acontece com Oscar Rosas, Horácio de Carvalho, Duarte Schutel, os irmãos Nunes Pires, João Silveira de Sousa, Silva Mafra, Delminda Silveira, Carlos de Faria, Luís Delfino e outros tantos, inclusive os “três desterrados” – Carl Seidler, Josep Hoermeyer e José Mascarenhas. O segundo deles previu, em visão profética, um brilhante futuro para Itajaí, Joinville e a Ilha. Inúmeros outros aspectos e temas são tratados, tornando impossível focalizá-los a todos neste comentário.

Deixei para o final, muito a propósito, duas figuras estudadas no livro porque me são muito caras – Altino Flores e Othon D’Eça. Não conheci o primeiro em pessoa, mas comentei num jornal, na época do lançamento, seu livro “Sondagens Literárias.” Desde então nos tornamos amigos e por ocasião de uma malfadada candidatura ele, muito doente, enviou através da filha o recado de que me dava o apoio, o que muito me surpreendeu. Quanto ao segundo, exerceu atividades profissionais em minha terra, onde se tornou amigo de meu pai. Quando fui estudar em Florianópolis, eu o encontrava com freqüência e nessas ocasiões ele não se cansava de repetir que eu “parecia o Athanázio quando jovem”, referindo-se, é claro, a meu pai. Abraçava-me com emoção, revelando sempre sentida saudade do amigo de juventude. Fui depois seu aluno na Faculdade de Direito e, muitos anos mais tarde, prefaciei o livro “Aos Espanhóis Confinantes!”, de sua autoria, para a coleção das Obras Completas, editadas pela FCC (*). Em 2000, mais uma vez o acaso nos uniria: recebi o “Prêmio Othon D’Eça”, por ter sido eleito o escritor do ano pela Academia Catarinense de Letras.

Em “Uma conversa à margem do tempo”, Altino Flores aparece numa entrevista fictícia em que Iaponan Soares formula as perguntas e vai buscar as respostas na própria obra do autor, versando, acima de tudo, a crítica literária, da qual o entrevistado foi um militante constante e rigoroso. Mas ele se reporta também ao próprio pai, ao seu projeto de vida, ao jornalismo cultural, que exerceu por longo tempo, aos remanescentes do grupo de Cruz e Sousa, ao sucesso no campo das letras, à polêmica com o bispo D. Joaquim Domingues de Oliveira a respeito de Renan, de cujas ideias discordava, mas assumiu sua defesa ao vê-lo injustiçado, e, por fim, seu “evangelho” de crítico literário. “A minha reação ante as consagrações fáceis pode indicar tudo quanto quiserem os que por ela se sentem incomodados: mas as pessoas cultas e sensatas hão de reconhecer que ela representou sempre contraposta à apologia dos tolos e à vitória da petulância sobre o talento” – resumiu-se ele.(...) “A estimativa do mérito e do demérito (na literatura) começa no momento em que a carcaça do indivíduo é entregue à podridão tumular” (Pág. 53).

Afastando-se da vida pública, “distanciou-se também da vida literária catarinense, pela qual nunca mostrara a menor afeição. Enfarado do convívio mundano, recolheu-se entre os seus livros à espera da última viagem, num exílio voluntário só pouquíssimas vezes rompido” (Pág. 40). Erudito, culto, sensível, duro e justo nos seus julgamentos. Altino Flores foi um crítico como poucos. Sua projeção não foi mais ampla porque exercitava na Província o áspero ofício.

Em “Othon D’Eça, múltiplo”, Iaponan destaca vários aspectos desse intelectual que foi jurista, contista, memorialista, poeta, articulista, agitador cultural, professor e homem público. Mostra como ele “procurou a seu modo neutralizar junto aos confrades da Academia Catarinense de Letras o horror que as ideias modernistas lhes causavam. Gradativamente foi divulgando nesse espaço (suplemento “Letras e Artes”, do jornal O Estado, que dirigia) poemas dos modernistas menos radicais como Menotti Del Picchia, Ribeiro Couto, Caio de Melo Franco e outros” (Pág. 59). Também fazia observações sobre a arte moderna, em sua coluna, sem adesão incondicional, mas entendendo a mudança dos tempos. Sem sua atuação, é certo que o modernismo tardaria ainda mais a chegar nestas bandas.

Durante a Revolução Federalista sua família sofreu sérias perseguições, tendo o escritor perdido o avô e um tio, ambos fuzilados em Anhatomirim. A família fugiu para a Bahia, onde ele foi batizado. Essas passagens biográficas foram reveladas através de Cesário Braz, pseudônimo que usava em muitos escritos da época. Participou da obra coletiva “ No Mistério da Noite”, que obteve sucesso na imprensa do Desterro, sendo ele o co-autor que Iaponan identifica na letra “O”, sendo “T” de Tito Carvalho e “N” de Gustavo Neves, os outros autores (Pág. 65).

Episódios dos mais curiosos aconteciam, gerando atritos e polêmicas. Altino Flores, crítico literário, desentendeu-se muitas vezes com os medalhões da terra e até mesmo com seus companheiros de geração. Numa de suas crônicas fez comentários que Othon D’Eça julgou dirigidos a ele e se ofendeu, respondendo de forma agressiva no número seguinte, ameaçando o adversário de maneira violenta. Dias depois Altino Flores foi procurado por um emissário que lhe comunicou ter Othon D’Ela convidado a ele e a outro para padrinhos no duelo que travaria com Altino, escolhendo como arma a espada. O desafio provocou muito comentário e divertiu a valer todos que acompanhavam os incidentes, mas não passou disso. “Para tranquilidade de todos, o próprio desafiante, coração boníssimo, logo voltou para o Rio de Janeiro, onde concluía o curso de Direito e logo esqueceu tudo” (Pág. 68).

Concluindo, diria que o livro de Iaponan Soares é um inesgotável manancial de informações sobre nossa vida cultural, além de constituir um agradável exercício de boa leitura.

______________________________
(*) O prefácio foi publicado também em meu Livro “Adeus, Rangel!”, ensaios, Balneário Camboriú/SC, Editora Minarete, 1994.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/09/2018 às 12h48 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Iaponan Soares foi incansável pesquisador de nossa literatura. Nem havia eu estreado em livro, no início dos anos 70, e já andava ele a publicar ensaios e organizar antologias, atividades que continuou a exercitar com permanente dedicação. Garimpeiro das letras, sempre com a bateia entre as mãos, removendo o leito sedimentado por onde se espraiam as letras catarinenses, procurando afastar o cascalho e extrair algumas pepitas que, depois de lapidadas, recolheu ao arcaz em cujos gavetões guardou as preciosidades. Cada um de seus livros é um deles, repleto de achados que vai exibindo ao leitor com a satisfação de quem põe à mostra seus guardados.

Em um desses gavetões, isto é, em livro publicado, são incontáveis os achados que exibe aos curiosos das coisas da literatura e da vida literária no chão catarinense. “Virgílio Várzea & Outros”, tendo como subtítulo “Literatura e Vida Literária em Santa Catarina no Século XIX e início do Século XX” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2002) é um conjunto de ensaios breves, mas nem por isso fáceis ou simplistas, que desvendam um mundo de acontecimentos insuspeitados pelos catarinenses em geral, revelando a efervescência do meio cultual naquele período, às vezes turbulento, mas sempre curioso e rico, reavivando passagens importantes que poderiam se apagar da memória histórica não fosse o faro desse faiscador sem cansaço. Graças a ele, detalhes incontáveis estão a salvo da inclemência do tempo e do esquecimento.

Abrindo o desfile, surge Virgílio Várzea, aquele que mereceu a mais volumosa abordagem. Nessas páginas a ele dedicadas o ensaísta se debruçou sobre a história e a ficção na obra do escritor, o recurso da memória, o desaparecimento da musa, a influência de Eça de Queirós, com quem teria tentado uma aproximação, o mistério reinante sobre o livro “Miudezas” e o sabor da aventura que cerca “O Brigue Flibusteiro”, apontado como um dos melhores livros do ano em que foi publicado. O tema desse romance chegou ao conhecimento do autor no período em que ele viajou por três anos pelos oceanos Atlântico e Índico, integrando a tripulação de um navio espanhol. Merece destaque a página que recorda a polêmica entre novos e velhos, através dos jornais, em conseqüência da qual Eduardo Nunes Pires tentou “a todo custo, socar pela boca do jovem Virgílio Várzea o recorte do jornal que estampava os versos provocativos” (Pág. 36). O episódio teve ampla repercussão, pontilhando a “guerrilha literária” que eclodiu como uma espécie de Questão Coimbrã desterrense. Naqueles dias os embates de ideias incendiavam os corações e, às vezes, levavam até ao desafio para duelos. Hoje só haveria o encolher de ombros da indiferença.

O gaúcho Raul Bopp, celebrado poeta de “Cobra Norato”, conquista espaço no livro por conta de um poema que escreveu sobre a Ilha – “Florianóspi”, - um “registro lírico da capital catarinense em 1928” (Pág. 71), cujo texto é transcrito na íntegra. O poema, no entanto, foi eliminado da obra pelo próprio autor. É que, dizia ele, “teria sido mal interpretado por algumas pessoas que naqueles versos só encontraram um deliberado propósito de ridicularizar a terra e a gente catarinense. E para não ferir mais suscetibilidades, “Florianóspi” foi retirado de circulação...” (Pág. 73). O poema nada tem de ofensivo, é antes uma peça impressionista do que o autor sentiu, mas a censura da opinião pública surtiu efeito.

Curiosas também foram as relações de Araújo Figueredo (sem i) com o espiritismo. Segundo o ensaísta, mais que seus livros foram suas curas que o tornaram conhecido e amado pelos contemporâneos. As notícias dessas curas corriam de boca em boca e a casa do poeta se transformou num consultório onde ele dava conselhos e remédios, por isso cada vez mais concorrida, em especial pela gente pobre. Os poderes mediúnicos do poeta caíram na boca do povo, geraram estórias e lendas, provocaram denúncias à Saúde Pública e deram o tom pitoresco, alheio ao campo literário, à biografia do autor de “Madrigais” e “Ascetério.” Além de tudo, por pouco não foi fuzilado durante a Revolução de 93, tendo que buscar asilo em...Tijucas! Para lá fugiu, vestido de mulher, mas as perseguições não cessaram e foi forçado a retornar ao Desterro, onde sobreviveu com o disfarce de... mendigo! Desconheço páginas memorialistas escritas pelo poeta, mas a vida dele, sem dúvida, daria um romance.

Outros autores surgem no livro, abordados sob os mais variados e curiosos ângulos. Assim acontece com Oscar Rosas, Horácio de Carvalho, Duarte Schutel, os irmãos Nunes Pires, João Silveira de Sousa, Silva Mafra, Delminda Silveira, Carlos de Faria, Luís Delfino e outros tantos, inclusive os “três desterrados” – Carl Seidler, Josep Hoermeyer e José Mascarenhas. O segundo deles previu, em visão profética, um brilhante futuro para Itajaí, Joinville e a Ilha. Inúmeros outros aspectos e temas são tratados, tornando impossível focalizá-los a todos neste comentário.

Deixei para o final, muito a propósito, duas figuras estudadas no livro porque me são muito caras – Altino Flores e Othon D’Eça. Não conheci o primeiro em pessoa, mas comentei num jornal, na época do lançamento, seu livro “Sondagens Literárias.” Desde então nos tornamos amigos e por ocasião de uma malfadada candidatura ele, muito doente, enviou através da filha o recado de que me dava o apoio, o que muito me surpreendeu. Quanto ao segundo, exerceu atividades profissionais em minha terra, onde se tornou amigo de meu pai. Quando fui estudar em Florianópolis, eu o encontrava com freqüência e nessas ocasiões ele não se cansava de repetir que eu “parecia o Athanázio quando jovem”, referindo-se, é claro, a meu pai. Abraçava-me com emoção, revelando sempre sentida saudade do amigo de juventude. Fui depois seu aluno na Faculdade de Direito e, muitos anos mais tarde, prefaciei o livro “Aos Espanhóis Confinantes!”, de sua autoria, para a coleção das Obras Completas, editadas pela FCC (*). Em 2000, mais uma vez o acaso nos uniria: recebi o “Prêmio Othon D’Eça”, por ter sido eleito o escritor do ano pela Academia Catarinense de Letras.

Em “Uma conversa à margem do tempo”, Altino Flores aparece numa entrevista fictícia em que Iaponan Soares formula as perguntas e vai buscar as respostas na própria obra do autor, versando, acima de tudo, a crítica literária, da qual o entrevistado foi um militante constante e rigoroso. Mas ele se reporta também ao próprio pai, ao seu projeto de vida, ao jornalismo cultural, que exerceu por longo tempo, aos remanescentes do grupo de Cruz e Sousa, ao sucesso no campo das letras, à polêmica com o bispo D. Joaquim Domingues de Oliveira a respeito de Renan, de cujas ideias discordava, mas assumiu sua defesa ao vê-lo injustiçado, e, por fim, seu “evangelho” de crítico literário. “A minha reação ante as consagrações fáceis pode indicar tudo quanto quiserem os que por ela se sentem incomodados: mas as pessoas cultas e sensatas hão de reconhecer que ela representou sempre contraposta à apologia dos tolos e à vitória da petulância sobre o talento” – resumiu-se ele.(...) “A estimativa do mérito e do demérito (na literatura) começa no momento em que a carcaça do indivíduo é entregue à podridão tumular” (Pág. 53).

Afastando-se da vida pública, “distanciou-se também da vida literária catarinense, pela qual nunca mostrara a menor afeição. Enfarado do convívio mundano, recolheu-se entre os seus livros à espera da última viagem, num exílio voluntário só pouquíssimas vezes rompido” (Pág. 40). Erudito, culto, sensível, duro e justo nos seus julgamentos. Altino Flores foi um crítico como poucos. Sua projeção não foi mais ampla porque exercitava na Província o áspero ofício.

Em “Othon D’Eça, múltiplo”, Iaponan destaca vários aspectos desse intelectual que foi jurista, contista, memorialista, poeta, articulista, agitador cultural, professor e homem público. Mostra como ele “procurou a seu modo neutralizar junto aos confrades da Academia Catarinense de Letras o horror que as ideias modernistas lhes causavam. Gradativamente foi divulgando nesse espaço (suplemento “Letras e Artes”, do jornal O Estado, que dirigia) poemas dos modernistas menos radicais como Menotti Del Picchia, Ribeiro Couto, Caio de Melo Franco e outros” (Pág. 59). Também fazia observações sobre a arte moderna, em sua coluna, sem adesão incondicional, mas entendendo a mudança dos tempos. Sem sua atuação, é certo que o modernismo tardaria ainda mais a chegar nestas bandas.

Durante a Revolução Federalista sua família sofreu sérias perseguições, tendo o escritor perdido o avô e um tio, ambos fuzilados em Anhatomirim. A família fugiu para a Bahia, onde ele foi batizado. Essas passagens biográficas foram reveladas através de Cesário Braz, pseudônimo que usava em muitos escritos da época. Participou da obra coletiva “ No Mistério da Noite”, que obteve sucesso na imprensa do Desterro, sendo ele o co-autor que Iaponan identifica na letra “O”, sendo “T” de Tito Carvalho e “N” de Gustavo Neves, os outros autores (Pág. 65).

Episódios dos mais curiosos aconteciam, gerando atritos e polêmicas. Altino Flores, crítico literário, desentendeu-se muitas vezes com os medalhões da terra e até mesmo com seus companheiros de geração. Numa de suas crônicas fez comentários que Othon D’Eça julgou dirigidos a ele e se ofendeu, respondendo de forma agressiva no número seguinte, ameaçando o adversário de maneira violenta. Dias depois Altino Flores foi procurado por um emissário que lhe comunicou ter Othon D’Ela convidado a ele e a outro para padrinhos no duelo que travaria com Altino, escolhendo como arma a espada. O desafio provocou muito comentário e divertiu a valer todos que acompanhavam os incidentes, mas não passou disso. “Para tranquilidade de todos, o próprio desafiante, coração boníssimo, logo voltou para o Rio de Janeiro, onde concluía o curso de Direito e logo esqueceu tudo” (Pág. 68).

Concluindo, diria que o livro de Iaponan Soares é um inesgotável manancial de informações sobre nossa vida cultural, além de constituir um agradável exercício de boa leitura.

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(*) O prefácio foi publicado também em meu Livro “Adeus, Rangel!”, ensaios, Balneário Camboriú/SC, Editora Minarete, 1994.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/09/2018 às 12h48 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.