Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A convivência das línguas

No magnífico livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos” (Editora Kelps – Goiânia – 2010), o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio faz a abordagem de um tema que me é muito caro, ainda que não fosse o assunto central de sua obra. Trata ele nesse tópico da convivência entre as línguas tupi e portuguesa no território nacional durante o regime colonial e a expansão da população, tanto na região norte como no sul. Segundo ele, a grande quantidade de pessoas que falavam o tupi ou tupinambá aumentava de tal forma que o governo chegou a baixar decretos (cartas régias), proibindo o uso do idioma nativo dos indígenas. Claro que terá sido uma medida inócua, uma vez que a língua é um fenômeno social e o uso do tupi só foi diminuindo à medida que os falantes do português foram ocupando o território e levando a sua fala. Por outro lado, o fato revela que a prática de proibir o uso de idiomas não é de hoje, tanto que voltou a acontecer durante a II Guerra Mundial em relação ao alemão. No entanto, nem o tupi e nem o alemão desapareceram.

Segundo o linguista, o tupi foi o idioma usado de maneira predominante nos contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII. A consequência desse prolongado contato foi a incorporação de considerável número de palavras tupis para designar aves, peixes, locais e nomes próprios de pessoas. “É notável a quantidade de lugares – diz ele – com nomes de origem tupinambá, quase sem alteração de pronúncia, muitos deles dados pelos luso-brasileiros dos séculos passados a localidades onde nunca viveram índios tupinambás.” Isso me faz lembrar de certo índio, personagem de um conto, que não se conformava com o frequente “roubo” das palavras indígenas pelos brancos. Dizia ele que estes não tinham imaginação para criar os próprios nomes e por isso se apropriavam dos indígenas.

Lembra o ensaísta que a primeira gramática da língua tupi (nheengatu) se deve ao padre jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Era a mais falada na costa do Brasil.

Segundo ele, baseado em intensa pesquisa, o português muito se enriqueceu com um grande número de vocábulos de origem tupi. Alguns exemplos: arapuca, babaquara, beiju, caboclo, caipira, carapina, cuia, embira, jacá, jirau, jururu, maracá, mingau, pamonha, peroba, peteca, pipoca, quicé, tapioca, tocaia. Há muitas criações novas, como os verbos capinar, cutucar, empipocar, espocar, pitar, sapecar. São numerosos os nomes de animais, plantas, topônimos e alguns nomes próprios, entre os quais Jandira, como se chama minha cara-metade.

Aspecto curioso é que vocábulos de origem tupi estão presentes em muitas expressões populares do português brasileiro, como informa o autor, citando os seguintes casos: meter a mão em cumbuca, deixar de nhenhenhém, ficar jururu, puxar pelo guatambu, dar abraço de tamanduá, estourar a sapucaia, ficar de butuca, não dar importância a porandubas, remexer coivara, deixar a pereba criar casca. Como se vê, algumas mais conhecidas por aqui e outras em diferentes lugares.

Conclui-se que, muitas vezes, imaginando se expressar em refinada linguagem europeia, estamos usando a fala indígena dos brasileiros autóctones, um dos três formadores de nossa etnia.

Talvez fosse coerente a campanha do Major Policarpo Quaresma, célebre personagem do genial escritor carioca Lima Barreto, pela adoção do tupi como língua nacional em lugar do português importado da Europa. Com esse objetivo enviou petições aos órgãos do governo e batalhou pelos meios ao seu alcance. Foi hostilizado e ridicularizado, não obteve sucesso e, por ironia do destino, acabou fuzilado, ainda que por outros motivos. Mas o tupi continua vivo nas páginas dos linguistas como o Prof. Adovaldo, é usado no dia a dia pelos índios remanescentes e por todos nós quando utilizamos palavras e expressões “furtadas” dos nossos irmãos índígenas.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2018 às 14h33 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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A convivência das línguas

No magnífico livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos” (Editora Kelps – Goiânia – 2010), o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio faz a abordagem de um tema que me é muito caro, ainda que não fosse o assunto central de sua obra. Trata ele nesse tópico da convivência entre as línguas tupi e portuguesa no território nacional durante o regime colonial e a expansão da população, tanto na região norte como no sul. Segundo ele, a grande quantidade de pessoas que falavam o tupi ou tupinambá aumentava de tal forma que o governo chegou a baixar decretos (cartas régias), proibindo o uso do idioma nativo dos indígenas. Claro que terá sido uma medida inócua, uma vez que a língua é um fenômeno social e o uso do tupi só foi diminuindo à medida que os falantes do português foram ocupando o território e levando a sua fala. Por outro lado, o fato revela que a prática de proibir o uso de idiomas não é de hoje, tanto que voltou a acontecer durante a II Guerra Mundial em relação ao alemão. No entanto, nem o tupi e nem o alemão desapareceram.

Segundo o linguista, o tupi foi o idioma usado de maneira predominante nos contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII. A consequência desse prolongado contato foi a incorporação de considerável número de palavras tupis para designar aves, peixes, locais e nomes próprios de pessoas. “É notável a quantidade de lugares – diz ele – com nomes de origem tupinambá, quase sem alteração de pronúncia, muitos deles dados pelos luso-brasileiros dos séculos passados a localidades onde nunca viveram índios tupinambás.” Isso me faz lembrar de certo índio, personagem de um conto, que não se conformava com o frequente “roubo” das palavras indígenas pelos brancos. Dizia ele que estes não tinham imaginação para criar os próprios nomes e por isso se apropriavam dos indígenas.

Lembra o ensaísta que a primeira gramática da língua tupi (nheengatu) se deve ao padre jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Era a mais falada na costa do Brasil.

Segundo ele, baseado em intensa pesquisa, o português muito se enriqueceu com um grande número de vocábulos de origem tupi. Alguns exemplos: arapuca, babaquara, beiju, caboclo, caipira, carapina, cuia, embira, jacá, jirau, jururu, maracá, mingau, pamonha, peroba, peteca, pipoca, quicé, tapioca, tocaia. Há muitas criações novas, como os verbos capinar, cutucar, empipocar, espocar, pitar, sapecar. São numerosos os nomes de animais, plantas, topônimos e alguns nomes próprios, entre os quais Jandira, como se chama minha cara-metade.

Aspecto curioso é que vocábulos de origem tupi estão presentes em muitas expressões populares do português brasileiro, como informa o autor, citando os seguintes casos: meter a mão em cumbuca, deixar de nhenhenhém, ficar jururu, puxar pelo guatambu, dar abraço de tamanduá, estourar a sapucaia, ficar de butuca, não dar importância a porandubas, remexer coivara, deixar a pereba criar casca. Como se vê, algumas mais conhecidas por aqui e outras em diferentes lugares.

Conclui-se que, muitas vezes, imaginando se expressar em refinada linguagem europeia, estamos usando a fala indígena dos brasileiros autóctones, um dos três formadores de nossa etnia.

Talvez fosse coerente a campanha do Major Policarpo Quaresma, célebre personagem do genial escritor carioca Lima Barreto, pela adoção do tupi como língua nacional em lugar do português importado da Europa. Com esse objetivo enviou petições aos órgãos do governo e batalhou pelos meios ao seu alcance. Foi hostilizado e ridicularizado, não obteve sucesso e, por ironia do destino, acabou fuzilado, ainda que por outros motivos. Mas o tupi continua vivo nas páginas dos linguistas como o Prof. Adovaldo, é usado no dia a dia pelos índios remanescentes e por todos nós quando utilizamos palavras e expressões “furtadas” dos nossos irmãos índígenas.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2018 às 14h33 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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