Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Lampião: a verdade e o mito

Poucas figuras da história nacional são tão presentes no imaginário popular como Virgulino Ferreira da Silva, o célebre cangaceiro Lampião. Na literatura, na televisão, no cinema e na imprensa, ele é sempre lembrado por este ou aquele motivo. Incontáveis ensaios apontando sua faceta positiva ou negativa são publicados com frequência, mostrando que o chefe bandoleiro continua instigando a imaginação e a curiosidade dos pesquisadores. E não é por menos, uma vez que ele chegou a ser considerado o rei do cangaço e dominou um território tão extenso que propôs ao governador de Pernambuco dividir o Estado, ficando ele como chefe absoluto de todo o sertão.

Entre os trabalhos mais recentes a respeito de Lampião está o relato “Vem de longe...”, de autoria de Jurandy Temóteo, publicado no livro do mesmo nome (A Província Editora – CE – 2018). Nesse trabalho, o autor tece um conto explorando a teoria ou o mito de que o cangaceiro não morreu na Grota do Angico como afirma a versão oficial. Esse tipo de especulação costuma acontecer com algumas celebridades cujos admiradores se recusam a admitir suas mortes. Aconteceu também com Elvis Presley, como muitas pessoas devem se lembrar.

Tudo tem início quando o celeiro Raimundo, pernambucano, aparece na Fazenda Ponta da Serra, de propriedade de “seu” Britim, pedindo socorro. Vinha de muito longe, caminhando durante a noite para não ser visto, e tinha um feio inchaço protegido por uma atadura improvisada. Recolhido à casa dos cereais e alimentando, ele relata que estava numa missão sigilosa, buscando um tesouro deixado por Lampião, seu patrão e amigo, enterrado ao pé de uma grande árvore para marcar o lugar. Tratava-se de um imenso carregamento de armas e munições suficiente para enfrentar um batalhão. Diante do espanto do ouvinte, ele afirma que Lampião estava vivo e forte. A morte do cangaceiro era uma mentira propalada aos quatro ventos e agora seria revelada porque a verdade precisa ser dita.

“Na verdade, dizia Zé Ferreira, meu avô, com toda firmeza, aquilo foi invenção para vender jornais e revistas, tudo soprado pela polícia. Os “macacos” levaram muito dinheiro, ouro e pedras preciosas de Lampião, mas nem chegaram a trocar tiros, pois meu padrinho tinha sido avisado do que ia acontecer e lá não ficou. Os que morreram em Angico eram de um pequeno bando que em 1938 já estava desmembrado. Não tem fundamento - a não ser de enganar o povo – que Lampião e Maria Bonita estavam ali enfurnados com os outros cangaceiros naquela gruta apertada e com uma só saída.”

Segundo reiterados depoimentos, Lampião nunca permanecia em local onde houvesse uma só saída e nem permanecia por muito tempo no mesmo pouso. Esses detalhes contribuíram para levantar dúvidas.

Mas quem morreu em Angico e como agiram para demonstrar que se tratava do chefe cangaceiro, sua mulher e outros?

“Quem morreu no lugar de Lampião foi o ladrão de cavalo Zé do Sapo, por ter um olho cego (como Lampião) – prossegue o narrador. – E no lugar de Maria Bonita foi um jovem muito parecido com ela. É bom lembrar também que os “macacos” não mostraram os corpos pois as cabeças foram todas decepadas. E, mesmo assim, o povo só podia ver, muito depois do acontecido, de longe, separados por uma corda; e o fedor era muito grande pois as cabeças estavam em adiantado estado de podridão.”

Dizia-se também que após o massacre os policiais foram obrigados a jurar, sob pena de morte, que guardariam perpétuo silêncio sobre os fatos. E assim teria sido forjada a falsa notícia.

E Lampião, que foi feito dele?

Lépido e lampeiro, tratou de andar e andar, segundo recomendava seu conselheiro, o cangaceiro Sinhô Pereira. Permaneceu escondido por cerca de seis meses nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso, região que conhecia muito bem desde que fora empregado do coronel Delmiro Gouveia. Dali, rumou para o Piauí, onde nunca praticara o cangaço, escondendo-se numa fazenda de Santa Luzia e usando o codinome de Policarpo Lima, até 1942. Bem armado e acompanhado pelo guarda-costas Benedito Moura de Araújo, seguiu para Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde permaneceu por tempo indeterminado. Em penosas caminhadas noturnas, cercado do maior sigilo, foi margeando o rio São Francisco e afundou no alto sertão mineiro. Desde então as notícias sobre ele foram raras. Em 1945 teria sido visto em Januária mas não esquentava lugar, sempre trocando de nome. Entregava-se à venda de gado e terras, além do cultivo de roças de subsistência. Continuava valente mas evitando envolvimento em qualquer confusão.. Na imensidão do Estado mineiro, oculto e bem guarnecido, deve ter vivido sua última fase de vida. Como outros ex-cangaceiros, a exemplo de Moreno, encontrou guarida nas montanhas e nas matas das Gerais.

Afirmando que se louvou em fontes fidedignas, o autor lembra as palavras do personagem: “Essa história vem de longe, antes mesmo de você nascer. Durante todos esses anos a mentira vem sendo repetida como se fosse a verdade. . .A verdade precisa ser dita para nunca mais ser enterrada.”

O trabalho de Jurandy Temóteo é um prato cheio para os admiradores dos temas relacionados ao cangaço. Contribui, sem dúvida, para manter viva a memória de Lampião e suas inigualáveis proezas.

Escrito por Enéas Athanázio, 01/10/2018 às 11h02 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Lampião: a verdade e o mito

Poucas figuras da história nacional são tão presentes no imaginário popular como Virgulino Ferreira da Silva, o célebre cangaceiro Lampião. Na literatura, na televisão, no cinema e na imprensa, ele é sempre lembrado por este ou aquele motivo. Incontáveis ensaios apontando sua faceta positiva ou negativa são publicados com frequência, mostrando que o chefe bandoleiro continua instigando a imaginação e a curiosidade dos pesquisadores. E não é por menos, uma vez que ele chegou a ser considerado o rei do cangaço e dominou um território tão extenso que propôs ao governador de Pernambuco dividir o Estado, ficando ele como chefe absoluto de todo o sertão.

Entre os trabalhos mais recentes a respeito de Lampião está o relato “Vem de longe...”, de autoria de Jurandy Temóteo, publicado no livro do mesmo nome (A Província Editora – CE – 2018). Nesse trabalho, o autor tece um conto explorando a teoria ou o mito de que o cangaceiro não morreu na Grota do Angico como afirma a versão oficial. Esse tipo de especulação costuma acontecer com algumas celebridades cujos admiradores se recusam a admitir suas mortes. Aconteceu também com Elvis Presley, como muitas pessoas devem se lembrar.

Tudo tem início quando o celeiro Raimundo, pernambucano, aparece na Fazenda Ponta da Serra, de propriedade de “seu” Britim, pedindo socorro. Vinha de muito longe, caminhando durante a noite para não ser visto, e tinha um feio inchaço protegido por uma atadura improvisada. Recolhido à casa dos cereais e alimentando, ele relata que estava numa missão sigilosa, buscando um tesouro deixado por Lampião, seu patrão e amigo, enterrado ao pé de uma grande árvore para marcar o lugar. Tratava-se de um imenso carregamento de armas e munições suficiente para enfrentar um batalhão. Diante do espanto do ouvinte, ele afirma que Lampião estava vivo e forte. A morte do cangaceiro era uma mentira propalada aos quatro ventos e agora seria revelada porque a verdade precisa ser dita.

“Na verdade, dizia Zé Ferreira, meu avô, com toda firmeza, aquilo foi invenção para vender jornais e revistas, tudo soprado pela polícia. Os “macacos” levaram muito dinheiro, ouro e pedras preciosas de Lampião, mas nem chegaram a trocar tiros, pois meu padrinho tinha sido avisado do que ia acontecer e lá não ficou. Os que morreram em Angico eram de um pequeno bando que em 1938 já estava desmembrado. Não tem fundamento - a não ser de enganar o povo – que Lampião e Maria Bonita estavam ali enfurnados com os outros cangaceiros naquela gruta apertada e com uma só saída.”

Segundo reiterados depoimentos, Lampião nunca permanecia em local onde houvesse uma só saída e nem permanecia por muito tempo no mesmo pouso. Esses detalhes contribuíram para levantar dúvidas.

Mas quem morreu em Angico e como agiram para demonstrar que se tratava do chefe cangaceiro, sua mulher e outros?

“Quem morreu no lugar de Lampião foi o ladrão de cavalo Zé do Sapo, por ter um olho cego (como Lampião) – prossegue o narrador. – E no lugar de Maria Bonita foi um jovem muito parecido com ela. É bom lembrar também que os “macacos” não mostraram os corpos pois as cabeças foram todas decepadas. E, mesmo assim, o povo só podia ver, muito depois do acontecido, de longe, separados por uma corda; e o fedor era muito grande pois as cabeças estavam em adiantado estado de podridão.”

Dizia-se também que após o massacre os policiais foram obrigados a jurar, sob pena de morte, que guardariam perpétuo silêncio sobre os fatos. E assim teria sido forjada a falsa notícia.

E Lampião, que foi feito dele?

Lépido e lampeiro, tratou de andar e andar, segundo recomendava seu conselheiro, o cangaceiro Sinhô Pereira. Permaneceu escondido por cerca de seis meses nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso, região que conhecia muito bem desde que fora empregado do coronel Delmiro Gouveia. Dali, rumou para o Piauí, onde nunca praticara o cangaço, escondendo-se numa fazenda de Santa Luzia e usando o codinome de Policarpo Lima, até 1942. Bem armado e acompanhado pelo guarda-costas Benedito Moura de Araújo, seguiu para Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde permaneceu por tempo indeterminado. Em penosas caminhadas noturnas, cercado do maior sigilo, foi margeando o rio São Francisco e afundou no alto sertão mineiro. Desde então as notícias sobre ele foram raras. Em 1945 teria sido visto em Januária mas não esquentava lugar, sempre trocando de nome. Entregava-se à venda de gado e terras, além do cultivo de roças de subsistência. Continuava valente mas evitando envolvimento em qualquer confusão.. Na imensidão do Estado mineiro, oculto e bem guarnecido, deve ter vivido sua última fase de vida. Como outros ex-cangaceiros, a exemplo de Moreno, encontrou guarida nas montanhas e nas matas das Gerais.

Afirmando que se louvou em fontes fidedignas, o autor lembra as palavras do personagem: “Essa história vem de longe, antes mesmo de você nascer. Durante todos esses anos a mentira vem sendo repetida como se fosse a verdade. . .A verdade precisa ser dita para nunca mais ser enterrada.”

O trabalho de Jurandy Temóteo é um prato cheio para os admiradores dos temas relacionados ao cangaço. Contribui, sem dúvida, para manter viva a memória de Lampião e suas inigualáveis proezas.

Escrito por Enéas Athanázio, 01/10/2018 às 11h02 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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