Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Heróis e Bandidos

O escritor alemão Karl May (1842/1912) foi um dos autores mais lidos no Brasil, em especial pela juventude. Suas obras, traduzidas, eram publicadas pela Editora Globo, de Porto Alegre, em primorosas coleções encadernadas e ilustradas por desenhistas de renome. Produziu grande quantidade de livros de aventuras ambientadas em diversas regiões do planeta e envolvendo incontáveis personagens que se tornaram célebres, entre os quais se destacavam Winnetou, o poderoso cacique apache, Mão de Ferro, capaz de matar com um simples soco, Mão de Fogo, dono de temida espingarda milagrosa, Tia Droll, estranhíssima figura de bandoleiro que se vestia de mulher, Assef, o “servo” que portava um nome quilométrico e fazia questão dele, além de um esquisito lorde inglês viciado em apostas e um caçador que se expressava em versos rimados. O próprio narrador às vezes se travestia em herói, adotando posturas de grande valentia, habilidade e inteligência sem par. Dizia-se que Karl May escreveu suas obras sem sair da Alemanha, baseado em mapas e livros de viagens, mas é uma meia verdade porque, embora não tenha viajado muito, conheceu vários países onde colheu abundante material para seus escritos. De qualquer forma, impressiona a quantidade e a exatidão dos detalhes que descreve a respeito do relevo, da flora, da fauna, do clima, da rede fluvial, dos caminhos, das línguas e dialetos locais e tudo o mais.

Karl May escrevia de maneira simples e clara e era preciso nas suas descrições. É curioso observar que usava a segunda pessoa do singular, o que torna a leitura um tanto estranha para os brasileiros em geral, em especial nos diálogos. Eles, por sinal, são quase sempre longos e minuciosos, mesmo em momentos cruciais, fato que os deixa às vezes um tanto inverossímeis. Comparados aos textos mais modernos, seus escritos deixam a impressão de necessitar de rigorosa “poda.”

Os índios, muito presentes em suas histórias, são descritos como seres nobres, de caráter irretocável e de atitudes rigorosamente éticas. Os negros, no entanto, não merecem realce; são apenas “os negros” ou “o negro”, inominados, sem quaisquer detalhes. Por vezes, no entanto, afloram passagens que revelam arraigados preconceitos, como se verifica nas aventuras ambientadas no Oeste americano. Em certa passagem, referindo-se a um espetáculo, escreveu: “Os dois índios não haviam sido consultados se queriam tomar parte nele. Não era de bom tom que se admitisse dois índios entre um grupo constituído unicamente de senhoras e cavalheiros...” Mais adiante: “Um negro, que trabalhava na casa das máquinas do navio, não pode resistir à curiosidade e aproximou-se da jaula. O capitão, que o observava, ordenou-lhe que fosse pegar imediatamente o seu trabalho. Como o negro não obedecesse em seguida, o capitão deu-lhe alguns golpes com um cabo que segurava nas mãos.” Em outra passagem, após ter salvo uma menina do afogamento, pequeno índio é tratado como “gato sarnoso.” Quando alguém afirma que o território americano pertencia aos índios e que eles deveriam ser respeitados, outro retruca: “Hum! É verdade o que estás dizendo. Mas os vermelhos devem desaparecer, devem extinguir-se. Esse é o seu destino!” Ainda, em outro ponto: “Mão de Fogo dividiu estes peles-vermelhas, outrora tão soberbos e agora degenerados, em dois grupos.” Mais adiante, diz um oficial: “Não tem senso os brancos admitirem que os índios lhes façam propostas”, significando que com os indígenas nem sequer poderia haver negociação alguma. Outras tantas passagens poderiam ser lembradas.

Winnetou, chefe dos apaches, é aureolado de todas as virtudes. É que ele se aliou aos brancos. Uma espécie cacique Condá norte-americano. Aliás, impressiona a quantidade de subtribos pertencentes aos apaches e que o escritor levantou uma por uma.

Em todas as oportunidades, em especial nos encontros de compatriotas, a superioridade da raça alemã é sempre ressaltada.

Dois aspectos também chamam a atenção: a extrema violência e o permanente propósito de vingança.

Eliminar, esfaquear, atocaiar, apunhalar, estrangular, enforcar, tirotear, escalpelar são expressões correntes. Cenas de inaudita violência aparecem descritas em minúcia, não faltando as horrendas torturas praticadas contra os inimigos amarrados nos “postes dos martírios.” Cortar orelhas e narizes, manter os inimigos com pés e mãos amarrados e impedidos de articular por apertadas mordaças são cenas corriqueiras. Também acontecia ser estipulado prêmio por inimigo morto; “Estes sujeitos não são guerreiros com os quais se possa lutar honradamente, mas são cães sarnentos que se devem matar a chicotadas” – afirma Mão de Fogo em certa situação. Os inimigos são sempre cães e quanto mais odiosos maiores tormentos deverão padecer.

A vingança, por outro lado, é uma prática impositiva entre os índios. Ofensa grave exige vingança e, quanto mais dolorosa, melhor. É a forma de lavar a alma da afronta recebida.

Dono de inesgotável imaginação, Karl May era capaz de estender suas narrativas por quinhentas páginas, desenrolando tropelias que se enlaçam uma na outra sem perder a sequência e envolvendo incontáveis personagens e lugares.

Relido com os olhos de hoje, não me parece que, do ponto de vista pedagógico, os livros do escritor alemão sejam os mais indicados para a juventude. Por outro lado, se comparados a certos filmes e programas televisivos exibidos nos dias atuais, não contêm nada de incomum.

A verdade, porém, é que suas histórias fascinavam os jovens leitores e também os adultos. As figuras criadas pelo plácido alemão, no conforto do seu gabinete, em plena Alemanha, ganharam o mundo e os corações das pessoas. Com a curiosidade de que foi maniqueísta na construção dos personagens; ou eram bons e puros como os verdadeiros heróis, sem qualquer laivo de maldade, ou eram maus, sem a menor réstia de bondade. Herói é herói, bandido é bandido.

Dizia-se que ele foi o escritor predileto de Hitler, mas não posso afirmar que não se trate de lenda. Também informam seus biógrafos que, no final da vida, foi perturbado por processos que lhe moveram pessoas simplórias alegando ter praticado na vida real fatos descritos em suas obras envolvendo crimes e atos menos abonadores.

Embora pouco lembrado, Karl Friedrich May cativa com suas longas e minuciosas narrativas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/10/2018 às 09h50 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O escritor alemão Karl May (1842/1912) foi um dos autores mais lidos no Brasil, em especial pela juventude. Suas obras, traduzidas, eram publicadas pela Editora Globo, de Porto Alegre, em primorosas coleções encadernadas e ilustradas por desenhistas de renome. Produziu grande quantidade de livros de aventuras ambientadas em diversas regiões do planeta e envolvendo incontáveis personagens que se tornaram célebres, entre os quais se destacavam Winnetou, o poderoso cacique apache, Mão de Ferro, capaz de matar com um simples soco, Mão de Fogo, dono de temida espingarda milagrosa, Tia Droll, estranhíssima figura de bandoleiro que se vestia de mulher, Assef, o “servo” que portava um nome quilométrico e fazia questão dele, além de um esquisito lorde inglês viciado em apostas e um caçador que se expressava em versos rimados. O próprio narrador às vezes se travestia em herói, adotando posturas de grande valentia, habilidade e inteligência sem par. Dizia-se que Karl May escreveu suas obras sem sair da Alemanha, baseado em mapas e livros de viagens, mas é uma meia verdade porque, embora não tenha viajado muito, conheceu vários países onde colheu abundante material para seus escritos. De qualquer forma, impressiona a quantidade e a exatidão dos detalhes que descreve a respeito do relevo, da flora, da fauna, do clima, da rede fluvial, dos caminhos, das línguas e dialetos locais e tudo o mais.

Karl May escrevia de maneira simples e clara e era preciso nas suas descrições. É curioso observar que usava a segunda pessoa do singular, o que torna a leitura um tanto estranha para os brasileiros em geral, em especial nos diálogos. Eles, por sinal, são quase sempre longos e minuciosos, mesmo em momentos cruciais, fato que os deixa às vezes um tanto inverossímeis. Comparados aos textos mais modernos, seus escritos deixam a impressão de necessitar de rigorosa “poda.”

Os índios, muito presentes em suas histórias, são descritos como seres nobres, de caráter irretocável e de atitudes rigorosamente éticas. Os negros, no entanto, não merecem realce; são apenas “os negros” ou “o negro”, inominados, sem quaisquer detalhes. Por vezes, no entanto, afloram passagens que revelam arraigados preconceitos, como se verifica nas aventuras ambientadas no Oeste americano. Em certa passagem, referindo-se a um espetáculo, escreveu: “Os dois índios não haviam sido consultados se queriam tomar parte nele. Não era de bom tom que se admitisse dois índios entre um grupo constituído unicamente de senhoras e cavalheiros...” Mais adiante: “Um negro, que trabalhava na casa das máquinas do navio, não pode resistir à curiosidade e aproximou-se da jaula. O capitão, que o observava, ordenou-lhe que fosse pegar imediatamente o seu trabalho. Como o negro não obedecesse em seguida, o capitão deu-lhe alguns golpes com um cabo que segurava nas mãos.” Em outra passagem, após ter salvo uma menina do afogamento, pequeno índio é tratado como “gato sarnoso.” Quando alguém afirma que o território americano pertencia aos índios e que eles deveriam ser respeitados, outro retruca: “Hum! É verdade o que estás dizendo. Mas os vermelhos devem desaparecer, devem extinguir-se. Esse é o seu destino!” Ainda, em outro ponto: “Mão de Fogo dividiu estes peles-vermelhas, outrora tão soberbos e agora degenerados, em dois grupos.” Mais adiante, diz um oficial: “Não tem senso os brancos admitirem que os índios lhes façam propostas”, significando que com os indígenas nem sequer poderia haver negociação alguma. Outras tantas passagens poderiam ser lembradas.

Winnetou, chefe dos apaches, é aureolado de todas as virtudes. É que ele se aliou aos brancos. Uma espécie cacique Condá norte-americano. Aliás, impressiona a quantidade de subtribos pertencentes aos apaches e que o escritor levantou uma por uma.

Em todas as oportunidades, em especial nos encontros de compatriotas, a superioridade da raça alemã é sempre ressaltada.

Dois aspectos também chamam a atenção: a extrema violência e o permanente propósito de vingança.

Eliminar, esfaquear, atocaiar, apunhalar, estrangular, enforcar, tirotear, escalpelar são expressões correntes. Cenas de inaudita violência aparecem descritas em minúcia, não faltando as horrendas torturas praticadas contra os inimigos amarrados nos “postes dos martírios.” Cortar orelhas e narizes, manter os inimigos com pés e mãos amarrados e impedidos de articular por apertadas mordaças são cenas corriqueiras. Também acontecia ser estipulado prêmio por inimigo morto; “Estes sujeitos não são guerreiros com os quais se possa lutar honradamente, mas são cães sarnentos que se devem matar a chicotadas” – afirma Mão de Fogo em certa situação. Os inimigos são sempre cães e quanto mais odiosos maiores tormentos deverão padecer.

A vingança, por outro lado, é uma prática impositiva entre os índios. Ofensa grave exige vingança e, quanto mais dolorosa, melhor. É a forma de lavar a alma da afronta recebida.

Dono de inesgotável imaginação, Karl May era capaz de estender suas narrativas por quinhentas páginas, desenrolando tropelias que se enlaçam uma na outra sem perder a sequência e envolvendo incontáveis personagens e lugares.

Relido com os olhos de hoje, não me parece que, do ponto de vista pedagógico, os livros do escritor alemão sejam os mais indicados para a juventude. Por outro lado, se comparados a certos filmes e programas televisivos exibidos nos dias atuais, não contêm nada de incomum.

A verdade, porém, é que suas histórias fascinavam os jovens leitores e também os adultos. As figuras criadas pelo plácido alemão, no conforto do seu gabinete, em plena Alemanha, ganharam o mundo e os corações das pessoas. Com a curiosidade de que foi maniqueísta na construção dos personagens; ou eram bons e puros como os verdadeiros heróis, sem qualquer laivo de maldade, ou eram maus, sem a menor réstia de bondade. Herói é herói, bandido é bandido.

Dizia-se que ele foi o escritor predileto de Hitler, mas não posso afirmar que não se trate de lenda. Também informam seus biógrafos que, no final da vida, foi perturbado por processos que lhe moveram pessoas simplórias alegando ter praticado na vida real fatos descritos em suas obras envolvendo crimes e atos menos abonadores.

Embora pouco lembrado, Karl Friedrich May cativa com suas longas e minuciosas narrativas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/10/2018 às 09h50 | e.atha@terra.com.br



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