Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Senhor das Letras

Com esse título, o escritor Eric Nepomuceno publicou um perfil do jornalista e escritor Antonio Callado, uma das mais brilhantes figuras da literatura brasileira do século passado. Jornalista intrépido, Callado realizou notáveis coberturas da II Guerra Mundial, muitas delas do próprio fronte de combate, além de ter sido apresentador da BBC, em Londres, durante aquele conflito internacional. Também no Brasil realizou reportagens marcantes, afundando nos sertões inóspitos e desconhecidos para bem retratar a realidade. Andou pelo Xingu, tendo contribuído para a criação do parque, e palmilhou os caminhos percorridos pelo célebre Coronel Fawcett para tentar desvendar o mistério de seu desaparecimento. Tinha especial interesse por tudo que diz respeito aos índios, tendo eles e sua cultura inspirado um de seus melhores livros, o “Quarup.” Foi um dos raros jornalistas ocidentais a entrar no Vietnã do Norte.

Entre outras coisas, diz Nepomuceno, Callado era conhecido pela elegância. “Nelson Rodrigues dizia que ele era ‘o único inglês da vida real.’ Além da elegância, também era conhecido pelo seu humor ágil, fino e certeiro. (...) Caminhava falando consigo mesmo; caminhava escrevendo. Vivendo. Porque Callado foi desses escritores que escreviam o que tinham vivido, ou dos que vivem o que vão escrever algum dia.”

Mais adiante: “Era um homem de fala mansa, suave, firme. Só se alterava quando falava das mazelas do Brasil e dos vazios do mundo daquele fim de século passado. Indignava-se contra a injustiça, a miséria, os abismos sociais que faziam – e em boa medida ainda fazem – do Brasil um país de desiguais.”

Bacharel em Direito, Callado jamais exerceu a advocacia. Nunca quis saber de computador. Começava escrevendo à mão e depois passava para a máquina de escrever, usando os dez dedos, como os grandes datilógrafos de então.

Nos seus desabafos em face da situação do país, dizia-se desanimado de ver o Brasil como país de primeira linha; parecia destinado a ser para todo o sempre um país marginal, de segunda linha. Tendo falecido em 1997, ele foi poupado de ver as barbaridades que depois disso se descobriram.

A crítica literária Lígia Chiappini, por sua vez, afirma que Callado era dotado de “uma vocação empenhada”, ou seja, engajado nas suas ideias em tudo que escrevia.

Entre os diversos romances que escreveu, destaca-se “A Madona de Cedro”, cuja leitura, depois de muito tempo, me levou a estas considerações. Nesse romance, o personagem central é induzido a furtar uma imagem em Congonhas do Campo, a pedido de um intermediário do indivíduo que negociava imagens sacras furtadas. Houve um período em que tais furtos se tornaram frequentes, acreditando que isso inspirou o romancista. Depois de cair nas garras do negociante e seu agente, o personagem pena por longos treze anos o remorso pelo que havia feito. No entanto, quando solicitado a perpetrar novo furto, rebelou-se e se submeteu à mais estranha das penitências, percorrendo as ruas da cidade com uma cruz nas costas.

É instigante a forma como Callado descreve o drama psicológico do personagem, penetrando no mais íntimo de sua alma, até encontrar o meio de purgar o grave pecado cometido. Também se evidencia o conhecimento que o romancista tinha da região, da cidade e do conjunto das obras do Aleijadinho e de mestre Ataíde. É um romance absorvente, merecedor dos aplausos que tem recebido da melhor crítica desde sua publicação.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/10/2018 às 11h47 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Enéas Athanázio
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Com esse título, o escritor Eric Nepomuceno publicou um perfil do jornalista e escritor Antonio Callado, uma das mais brilhantes figuras da literatura brasileira do século passado. Jornalista intrépido, Callado realizou notáveis coberturas da II Guerra Mundial, muitas delas do próprio fronte de combate, além de ter sido apresentador da BBC, em Londres, durante aquele conflito internacional. Também no Brasil realizou reportagens marcantes, afundando nos sertões inóspitos e desconhecidos para bem retratar a realidade. Andou pelo Xingu, tendo contribuído para a criação do parque, e palmilhou os caminhos percorridos pelo célebre Coronel Fawcett para tentar desvendar o mistério de seu desaparecimento. Tinha especial interesse por tudo que diz respeito aos índios, tendo eles e sua cultura inspirado um de seus melhores livros, o “Quarup.” Foi um dos raros jornalistas ocidentais a entrar no Vietnã do Norte.

Entre outras coisas, diz Nepomuceno, Callado era conhecido pela elegância. “Nelson Rodrigues dizia que ele era ‘o único inglês da vida real.’ Além da elegância, também era conhecido pelo seu humor ágil, fino e certeiro. (...) Caminhava falando consigo mesmo; caminhava escrevendo. Vivendo. Porque Callado foi desses escritores que escreviam o que tinham vivido, ou dos que vivem o que vão escrever algum dia.”

Mais adiante: “Era um homem de fala mansa, suave, firme. Só se alterava quando falava das mazelas do Brasil e dos vazios do mundo daquele fim de século passado. Indignava-se contra a injustiça, a miséria, os abismos sociais que faziam – e em boa medida ainda fazem – do Brasil um país de desiguais.”

Bacharel em Direito, Callado jamais exerceu a advocacia. Nunca quis saber de computador. Começava escrevendo à mão e depois passava para a máquina de escrever, usando os dez dedos, como os grandes datilógrafos de então.

Nos seus desabafos em face da situação do país, dizia-se desanimado de ver o Brasil como país de primeira linha; parecia destinado a ser para todo o sempre um país marginal, de segunda linha. Tendo falecido em 1997, ele foi poupado de ver as barbaridades que depois disso se descobriram.

A crítica literária Lígia Chiappini, por sua vez, afirma que Callado era dotado de “uma vocação empenhada”, ou seja, engajado nas suas ideias em tudo que escrevia.

Entre os diversos romances que escreveu, destaca-se “A Madona de Cedro”, cuja leitura, depois de muito tempo, me levou a estas considerações. Nesse romance, o personagem central é induzido a furtar uma imagem em Congonhas do Campo, a pedido de um intermediário do indivíduo que negociava imagens sacras furtadas. Houve um período em que tais furtos se tornaram frequentes, acreditando que isso inspirou o romancista. Depois de cair nas garras do negociante e seu agente, o personagem pena por longos treze anos o remorso pelo que havia feito. No entanto, quando solicitado a perpetrar novo furto, rebelou-se e se submeteu à mais estranha das penitências, percorrendo as ruas da cidade com uma cruz nas costas.

É instigante a forma como Callado descreve o drama psicológico do personagem, penetrando no mais íntimo de sua alma, até encontrar o meio de purgar o grave pecado cometido. Também se evidencia o conhecimento que o romancista tinha da região, da cidade e do conjunto das obras do Aleijadinho e de mestre Ataíde. É um romance absorvente, merecedor dos aplausos que tem recebido da melhor crítica desde sua publicação.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/10/2018 às 11h47 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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