Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

UM COELHO PROLÍFICO

Tenho observado, ao longo do tempo, que a vida literária nacional parece se guiar por ondas ou ciclos. Algum escritor permanece esquecido por anos e até décadas e, de repente, assim sem mais, volta ao cenário e sobre ele surgem matérias de toda ordem. É o que acontece com Coelho Netto (Henrique Maximiano – 1864/1934), sobre quem tenho encontrado notas em variados veículos da imprensa sem qualquer motivo aparente.

Coelho Netto foi um dos escritores mais famosos do país, verdadeira celebridade na segunda metade do Século XIX e nas primeiras décadas do Século XX. Estava em permanente evidência em virtude do sucesso de sua obra literária: romances, contos, crônicas e peças teatrais encenadas nos palcos do Rio de Janeiro e de outras cidades contando sempre com a generosa acolhida do público. Integrava o grupo de Olavo Bilac, Medeiros e Albuquerque, Paula Nei, Aluisio Azevedo, Afrânio Peixoto e outros escritores de grande fama, aclamados onde chegavam. Ocupou vários cargos, foi deputado federal, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Posicionou-se em favor da abolição da escravatura. Acima de tudo, porém, produziu uma obra espantosa pela quantidade e pela qualidade, celebrada pela melhor crítica e pelo avultado número de leitores. Segundo seus biógrafos, publicou 2ll livros, sem falar no que ficou inédito, incompleto ou desaparecido, e artigos jornalísticos em profusão sobre os mais variados temas. Considerando que na época se escrevia à mão, impressiona o tempo que deve ter consumido escrevendo e escrevendo. No entanto, viveu apenas 70 anos, pouco mais que a média de vida da época. Sua obra obteve traduções em 11 idiomas. Para completar, teve nada menos que 14 filhos. Não fugindo à regra, foi um Coelho dos mais prolíficos, em todos os sentidos, se me perdoam pelo infame trocadilho.

Seguindo a onda que surgiu em favor dele, reli, depois de muitos anos, um de seus mais celebrados romances: “Turbilhão”. Publicado em 1864, mereceu uma edição alusiva ao centenário, em 1964, ano fatídico da história nacional, publicada pelas Edições O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand. É um volume encorpado (300 páginas), estampando a figura do Autor em bico-de-pena muito conhecido, com os cabelos à escovinha, o basto bigode e a fisionomia de homem sisudo.

O romance se desenrola em torno de poucos personagens e algumas figuras fugidias que nem chegam a se mostrar por completo. Dona Júlia, o filho solteiro, Paulo, a filha, também solteira, Violante, moça muito linda e sensual, e a empregada Felícia. Em segundo plano surgem o malandro Mamede, sua companheira Ritinha, um tio irascível e algumas vizinhas mal debuxadas e sem nome. Família pobre, morando em casa de aluguel, vivendo da pensão deixada pelo pai, militar de carreira. A vida transcorria sem tropeços e também sem emoções, até que sobrevèm o inesperado: Violante desaparece sem deixar rastro. E então tudo se altera e o equilíbrio familiar entra em crise. Paulo perde o emprego, junta-se a Mamede, cai na boemia e no jogo; Felícia, a empregada, enlouquece; Dona Júlia, depois de muito padecer, acaba falecendo. O núcleo familiar, antes organizado e feliz, é sacudido por um turbilhão. Só Violante, cada vez mais bela, tem uma vida de luxo e riqueza à custa de seus amantes.

Tudo isso, aqui resumido em poucas palavras, acontece devagar, em marcha lenta, sem pressa ou açodamento, como se o Autor dispusesse da eternidade. As cenas se desenham com minúcia ao longo de muitas páginas. Uma simples corrida de bonde pela cidade permite ao personagem observar a arquitetura das construções, as árvores e flores das praças, os nomes das ruas e as cenas urbanas. Semelha um roteiro turístico pelo Rio de Janeiro de antanho.

Coelho Netto foi exaltado como grande estilista, dono de uma linguagem precisa e opulenta. No seu texto, cada palavra entra no local exato, como pequena peça de um grande mecanismo. Adepto do “le mot juste” das escolas de seu tempo, buscava sempre o vocábulo preciso e que só poderia ser aquele para significar com extrema exatidão o pensamento do Autor. Além disso, dominava um vocabulário tão vasto e rico que foi considerado um verdadeiro dicionário ambulante.

Por outro lado, certos aspectos parecem desconectados aos dias de hoje. Mulato, negro, velho, por exemplo, são termos usados com naturalidade, refletindo no fundo preconceitos dominantes na época. Pessoas com 48 ou 50 anos de idade eram rotuladas de velhas e como tais tratadas.

Impressiona a riqueza vocabular do Autor. Como é natural, muitos vocábulos são hoje pouco usados e outros tantos caídos em total esquecimento. Numa rápida passagem pelo texto do romance podem-se encontrar os seguintes: ilhargas, estrincando, enclavinhados, crebras, retroar, gorgorejo, esgalgado, abacabado, tressuante, panegirista, estremunho, caixotins, cavadamente, besuntado, assoalha, marinonis, inculcam etc. etc. É apenas uma pequena mostra.

A leitura de Coelho Netto é um exercício que exige atenção mas compensa pela riqueza do linguajar e pela beleza literária, cada vez mais raras nestes tempos, e pela penetração psicológica com que analisa os personagens. Além disso, foi muito mais que um escritor, foi toda uma literatura, como afirmou com razão Humberto de Campos.

____________________________
Tenho lido com prazer os artigos de autoria do Prof. M. Paulo Nunes, publicados no jornal “Diário do Povo do Piauí”, de Teresina, e no “Jornal da ANE”, de Brasília. Um dos mais respeitados críticos literários da atualidade, ele é dono de invulgar cultura clássica e arguto analista das obras focalizadas. Em interessante série, vem abordando a vida e a obra de Graciliano Ramos, assuntos que revela dominar de maneira íntima e segura. “Uma entrevista do Velho Graça” e “Cartas de amor de Graciliano”, os últimos que li, são textos memoráveis. Meus parabéns ao mestre piauiense!

Escrito por Enéas Athanázio, 29/10/2018 às 12h18 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Tenho observado, ao longo do tempo, que a vida literária nacional parece se guiar por ondas ou ciclos. Algum escritor permanece esquecido por anos e até décadas e, de repente, assim sem mais, volta ao cenário e sobre ele surgem matérias de toda ordem. É o que acontece com Coelho Netto (Henrique Maximiano – 1864/1934), sobre quem tenho encontrado notas em variados veículos da imprensa sem qualquer motivo aparente.

Coelho Netto foi um dos escritores mais famosos do país, verdadeira celebridade na segunda metade do Século XIX e nas primeiras décadas do Século XX. Estava em permanente evidência em virtude do sucesso de sua obra literária: romances, contos, crônicas e peças teatrais encenadas nos palcos do Rio de Janeiro e de outras cidades contando sempre com a generosa acolhida do público. Integrava o grupo de Olavo Bilac, Medeiros e Albuquerque, Paula Nei, Aluisio Azevedo, Afrânio Peixoto e outros escritores de grande fama, aclamados onde chegavam. Ocupou vários cargos, foi deputado federal, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Posicionou-se em favor da abolição da escravatura. Acima de tudo, porém, produziu uma obra espantosa pela quantidade e pela qualidade, celebrada pela melhor crítica e pelo avultado número de leitores. Segundo seus biógrafos, publicou 2ll livros, sem falar no que ficou inédito, incompleto ou desaparecido, e artigos jornalísticos em profusão sobre os mais variados temas. Considerando que na época se escrevia à mão, impressiona o tempo que deve ter consumido escrevendo e escrevendo. No entanto, viveu apenas 70 anos, pouco mais que a média de vida da época. Sua obra obteve traduções em 11 idiomas. Para completar, teve nada menos que 14 filhos. Não fugindo à regra, foi um Coelho dos mais prolíficos, em todos os sentidos, se me perdoam pelo infame trocadilho.

Seguindo a onda que surgiu em favor dele, reli, depois de muitos anos, um de seus mais celebrados romances: “Turbilhão”. Publicado em 1864, mereceu uma edição alusiva ao centenário, em 1964, ano fatídico da história nacional, publicada pelas Edições O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand. É um volume encorpado (300 páginas), estampando a figura do Autor em bico-de-pena muito conhecido, com os cabelos à escovinha, o basto bigode e a fisionomia de homem sisudo.

O romance se desenrola em torno de poucos personagens e algumas figuras fugidias que nem chegam a se mostrar por completo. Dona Júlia, o filho solteiro, Paulo, a filha, também solteira, Violante, moça muito linda e sensual, e a empregada Felícia. Em segundo plano surgem o malandro Mamede, sua companheira Ritinha, um tio irascível e algumas vizinhas mal debuxadas e sem nome. Família pobre, morando em casa de aluguel, vivendo da pensão deixada pelo pai, militar de carreira. A vida transcorria sem tropeços e também sem emoções, até que sobrevèm o inesperado: Violante desaparece sem deixar rastro. E então tudo se altera e o equilíbrio familiar entra em crise. Paulo perde o emprego, junta-se a Mamede, cai na boemia e no jogo; Felícia, a empregada, enlouquece; Dona Júlia, depois de muito padecer, acaba falecendo. O núcleo familiar, antes organizado e feliz, é sacudido por um turbilhão. Só Violante, cada vez mais bela, tem uma vida de luxo e riqueza à custa de seus amantes.

Tudo isso, aqui resumido em poucas palavras, acontece devagar, em marcha lenta, sem pressa ou açodamento, como se o Autor dispusesse da eternidade. As cenas se desenham com minúcia ao longo de muitas páginas. Uma simples corrida de bonde pela cidade permite ao personagem observar a arquitetura das construções, as árvores e flores das praças, os nomes das ruas e as cenas urbanas. Semelha um roteiro turístico pelo Rio de Janeiro de antanho.

Coelho Netto foi exaltado como grande estilista, dono de uma linguagem precisa e opulenta. No seu texto, cada palavra entra no local exato, como pequena peça de um grande mecanismo. Adepto do “le mot juste” das escolas de seu tempo, buscava sempre o vocábulo preciso e que só poderia ser aquele para significar com extrema exatidão o pensamento do Autor. Além disso, dominava um vocabulário tão vasto e rico que foi considerado um verdadeiro dicionário ambulante.

Por outro lado, certos aspectos parecem desconectados aos dias de hoje. Mulato, negro, velho, por exemplo, são termos usados com naturalidade, refletindo no fundo preconceitos dominantes na época. Pessoas com 48 ou 50 anos de idade eram rotuladas de velhas e como tais tratadas.

Impressiona a riqueza vocabular do Autor. Como é natural, muitos vocábulos são hoje pouco usados e outros tantos caídos em total esquecimento. Numa rápida passagem pelo texto do romance podem-se encontrar os seguintes: ilhargas, estrincando, enclavinhados, crebras, retroar, gorgorejo, esgalgado, abacabado, tressuante, panegirista, estremunho, caixotins, cavadamente, besuntado, assoalha, marinonis, inculcam etc. etc. É apenas uma pequena mostra.

A leitura de Coelho Netto é um exercício que exige atenção mas compensa pela riqueza do linguajar e pela beleza literária, cada vez mais raras nestes tempos, e pela penetração psicológica com que analisa os personagens. Além disso, foi muito mais que um escritor, foi toda uma literatura, como afirmou com razão Humberto de Campos.

____________________________
Tenho lido com prazer os artigos de autoria do Prof. M. Paulo Nunes, publicados no jornal “Diário do Povo do Piauí”, de Teresina, e no “Jornal da ANE”, de Brasília. Um dos mais respeitados críticos literários da atualidade, ele é dono de invulgar cultura clássica e arguto analista das obras focalizadas. Em interessante série, vem abordando a vida e a obra de Graciliano Ramos, assuntos que revela dominar de maneira íntima e segura. “Uma entrevista do Velho Graça” e “Cartas de amor de Graciliano”, os últimos que li, são textos memoráveis. Meus parabéns ao mestre piauiense!

Escrito por Enéas Athanázio, 29/10/2018 às 12h18 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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