Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

HEMINGWAY: OS ANOS DE PARIS

Poucos escritores da moderna literatura fascinam os estudiosos como o americano Ernest Hemingway (1899/1961). Mesmo tendo desaparecido há mais de meio século, são frequentes as obras a respeito dele e de sua obra. É um caso raro em que a vida pessoal do escritor foi uma permanente aventura, tão ou mais movimentada que sua própria produção literária. Exemplo bem ilustrativo é o romance “Casados com Paris”, de Paula McLain, publicado pela Editora Nova Fronteira (Rio – 2011).

Embora seja obra de ficção, o livro é fiel aos fatos conhecidos e documentados, abordando os começos da carreira literária do escritor na Paris dos chamados anos loucos de 1920, período em que integrou a célebre geração perdida, assim apelidada por Gertrude Stein. Nessa altura Hemingway já havia sido ferido na Itália, na I Guerra Mundial, e sagrado herói, condecorado por bravura, além de ser rejeitado pela enfermeira Agnes von Kurowski, por quem se apaixonara durante o tratamento no hospital. Voltando a Oak Park, perto de Chicago, e recebido como celebridade, acabou se casando com Hadley Richardson, uma solteirona bonita e oito anos mais velha que ele. Induzido pelo escritor Sherwood Anderson, vai com a esposa para Paris e ali tem início a árdua luta em busca de estilo próprio e da realização de uma obra. Foi um período duro, repleto de dificuldades e frustrações, trabalhando como um desesperado e, nas horas vagas, convivendo com figuras como Gertrude Stein, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, John dos Passos, Ford Madox Ford, Sylvia Beach e tantos outros, numa fase em que a capital francesa regurgitava de americanos expatriados.

Durante a narrativa a autora se coloca na pele de Hadley, a esposa do escritor, e relata os acontecimentos pela visão dela, situação que me parece única até agora em obras sobre o tema. “Minha intenção foi mergulhar mais fundo na vida emocional dos personagens e lançar uma nova luz sobre os acontecimentos históricos” – escreveu a autora (p. 334). E ela teve êxito, reconstruindo com fidelidade o ambiente reinante com todos seus abusos e excessos, as bebedeiras, os ciúmes, os dramas e as comédias, as viagens constantes, a inquietação, a batalha pessoal de cada um para impor sua arte. Nesse meio conturbado, lutando para salvar o casamento, uma instituição que parecia tão desacreditada, Hadley se transforma na “esposa de Paris”, observando alarmada e impotente a infiltração de outra mulher entre ela e o marido, pela qual seria trocada. No correr dos anos, a outra também seria trocada por outra e esta ainda por outra, uma vez que Hemigway teve quatro esposas.

Esposa dedicada, mãe do primeiro filho do escritor, Hadley tudo suportou com enorme paciência, submetendo-se a uma vida de limitações e privações sem conta enquanto ele lutava com as letras. Mas acabou vencida na concorrência com Pauline Pfeiffer, morena elegante e sofisticada, consultora de modas da “Vogue.” A separação e o divórcio foram inevitáveis e ela retornou com o filho aos Estados Unidos. Tempos depois casou com um jornalista e com ele viveu bem até o final de uma longa vida. Acompanhou à distância o sucesso mundial do ex-marido, suas conquistas literárias, inclusive o Prêmio Nobel, as aventuras, viagens, caçadas, touradas e guerras que cobriu para a imprensa. Tudo iniciando com o romance “O sol também se levanta”, escrito nos tempos em que viveram juntos e que abriu a ele as portas do sucesso. Nesse livro ele criava um estilo pessoal e inimitável, enxuto, seco, quase telegráfico.

Mas ele – concluiu a ex-esposa – foi infeliz no amor. Em sucessivos casamentos, buscou sempre a mulher dos sonhos e que talvez não existisse. Até que, em julho de 1961, vem a ligação comunicando que ele se suicidara com um tiro de espingarda. Tantos foram os fantasmas que se acumularam em sua cabeça que não conseguiu suportar. E desde então passou a viver em outro território – o do mito.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/11/2018 às 08h51 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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HEMINGWAY: OS ANOS DE PARIS

Poucos escritores da moderna literatura fascinam os estudiosos como o americano Ernest Hemingway (1899/1961). Mesmo tendo desaparecido há mais de meio século, são frequentes as obras a respeito dele e de sua obra. É um caso raro em que a vida pessoal do escritor foi uma permanente aventura, tão ou mais movimentada que sua própria produção literária. Exemplo bem ilustrativo é o romance “Casados com Paris”, de Paula McLain, publicado pela Editora Nova Fronteira (Rio – 2011).

Embora seja obra de ficção, o livro é fiel aos fatos conhecidos e documentados, abordando os começos da carreira literária do escritor na Paris dos chamados anos loucos de 1920, período em que integrou a célebre geração perdida, assim apelidada por Gertrude Stein. Nessa altura Hemingway já havia sido ferido na Itália, na I Guerra Mundial, e sagrado herói, condecorado por bravura, além de ser rejeitado pela enfermeira Agnes von Kurowski, por quem se apaixonara durante o tratamento no hospital. Voltando a Oak Park, perto de Chicago, e recebido como celebridade, acabou se casando com Hadley Richardson, uma solteirona bonita e oito anos mais velha que ele. Induzido pelo escritor Sherwood Anderson, vai com a esposa para Paris e ali tem início a árdua luta em busca de estilo próprio e da realização de uma obra. Foi um período duro, repleto de dificuldades e frustrações, trabalhando como um desesperado e, nas horas vagas, convivendo com figuras como Gertrude Stein, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, John dos Passos, Ford Madox Ford, Sylvia Beach e tantos outros, numa fase em que a capital francesa regurgitava de americanos expatriados.

Durante a narrativa a autora se coloca na pele de Hadley, a esposa do escritor, e relata os acontecimentos pela visão dela, situação que me parece única até agora em obras sobre o tema. “Minha intenção foi mergulhar mais fundo na vida emocional dos personagens e lançar uma nova luz sobre os acontecimentos históricos” – escreveu a autora (p. 334). E ela teve êxito, reconstruindo com fidelidade o ambiente reinante com todos seus abusos e excessos, as bebedeiras, os ciúmes, os dramas e as comédias, as viagens constantes, a inquietação, a batalha pessoal de cada um para impor sua arte. Nesse meio conturbado, lutando para salvar o casamento, uma instituição que parecia tão desacreditada, Hadley se transforma na “esposa de Paris”, observando alarmada e impotente a infiltração de outra mulher entre ela e o marido, pela qual seria trocada. No correr dos anos, a outra também seria trocada por outra e esta ainda por outra, uma vez que Hemigway teve quatro esposas.

Esposa dedicada, mãe do primeiro filho do escritor, Hadley tudo suportou com enorme paciência, submetendo-se a uma vida de limitações e privações sem conta enquanto ele lutava com as letras. Mas acabou vencida na concorrência com Pauline Pfeiffer, morena elegante e sofisticada, consultora de modas da “Vogue.” A separação e o divórcio foram inevitáveis e ela retornou com o filho aos Estados Unidos. Tempos depois casou com um jornalista e com ele viveu bem até o final de uma longa vida. Acompanhou à distância o sucesso mundial do ex-marido, suas conquistas literárias, inclusive o Prêmio Nobel, as aventuras, viagens, caçadas, touradas e guerras que cobriu para a imprensa. Tudo iniciando com o romance “O sol também se levanta”, escrito nos tempos em que viveram juntos e que abriu a ele as portas do sucesso. Nesse livro ele criava um estilo pessoal e inimitável, enxuto, seco, quase telegráfico.

Mas ele – concluiu a ex-esposa – foi infeliz no amor. Em sucessivos casamentos, buscou sempre a mulher dos sonhos e que talvez não existisse. Até que, em julho de 1961, vem a ligação comunicando que ele se suicidara com um tiro de espingarda. Tantos foram os fantasmas que se acumularam em sua cabeça que não conseguiu suportar. E desde então passou a viver em outro território – o do mito.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/11/2018 às 08h51 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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