Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A HISTÓRIA DO MUNDO

Godofredo Rangel (1884/1951), o amigo escrito de Monteiro Lobato, foi um dos mais festejados tradutores de sua época, vertendo do inglês, do francês e do italiano inúmeros livros que ficaram ao alcance do leitor brasileiro. Numa carta de 1941, a ele dirigida, Lobato assinalava que Rangel já havia traduzido 60 livros, mas, como continuou traduzindo até o fim de seus dias, é bem provável que tenha traduzido mais. O Dr. Nello Rangel, filho mais velho de Godofredo, afirmava que o pai havia traduzido uma centena de livros. Nas buscas que venho fazendo de longos anos e nas mais diferentes fontes só consegui arrolar 61 traduções, acreditando que esse seja o número real aproximado das traduções de Rangel. Muitos dos livros traduzidos são obras volumosas e complexas, o que revela o quanto de dedicação e esforço foram necessários para a realização de tão hercúlea tarefa.

Entre as traduções de Rangel está o livro “Pequena história do mundo para crianças”, de autoria do americano V. M. Hillyer, publicado pela Cia. Editora Nacional (S. Paulo – 1951), no ano em que o tradutor faleceu. Rangel, além de traduzir, adaptou a obra para o Brasil. Trata-se de uma raridade bibliográfica, dessas que os colecionadores disputam a tapas, e que me foi oferecida pelo lobatiano Trajano Pereira da Silva, de Taubaté. E foi um livro antigo que li com grande prazer.

Embora seja uma panorâmica da história universal, o livro contém inúmeros e interessantes detalhes. Mas a impressão dominante que fica da leitura é a de que os homens não se entendem e têm gasto seu tempo em permanentes conflitos. As guerras têm sido numerosas e cada vez mais sangrentas. Houve uma guerra de 100 anos, outra de 30, uma de 14, várias de sete, cinco, quatro três, dois e um. Houve várias instantâneas, mas não menos mortíferas, bem como declaradas e não declaradas, locais, regionais e mundiais. Pelo menos duas vezes esteve o mundo à beira da hecatombe nuclear que transformaria em pó esta velha Terra. Para os ataques se alegaram os mais absurdos pretextos. Exércitos monstruosos foram mantidos à custa do trabalho e do sacrifício de pobres populações espoliadas. E para quê? Para satisfazer a ganância e a ambição dos senhoreantes do momento. Em muitas delas os mais fortes se prevaleceram dos mais fracos, tal como acontece entre os indivíduos. Por essas e outras, diz o Autor que certas figuras históricas, cortejadas em sua época, foram mais prejudiciais à humanidade que meros ladrões e assassinos. Muitas roubaram no atacado e mataram em massa.

Por outro lado, os homens sempre viveram o pavor de seus medos. Os primitivos temiam os fenômenos naturais, que não sabiam explicar, como o sol, a lua, o raio, o trovão, o eclipse, o vento. Então os endeusavam, criando os mais estranhos deuses, alguns sanguinários e sedentos de bárbaros sacrifícios. Temiam os grandes animais e, mais ainda, os homens de outras tribos, com eles se atracando em lutas mortais e, quando venciam, os escravizavam ou devoravam em lautos festins canibalescos. Mais adiante, no correr dos tempos, passaram a temer o fim do mundo. Segundo o cálculo dos sábios, ele aconteceria no ano 1000 D. C. Todos se prepararam para o momento final, rezando, purgando seus pecados, realizando boas ações. Mas o ano fatídico chegou e nada aconteceu. Houve erro na contagem dos anos, alegaram os mesmos sábios, e o fim virá em breve. Certo e inapelável. No entanto, mais de mil anos volveram sobre os mil anteriores e o velho mundo continua a girar. Devastado, poluído, superlotado e violento, ainda não acabou. Mais adiante, já na fase das navegações, temiam o fim da Terra, que julgavam plana e com o mar terminando de repente num vazio onde os navios seriam tragados. Até que alguém, mais prático e observador, concluiu que a Terra era redonda, podendo ser circundada para voltar ao ponto de partida. E assim os medos foram se sucedendo, desaparecendo alguns e surgindo outros, mas sempre perturbando o sono dos viventes.

E hoje, que temem os homens? Muitas coisas, entre elas o câncer de próstata ou das mamas. Compungidos, humilhados, eles se submetem a sucessivas “dedadas”, que têm início por volta dos 45 anos, e a vexatórias vistorias dos seios e das partes pudendas. Temem os gráficos, tabelas, bolsas, PIB, SELIC, porcentagens e rendimentos. Qualquer queda inesperada pode destruir o trabalho de uma vida. E ainda temem os assaltantes e ladrões, entre estes os que roubam dentro da lei.

Para que, então, estudar a história? – indagará o leitor, com inteira razão. Para aprender com as experiências do passado e evitar os funestos erros cometidos. Mas, ao que parece, as lições não têm sido bem aprendidas.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2018 às 11h36 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A HISTÓRIA DO MUNDO

Godofredo Rangel (1884/1951), o amigo escrito de Monteiro Lobato, foi um dos mais festejados tradutores de sua época, vertendo do inglês, do francês e do italiano inúmeros livros que ficaram ao alcance do leitor brasileiro. Numa carta de 1941, a ele dirigida, Lobato assinalava que Rangel já havia traduzido 60 livros, mas, como continuou traduzindo até o fim de seus dias, é bem provável que tenha traduzido mais. O Dr. Nello Rangel, filho mais velho de Godofredo, afirmava que o pai havia traduzido uma centena de livros. Nas buscas que venho fazendo de longos anos e nas mais diferentes fontes só consegui arrolar 61 traduções, acreditando que esse seja o número real aproximado das traduções de Rangel. Muitos dos livros traduzidos são obras volumosas e complexas, o que revela o quanto de dedicação e esforço foram necessários para a realização de tão hercúlea tarefa.

Entre as traduções de Rangel está o livro “Pequena história do mundo para crianças”, de autoria do americano V. M. Hillyer, publicado pela Cia. Editora Nacional (S. Paulo – 1951), no ano em que o tradutor faleceu. Rangel, além de traduzir, adaptou a obra para o Brasil. Trata-se de uma raridade bibliográfica, dessas que os colecionadores disputam a tapas, e que me foi oferecida pelo lobatiano Trajano Pereira da Silva, de Taubaté. E foi um livro antigo que li com grande prazer.

Embora seja uma panorâmica da história universal, o livro contém inúmeros e interessantes detalhes. Mas a impressão dominante que fica da leitura é a de que os homens não se entendem e têm gasto seu tempo em permanentes conflitos. As guerras têm sido numerosas e cada vez mais sangrentas. Houve uma guerra de 100 anos, outra de 30, uma de 14, várias de sete, cinco, quatro três, dois e um. Houve várias instantâneas, mas não menos mortíferas, bem como declaradas e não declaradas, locais, regionais e mundiais. Pelo menos duas vezes esteve o mundo à beira da hecatombe nuclear que transformaria em pó esta velha Terra. Para os ataques se alegaram os mais absurdos pretextos. Exércitos monstruosos foram mantidos à custa do trabalho e do sacrifício de pobres populações espoliadas. E para quê? Para satisfazer a ganância e a ambição dos senhoreantes do momento. Em muitas delas os mais fortes se prevaleceram dos mais fracos, tal como acontece entre os indivíduos. Por essas e outras, diz o Autor que certas figuras históricas, cortejadas em sua época, foram mais prejudiciais à humanidade que meros ladrões e assassinos. Muitas roubaram no atacado e mataram em massa.

Por outro lado, os homens sempre viveram o pavor de seus medos. Os primitivos temiam os fenômenos naturais, que não sabiam explicar, como o sol, a lua, o raio, o trovão, o eclipse, o vento. Então os endeusavam, criando os mais estranhos deuses, alguns sanguinários e sedentos de bárbaros sacrifícios. Temiam os grandes animais e, mais ainda, os homens de outras tribos, com eles se atracando em lutas mortais e, quando venciam, os escravizavam ou devoravam em lautos festins canibalescos. Mais adiante, no correr dos tempos, passaram a temer o fim do mundo. Segundo o cálculo dos sábios, ele aconteceria no ano 1000 D. C. Todos se prepararam para o momento final, rezando, purgando seus pecados, realizando boas ações. Mas o ano fatídico chegou e nada aconteceu. Houve erro na contagem dos anos, alegaram os mesmos sábios, e o fim virá em breve. Certo e inapelável. No entanto, mais de mil anos volveram sobre os mil anteriores e o velho mundo continua a girar. Devastado, poluído, superlotado e violento, ainda não acabou. Mais adiante, já na fase das navegações, temiam o fim da Terra, que julgavam plana e com o mar terminando de repente num vazio onde os navios seriam tragados. Até que alguém, mais prático e observador, concluiu que a Terra era redonda, podendo ser circundada para voltar ao ponto de partida. E assim os medos foram se sucedendo, desaparecendo alguns e surgindo outros, mas sempre perturbando o sono dos viventes.

E hoje, que temem os homens? Muitas coisas, entre elas o câncer de próstata ou das mamas. Compungidos, humilhados, eles se submetem a sucessivas “dedadas”, que têm início por volta dos 45 anos, e a vexatórias vistorias dos seios e das partes pudendas. Temem os gráficos, tabelas, bolsas, PIB, SELIC, porcentagens e rendimentos. Qualquer queda inesperada pode destruir o trabalho de uma vida. E ainda temem os assaltantes e ladrões, entre estes os que roubam dentro da lei.

Para que, então, estudar a história? – indagará o leitor, com inteira razão. Para aprender com as experiências do passado e evitar os funestos erros cometidos. Mas, ao que parece, as lições não têm sido bem aprendidas.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2018 às 11h36 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.