Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Vidas perdidas

Com esse título, o escritor goiano Edmo Nunes acaba de publicar seu segundo romance (Editora Kelps – Goiânia – 2018). Trata-se de um enredo longo e minucioso ambientado nos confins goianos dos tempos de antanho, em pleno sertão bruto, abordando a saga da família de “seu” Olegar, fazendeiro que se fez à custa de trabalho árduo, persistência e inaudita coragem. A figura central, no entanto, e que toma para si as rédeas da narrativa é sua filha, Dina, mulher resoluta e forte, que acaba por dominar o cenário, não titubeando nem mesmo diante de atos de extrema violência.

Tudo tem início quando ela, moça muito linda e disputada na região, se apaixona por um certo Chico Mulato, boêmio incorrigível, violeiro e cantor sem paragem certa e inimigo declarado de qualquer trabalho. Contrariando a opinião geral e agindo com fria determinação, ela decide viver com ele em uma pequena fazenda pertencente ao pai, isolada de tudo, em pleno sertão, e sem as mínimas condições de conforto e segurança. Mal se instalam, o marido ganha o mundo e só aparece depois de longas ausências, permanecendo por alguns dias antes de nova ausência. É brutal no trato à mulher, exigente e arrogante, mas ela, de maneira surpreendente, a tudo se submete. Seguem-se anos de trabalho duro, cuidando sozinha da casa, lavrando e plantando para a subsistência e dando atenção aos filhos que vão nascendo. Descuidada de si mesma, vestida em molambos, suja e desgrenhada, ela trabalha, trabalha e trabalha. É uma submissão total aos caprichos de um marido vadio e grosseiro que chega a provocar a perplexidade do leitor diante de tanta carneirice. Até que um dia, não suportando mais, sobrevém a reação e ela elimina o malsinado Chico Mulato de maneira fria, calculada e precisa. Consumado o crime, toma dos filhos e da tralha e se transfere para a fazenda do pai, assumindo sua administração e guardando a sete chaves o segredo do desaparecimento do marido.

Tem início nova fase de uma vida difícil e sofrida. Cabe-lhe a direção da fazenda, tendo que cuidar do pai doente, de um irmão deficiente e das crianças. A morada é distante de tudo, isolada do mundo; as viagens são longas e penosas, em lombo de cavalo. A violência impera e tanto o pai, velho e doente, como os dois irmãos, são assassinados. Sobre eles recai a acusação de um duplo homicídio frio e cruel motivado por questões de divisas de terras. A própria Dina, por fim, acaba se envolvendo em projetos de vingança, eliminando o autor das mortes de seus familiares. É vítima, no momento da execução, de um ferimento que desfigura um dos lados de seu rosto. Não obstante, ela se empenha com toda determinação pela direção da família no sentido da paz e da harmonia, criando filhos honestos e trabalhadores. Carrega no peito, em silêncio, o peso da morte do marido e só descansa depois de uma confissão completa e espontânea à família e à autoridade. Mas tempo é remédio e os muitos anos decorridos impõem o esquecimento. Nenhuma providência é tomada contra ela e a mulher, enfim, pode suspirar, aliviada do peso que carregava na alma.

A trama é envolvente e a narrativa desperta a curiosidade do leitor pelos acontecimentos seguintes. Não há como largar o livro antes do final. No correr do texto o autor revela perfeito conhecimento do que descreve. Tudo lhe é familiar, desde a natureza selvagem do sertão até os costumes, a linguagem, os alimentos, s plantações, os animais e tudo mais. É um conhecimento feito de experiência própria, essencial à verossimilhança de uma narrativa do gênero. Por fim, o autor revela agudo senso de observação e memória impecável, o que faz de seu romance um documento completo da vida humana nos grotões arredios de civilização. Edmo Nunes está diplomado em romance.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/12/2018 às 19h27 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Enéas Athanázio
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Com esse título, o escritor goiano Edmo Nunes acaba de publicar seu segundo romance (Editora Kelps – Goiânia – 2018). Trata-se de um enredo longo e minucioso ambientado nos confins goianos dos tempos de antanho, em pleno sertão bruto, abordando a saga da família de “seu” Olegar, fazendeiro que se fez à custa de trabalho árduo, persistência e inaudita coragem. A figura central, no entanto, e que toma para si as rédeas da narrativa é sua filha, Dina, mulher resoluta e forte, que acaba por dominar o cenário, não titubeando nem mesmo diante de atos de extrema violência.

Tudo tem início quando ela, moça muito linda e disputada na região, se apaixona por um certo Chico Mulato, boêmio incorrigível, violeiro e cantor sem paragem certa e inimigo declarado de qualquer trabalho. Contrariando a opinião geral e agindo com fria determinação, ela decide viver com ele em uma pequena fazenda pertencente ao pai, isolada de tudo, em pleno sertão, e sem as mínimas condições de conforto e segurança. Mal se instalam, o marido ganha o mundo e só aparece depois de longas ausências, permanecendo por alguns dias antes de nova ausência. É brutal no trato à mulher, exigente e arrogante, mas ela, de maneira surpreendente, a tudo se submete. Seguem-se anos de trabalho duro, cuidando sozinha da casa, lavrando e plantando para a subsistência e dando atenção aos filhos que vão nascendo. Descuidada de si mesma, vestida em molambos, suja e desgrenhada, ela trabalha, trabalha e trabalha. É uma submissão total aos caprichos de um marido vadio e grosseiro que chega a provocar a perplexidade do leitor diante de tanta carneirice. Até que um dia, não suportando mais, sobrevém a reação e ela elimina o malsinado Chico Mulato de maneira fria, calculada e precisa. Consumado o crime, toma dos filhos e da tralha e se transfere para a fazenda do pai, assumindo sua administração e guardando a sete chaves o segredo do desaparecimento do marido.

Tem início nova fase de uma vida difícil e sofrida. Cabe-lhe a direção da fazenda, tendo que cuidar do pai doente, de um irmão deficiente e das crianças. A morada é distante de tudo, isolada do mundo; as viagens são longas e penosas, em lombo de cavalo. A violência impera e tanto o pai, velho e doente, como os dois irmãos, são assassinados. Sobre eles recai a acusação de um duplo homicídio frio e cruel motivado por questões de divisas de terras. A própria Dina, por fim, acaba se envolvendo em projetos de vingança, eliminando o autor das mortes de seus familiares. É vítima, no momento da execução, de um ferimento que desfigura um dos lados de seu rosto. Não obstante, ela se empenha com toda determinação pela direção da família no sentido da paz e da harmonia, criando filhos honestos e trabalhadores. Carrega no peito, em silêncio, o peso da morte do marido e só descansa depois de uma confissão completa e espontânea à família e à autoridade. Mas tempo é remédio e os muitos anos decorridos impõem o esquecimento. Nenhuma providência é tomada contra ela e a mulher, enfim, pode suspirar, aliviada do peso que carregava na alma.

A trama é envolvente e a narrativa desperta a curiosidade do leitor pelos acontecimentos seguintes. Não há como largar o livro antes do final. No correr do texto o autor revela perfeito conhecimento do que descreve. Tudo lhe é familiar, desde a natureza selvagem do sertão até os costumes, a linguagem, os alimentos, s plantações, os animais e tudo mais. É um conhecimento feito de experiência própria, essencial à verossimilhança de uma narrativa do gênero. Por fim, o autor revela agudo senso de observação e memória impecável, o que faz de seu romance um documento completo da vida humana nos grotões arredios de civilização. Edmo Nunes está diplomado em romance.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/12/2018 às 19h27 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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