Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A chave do mistério

Dimas Macedo, doublé de jurista e escritor, escreve como poucos e sabe prender o leitor. Tenho lido com prazer muitos de seus textos e acabo de me deliciar com “A Face do Enigma” (Imprece – Fortaleza – 2012), segunda edição da biografia e análise da obra de José Alcides Pinto (1923/2008), uma das figuras mais inteligentes e pitorescas do mundo literário. Sei de experiência própria o quanto é difícil o gênero biográfico, dificuldade que se agrava quando se trata de uma personalidade tão complexa como a do biografado, ainda por cima autor de uma obra vasta e diversificada que se espraia pela poesia, o romance, o conto, a novela, o teatro, o ensaio, a crítica literária e os textos variados a que denominou miscelânea. Parece não haver gênero que permaneceu alheio à curiosidade e à inquietação intelectual de José Alcides Pinto, cuja vida, por sinal, já constitui autêntica peça literária. Mas Dimas Macedo enfrentou e superou todos esses entraves, penetrou no mar de letras produzidas pelo seu biografado e compôs um texto delicioso, leve e repleto de informações.

Nascido nas brenhas do interior cearense, José Alcides Pinto teve a infância típica dos meninos do sertão. Perambulava pelos campos e pelas estradas, sonhava, inventava maneiras de enganar a monotonia. Já deveria estar inoculado pelo carnegão literário, eis que as letras parecem ter predileção pelos garotos das pequenas vilas. Graças a um protetor, andou por outros rincões e acabou em Fortaleza, a capital, onde já escrevia para a imprensa. Depois, tomado pelo ímpeto ambulatório, viajou para o Rio de Janeiro, fazendo uma prolongada escala no Recife. Ali se envolveu em manifestações socialistas e provou a cadeia, iniciando uma série de detenções por razões ideológicas. Naquele meio efervescente, lançou-se à campanha de Yedo Fiúza, candidato das esquerdas à presidência e, por outro lado, fez contato com escritores importantes, como Gilberto Freyre e Mauro Mota. A paixão pelo jornalismo e pela literatura, no entanto, o salvou da política e o período recifense foi significativo para sua formação intelectual. Já no Rio de Janeiro, entregou-se a mil atividades e teve toda sorte de experiências. Uma vida de gangorra, ora abrigado sob um teto seguro, ora dormindo ao relento em bancos de praças públicas. Mesmo assim estudou, ingressou no serviço público e retornou a Fortaleza como funcionário público federal. Mais tarde abandonaria o cargo para se tornar fazendeiro, entregando-se à administração da Fazenda “Terras do Dragão”, em Santana do Acaraú. Mais curioso ainda é que o socialista ardoroso da juventude se tornou um místico e passou a envergar, do dia para a noite e até o fim da vida, o hábito religioso dos franciscanos. “Com ele desfilou pelos espaços públicos de Fortaleza e Santana do Acaraú, aprofundando-se também na mística de Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, e adotando a oração e a renúncia como norma de vida” – escreveu o autor (p. 35).

Quanto à obra, parece inexistir caminho por onde sua inquietação não o tenha levado. Foi pioneiro e mentor do concretismo, mas também produziu poemas nos moldes tradicionais. Incursionou pelo fantástico, pelo surreal e pelo maravilhoso. Foi vanguardista e experimental. Praticou variados gêneros com criatividade incomum e produziu em quantidade sem jamais perder a qualidade. “Seria muito difícil ao crítico acompanhar a trajetória desse escritor multifacetado, cuja escritura abrange quase todos os gêneros literários”, mesmo porque “a literatura é o pano de fundo de sua própria existência, isto é, a arte literária em estado de realização humana e de mistério” (pp. 52 e 49). Como escreveu o grande Gilberto Amado, “concretismo, pós-surrealismo, qualquer que seja o rótulo, seus poemas rápidos, intensos, são poesia ressonante, reveladora de seu talento admirável” (p. 52).

Em síntese, José Alcides Pinto viveu com intensidade a vida do escritor e legou uma obra vasta e admirável. Com imenso trabalho e dedicação invulgar, Dimas Macedo realizou um excelente serviço para divulgar e preservar sua memória e forneceu a chave para desvendar o mistério de sua obra.

__________________________________

Tamara Kaufmann, escritora radicada em Balneário Camboriú, está publicando “Meu Livro”, alentado volume memorialístico que lhe custou longo e persistente trabalho (Editora Kayngangue – 2018).

Nascida na Rússia, a autora passou na Alemanha os anos da II Guerra Mundial em companhia da mãe, do padrasto e da irmã. Viveu os horrores dos bombardeios aéreos de Berlim, refugiando-se nos abrigos anteaéreos sem saber se sobreviveria ao minuto seguinte. O medo, a escassez de suprimentos, as privações e a fome os acompanhavam no dia a dia. Na busca desesperada de maior segurança, tentaram ingressar na Suíça, depois de caminharem centenas de quilômetros a pé, nas piores condições imagináveis, pedindo abrigo e alimentação em casas onde muitas vezes as portas lhes eram batidas na cara. O esforço foi inútil: não conseguiram varar a fronteira. Foram, então, para Munique, onde se viram internados num campo de concentração para refugiados. Depois de mil padecimentos, obtiveram autorização para emigrar para o Brasil graças à ajuda do governo americano. Embarcados em um lerdo e fumarento navio misto de passageiros e cargas, depois de uma viagem complicada, desembarcaram no Rio de Janeiro, onde também enfrentaram toda sorte de dificuldades, até que se transferiram para São Paulo e lá se fixaram.

Na capital paulista, vencendo todos os obstáculos, o preconceito, a barreira da língua desconhecida, a indiferença e tudo mais, trataram de procurar empregos e trabalhar em qualquer atividade, por modesta e humilhante que fosse. A autora se empenhou nas mais diversas ocupações, lutando para conquistar um lugar ao sol na terra estranha. Acabou se casando e viveu muitos anos de vida conjugal feliz, mas perdeu o marido e se viu sozinha. E então alguém a convidou a se transferir para uma pequena cidade praiana em busca de paz e tranquilidade. Assim se estabeleceu em Balneário Camboriú, iniciando nova fase de vida, toda dedicada à cultura e às letras.

O relato de Tamara é minucioso, documental, revelando uma pessoa organizada e dotada de excelente memória. É de uma sinceridade realista surpreendente, penetrando até mesmo nos mais íntimos detalhes. Fica a impressão de que ela está praticando uma catarse, talvez para se livrar de lembranças pouco agradáveis ao despejá-las no papel. Nisso, revela a mesma coragem com que enfrentou uma vida dura e sofrida.

Concluída a leitura, fico afirmando a mim mesmo que tudo aquilo que eu considerava sofrimento na minha vida pessoal não passa de brincadeira diante do que a autora padeceu. Também faz crescer minha admiração por alguém que viveu tudo aquilo, conseguiu apagar as marcas deixadas e construir uma vida normal.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2018 às 12h21 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Dimas Macedo, doublé de jurista e escritor, escreve como poucos e sabe prender o leitor. Tenho lido com prazer muitos de seus textos e acabo de me deliciar com “A Face do Enigma” (Imprece – Fortaleza – 2012), segunda edição da biografia e análise da obra de José Alcides Pinto (1923/2008), uma das figuras mais inteligentes e pitorescas do mundo literário. Sei de experiência própria o quanto é difícil o gênero biográfico, dificuldade que se agrava quando se trata de uma personalidade tão complexa como a do biografado, ainda por cima autor de uma obra vasta e diversificada que se espraia pela poesia, o romance, o conto, a novela, o teatro, o ensaio, a crítica literária e os textos variados a que denominou miscelânea. Parece não haver gênero que permaneceu alheio à curiosidade e à inquietação intelectual de José Alcides Pinto, cuja vida, por sinal, já constitui autêntica peça literária. Mas Dimas Macedo enfrentou e superou todos esses entraves, penetrou no mar de letras produzidas pelo seu biografado e compôs um texto delicioso, leve e repleto de informações.

Nascido nas brenhas do interior cearense, José Alcides Pinto teve a infância típica dos meninos do sertão. Perambulava pelos campos e pelas estradas, sonhava, inventava maneiras de enganar a monotonia. Já deveria estar inoculado pelo carnegão literário, eis que as letras parecem ter predileção pelos garotos das pequenas vilas. Graças a um protetor, andou por outros rincões e acabou em Fortaleza, a capital, onde já escrevia para a imprensa. Depois, tomado pelo ímpeto ambulatório, viajou para o Rio de Janeiro, fazendo uma prolongada escala no Recife. Ali se envolveu em manifestações socialistas e provou a cadeia, iniciando uma série de detenções por razões ideológicas. Naquele meio efervescente, lançou-se à campanha de Yedo Fiúza, candidato das esquerdas à presidência e, por outro lado, fez contato com escritores importantes, como Gilberto Freyre e Mauro Mota. A paixão pelo jornalismo e pela literatura, no entanto, o salvou da política e o período recifense foi significativo para sua formação intelectual. Já no Rio de Janeiro, entregou-se a mil atividades e teve toda sorte de experiências. Uma vida de gangorra, ora abrigado sob um teto seguro, ora dormindo ao relento em bancos de praças públicas. Mesmo assim estudou, ingressou no serviço público e retornou a Fortaleza como funcionário público federal. Mais tarde abandonaria o cargo para se tornar fazendeiro, entregando-se à administração da Fazenda “Terras do Dragão”, em Santana do Acaraú. Mais curioso ainda é que o socialista ardoroso da juventude se tornou um místico e passou a envergar, do dia para a noite e até o fim da vida, o hábito religioso dos franciscanos. “Com ele desfilou pelos espaços públicos de Fortaleza e Santana do Acaraú, aprofundando-se também na mística de Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, e adotando a oração e a renúncia como norma de vida” – escreveu o autor (p. 35).

Quanto à obra, parece inexistir caminho por onde sua inquietação não o tenha levado. Foi pioneiro e mentor do concretismo, mas também produziu poemas nos moldes tradicionais. Incursionou pelo fantástico, pelo surreal e pelo maravilhoso. Foi vanguardista e experimental. Praticou variados gêneros com criatividade incomum e produziu em quantidade sem jamais perder a qualidade. “Seria muito difícil ao crítico acompanhar a trajetória desse escritor multifacetado, cuja escritura abrange quase todos os gêneros literários”, mesmo porque “a literatura é o pano de fundo de sua própria existência, isto é, a arte literária em estado de realização humana e de mistério” (pp. 52 e 49). Como escreveu o grande Gilberto Amado, “concretismo, pós-surrealismo, qualquer que seja o rótulo, seus poemas rápidos, intensos, são poesia ressonante, reveladora de seu talento admirável” (p. 52).

Em síntese, José Alcides Pinto viveu com intensidade a vida do escritor e legou uma obra vasta e admirável. Com imenso trabalho e dedicação invulgar, Dimas Macedo realizou um excelente serviço para divulgar e preservar sua memória e forneceu a chave para desvendar o mistério de sua obra.

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Tamara Kaufmann, escritora radicada em Balneário Camboriú, está publicando “Meu Livro”, alentado volume memorialístico que lhe custou longo e persistente trabalho (Editora Kayngangue – 2018).

Nascida na Rússia, a autora passou na Alemanha os anos da II Guerra Mundial em companhia da mãe, do padrasto e da irmã. Viveu os horrores dos bombardeios aéreos de Berlim, refugiando-se nos abrigos anteaéreos sem saber se sobreviveria ao minuto seguinte. O medo, a escassez de suprimentos, as privações e a fome os acompanhavam no dia a dia. Na busca desesperada de maior segurança, tentaram ingressar na Suíça, depois de caminharem centenas de quilômetros a pé, nas piores condições imagináveis, pedindo abrigo e alimentação em casas onde muitas vezes as portas lhes eram batidas na cara. O esforço foi inútil: não conseguiram varar a fronteira. Foram, então, para Munique, onde se viram internados num campo de concentração para refugiados. Depois de mil padecimentos, obtiveram autorização para emigrar para o Brasil graças à ajuda do governo americano. Embarcados em um lerdo e fumarento navio misto de passageiros e cargas, depois de uma viagem complicada, desembarcaram no Rio de Janeiro, onde também enfrentaram toda sorte de dificuldades, até que se transferiram para São Paulo e lá se fixaram.

Na capital paulista, vencendo todos os obstáculos, o preconceito, a barreira da língua desconhecida, a indiferença e tudo mais, trataram de procurar empregos e trabalhar em qualquer atividade, por modesta e humilhante que fosse. A autora se empenhou nas mais diversas ocupações, lutando para conquistar um lugar ao sol na terra estranha. Acabou se casando e viveu muitos anos de vida conjugal feliz, mas perdeu o marido e se viu sozinha. E então alguém a convidou a se transferir para uma pequena cidade praiana em busca de paz e tranquilidade. Assim se estabeleceu em Balneário Camboriú, iniciando nova fase de vida, toda dedicada à cultura e às letras.

O relato de Tamara é minucioso, documental, revelando uma pessoa organizada e dotada de excelente memória. É de uma sinceridade realista surpreendente, penetrando até mesmo nos mais íntimos detalhes. Fica a impressão de que ela está praticando uma catarse, talvez para se livrar de lembranças pouco agradáveis ao despejá-las no papel. Nisso, revela a mesma coragem com que enfrentou uma vida dura e sofrida.

Concluída a leitura, fico afirmando a mim mesmo que tudo aquilo que eu considerava sofrimento na minha vida pessoal não passa de brincadeira diante do que a autora padeceu. Também faz crescer minha admiração por alguém que viveu tudo aquilo, conseguiu apagar as marcas deixadas e construir uma vida normal.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2018 às 12h21 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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