Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

DOS ESCANINHOS DA MEMÓRIA

Folclorista por vocação e estudioso da música popular brasileira, além de autor de vasta obra literária, Francisco de Vasconcellos viveu os anos da juventude no Rio de Janeiro, período em que acompanhou de perto o panorama artístico da cidade e da região. Atento ao que acontecia no teatro, no rádio, na televisão e na música, manteve um relacionamento pessoal e íntimo com inúmeras figuras de destaque no meio artístico, o que lhe permitiu testemunhar e participar de muito do que ocorria. Colega na Faculdade de Direito e amigo íntimo do cantor e compositor João Roberto Kelly, a quem considerava como irmão, esteve sempre ao lado dele desde o início da carreira até sua definitiva consagração como autor de músicas célebres e aclamadas pelo povo.

Rebuscando nos escaninhos da memória e se valendo de bem organizado arquivo pessoal, ele reconstituiu grande parte do que viveu nessa época no delicioso livro “Boêmios... Malandros...Irmãos...” (Arteg – Juiz de Fora – 2018). Esclarece o autor, em preliminar, que a palavra malandro integrante do título não tem nada de pejorativo, mas designa aquele que sabe sair das enrascadas da vida sem se machucar e sem ferir os circunstantes. No conjunto, o livro oferece um panorama amplo e colorido do meio artístico do período, recordando incontáveis figuras de grande talento que pontificavam com brilhantismo numa das fases mais ricas da cultura popular brasileira. Encontrei referências a inúmeras pessoas que se destacaram e hoje estão em completo ostracismo.

Em primeiro plano o autor destaca o grande talento poético-musical de João Roberto Kelly, autor de sambas e marchinhas memoráveis, acompanhando a luta pela conquista de um lugar ao sol no mundo artístico. Ambos muito jovens, viviam com intensidade os dias agitados e as noites movimentadas da então capital da República. Faz uma espécie da biografia paralela de ambos e vai registrando, passo a passo, as realizações e as conquistas de Kelly. Ele defendia o chamado samba do telecoteco, o samba de raiz autenticamente nacional, a “marca registrada dos morros cariocas.” Com essa diretriz, não se deixava seduzir por modismos musicais importados. Dotado de grande sensibilidade, captava os fatos ao seu redor e os musicava com inteligência e humor. “Sempre com muito bom humor – escreve o autor – e valendo-se de terminologia calcada no linguajar do povo comum e corrente, ele é o caricaturista dos sentimentos mal resolvidos, o filósofo da saudade e da dor de cotovelo.”

No curso do livro o autor acaba por realizar um levantamento completo da obra de Kelly, sempre auxiliado por um excelente e organizado arquivo pessoal.

Mas o livro não se resume a tais assuntos. O autor recorda outros eventos importantes, como o fenômeno Maysa, o sucesso de Aracy Côrtes e de Emilinha Borba, de Colé, Consuelo Leandro, Carmélia Alves, Virgínia Lane, Elizeth Cardoso, cantores e cantoras, compositores, músicos, radialistas, apresentadores de televisão, conjuntos musicais de sucesso e carnavais que deixaram lembrança. Programas de sucesso, atrizes e atores, gente do teatro e do meio musical. Os bares famosos, as boates, os clubes. Aborda ainda outros gêneros musicais, como o frevo e a marchinha, bem como grandes intérpretes musicais da época e tudo aquilo que acontecia nesse meio. É o depoimento de quem viu tudo de perto, teve a sorte de presenciar e participar, enquanto a nós outros só foi permitido acompanhar a distância. Segundo ele, “o samba do telecoteco foi a ratificação do sentimento de brasilidade que pautou o itinerário musical de João Roberto Kelly enquanto me foi possível testemunhar sua brilhante escalda rumo ao sucesso.” Em tudo diferente das cópias e imitações de coisas estrangeiras que vemos hoje, inclusive na literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2019 às 10h04 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Folclorista por vocação e estudioso da música popular brasileira, além de autor de vasta obra literária, Francisco de Vasconcellos viveu os anos da juventude no Rio de Janeiro, período em que acompanhou de perto o panorama artístico da cidade e da região. Atento ao que acontecia no teatro, no rádio, na televisão e na música, manteve um relacionamento pessoal e íntimo com inúmeras figuras de destaque no meio artístico, o que lhe permitiu testemunhar e participar de muito do que ocorria. Colega na Faculdade de Direito e amigo íntimo do cantor e compositor João Roberto Kelly, a quem considerava como irmão, esteve sempre ao lado dele desde o início da carreira até sua definitiva consagração como autor de músicas célebres e aclamadas pelo povo.

Rebuscando nos escaninhos da memória e se valendo de bem organizado arquivo pessoal, ele reconstituiu grande parte do que viveu nessa época no delicioso livro “Boêmios... Malandros...Irmãos...” (Arteg – Juiz de Fora – 2018). Esclarece o autor, em preliminar, que a palavra malandro integrante do título não tem nada de pejorativo, mas designa aquele que sabe sair das enrascadas da vida sem se machucar e sem ferir os circunstantes. No conjunto, o livro oferece um panorama amplo e colorido do meio artístico do período, recordando incontáveis figuras de grande talento que pontificavam com brilhantismo numa das fases mais ricas da cultura popular brasileira. Encontrei referências a inúmeras pessoas que se destacaram e hoje estão em completo ostracismo.

Em primeiro plano o autor destaca o grande talento poético-musical de João Roberto Kelly, autor de sambas e marchinhas memoráveis, acompanhando a luta pela conquista de um lugar ao sol no mundo artístico. Ambos muito jovens, viviam com intensidade os dias agitados e as noites movimentadas da então capital da República. Faz uma espécie da biografia paralela de ambos e vai registrando, passo a passo, as realizações e as conquistas de Kelly. Ele defendia o chamado samba do telecoteco, o samba de raiz autenticamente nacional, a “marca registrada dos morros cariocas.” Com essa diretriz, não se deixava seduzir por modismos musicais importados. Dotado de grande sensibilidade, captava os fatos ao seu redor e os musicava com inteligência e humor. “Sempre com muito bom humor – escreve o autor – e valendo-se de terminologia calcada no linguajar do povo comum e corrente, ele é o caricaturista dos sentimentos mal resolvidos, o filósofo da saudade e da dor de cotovelo.”

No curso do livro o autor acaba por realizar um levantamento completo da obra de Kelly, sempre auxiliado por um excelente e organizado arquivo pessoal.

Mas o livro não se resume a tais assuntos. O autor recorda outros eventos importantes, como o fenômeno Maysa, o sucesso de Aracy Côrtes e de Emilinha Borba, de Colé, Consuelo Leandro, Carmélia Alves, Virgínia Lane, Elizeth Cardoso, cantores e cantoras, compositores, músicos, radialistas, apresentadores de televisão, conjuntos musicais de sucesso e carnavais que deixaram lembrança. Programas de sucesso, atrizes e atores, gente do teatro e do meio musical. Os bares famosos, as boates, os clubes. Aborda ainda outros gêneros musicais, como o frevo e a marchinha, bem como grandes intérpretes musicais da época e tudo aquilo que acontecia nesse meio. É o depoimento de quem viu tudo de perto, teve a sorte de presenciar e participar, enquanto a nós outros só foi permitido acompanhar a distância. Segundo ele, “o samba do telecoteco foi a ratificação do sentimento de brasilidade que pautou o itinerário musical de João Roberto Kelly enquanto me foi possível testemunhar sua brilhante escalda rumo ao sucesso.” Em tudo diferente das cópias e imitações de coisas estrangeiras que vemos hoje, inclusive na literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2019 às 10h04 | e.atha@terra.com.br



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