Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

LITERATURA ACREANA

O território do atual Estado do Acre pertencia à Bolívia, como havia sido reconhecido pelo próprio Brasil em uma disputa daquele país com o Peru. Mas os seringueiros brasileiros, na maioria cearenses, haviam invadido em grande quantidade o território na extração do látex, criando uma situação de difícil solução, uma vez que não haveria como expulsá-los de lá. Os brasileiros entendiam que aquele chão lhes pertencia pelo direito de conquista e surgiram movimentos no sentido de sua anexação ao Brasil, entre eles o que foi chefiado pelo gaúcho Plácido de Castro. Em face da situação, o governo brasileiro entrou em ação, representado pelo Barão do Rio Branco, e, depois de longas negociações, o território foi incorporado ao Brasil. A Bolívia recebeu em troca uma indenização em dinheiro e outras vantagens, entre as quais a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a célebre Ferrovia do Diabo, conforme foi estabelecido no chamado Tratado de Petrópolis. Foi criado então o Território Federal do Acre, sob administração direta do Governo Federal, mais tarde elevado a Estado, em 1962. A capital recebeu o nome de Rio Branco em homenagem ao hábil diplomata, e importante cidade do interior recebeu o nome de Plácido de Castro. O nome Acre deriva da palavra Aquiri, usada pelos índios para designar o rio que banha a capital. Os acreanos ou acrianos, como alguns preferem, sentem-se tão brasileiros como os que mais o sejam e vivem antenados ao que acontece no Brasil, como pude verificar quando lá estive, embora seja um Estado jovem. O português é falado em toda parte, ainda que com sotaque próprio, e ninguém mais se lembra do passado boliviano.

Funciona em Rio Branco a Universidade Federal do Acre (UFAC), ampla e bem aparelhada, e que mantém um campus no interior. O Estado conta com apreciável movimentação cultural, o que nos leva a uma pergunta inevitável: existe uma literatura acreana? A resposta é positiva e existem obras ambientadas no Acre de inegável valor literário.

O Prof. Antônio Martins de Araújo, um dos maiores linguistas brasileiros, em livro muito louvado pela crítica especializada (*), dedicou ensaios críticos a três obras fundamentais da literatura daquele Estado. São elas: “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, “Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante, e “Terra Caída”, de José Potyguara. O primeiro é um livro que se tornou muito conhecido, inspirou um seriado televisivo e mereceu os aplausos da melhor crítica. Embora menos conhecidos, os dois outros também são de elevada qualidade literária e retratam a vida nos seringais e o fenômeno natural da terra caída, fato que muito me impressionou nas minhas andanças por lá.

Segundo o crítico, “Galvez, Imperador do Acre” é um folhetim picaresco que retrata a verdadeira história de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, aventureiro, conquistador e autor de curiosas sentenças e frases de efeito que profere. A narrativa se desenvolve com muito humor, registrando situações cômicas, frases com duplos sentidos, metáforas irônicas e variados recursos retóricos que o autor usa com mestria, tornando a leitura um exercício cativante. Entre as situações mais absurdas, surge o caso do nativo que havia se alfabetizado e morreu de convulsões cerebrais ao tentar ler a Summa Teologica de Santo Tomás de Aquino. Certo personagem era carrancudo como ditador latino-americano, frase que me traz à lembrança o general Médici. Depois de tantas lutas, conquistas e vitórias, o imperador compungido concluía: o meu império começa a entrar em crise como um dirigível abandonado que murchasse lentamente, O crítico submete o romance a uma análise ampla e completa, tanto no aspecto literário como gramatical.

Os dois outros romances acima referidos passam pelo mesmo crivo e são analisados nos aspectos literário e linguístico. Revelam a dureza da luta pela vida daqueles homens e mulheres que deixaram o inferno das secas para se embrenharem no inferno verde, afrontando todas as dificuldades daquele mundo regido pela ditadura das águas de que falava Dalcídio Jurandyr. Além da faceta literária, constituem documentos vivos e palpitantes de uma realidade muitas vezes desconhecida e por isso minimizada.

__________________________
(*) “A língua portuguesa no tempo e no espaço”,
Antônio Martins de Araújo, Brasília, Edições do
Senado Federal, Volume 242, 2017, p. 436 e seg.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/01/2019 às 11h26 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O território do atual Estado do Acre pertencia à Bolívia, como havia sido reconhecido pelo próprio Brasil em uma disputa daquele país com o Peru. Mas os seringueiros brasileiros, na maioria cearenses, haviam invadido em grande quantidade o território na extração do látex, criando uma situação de difícil solução, uma vez que não haveria como expulsá-los de lá. Os brasileiros entendiam que aquele chão lhes pertencia pelo direito de conquista e surgiram movimentos no sentido de sua anexação ao Brasil, entre eles o que foi chefiado pelo gaúcho Plácido de Castro. Em face da situação, o governo brasileiro entrou em ação, representado pelo Barão do Rio Branco, e, depois de longas negociações, o território foi incorporado ao Brasil. A Bolívia recebeu em troca uma indenização em dinheiro e outras vantagens, entre as quais a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a célebre Ferrovia do Diabo, conforme foi estabelecido no chamado Tratado de Petrópolis. Foi criado então o Território Federal do Acre, sob administração direta do Governo Federal, mais tarde elevado a Estado, em 1962. A capital recebeu o nome de Rio Branco em homenagem ao hábil diplomata, e importante cidade do interior recebeu o nome de Plácido de Castro. O nome Acre deriva da palavra Aquiri, usada pelos índios para designar o rio que banha a capital. Os acreanos ou acrianos, como alguns preferem, sentem-se tão brasileiros como os que mais o sejam e vivem antenados ao que acontece no Brasil, como pude verificar quando lá estive, embora seja um Estado jovem. O português é falado em toda parte, ainda que com sotaque próprio, e ninguém mais se lembra do passado boliviano.

Funciona em Rio Branco a Universidade Federal do Acre (UFAC), ampla e bem aparelhada, e que mantém um campus no interior. O Estado conta com apreciável movimentação cultural, o que nos leva a uma pergunta inevitável: existe uma literatura acreana? A resposta é positiva e existem obras ambientadas no Acre de inegável valor literário.

O Prof. Antônio Martins de Araújo, um dos maiores linguistas brasileiros, em livro muito louvado pela crítica especializada (*), dedicou ensaios críticos a três obras fundamentais da literatura daquele Estado. São elas: “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, “Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante, e “Terra Caída”, de José Potyguara. O primeiro é um livro que se tornou muito conhecido, inspirou um seriado televisivo e mereceu os aplausos da melhor crítica. Embora menos conhecidos, os dois outros também são de elevada qualidade literária e retratam a vida nos seringais e o fenômeno natural da terra caída, fato que muito me impressionou nas minhas andanças por lá.

Segundo o crítico, “Galvez, Imperador do Acre” é um folhetim picaresco que retrata a verdadeira história de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, aventureiro, conquistador e autor de curiosas sentenças e frases de efeito que profere. A narrativa se desenvolve com muito humor, registrando situações cômicas, frases com duplos sentidos, metáforas irônicas e variados recursos retóricos que o autor usa com mestria, tornando a leitura um exercício cativante. Entre as situações mais absurdas, surge o caso do nativo que havia se alfabetizado e morreu de convulsões cerebrais ao tentar ler a Summa Teologica de Santo Tomás de Aquino. Certo personagem era carrancudo como ditador latino-americano, frase que me traz à lembrança o general Médici. Depois de tantas lutas, conquistas e vitórias, o imperador compungido concluía: o meu império começa a entrar em crise como um dirigível abandonado que murchasse lentamente, O crítico submete o romance a uma análise ampla e completa, tanto no aspecto literário como gramatical.

Os dois outros romances acima referidos passam pelo mesmo crivo e são analisados nos aspectos literário e linguístico. Revelam a dureza da luta pela vida daqueles homens e mulheres que deixaram o inferno das secas para se embrenharem no inferno verde, afrontando todas as dificuldades daquele mundo regido pela ditadura das águas de que falava Dalcídio Jurandyr. Além da faceta literária, constituem documentos vivos e palpitantes de uma realidade muitas vezes desconhecida e por isso minimizada.

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(*) “A língua portuguesa no tempo e no espaço”,
Antônio Martins de Araújo, Brasília, Edições do
Senado Federal, Volume 242, 2017, p. 436 e seg.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/01/2019 às 11h26 | e.atha@terra.com.br



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