Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Brasil profundo

Como tantos escritores brasileiros, Bernardo Élis está esquecido e sua obra quase não é lembrada. Por tudo isso, é muito bem-vindo o livro “O causo eu conto”, de autoria de Jaime Sautchuk, que aborda a figura do escritor e sua obra, quase toda ambientada no Brasil Central (Geração Editorial – S. Paulo – 2018). Jornalista, o autor da obra é catarinense de nascimento mas radicado em Goiás há muito tempo.

Nascido na então Vila de Corumbá de Goiás, Élis conheceu de perto a dura realidade da vida naqueles rincões nos começo do século passado. Observou desde criança a exploração a que os coroneis submetiam a população mais desfavorecida e as inevitáveis injustiças praticadas sem que houvesse a quem apelar. Ao mesmo tempo, na vida cotidiana, desde criança, esteve em contato com o modo de vida do povo, seus hábitos e costumes e, acima de tudo, com a linguagem característica que mais tarde registraria na sua obra. Vivendo entre a Vila natal e Vila Boa, atual Cidade de Goiás, capital do Estado naquela época, estudou nos colégios locais e depois se formou em Direito, embora jamais tenha exercido a advocacia. Muito cedo se manifestou nele o pendor para as letras; escrevia e lia com afinco. Enquanto isso, crescia dentro dele a revolta contra as injustiças que presenciava, o que o levaria a abraçar o socialismo por toda a vida, mesmo sofrendo as duras consequências, ainda mais após a instalação da ditadura, em 1964. Tornou-se professor secundário e superior e fez do magistério sua profissão.

Sua obra literária, desde o livro de estreia, “Ermos e Gerais”, publicado em 1944, sempre foi bem acolhida pela crítica e pelo público. Seguiram-se “Primeira Chuva”, “O Tronco”, “Caminhos e Descaminhos”, “Veranico de Janeiro”, “Caminhos dos Gerais” e outros livros, além de trabalhos publicados na imprensa. Tristão de Athayde, Antonio Candido, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, entre outros, fizeram apreciações positivas de sua obra, acentuando que ela retratava com rara fidelidade o Brasil profundo da região central. Foi agraciado com prêmios e condecorações.

Episódio curioso de sua carreira, sempre lembrado em sua biografia, foi a candidatura e eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Para a mesma vaga concorria ninguém menos que o ex-presidente Juscelino Kubitschek cuja eventual eleição contrariava os interesses da ditadura que via nele um adversário perigoso e temido. O ex-presidente tivera o mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos; estava no ostracismo. A eleição para a Academia o colocaria outra vez em evidência e isso era inaceitável. O general Golbery, eminência parda do regime, entrou em campo e, por paradoxal que fosse, o governo engoliu a candidatura de Bernardo Élis, socialista confesso e militante, desde que JK fosse derrotado, como de fato aconteceu. Em consequência da situação criada, algumas perguntas ficaram no ar: Élis teria sido usado? Tinha consciência do papel que fazia? Não se constrangeu em servir de instrumento para a ditadura? São indagações que se fazem mas que não têm resposta. O fato é que foi eleito, tomou posse e participou da vida acadêmica, embora mais tarde se confessasse arrependido de ter ingressado na ABL.

Um detalhe do livro desperta a atenção do leitor. À página 102 é estampada uma fotografia das mais conhecidas e publicadas que tem a seguinte legenda: “Guerrilheiros do movimento liderado por Zé Porfírio em Formoso e Trombas de Goiás.” Essa revolta, ocorrida naquele Estado, se opunha à opressão dominante e contou com o apoio de Élis. Existe, no entanto, flagrante equívoco em relação à foto, uma vez que ela retrata pessoas envolvidas na chamada Guerra do Contestado (1912/1916), aqui em Santa Catarina. Prova disso é que no livro “Claro Jansson – O Fotógrafo do Contestado”, de Rosa Maria Tesser, a mesma foto é atribuída a Jansson e aparece à página 18 com a seguinte legenda: “Famosa foto dos vaqueanos da Serraria Lumber, em Três Barras (SC) – 1915.” Já no livro “Guerras e Batalhas”, publicado pela “Folha de S. Paulo”, a mesma foto aparece na capa e na página 6 com esta legenda: “Rebeldes da Guerra do Contestado – Claro Jansson (1877/1954)”. Por fim, no volume “Contestado”, publicado pelo Governo do Estado de Santa Catarina, em 2002, a mesma foto foi reproduzida na capa e na página 7 com esta legenda: “Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.”

Concluindo, parece-me fora de dúvida o equívoco do livro de Jaime Sautchuk. Por outro lado, sou propenso a acreditar que a foto retrata um grupo de rebeldes e não de vaqueanos da Lumber.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/01/2019 às 13h00 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Como tantos escritores brasileiros, Bernardo Élis está esquecido e sua obra quase não é lembrada. Por tudo isso, é muito bem-vindo o livro “O causo eu conto”, de autoria de Jaime Sautchuk, que aborda a figura do escritor e sua obra, quase toda ambientada no Brasil Central (Geração Editorial – S. Paulo – 2018). Jornalista, o autor da obra é catarinense de nascimento mas radicado em Goiás há muito tempo.

Nascido na então Vila de Corumbá de Goiás, Élis conheceu de perto a dura realidade da vida naqueles rincões nos começo do século passado. Observou desde criança a exploração a que os coroneis submetiam a população mais desfavorecida e as inevitáveis injustiças praticadas sem que houvesse a quem apelar. Ao mesmo tempo, na vida cotidiana, desde criança, esteve em contato com o modo de vida do povo, seus hábitos e costumes e, acima de tudo, com a linguagem característica que mais tarde registraria na sua obra. Vivendo entre a Vila natal e Vila Boa, atual Cidade de Goiás, capital do Estado naquela época, estudou nos colégios locais e depois se formou em Direito, embora jamais tenha exercido a advocacia. Muito cedo se manifestou nele o pendor para as letras; escrevia e lia com afinco. Enquanto isso, crescia dentro dele a revolta contra as injustiças que presenciava, o que o levaria a abraçar o socialismo por toda a vida, mesmo sofrendo as duras consequências, ainda mais após a instalação da ditadura, em 1964. Tornou-se professor secundário e superior e fez do magistério sua profissão.

Sua obra literária, desde o livro de estreia, “Ermos e Gerais”, publicado em 1944, sempre foi bem acolhida pela crítica e pelo público. Seguiram-se “Primeira Chuva”, “O Tronco”, “Caminhos e Descaminhos”, “Veranico de Janeiro”, “Caminhos dos Gerais” e outros livros, além de trabalhos publicados na imprensa. Tristão de Athayde, Antonio Candido, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, entre outros, fizeram apreciações positivas de sua obra, acentuando que ela retratava com rara fidelidade o Brasil profundo da região central. Foi agraciado com prêmios e condecorações.

Episódio curioso de sua carreira, sempre lembrado em sua biografia, foi a candidatura e eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Para a mesma vaga concorria ninguém menos que o ex-presidente Juscelino Kubitschek cuja eventual eleição contrariava os interesses da ditadura que via nele um adversário perigoso e temido. O ex-presidente tivera o mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos; estava no ostracismo. A eleição para a Academia o colocaria outra vez em evidência e isso era inaceitável. O general Golbery, eminência parda do regime, entrou em campo e, por paradoxal que fosse, o governo engoliu a candidatura de Bernardo Élis, socialista confesso e militante, desde que JK fosse derrotado, como de fato aconteceu. Em consequência da situação criada, algumas perguntas ficaram no ar: Élis teria sido usado? Tinha consciência do papel que fazia? Não se constrangeu em servir de instrumento para a ditadura? São indagações que se fazem mas que não têm resposta. O fato é que foi eleito, tomou posse e participou da vida acadêmica, embora mais tarde se confessasse arrependido de ter ingressado na ABL.

Um detalhe do livro desperta a atenção do leitor. À página 102 é estampada uma fotografia das mais conhecidas e publicadas que tem a seguinte legenda: “Guerrilheiros do movimento liderado por Zé Porfírio em Formoso e Trombas de Goiás.” Essa revolta, ocorrida naquele Estado, se opunha à opressão dominante e contou com o apoio de Élis. Existe, no entanto, flagrante equívoco em relação à foto, uma vez que ela retrata pessoas envolvidas na chamada Guerra do Contestado (1912/1916), aqui em Santa Catarina. Prova disso é que no livro “Claro Jansson – O Fotógrafo do Contestado”, de Rosa Maria Tesser, a mesma foto é atribuída a Jansson e aparece à página 18 com a seguinte legenda: “Famosa foto dos vaqueanos da Serraria Lumber, em Três Barras (SC) – 1915.” Já no livro “Guerras e Batalhas”, publicado pela “Folha de S. Paulo”, a mesma foto aparece na capa e na página 6 com esta legenda: “Rebeldes da Guerra do Contestado – Claro Jansson (1877/1954)”. Por fim, no volume “Contestado”, publicado pelo Governo do Estado de Santa Catarina, em 2002, a mesma foto foi reproduzida na capa e na página 7 com esta legenda: “Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.”

Concluindo, parece-me fora de dúvida o equívoco do livro de Jaime Sautchuk. Por outro lado, sou propenso a acreditar que a foto retrata um grupo de rebeldes e não de vaqueanos da Lumber.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/01/2019 às 13h00 | e.atha@terra.com.br



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