Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

PREMONIÇÃO

Afirmou um crítico que certos contos de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) parecem não dizer nada e, no entanto, vão envolvendo o leitor num clima de tensão indescritível. Isso é obtido através de uma linguagem simples e direta, destituída de adjetivação desnecessária e, em geral, usando muitos diálogos, técnica em que ele foi mestre. O resultado não decorre do uso de vocábulos pesados ou carregados de sentido, mas de uma narrativa que se desenrola com a maior naturalidade, como se não estivesse preocupado em relatar coisa alguma.

É o que acontece, entre outros, em “Véspera de Batalha”, publicado no terceiro volume dos contos do autor, editados pela Bertrand Brasil (Rio de Janeiro – 2001). Ambientado em Madri, no correr da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), da qual o escritor fazia a cobertura para a imprensa estrangeira, o conto retrata o pesado ambiente reinante, com as ações bélicas acontecendo no final da rua, os tiroteios espocando na esquina e os obuses abrindo buracos no chão. Hospedado em um apartamento do Hotel Flórida, situado na Plaza Callao, no centro da metrópole, Henry e sua equipe estão empenhados em realizar um filme de propaganda para obter recursos a serem investidos na aquisição de ambulâncias. O apartamento vive em completa balbúrdia; todo mundo entra e sai, come e bebe, fuma e joga. Enfumaçado e quente, é frequentado pelas mais estranhas figuras, inclusive algumas desconhecidas. .

Num entardecer de abril, dirigindo-se ao célebre Bar Chicote, ponto de encontro de toda espécie de gente, com a intenção de tomar um trago, Henry se depara com Al Wagner, tenente do grupo de tanques e seu conhecido. Conseguem a muito custo, entre cotoveladas e empurrões no recinto lotado, lugares em uma mesa, tomam vinho e se põem a conversar. O tenente exibia um ar de absoluto cansaço, estava muito sujo e desmazelado, respingado de óleo e com as roupas manchadas. Havia participado naquele dia de uma batalha mal sucedida e, ao que parece, mal conduzida pelo comando, de resultados catastróficos, com muitas baixas do seu lado. Estava abalado, suas mãos tremiam e, talvez por nervosismo, só queria falar, falar, falar. Acaba declarando que terá que entrar em ação pela madrugada. Transparece, quase sem palavras, a premonição aflitiva de que irá morrer no dia seguinte. Isso não é expresso de forma explícita, mas fica latente.

Henry tudo faz para distraí-lo. Propõe um encontro com uma garota mas ele recusa, dizendo que se sentia muito sujo e necessitava de um banho. Rumam então ao apartamento do Hotel Flórida. Lá, como de costume, a balbúrdia se mantinha. Um grupo de aviadores jogava dados no chão, a dinheiro, entre gritos e discussões. Sentados numa cama, um jornalista inglês e uma moça espanhola bebericavam uísque. Sobre a mesa, imenso presunto era devorado aos poucos, em grandes nacos. Surge um aviador, careca e bêbado, carregando garrafas de champanhe. Gaba-se de ter derrubado um Junker alemão, enorme, e saltado de paraquedas, esforçando-se para não pousar no lado inimigo do rio. Não consegue esconder o impacto que lhe causou a tocha de fogo em que se transformou o aparelho que caía. Por diversas vezes, sob a insistência dos demais, tenta relatar o episódio mas não consegue e todos parecem desistir.

Al, enquanto isso, ouve música e depois se recolhe ao banheiro de onde sai mais limpo mas ainda com manchas no rosto. Devagar, em silêncio, começa a se preparar para retornar ao campo de batalha. Enverga a farda esbodegada, cobre-se com o quepe amassado, prende o revólver à perna. Nessa altura o olhar do leitor converge para ele de forma irresistível. Há um misto de preocupação, pena, comiseração, embora ninguém possa prever se a premonição se consumará.

Al Wagner se despede e sai pela noite. Ar cansado e fatalista, recusa a companhia dos que se oferecem para acompanhá-lo. Num rictus quase imperceptível, revela íntima irritação. Ganha a rua e vai solitário ao encontro de seu destino.

Quem não o conhecesse – diz o contista – imaginaria que o tenente estivesse irritado, muito irritado. “Ficamos irritados com muitas coisas, e morrer desnecessariamente é uma delas. Mas quem sabe se irritado não é mesmo o melhor estado em que devemos ficar quando vamos fazer um ataque?”

Escrito por Enéas Athanázio, 01/02/2019 às 10h40 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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PREMONIÇÃO

Afirmou um crítico que certos contos de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) parecem não dizer nada e, no entanto, vão envolvendo o leitor num clima de tensão indescritível. Isso é obtido através de uma linguagem simples e direta, destituída de adjetivação desnecessária e, em geral, usando muitos diálogos, técnica em que ele foi mestre. O resultado não decorre do uso de vocábulos pesados ou carregados de sentido, mas de uma narrativa que se desenrola com a maior naturalidade, como se não estivesse preocupado em relatar coisa alguma.

É o que acontece, entre outros, em “Véspera de Batalha”, publicado no terceiro volume dos contos do autor, editados pela Bertrand Brasil (Rio de Janeiro – 2001). Ambientado em Madri, no correr da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), da qual o escritor fazia a cobertura para a imprensa estrangeira, o conto retrata o pesado ambiente reinante, com as ações bélicas acontecendo no final da rua, os tiroteios espocando na esquina e os obuses abrindo buracos no chão. Hospedado em um apartamento do Hotel Flórida, situado na Plaza Callao, no centro da metrópole, Henry e sua equipe estão empenhados em realizar um filme de propaganda para obter recursos a serem investidos na aquisição de ambulâncias. O apartamento vive em completa balbúrdia; todo mundo entra e sai, come e bebe, fuma e joga. Enfumaçado e quente, é frequentado pelas mais estranhas figuras, inclusive algumas desconhecidas. .

Num entardecer de abril, dirigindo-se ao célebre Bar Chicote, ponto de encontro de toda espécie de gente, com a intenção de tomar um trago, Henry se depara com Al Wagner, tenente do grupo de tanques e seu conhecido. Conseguem a muito custo, entre cotoveladas e empurrões no recinto lotado, lugares em uma mesa, tomam vinho e se põem a conversar. O tenente exibia um ar de absoluto cansaço, estava muito sujo e desmazelado, respingado de óleo e com as roupas manchadas. Havia participado naquele dia de uma batalha mal sucedida e, ao que parece, mal conduzida pelo comando, de resultados catastróficos, com muitas baixas do seu lado. Estava abalado, suas mãos tremiam e, talvez por nervosismo, só queria falar, falar, falar. Acaba declarando que terá que entrar em ação pela madrugada. Transparece, quase sem palavras, a premonição aflitiva de que irá morrer no dia seguinte. Isso não é expresso de forma explícita, mas fica latente.

Henry tudo faz para distraí-lo. Propõe um encontro com uma garota mas ele recusa, dizendo que se sentia muito sujo e necessitava de um banho. Rumam então ao apartamento do Hotel Flórida. Lá, como de costume, a balbúrdia se mantinha. Um grupo de aviadores jogava dados no chão, a dinheiro, entre gritos e discussões. Sentados numa cama, um jornalista inglês e uma moça espanhola bebericavam uísque. Sobre a mesa, imenso presunto era devorado aos poucos, em grandes nacos. Surge um aviador, careca e bêbado, carregando garrafas de champanhe. Gaba-se de ter derrubado um Junker alemão, enorme, e saltado de paraquedas, esforçando-se para não pousar no lado inimigo do rio. Não consegue esconder o impacto que lhe causou a tocha de fogo em que se transformou o aparelho que caía. Por diversas vezes, sob a insistência dos demais, tenta relatar o episódio mas não consegue e todos parecem desistir.

Al, enquanto isso, ouve música e depois se recolhe ao banheiro de onde sai mais limpo mas ainda com manchas no rosto. Devagar, em silêncio, começa a se preparar para retornar ao campo de batalha. Enverga a farda esbodegada, cobre-se com o quepe amassado, prende o revólver à perna. Nessa altura o olhar do leitor converge para ele de forma irresistível. Há um misto de preocupação, pena, comiseração, embora ninguém possa prever se a premonição se consumará.

Al Wagner se despede e sai pela noite. Ar cansado e fatalista, recusa a companhia dos que se oferecem para acompanhá-lo. Num rictus quase imperceptível, revela íntima irritação. Ganha a rua e vai solitário ao encontro de seu destino.

Quem não o conhecesse – diz o contista – imaginaria que o tenente estivesse irritado, muito irritado. “Ficamos irritados com muitas coisas, e morrer desnecessariamente é uma delas. Mas quem sabe se irritado não é mesmo o melhor estado em que devemos ficar quando vamos fazer um ataque?”

Escrito por Enéas Athanázio, 01/02/2019 às 10h40 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.