Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

_____________________
(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

_____________________
(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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