Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

AGRURAS DO MEIÓTA

Embora retinto e lustroso, ninguém se arriscava a chamá-lo de negro. Com muito boa vontade, estando no seu dinheiro, ele tolerava que o tratassem de moreno, eufemismo em geral usado. Naqueles tempos o conceito de negritude era difuso e a palavra já por si carregava enorme carga de preconceito. Tanto que o Meióta não aceitava preto ou negro e respondia em cima da tampa: “Isso é sua mãe!” Exigia que o chamassem de cidadão e tinha lá suas boas razões, encravadas nos dias já afastados do passado. E no entanto, nunca se livrou do apelido, por mais que protestasse.

Quando o conheci, ele residia num rancho para os lados da “saída” e vivia dias difíceis. Em nossos encontros sempre nos tratamos com cordialidade, mesmo quando ele, bem alto na pinga, andava em zigue-zague pela rua poeirenta. Numa dessas ocasiões, ele afirmou, com a língua travada e a voz pastosa: “Eu já fui coisa nesta vida, menino! Não fosse o maldito vício, hoje eu seria o seu Pereira, enfiado no meu uniforme, e todos me respeitariam.” Não tive razão para duvidar, mesmo porque ele tinha modos de gente educada e eu, ainda garoto, o conhecia de pouco. Mas a partir dali tomei interesse e comecei a indagar a respeito daquele homem solitário e sofrido.

Contava-se na Vila que Meióta, cujo nome caiu no esquecimento, fora, de fato, coisa. Entrando muito cedo no serviço da ferrovia, aos trinta e poucos era chefe-de-trens cargueiros e, pouco depois, de passageiros, quase no topo da carreira que terminava na função de inspetor. E lá ia ele, o seu Pereira, para o norte e para o sul, envergando seu vistoso uniforme azul com botões e punhos dourados, coberto pelo quepe alusivo à condição de chefe supremo a bordo da composição. Em passo firme e decidido, percorria os vagões, gritando o nome da próxima estação, e recolhendo os tíquetes das passagens. Respeitado por todos, tinha fama de honesto, não aceitando propinas e nem permitindo clandestinos. No seu trem ninguém viajava sem passagem e os passageiros tinham que manter o bom comportamento. Nada de gritarias, arruaças, bebedeiras ou agarramentos de casais.

Mas – e aí entra o velho mas! – o vício é a perdição do homem. Provando um gole aqui, outro acolá, nas frias e solitárias travessias do vale tortuoso por onde o trem corria todos os dias, virou um escravo da pinga, transformando-se naquilo que os médicos definem gravemente por dependente. Quando começou a se sentir notado pelos subordinados, maquinistas, foguistas, guarda-freios e jornaleiros, tratou de esconder o vício numa pequena garrafa que levava no bolso, - uma meióta, - de onde lhe veio o tenebroso apelido. E assim, em pouco tempo, perdeu o emprego, perdeu o respeito dos outros, perdeu até o próprio nome, substituído pela alcunha infamante. Foi morar naquela Vila esquecida, biscateando, fugindo das chuvas e friagens num rancho mambembe, feio e esburacado.

Tinha lá alguns amigos, entre eles um tal Natão, desocupado e desordeiro que passava os dias na plataforma da estação, numa roda de vadios, proseando prosas à-toa e dando risadas que ecoavam ao longe. Quando não bebia, Natão era o melhor dos amigos; bêbado, ficava insuportável. Nesse estado, por mal da sorte, acometia-o uma idéia malvada e sem razão: queria a todo custo incendiar o rancho do Meióta e mais de uma vez foi impedido a muque de realizar o propósito incendiário. Pertencente à família dos mandões da Vila, nada lhe acontecia, e por isso o pobre Meióta vivia em permanente e desesperada vigília. Cada vez que avistava o Natão no rumo de seu rancho ou lhe diziam que ele andava por aquelas bandas, desabalava na defesa de seu último reduto. Não foram poucas as vezes em que acordou, alta madrugada, com o Natão rondando sua mísera morada, munido de petrechos inflamáveis. Durante anos essa corrida se repetiu.

Os tempos voaram, afastei-me da Vila e não tive notícia do desfecho de tão estranho furor incendiário. Meióta “passou para o outro lado do mistério”, como dizia mestre Machado de Assis, e Natão está sumido em vida, conforme o dito mineiro. Creio que o rancho não foi consumido pelas chamas, mas os protagonistas da história, com certeza, se consumiram no fogo da pinga.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/02/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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AGRURAS DO MEIÓTA

Embora retinto e lustroso, ninguém se arriscava a chamá-lo de negro. Com muito boa vontade, estando no seu dinheiro, ele tolerava que o tratassem de moreno, eufemismo em geral usado. Naqueles tempos o conceito de negritude era difuso e a palavra já por si carregava enorme carga de preconceito. Tanto que o Meióta não aceitava preto ou negro e respondia em cima da tampa: “Isso é sua mãe!” Exigia que o chamassem de cidadão e tinha lá suas boas razões, encravadas nos dias já afastados do passado. E no entanto, nunca se livrou do apelido, por mais que protestasse.

Quando o conheci, ele residia num rancho para os lados da “saída” e vivia dias difíceis. Em nossos encontros sempre nos tratamos com cordialidade, mesmo quando ele, bem alto na pinga, andava em zigue-zague pela rua poeirenta. Numa dessas ocasiões, ele afirmou, com a língua travada e a voz pastosa: “Eu já fui coisa nesta vida, menino! Não fosse o maldito vício, hoje eu seria o seu Pereira, enfiado no meu uniforme, e todos me respeitariam.” Não tive razão para duvidar, mesmo porque ele tinha modos de gente educada e eu, ainda garoto, o conhecia de pouco. Mas a partir dali tomei interesse e comecei a indagar a respeito daquele homem solitário e sofrido.

Contava-se na Vila que Meióta, cujo nome caiu no esquecimento, fora, de fato, coisa. Entrando muito cedo no serviço da ferrovia, aos trinta e poucos era chefe-de-trens cargueiros e, pouco depois, de passageiros, quase no topo da carreira que terminava na função de inspetor. E lá ia ele, o seu Pereira, para o norte e para o sul, envergando seu vistoso uniforme azul com botões e punhos dourados, coberto pelo quepe alusivo à condição de chefe supremo a bordo da composição. Em passo firme e decidido, percorria os vagões, gritando o nome da próxima estação, e recolhendo os tíquetes das passagens. Respeitado por todos, tinha fama de honesto, não aceitando propinas e nem permitindo clandestinos. No seu trem ninguém viajava sem passagem e os passageiros tinham que manter o bom comportamento. Nada de gritarias, arruaças, bebedeiras ou agarramentos de casais.

Mas – e aí entra o velho mas! – o vício é a perdição do homem. Provando um gole aqui, outro acolá, nas frias e solitárias travessias do vale tortuoso por onde o trem corria todos os dias, virou um escravo da pinga, transformando-se naquilo que os médicos definem gravemente por dependente. Quando começou a se sentir notado pelos subordinados, maquinistas, foguistas, guarda-freios e jornaleiros, tratou de esconder o vício numa pequena garrafa que levava no bolso, - uma meióta, - de onde lhe veio o tenebroso apelido. E assim, em pouco tempo, perdeu o emprego, perdeu o respeito dos outros, perdeu até o próprio nome, substituído pela alcunha infamante. Foi morar naquela Vila esquecida, biscateando, fugindo das chuvas e friagens num rancho mambembe, feio e esburacado.

Tinha lá alguns amigos, entre eles um tal Natão, desocupado e desordeiro que passava os dias na plataforma da estação, numa roda de vadios, proseando prosas à-toa e dando risadas que ecoavam ao longe. Quando não bebia, Natão era o melhor dos amigos; bêbado, ficava insuportável. Nesse estado, por mal da sorte, acometia-o uma idéia malvada e sem razão: queria a todo custo incendiar o rancho do Meióta e mais de uma vez foi impedido a muque de realizar o propósito incendiário. Pertencente à família dos mandões da Vila, nada lhe acontecia, e por isso o pobre Meióta vivia em permanente e desesperada vigília. Cada vez que avistava o Natão no rumo de seu rancho ou lhe diziam que ele andava por aquelas bandas, desabalava na defesa de seu último reduto. Não foram poucas as vezes em que acordou, alta madrugada, com o Natão rondando sua mísera morada, munido de petrechos inflamáveis. Durante anos essa corrida se repetiu.

Os tempos voaram, afastei-me da Vila e não tive notícia do desfecho de tão estranho furor incendiário. Meióta “passou para o outro lado do mistério”, como dizia mestre Machado de Assis, e Natão está sumido em vida, conforme o dito mineiro. Creio que o rancho não foi consumido pelas chamas, mas os protagonistas da história, com certeza, se consumiram no fogo da pinga.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/02/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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