Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

BOAS TARDES, COMPANHEIRADA!

Tavico alimentava pretensões eleitorais e gostava da atividade política. Deparava-se, porém, com um sério obstáculo: não conseguia falar em público. Diante dos ouvintes, entrava numa timidez infantil, as pernas fraquejavam e batia-lhe invencível tremedeira. O máximo que conseguia era levantar o chapéu e exclamar em voz tremida:

- Boas tardes, companheirada!

Diante do impasse, justou um porta-voz, advogado sem serviço mas bem falante.

Lançado candidato, Tavico compareceu ao grande comício realizado na praça central da cidade e com intensa presença de público. E lá estava ele, com ar solene, apresentando-se ao eleitorado. Ao lado, muito empolgado, o porta-voz tomou da palavra:

- Senhoras e senhores! Estou aqui, junto de nosso candidato e falando em nome dele. Trata-se de pessoa das mais conhecidas, homem de bem, cidadão prestante. É um homem alquebrado nas lutas em favor do povo, alquebrado no serviço coletivo, alquebrado na devoção ao bem comum, alquebrado, alquebrado. . .

Tavico, ali perto, pegou a se inquietar com aquilo. Trocava as pernas, retorcia os bastos bigodes e começou a suar frio. Até que, não suportando mais, venceu a custo a timidez e bradou:

- Péra aí, dotor, péra aí! Quebrado, não! Quebrado, não!

A gargalhada do povaréu ecoou na praça mas o candidato ficou feliz por ter colocado as coisas no devido lugar.

Eleito, Tavico compareceu à solenidade de posse no salão do Clube Comercial, o mais importante do lugar. Todo enfeitado e florido, o local estava repleto de convidados e iluminado de maneira feérica. A banda local, a euterpe municipal, logo de início atacou o Hino Nacional. Muito animado e disposto, o candidato eleito agarrou a patroa e saiu dançando, só parando quando a banda deu os derradeiros acordes.

Retornando à mesa, enxugando com um lenço rajado o suor que brotava da testa, foi indagado por um gaiato:

- Então, “seu” Tavico, que achou da música?

E ele, muito pronto:

- Munto boa, munto boa, mas munto ligeirinha!

Dias após a posse, Tavico foi convocado para um curso em Florianópolis, destinado a orientar os novos eleitos. Para lá se dirigiu, hospedou-se em grande estilo num bom hotel junto com a comitiva. Passou um dia inteiro dentro de uma sala abafada ouvindo explicações e mais explicações sobe administração, orçamento, normas tributárias e o mais. No final da aula, suado e cansado, saía da sala quando se deparou com o repórter Adolfo Zigelli de microfone em punho. Tentou se desviar mas o repórter escolado o cercou num canto e foi perguntando:

- Então, “seu” Tavico, como foi o curso?

- Bãh, tchê! – respondeu ele. – Tô ca cabeça que é um tacho!

Pano rápido! – como dizia o Milor Fernandes.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/02/2019 às 09h23 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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BOAS TARDES, COMPANHEIRADA!

Tavico alimentava pretensões eleitorais e gostava da atividade política. Deparava-se, porém, com um sério obstáculo: não conseguia falar em público. Diante dos ouvintes, entrava numa timidez infantil, as pernas fraquejavam e batia-lhe invencível tremedeira. O máximo que conseguia era levantar o chapéu e exclamar em voz tremida:

- Boas tardes, companheirada!

Diante do impasse, justou um porta-voz, advogado sem serviço mas bem falante.

Lançado candidato, Tavico compareceu ao grande comício realizado na praça central da cidade e com intensa presença de público. E lá estava ele, com ar solene, apresentando-se ao eleitorado. Ao lado, muito empolgado, o porta-voz tomou da palavra:

- Senhoras e senhores! Estou aqui, junto de nosso candidato e falando em nome dele. Trata-se de pessoa das mais conhecidas, homem de bem, cidadão prestante. É um homem alquebrado nas lutas em favor do povo, alquebrado no serviço coletivo, alquebrado na devoção ao bem comum, alquebrado, alquebrado. . .

Tavico, ali perto, pegou a se inquietar com aquilo. Trocava as pernas, retorcia os bastos bigodes e começou a suar frio. Até que, não suportando mais, venceu a custo a timidez e bradou:

- Péra aí, dotor, péra aí! Quebrado, não! Quebrado, não!

A gargalhada do povaréu ecoou na praça mas o candidato ficou feliz por ter colocado as coisas no devido lugar.

Eleito, Tavico compareceu à solenidade de posse no salão do Clube Comercial, o mais importante do lugar. Todo enfeitado e florido, o local estava repleto de convidados e iluminado de maneira feérica. A banda local, a euterpe municipal, logo de início atacou o Hino Nacional. Muito animado e disposto, o candidato eleito agarrou a patroa e saiu dançando, só parando quando a banda deu os derradeiros acordes.

Retornando à mesa, enxugando com um lenço rajado o suor que brotava da testa, foi indagado por um gaiato:

- Então, “seu” Tavico, que achou da música?

E ele, muito pronto:

- Munto boa, munto boa, mas munto ligeirinha!

Dias após a posse, Tavico foi convocado para um curso em Florianópolis, destinado a orientar os novos eleitos. Para lá se dirigiu, hospedou-se em grande estilo num bom hotel junto com a comitiva. Passou um dia inteiro dentro de uma sala abafada ouvindo explicações e mais explicações sobe administração, orçamento, normas tributárias e o mais. No final da aula, suado e cansado, saía da sala quando se deparou com o repórter Adolfo Zigelli de microfone em punho. Tentou se desviar mas o repórter escolado o cercou num canto e foi perguntando:

- Então, “seu” Tavico, como foi o curso?

- Bãh, tchê! – respondeu ele. – Tô ca cabeça que é um tacho!

Pano rápido! – como dizia o Milor Fernandes.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/02/2019 às 09h23 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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