Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

UMA HISTÓRIA DE AMOR E BALAS

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.