Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

_____________________________

(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

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(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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