Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A POÉTICA E A POEMÁTICA

Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Confesso minha admiração por escritores que se debruçam sobre o mesmo tema por longo tempo em busca da realização de uma obra monumental. Passam os dias, os meses, os anos e eles permanecem empenhados na tarefa sem se preocupar com o tempo de vida gasto nesse propósito. Todos os dias dedicam pelo menos um período de tempo ao trabalho, assim como alguém que cumpre um dever. E muitas vezes a conclusão da obra ainda se encontra distante, num futuro imprevisível e incerto. Até que um dia, afinal, chegam ao término da pesada tarefa, a obra vem a público e ganha vida própria, seguindo uma trajetória que ninguém poderá prever.

Foi o que aconteceu com o escritor catarinense Artêmio Zanon, nome bem conhecido de nosso meio literário e integrante da Academia Catarinense de Letras, autor de uma obra vasta e variada. Segundo declarou, ele se dedicou durante quinze anos à realização de uma obra ímpar nos anais da exegese poética no país e que acaba de ser lançada. Trata-se de “Estudos da poética e da poemática de epopeias, de poemas épicos e de poemas heroicos da literatura brasileira”, em dois alentados volumes, publicada pela Editora Secco (Florianópolis – 2018). A obra foi contemplada com o Prêmio Elisabete Anderle, na categoria ensaio. Informa o autor que foi projetada para cinco volumes, de sorte que mais três deverão vir a público.

Sob o duplo enfoque proposto, o autor submeteu a rigoroso crivo as obras de José de Anchieta, Bento Teixeira Pinto, Frei Manuel Calado, José de Brito e Lima, Gonçalo Soares da Franca, Domingos da Silva Teles, Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Cláudio Manuel da Costa, Henrique João Wilkens, Teixeira e Sousa, Álvaro Teixeira de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Frei Francisco de São Carlos, Joaquim de Souza Andrade, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Luís José Pereira Silva (Vol.I) e Anchieta por Fagundes Varela, Olavo Bilac, Lacerda Coutinho, Augusto Meira, Lindolpho Xavier, Cassiano Ricardo, Durval de Moraes, Almeida Cousin, Jorge de Lima, Carlos Alberto Nunes, Carlos Alberto de Oliveira Leite, Olavo Dantas, Walterius (Padre Geraldo Trindade), Gerardo Mello Mourão, Francisco de Mello Franco, Marcus Accioly e Foed Castro Chamma (Volume II).

Cada poeta mereceu um ensaio, exceto dois ou três cujas obras se integram em mais de um dos gêneros estudados e que foram contemplados em dois ou mais. São quarenta ensaios, todos minuciosos, fundamentados e seguidos de rigorosas notas explicativas. É um trabalho de ourives, dando atenção especial a poetas mais conhecidos e populares ou que penavam em triste ostracismo de onde foram resgatados pelo autor num gesto justiceiro e ressuscitador. Comoveram-me sobremaneira os trabalhos sobre Santa Rita Durão, cuja personagem Moema foi retratada com tanta beleza pelo pintor Almeida Jr., e sobre o inditoso Gonçalves Dias que pereceu avistando o chão natal sem nele conseguir pisar.

Numa definição tradicional, poética é a arte que ensina as regras da poesia. Como esclarece o autor, com base em teóricos consagrados, poética é a denominação de tudo aquilo que tange à criação ou à composição das obras de poesia, no sentido de poema. Já a poemática, tal como a entendo, é o estudo, a busca da poesia existente no poema. Existem obras que têm a fisionomia do poema mas não contém poesia. Isso conduz a uma indagação que se impõe: o que é poesia? Como advertiu Cassiano Ricardo, “Pouco importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la” (Vol.I, p. 21) A poesia é para ser sentida, não explicada, diria eu.

A obra de Zanon é o resultado vitorioso de uma empreitada ambiciosa e exaustiva realizada com pleno êxito. Como afirma ele, foi um estudo feito com zelo e ardor, buscando “investir na obtenção de conhecimentos” (Vol. I, p. 11) para também transmiti-los aos leitores.

Por tudo isso, pode ele proclamar: “Por isso que posso assinar, com qualquer ressalva aceitável, em face da extensão das obras estudadas, que não conheço similar na Literatura Brasileira (e, admitindo-se que exista, roga-se contribuição para acesso), proclama-se: Lavs Deo!” (Vol.I, p. 13).

Minhas saudações e meus aplausos ao autor pela obra realizada que engrandece a literatura em geral e a catarinense em especial. Ela será, daqui em diante, fonte obrigatória nos estudos relativos à poética e à poemática e às obras dos poetas focalizados. Tivéssemos verdadeira crítica, Artêmio Zanon estaria em todos os jornais e revistas. Seja como for, cumpro meu dever de justiça ao divulgá-la, embora reconhecendo que minha voz é fraca e não ecoa muito longe.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/04/2019 às 16h12 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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