Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

SAPATOS AMARELOS

Afirmavam antigos psicólogos, entre os quais, se não me falha a memória, o Prof. Iago Pimentel, que os seres humanos são dotados de dois tipos de imaginação: os univisivos (monovisivos) e os plurivisivos (multivisivos). Os primeiros enxergam os fatos na sua simplicidade. São capazes de imaginar com precisão como aconteceram, quando não os presenciaram, mas não passam disso. Já os segundos, enxergam variantes de episódios, detalhes, circunstâncias. A imaginação, partindo do real, passa a criar ou seja, a produzir aquilo que os teóricos da literatura denominam de ficção. Fatos vistos, lidos, ouvidos ou lembrados podem ter o mesmo efeito, inspirando a criação. Os primeiros, como se conclui, não têm vocação para a obra ficcional, embora tentem sem qualquer sucesso, como verifiquei várias vezes. Poderão ser historiadores, redatores, jornalistas, mas jamais autores de romances, novelas, contos, crônicas e poemas. Os segundos, ao contrário, dão largas à imaginação e criam as mais diversas e imprevistas histórias que nunca aconteceram com personagens que jamais existiram.

Essas observações me ocorrem ao terminar a leitura de “Maigret e o homem do banco”, mais uma das inúmeras histórias envolvendo o comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária francesa, sem dúvida o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989), publicado pela L&PM (P. Alegre – 2004). Nesse romance o autor se revela o mais completo polivisivo que se possa encontrar na literatura, extraindo de um fato mais ou menos comum numa grande metrópole como Paris (latrocínio) uma história absorvente e que atiça o leitor sequioso de conhecer o desenlace. Partindo do encontro de um morto a facada num beco estreito, ele complica as coisas ao revelar que a vítima, contrariando seus hábitos sedimentados, usava sapatos amarelos e uma gravata espalhafatosa como jamais fizeram antes. Esses detalhes intrigam a polícia e conduzem a uma investigação longa e complexa, envolvendo tempo e trabalho, além de trazerem à tona incontáveis personagens.

Modesto almoxarife de uma empresa há longos anos, Louis Thouret fica desempregado quando ela encerra as atividades. Temeroso da reação da esposa, mulher dominadora, esconde o fato dela e dos familiares e trata de procurar novo emprego. Como não consegue, passa os dias perambulando pela cidade ou sentado num banco de rua onde permanece por longo tempo. Consegue algum dinheiro emprestado e assim vai mantendo as aparências como se continuasse trabalhando e sem que a mulher desconfie da real situação. Tempos depois, sem explicação razoável, começa a dar mostras de possuir muito dinheiro, cuja origem é um mistério. E então, numa segunda-feira chuvosa, é encontrado morto num beco estreito com uma facada nas costas. A equipe de Maigret entra em cena e, depois de muita investigação, acaba chegando ao criminoso e descobre a origem do dinheiro misterioso. A chave do mistério está no tempo em que a vítima permanece sentada no banco da praça. Nessas longas horas de ócio afina o senso de observação, passa a conhecer os detalhes da rotina do comércio da região e articula um plano simples e seguro, cuja prática realiza com a ajuda de um antigo palhaço de circo, desocupado e velho conhecido dos policias. E então se desvenda a incrível vida paralela da vítima e as razões pelas quais foi encontrado calçando sapatos amarelos e usando a extravagante gravata. É uma trama complexa, com inúmeros incidentes e envolvendo grande quantidade de personagens. E mais uma vitória de Maigret, um dos maiores detetives da literatura mundial, ombreando com Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Ao longo do livro, Simenon põe na boca de seu personagem muitas de suas observações pessoais, como apaixonado que foi pela cidade de Paris. Observando a imensa fauna humana que se move pelas ruas da metrópole, ele identifica os ativos, correndo sem trégua atrás de seus objetivos, os vencidos, que andam maquinalmente, sem ânimo e sem vigor, e os cansados, que arrastam os pés nas calçadas. Em várias passagens lança um olhar amoroso sobre a multidão informe e colorida, recordando aquilo que o impressionava antes e agora. Em raro momento de mau humor, reclama da penumbra nos gabinetes da Polícia Judiciária: por que não os iluminam melhor? Numa passagem inesperada, discreto a respeito de sua vida pessoal, Maigret faz a revelação surpreendente de que teve uma filhinha falecida em criança.

Georges Simenon foi um escritor prolífico, tendo publicado mais de duzentos livros e obtendo enorme sucesso em todo o mundo. Escrevia bem, era mestre no diálogo, e tinha uma imaginação sem limites. Contam seus biógrafos que, quando escrevia, se enfurnava no gabinete com o guia telefônico de Paris, do qual retirava os nomes de seus personagens e se isolava do mundo. Não falava com ninguém, não recebia visitas e não atendia ao telefone.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/05/2019 às 10h45 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Afirmavam antigos psicólogos, entre os quais, se não me falha a memória, o Prof. Iago Pimentel, que os seres humanos são dotados de dois tipos de imaginação: os univisivos (monovisivos) e os plurivisivos (multivisivos). Os primeiros enxergam os fatos na sua simplicidade. São capazes de imaginar com precisão como aconteceram, quando não os presenciaram, mas não passam disso. Já os segundos, enxergam variantes de episódios, detalhes, circunstâncias. A imaginação, partindo do real, passa a criar ou seja, a produzir aquilo que os teóricos da literatura denominam de ficção. Fatos vistos, lidos, ouvidos ou lembrados podem ter o mesmo efeito, inspirando a criação. Os primeiros, como se conclui, não têm vocação para a obra ficcional, embora tentem sem qualquer sucesso, como verifiquei várias vezes. Poderão ser historiadores, redatores, jornalistas, mas jamais autores de romances, novelas, contos, crônicas e poemas. Os segundos, ao contrário, dão largas à imaginação e criam as mais diversas e imprevistas histórias que nunca aconteceram com personagens que jamais existiram.

Essas observações me ocorrem ao terminar a leitura de “Maigret e o homem do banco”, mais uma das inúmeras histórias envolvendo o comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária francesa, sem dúvida o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989), publicado pela L&PM (P. Alegre – 2004). Nesse romance o autor se revela o mais completo polivisivo que se possa encontrar na literatura, extraindo de um fato mais ou menos comum numa grande metrópole como Paris (latrocínio) uma história absorvente e que atiça o leitor sequioso de conhecer o desenlace. Partindo do encontro de um morto a facada num beco estreito, ele complica as coisas ao revelar que a vítima, contrariando seus hábitos sedimentados, usava sapatos amarelos e uma gravata espalhafatosa como jamais fizeram antes. Esses detalhes intrigam a polícia e conduzem a uma investigação longa e complexa, envolvendo tempo e trabalho, além de trazerem à tona incontáveis personagens.

Modesto almoxarife de uma empresa há longos anos, Louis Thouret fica desempregado quando ela encerra as atividades. Temeroso da reação da esposa, mulher dominadora, esconde o fato dela e dos familiares e trata de procurar novo emprego. Como não consegue, passa os dias perambulando pela cidade ou sentado num banco de rua onde permanece por longo tempo. Consegue algum dinheiro emprestado e assim vai mantendo as aparências como se continuasse trabalhando e sem que a mulher desconfie da real situação. Tempos depois, sem explicação razoável, começa a dar mostras de possuir muito dinheiro, cuja origem é um mistério. E então, numa segunda-feira chuvosa, é encontrado morto num beco estreito com uma facada nas costas. A equipe de Maigret entra em cena e, depois de muita investigação, acaba chegando ao criminoso e descobre a origem do dinheiro misterioso. A chave do mistério está no tempo em que a vítima permanece sentada no banco da praça. Nessas longas horas de ócio afina o senso de observação, passa a conhecer os detalhes da rotina do comércio da região e articula um plano simples e seguro, cuja prática realiza com a ajuda de um antigo palhaço de circo, desocupado e velho conhecido dos policias. E então se desvenda a incrível vida paralela da vítima e as razões pelas quais foi encontrado calçando sapatos amarelos e usando a extravagante gravata. É uma trama complexa, com inúmeros incidentes e envolvendo grande quantidade de personagens. E mais uma vitória de Maigret, um dos maiores detetives da literatura mundial, ombreando com Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Ao longo do livro, Simenon põe na boca de seu personagem muitas de suas observações pessoais, como apaixonado que foi pela cidade de Paris. Observando a imensa fauna humana que se move pelas ruas da metrópole, ele identifica os ativos, correndo sem trégua atrás de seus objetivos, os vencidos, que andam maquinalmente, sem ânimo e sem vigor, e os cansados, que arrastam os pés nas calçadas. Em várias passagens lança um olhar amoroso sobre a multidão informe e colorida, recordando aquilo que o impressionava antes e agora. Em raro momento de mau humor, reclama da penumbra nos gabinetes da Polícia Judiciária: por que não os iluminam melhor? Numa passagem inesperada, discreto a respeito de sua vida pessoal, Maigret faz a revelação surpreendente de que teve uma filhinha falecida em criança.

Georges Simenon foi um escritor prolífico, tendo publicado mais de duzentos livros e obtendo enorme sucesso em todo o mundo. Escrevia bem, era mestre no diálogo, e tinha uma imaginação sem limites. Contam seus biógrafos que, quando escrevia, se enfurnava no gabinete com o guia telefônico de Paris, do qual retirava os nomes de seus personagens e se isolava do mundo. Não falava com ninguém, não recebia visitas e não atendia ao telefone.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/05/2019 às 10h45 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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