Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

TUDO JUNTO (II)

Graças à gentileza do talentoso poeta Tarso de Melo, recebi vários exemplares de “K – Jornal de Crítica”, publicado em São Paulo e do qual ele é um dos editores. Tenho para mim que é o mais sofisticado periódico nacional dedicado à crítica literária, contando com uma equipe de primeira linha, e realizando análises de obras e autores fora do âmbito universitário, hoje concentrando quase toda essa atividade, cujo espaço nos jornais está desaparecendo. Entre os que escrevem no jornal destacam-se nomes como Carlos Felipe Moisés, Manuel da Costa Pinto, Donizete Galvão, Reynaldo Damazio e muitos outros, além do próprio Tarso de Melo em sua coluna “K Indica”, focalizando obras recentes. O jornal também agasalha poesias de nível, garimpadas na obra de bons poetas. Excelentes os ensaios sobre Ana Cristina Cesar. Trata-se, enfim, de uma publicação que reavivou o meu enlevo pela velha e boa crítica literária, aquela que se constitui num facho de luz iluminando o caminho dos que não dispensam a companhia dos livros. Como já faz algum tempo que não tenho notícia do jornal, espero que não tenha sido vítima do mal do sexto número, como acontece com tantos periódicos culturais brasileiros.


Noticiaram os jornais que os desmatadores da Amazônia estão adotando métodos mais sofisticados. Com o uso de aviões, pulverizam herbicidas sobre a floresta, provocando em poucos dias a queda total das folhas das árvores. Aí entram as malignas motosserras e os monstruosos tratores derrubando tudo. É um herbicida semelhante ao célebre agente laranja que os Estados Unidos tanto usaram na Guerra do Vietnã. Além da destruição implacável das florestas, o veneno mata animais e insetos e contamina o lençol freático de maneira que a água, em toda a região, provoca intoxicação quando ingerida e problemas cutâneos. A nova modalidade de crime seria inacreditável não fosse constatada por satélite, averiguada in loco por fiscais e objeto de inquérito pela Polícia Federal que, por sinal, apreendeu toneladas do herbicida destinadas ao uso. Tais ações criminosas lembram a política de terra arrasada adotada em algumas guerras pelos inimigos. Mais grave, porém, é que são praticadas por brasileiros contra sua própria pátria, sem qualquer consideração pela saúde das pessoas e pelo futuro do país. E como tais práticas logo encontram imitadores, tudo indica que se multiplicarão de forma incontrolável. Até quando? Até que não reste o menor resquício de verde da maior floresta do mundo. País que tem filhos assim não carece de inimigos.


Quando eclodem escândalos na administração pública todos querem, com razão, que os corruptos sejam punidos. Quase ninguém, no entanto, se lembra de que os corruptores também têm idêntica responsabilidade e merecem a mesma punição. Impera a idéia de que quem rouba o erário é ladrão, mas quem furta dos particulares é esperto. Parece, porém, que as coisas aos poucos começam a mudar. Já aparecem na mídia aqueles que protestam contra isso e lembram que sem corruptores não existem corruptos. Antes tarde.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/06/2019 às 16h01 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Graças à gentileza do talentoso poeta Tarso de Melo, recebi vários exemplares de “K – Jornal de Crítica”, publicado em São Paulo e do qual ele é um dos editores. Tenho para mim que é o mais sofisticado periódico nacional dedicado à crítica literária, contando com uma equipe de primeira linha, e realizando análises de obras e autores fora do âmbito universitário, hoje concentrando quase toda essa atividade, cujo espaço nos jornais está desaparecendo. Entre os que escrevem no jornal destacam-se nomes como Carlos Felipe Moisés, Manuel da Costa Pinto, Donizete Galvão, Reynaldo Damazio e muitos outros, além do próprio Tarso de Melo em sua coluna “K Indica”, focalizando obras recentes. O jornal também agasalha poesias de nível, garimpadas na obra de bons poetas. Excelentes os ensaios sobre Ana Cristina Cesar. Trata-se, enfim, de uma publicação que reavivou o meu enlevo pela velha e boa crítica literária, aquela que se constitui num facho de luz iluminando o caminho dos que não dispensam a companhia dos livros. Como já faz algum tempo que não tenho notícia do jornal, espero que não tenha sido vítima do mal do sexto número, como acontece com tantos periódicos culturais brasileiros.


Noticiaram os jornais que os desmatadores da Amazônia estão adotando métodos mais sofisticados. Com o uso de aviões, pulverizam herbicidas sobre a floresta, provocando em poucos dias a queda total das folhas das árvores. Aí entram as malignas motosserras e os monstruosos tratores derrubando tudo. É um herbicida semelhante ao célebre agente laranja que os Estados Unidos tanto usaram na Guerra do Vietnã. Além da destruição implacável das florestas, o veneno mata animais e insetos e contamina o lençol freático de maneira que a água, em toda a região, provoca intoxicação quando ingerida e problemas cutâneos. A nova modalidade de crime seria inacreditável não fosse constatada por satélite, averiguada in loco por fiscais e objeto de inquérito pela Polícia Federal que, por sinal, apreendeu toneladas do herbicida destinadas ao uso. Tais ações criminosas lembram a política de terra arrasada adotada em algumas guerras pelos inimigos. Mais grave, porém, é que são praticadas por brasileiros contra sua própria pátria, sem qualquer consideração pela saúde das pessoas e pelo futuro do país. E como tais práticas logo encontram imitadores, tudo indica que se multiplicarão de forma incontrolável. Até quando? Até que não reste o menor resquício de verde da maior floresta do mundo. País que tem filhos assim não carece de inimigos.


Quando eclodem escândalos na administração pública todos querem, com razão, que os corruptos sejam punidos. Quase ninguém, no entanto, se lembra de que os corruptores também têm idêntica responsabilidade e merecem a mesma punição. Impera a idéia de que quem rouba o erário é ladrão, mas quem furta dos particulares é esperto. Parece, porém, que as coisas aos poucos começam a mudar. Já aparecem na mídia aqueles que protestam contra isso e lembram que sem corruptores não existem corruptos. Antes tarde.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/06/2019 às 16h01 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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