Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O OGRO E A POMBA

Quando se anunciou o próximo casamento de Diego Rivera e Frida Khalo, o pai da moça teria afirmado que se tratava da união do ogro com a pomba, tão diferentes no aspecto físico eram os dois. Ele, um homem grandalhão, um tanto gordo e feio; ela, uma moça magra e de aparência frágil e doentia. Além disso, o noivo tinha o dobro da idade da noiva e já passara por outros matrimônios, todos mal sucedidos. Mas o casamento aconteceu duas vezes e foi dos mais comentados e controversos dos meios culturais de todo o mundo. A história de amor de Frida e Diego foi a de uma união inseparável em que ambos se irmanavam no sentimento revolucionário, tanto na vida como na arte. Ele foi o maior muralista mexicano e ela, por sua vez, uma pintora que encantou os apreciadores de todo o mundo.

Pessoa doentia, acometida de poliomielite aos seis anos de idade, vítima de terrível acidente que a cumularia de sofrimentos pela vida a fora, Frida se apaixonou pelo pintor quando menina e comparecia ao local onde ele trabalhava para vê-lo e contemplar sua arte. Desde logo comungou com ele do ideal de recuperar o México histórico e tradicional, revivendo os costumes, a arte secular do povo mexicano e a cultura dos indígenas pré-colombianos, libertando-se de influências estrangeiras. Fiel a esse propósito, com o integral apoio dela, Diego realizou imensos murais que impressionaram desde logo pela grandeza, pela inspiração e pela beleza. Seu nome não tardou a transpor as fronteiras e se tornou um artista de fama mundial, convidado várias vezes para executar obras em outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde travou uma luta desigual com o todo-poderoso Nelson Rockefeller.

Diego Rivera foi uma figura complexa. A par da seriedade e disciplina com que se lançava ao trabalho, era “um mentiroso, um fanfarrão, um inventor de histórias que se alimentavam do imaginário”, como escreveu seu biógrafo. Inveterado conquistador, apesar da feiúra, manteve vários relacionamentos amorosos complicados e ruidosos. Entregou-se às mais estranhas experiências, provando inclusive o canibalismo, ocasião em que declarou que a carne humana é adocicada. Mas nutria uma fé inquebrantável na renovação da arte popular mexicana e com isso selou sua sobrevivência na história da pintura moderna. Recebeu e suportou com estoicismo críticas que ridicularizavam sua escolha indianista, mas jamais abdicou dela.

Seus imensos murais, vivos e brilhantes, tiravam do ostracismo o México profundo que estava sendo soterrado pelas influências de fora. Retratavam os nativos nas suas atividades cotidianas, as mulheres de pele ocre com as costas largas e fisionomias serenas, os cabelos longos e negros, às vezes numa nudez inocente e despreocupada. A vida fluindo como nos tempos de dantes, Para isso, captando imagens in loco, ele perambulava pelos rincões mexicanos de onde retornava com a mala repleta de esboços e anotações. Realizava o que seu biógrafo denominou de festa indígena, sempre ao lado da mulher. “Frida, bem como Diego, inventou o passado indígena do México (...) Mas Diego é o primeiro a exprimir verdadeiramente o mundo indígena, sua força vital, sua exuberância colorida, seu martírio cotidiano também” – afirmou o biógrafo.

A influência da arte de Diego, ao lado de Frida, não tarda a se fazer sentir. Surge aquele México alegre, colorido, musical e amante da liberdade. Ambos, em conjunto, provocaram a revolução através da pintura. E lutaram sempre por um mundo melhor, com muita paz, a proscrição das armas nucleares e a solidariedade entre os povos.

As biografias paralelas de Frida e Diego estão reconstruídas de forma magistral no livro “Diego e Frida”, de autoria de J. M. G. Le Clézio, escritor francês, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, publicado entre nós pela Editora Record (2010), em tradução de Vera Lúcia dos Reis. Obra que mereceu do jornal “Le Monde” as seguintes palavras: “Esta biografia amplia a história, a dos indivíduos e dos povos, até as dimensões da lenda.”

Escrito por Enéas Athanázio, 08/07/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O OGRO E A POMBA

Quando se anunciou o próximo casamento de Diego Rivera e Frida Khalo, o pai da moça teria afirmado que se tratava da união do ogro com a pomba, tão diferentes no aspecto físico eram os dois. Ele, um homem grandalhão, um tanto gordo e feio; ela, uma moça magra e de aparência frágil e doentia. Além disso, o noivo tinha o dobro da idade da noiva e já passara por outros matrimônios, todos mal sucedidos. Mas o casamento aconteceu duas vezes e foi dos mais comentados e controversos dos meios culturais de todo o mundo. A história de amor de Frida e Diego foi a de uma união inseparável em que ambos se irmanavam no sentimento revolucionário, tanto na vida como na arte. Ele foi o maior muralista mexicano e ela, por sua vez, uma pintora que encantou os apreciadores de todo o mundo.

Pessoa doentia, acometida de poliomielite aos seis anos de idade, vítima de terrível acidente que a cumularia de sofrimentos pela vida a fora, Frida se apaixonou pelo pintor quando menina e comparecia ao local onde ele trabalhava para vê-lo e contemplar sua arte. Desde logo comungou com ele do ideal de recuperar o México histórico e tradicional, revivendo os costumes, a arte secular do povo mexicano e a cultura dos indígenas pré-colombianos, libertando-se de influências estrangeiras. Fiel a esse propósito, com o integral apoio dela, Diego realizou imensos murais que impressionaram desde logo pela grandeza, pela inspiração e pela beleza. Seu nome não tardou a transpor as fronteiras e se tornou um artista de fama mundial, convidado várias vezes para executar obras em outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde travou uma luta desigual com o todo-poderoso Nelson Rockefeller.

Diego Rivera foi uma figura complexa. A par da seriedade e disciplina com que se lançava ao trabalho, era “um mentiroso, um fanfarrão, um inventor de histórias que se alimentavam do imaginário”, como escreveu seu biógrafo. Inveterado conquistador, apesar da feiúra, manteve vários relacionamentos amorosos complicados e ruidosos. Entregou-se às mais estranhas experiências, provando inclusive o canibalismo, ocasião em que declarou que a carne humana é adocicada. Mas nutria uma fé inquebrantável na renovação da arte popular mexicana e com isso selou sua sobrevivência na história da pintura moderna. Recebeu e suportou com estoicismo críticas que ridicularizavam sua escolha indianista, mas jamais abdicou dela.

Seus imensos murais, vivos e brilhantes, tiravam do ostracismo o México profundo que estava sendo soterrado pelas influências de fora. Retratavam os nativos nas suas atividades cotidianas, as mulheres de pele ocre com as costas largas e fisionomias serenas, os cabelos longos e negros, às vezes numa nudez inocente e despreocupada. A vida fluindo como nos tempos de dantes, Para isso, captando imagens in loco, ele perambulava pelos rincões mexicanos de onde retornava com a mala repleta de esboços e anotações. Realizava o que seu biógrafo denominou de festa indígena, sempre ao lado da mulher. “Frida, bem como Diego, inventou o passado indígena do México (...) Mas Diego é o primeiro a exprimir verdadeiramente o mundo indígena, sua força vital, sua exuberância colorida, seu martírio cotidiano também” – afirmou o biógrafo.

A influência da arte de Diego, ao lado de Frida, não tarda a se fazer sentir. Surge aquele México alegre, colorido, musical e amante da liberdade. Ambos, em conjunto, provocaram a revolução através da pintura. E lutaram sempre por um mundo melhor, com muita paz, a proscrição das armas nucleares e a solidariedade entre os povos.

As biografias paralelas de Frida e Diego estão reconstruídas de forma magistral no livro “Diego e Frida”, de autoria de J. M. G. Le Clézio, escritor francês, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, publicado entre nós pela Editora Record (2010), em tradução de Vera Lúcia dos Reis. Obra que mereceu do jornal “Le Monde” as seguintes palavras: “Esta biografia amplia a história, a dos indivíduos e dos povos, até as dimensões da lenda.”

Escrito por Enéas Athanázio, 08/07/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.