Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O HÓSPEDE

O senhor Almeida se dedicava à agricultura. Vivia num sítio perdido no ermo, aprazível e silencioso, onde as preocupações mais urgentes se relacionavam às condições do tempo, em geral favoráveis, propiciando boas colheitas. Gastava seus longos dias sugando grosso palheiro e, pela tarde, se ajeitava à beira do fogão de lenha, matutando ideias nunca reveladas, enquanto a mulher preparava um jantar simples mas delicioso. Com o correr do tempo, porém, outra preocupação começou a toldar sua paz. É que o tranquilo sitiante tinha nada menos que nove filhas, algumas já passadas e outras em pleno viço, todas simpáticas e bonitonas. Como naqueles ínvios pouca gente de fora aparecia, as pobres moças não encontravam pretendentes e todas corriam o risco de ficar para titias. Em conversas com a mulher, Almeida se convenceu de que teria que mudar de lugar e de profissão em benefício da prole casadoira.

Passou a ler com atenção os anúncios dos jornais até que encontrou a solução. Numa estância de águas, não distante dali, estava à venda um amplo e antigo hotel. Almeida tratou de vender o sítio, com o gado, os cavalos, as ovelhas, as roças e tudo o mais, apurando considerável importância. Logo em seguida, sem maiores problemas, adquiriu o estabelecimento. Em pouco tempo, ele e a família estavam instalados no Grande Hotel, tão grande que possuía quartos em profusão, corredores imensos e salas espaçosas, além de ficar bem próximo das fontes minerais.

Ansiosa, toda a família ficou aguardando a chegada dos hóspedes, mas eles tardavam a aparecer. Mal administrado pelos antigos donos, o hotel não gozava de grande conceito. Mas vai que um dia, afinal, apontou na curva da estrada o primeiro e tão esperado hóspede. Tratava-se de um senhor Garcia, já entrado em anos, acometido de mal dos nervos e que procurava um recanto sossegado onde aplacar o mal que tanto o afligia. Foi recebido com toda cortesia e alojado no melhor quarto, com ampla vista para a cidadezinha e as verdejantes matas da região.

Desde o primeiro instante, foi o hóspede tratado com as maiores gentilezas. Bastava manifestar qualquer desejo e seu Almeida estava pronto a satisfazê-lo.

- O senhor Garcia quer um copo d’água! – gritava para dentro. E não tardava a aparecer uma das nove, toda elegante e brejeira, levando o líquido numa bandeja recoberta por uma toalha de crochê.

Tão logo servida a refeição, acorria o senhor Almeida, todo cheio de mesuras, em busca do precioso hóspede.

- Meninas! – bradava ele. – Preparem um lugar para o senhor Garcia!

Durante a refeição os salamaleques se repetiam.

- Sirva-se mais, senhor Garcia! Experimente esta coxa de frango crioulo. Este é um feijão especial, preparado para o senhor.

Constrangido, o hóspede agradecia, embora lamentasse no íntimo a conspiração contra o sossego e a solidão que tanto procurava. Até que um dia, enjoado daquilo tudo, tomou uma séria decisão.

Na calada da noite, quando todos dormiam, arrumou sua tralha, desceu a escadaria e deixou sobre o balcão da portaria o pagamento da hospedagem.

Em completo silêncio, sumiu na noite sem deixar rastro. Delicadeza em excesso enjoa e cansa!

Este é o resumo simplificado de um capítulo do romance “Vida Ociosa”, obra-prima de nossa literatura, publicado em 1920, e que consagrou o escritor mineiro Godofredo Rangel.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/07/2019 às 13h20 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Enéas Athanázio
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O HÓSPEDE

O senhor Almeida se dedicava à agricultura. Vivia num sítio perdido no ermo, aprazível e silencioso, onde as preocupações mais urgentes se relacionavam às condições do tempo, em geral favoráveis, propiciando boas colheitas. Gastava seus longos dias sugando grosso palheiro e, pela tarde, se ajeitava à beira do fogão de lenha, matutando ideias nunca reveladas, enquanto a mulher preparava um jantar simples mas delicioso. Com o correr do tempo, porém, outra preocupação começou a toldar sua paz. É que o tranquilo sitiante tinha nada menos que nove filhas, algumas já passadas e outras em pleno viço, todas simpáticas e bonitonas. Como naqueles ínvios pouca gente de fora aparecia, as pobres moças não encontravam pretendentes e todas corriam o risco de ficar para titias. Em conversas com a mulher, Almeida se convenceu de que teria que mudar de lugar e de profissão em benefício da prole casadoira.

Passou a ler com atenção os anúncios dos jornais até que encontrou a solução. Numa estância de águas, não distante dali, estava à venda um amplo e antigo hotel. Almeida tratou de vender o sítio, com o gado, os cavalos, as ovelhas, as roças e tudo o mais, apurando considerável importância. Logo em seguida, sem maiores problemas, adquiriu o estabelecimento. Em pouco tempo, ele e a família estavam instalados no Grande Hotel, tão grande que possuía quartos em profusão, corredores imensos e salas espaçosas, além de ficar bem próximo das fontes minerais.

Ansiosa, toda a família ficou aguardando a chegada dos hóspedes, mas eles tardavam a aparecer. Mal administrado pelos antigos donos, o hotel não gozava de grande conceito. Mas vai que um dia, afinal, apontou na curva da estrada o primeiro e tão esperado hóspede. Tratava-se de um senhor Garcia, já entrado em anos, acometido de mal dos nervos e que procurava um recanto sossegado onde aplacar o mal que tanto o afligia. Foi recebido com toda cortesia e alojado no melhor quarto, com ampla vista para a cidadezinha e as verdejantes matas da região.

Desde o primeiro instante, foi o hóspede tratado com as maiores gentilezas. Bastava manifestar qualquer desejo e seu Almeida estava pronto a satisfazê-lo.

- O senhor Garcia quer um copo d’água! – gritava para dentro. E não tardava a aparecer uma das nove, toda elegante e brejeira, levando o líquido numa bandeja recoberta por uma toalha de crochê.

Tão logo servida a refeição, acorria o senhor Almeida, todo cheio de mesuras, em busca do precioso hóspede.

- Meninas! – bradava ele. – Preparem um lugar para o senhor Garcia!

Durante a refeição os salamaleques se repetiam.

- Sirva-se mais, senhor Garcia! Experimente esta coxa de frango crioulo. Este é um feijão especial, preparado para o senhor.

Constrangido, o hóspede agradecia, embora lamentasse no íntimo a conspiração contra o sossego e a solidão que tanto procurava. Até que um dia, enjoado daquilo tudo, tomou uma séria decisão.

Na calada da noite, quando todos dormiam, arrumou sua tralha, desceu a escadaria e deixou sobre o balcão da portaria o pagamento da hospedagem.

Em completo silêncio, sumiu na noite sem deixar rastro. Delicadeza em excesso enjoa e cansa!

Este é o resumo simplificado de um capítulo do romance “Vida Ociosa”, obra-prima de nossa literatura, publicado em 1920, e que consagrou o escritor mineiro Godofredo Rangel.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/07/2019 às 13h20 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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