Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

MAR E GUERRA

Em visita ao Rio de Janeiro, para receber os prêmios que me foram conferidos pela União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), adquiri numa loja das Livrarias da Travessa um exemplar do terceiro volume dos contos de Ernest Hemingway (1899/1961), integrante de suas Obras Completas (Bertrand Brasil – Rio – 2001). O volume reúne 21 contos de autoria do norte-americano, dentre eles alguns dos menos conhecidos e outros muito longos, talvez fragmentos de romances não concluídos pelo autor. A tradução é de José J. Veiga.

Nesses contos, como em toda a obra do autor, o mar e a guerra são muito presentes. É conhecida a paixão dele pelo mar, pelas pescarias e aventuras marítimas, aos quais se dedicou com intensidade, em especial no período em que viveu na Finca Vigia, em Cuba. Ficou célebre sua lancha Pilar, com a qual muito navegou pelo Gulf Stream e que usou até mesmo para localizar submarinos alemães durante a II Guerra Mundial. Também o fascínio que alimentava pelas guerras é conhecido, uma vez que se tornou herói da I Guerra Mundial, ao ser ferido em missão, na Itália. Depois disso, cobriu outros conflitos e até mesmo participou de operações bélicas, inclusive na Guerra Civil espanhola e na retomada de Paris. Diante disso tudo, é natural que muito dessas experiências transpareça na sua obra em páginas de fundo memorialístico, como acontece em muitos destes contos.

Logo no conto de abertura nos deparamos com o capitão Harry, personagem já conhecido, seu barco e uma perigosa travessia clandestina para contrabandear chineses. É um conto que culmina com muita violência, como se espera do capitão Harry, em que é morto o Sr. Sing, intermediário do negócio, sem que pareça existir motivo. E os chineses transportados, em vez de serem levados a um dos destinos combinados, são largados à própria sorte em Cuba. Conto escrito com maestria, com muito diálogo e que transmite com precisão o ambiente do cais e da gente ribeirinha. O conto seguinte também se envolve com as coisas do mar. E os três que se seguem têm a guerra como pano de fundo. Em um deles é relatada a angústia do combatente na véspera de uma batalha que já sabe perdida e na qual prevê que vai morrer. Esses contos acontecem na época em que o narrador-personagem vivia no Hotel Flórida, em Madri, enquanto a guerra se travava no fim da rua e as bombas explodiam na frente do próprio hotel e às vezes até o atingiam.

Os contos subsequentes também têm a guerra como pano de fundo, um na Espanha e outro em Cuba. São contos “pesados”, conforme a divisão de Monteiro Lobato, tradutor de Hemingway, para distingui-los dos “leves” No primeiro deles, o cinegrafista filma uma batalha ao pé da cordilheira quando observa um soldado francês que está desertando, desiludido com a possibilidade de vitória. É então perseguido e morto de maneira fria e implacável pelos fiscais armados. No segundo conto, numa casa cheia de armas, jovem casal revolucionário tenta fugir. O rapaz é metralhado e a moça conduzida à prisão e à tortura pela polícia do ditador Batista. Nesses contos Hemingway parece dizer que os humanistas apreciam a humanidade cm conjunto, como algo etéreo e distante, mas não suportam os indivíduos isolados, em carne e osso. É um amor platônico pelo ser humano indeterminado – aquele a que chamamos o povo.

No longo conto “Quando o mundo era novo”, o escritor repisa uma de suas antigas obsessões: a velhice deste mundo caduco e que está sempre repetindo os mesmos erros. Nele parece suspirar de doloridas saudades de um mundo jovem, limpo, justo e humano. No fundo, é provável que acreditasse no rejuvenescimento deste mundo velho renovando-se para melhor. E nos demais contos reunidos no volume o leitor vai encontrar todas as paixões do escritor: a África, a Espanha (que considerava a segunda pátria), as touradas, os animais (com predileção pelos grandes – leões, búfalos, elefantes, cães...), as viagens, o movimento, as inquietações, as argutas observações. Sempre e sempre a atividade, as lutas, as vitórias e as derrotas, a vida e a morte, a paisagem, a natureza, o amor, o espetáculo da vida. Nunca a masturbação psicológica de que falava o crítico Wilson Martins. Nick Adams, um de seus mais célebres personagens, também se apresenta. Estes talvez não sejam o melhor Hemingway mas são, sem dúvida, alguns dos grandes momentos da contística universal.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/08/2019 às 12h04 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Em visita ao Rio de Janeiro, para receber os prêmios que me foram conferidos pela União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), adquiri numa loja das Livrarias da Travessa um exemplar do terceiro volume dos contos de Ernest Hemingway (1899/1961), integrante de suas Obras Completas (Bertrand Brasil – Rio – 2001). O volume reúne 21 contos de autoria do norte-americano, dentre eles alguns dos menos conhecidos e outros muito longos, talvez fragmentos de romances não concluídos pelo autor. A tradução é de José J. Veiga.

Nesses contos, como em toda a obra do autor, o mar e a guerra são muito presentes. É conhecida a paixão dele pelo mar, pelas pescarias e aventuras marítimas, aos quais se dedicou com intensidade, em especial no período em que viveu na Finca Vigia, em Cuba. Ficou célebre sua lancha Pilar, com a qual muito navegou pelo Gulf Stream e que usou até mesmo para localizar submarinos alemães durante a II Guerra Mundial. Também o fascínio que alimentava pelas guerras é conhecido, uma vez que se tornou herói da I Guerra Mundial, ao ser ferido em missão, na Itália. Depois disso, cobriu outros conflitos e até mesmo participou de operações bélicas, inclusive na Guerra Civil espanhola e na retomada de Paris. Diante disso tudo, é natural que muito dessas experiências transpareça na sua obra em páginas de fundo memorialístico, como acontece em muitos destes contos.

Logo no conto de abertura nos deparamos com o capitão Harry, personagem já conhecido, seu barco e uma perigosa travessia clandestina para contrabandear chineses. É um conto que culmina com muita violência, como se espera do capitão Harry, em que é morto o Sr. Sing, intermediário do negócio, sem que pareça existir motivo. E os chineses transportados, em vez de serem levados a um dos destinos combinados, são largados à própria sorte em Cuba. Conto escrito com maestria, com muito diálogo e que transmite com precisão o ambiente do cais e da gente ribeirinha. O conto seguinte também se envolve com as coisas do mar. E os três que se seguem têm a guerra como pano de fundo. Em um deles é relatada a angústia do combatente na véspera de uma batalha que já sabe perdida e na qual prevê que vai morrer. Esses contos acontecem na época em que o narrador-personagem vivia no Hotel Flórida, em Madri, enquanto a guerra se travava no fim da rua e as bombas explodiam na frente do próprio hotel e às vezes até o atingiam.

Os contos subsequentes também têm a guerra como pano de fundo, um na Espanha e outro em Cuba. São contos “pesados”, conforme a divisão de Monteiro Lobato, tradutor de Hemingway, para distingui-los dos “leves” No primeiro deles, o cinegrafista filma uma batalha ao pé da cordilheira quando observa um soldado francês que está desertando, desiludido com a possibilidade de vitória. É então perseguido e morto de maneira fria e implacável pelos fiscais armados. No segundo conto, numa casa cheia de armas, jovem casal revolucionário tenta fugir. O rapaz é metralhado e a moça conduzida à prisão e à tortura pela polícia do ditador Batista. Nesses contos Hemingway parece dizer que os humanistas apreciam a humanidade cm conjunto, como algo etéreo e distante, mas não suportam os indivíduos isolados, em carne e osso. É um amor platônico pelo ser humano indeterminado – aquele a que chamamos o povo.

No longo conto “Quando o mundo era novo”, o escritor repisa uma de suas antigas obsessões: a velhice deste mundo caduco e que está sempre repetindo os mesmos erros. Nele parece suspirar de doloridas saudades de um mundo jovem, limpo, justo e humano. No fundo, é provável que acreditasse no rejuvenescimento deste mundo velho renovando-se para melhor. E nos demais contos reunidos no volume o leitor vai encontrar todas as paixões do escritor: a África, a Espanha (que considerava a segunda pátria), as touradas, os animais (com predileção pelos grandes – leões, búfalos, elefantes, cães...), as viagens, o movimento, as inquietações, as argutas observações. Sempre e sempre a atividade, as lutas, as vitórias e as derrotas, a vida e a morte, a paisagem, a natureza, o amor, o espetáculo da vida. Nunca a masturbação psicológica de que falava o crítico Wilson Martins. Nick Adams, um de seus mais célebres personagens, também se apresenta. Estes talvez não sejam o melhor Hemingway mas são, sem dúvida, alguns dos grandes momentos da contística universal.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/08/2019 às 12h04 | e.atha@terra.com.br



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