Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

JOSÉ ATHANÁZIO, MEU PAI

 Para quem tanto tem escrito sobre estranhos, quero crer que não incidirei em pecado relembrando meu próprio pai, essa figura singular, que viveu tão pouco, e, no entanto, ainda permanece na memória de sua gente mesmo depois de tantos anos após sua morte.

José Fontes Athanázio nasceu na então Villa de São João Baptista dos Campos Novos a 7 de junho de 1900. Era filho do casal Francisco Athanázio e Bernardina Fontes Athanázio.
“Seu” Chico, libanês nascido em Beirute e de presumível ascendência grega (como ele próprio costumava afirmar), era o único “turco” da cidade, coisa rara nos Campos Gerais daqueles tempos. Mais tarde chegaria Mustafá Assad. Segundo minha mãe, em cuja residência Francisco Athanázio viveu após o falecimento da esposa e do filho, ele era loiro e de olhos azuis, nascido em 1860, e chegou ao Brasil em 1877, portanto com apenas 17 anos de idade. Residiu em Lages e Curitibanos, fixando-se depois em Campos Novos, onde casou, em 1898.
Comerciante, naturalmente, “Seu” Chico era de poucas letras, engrolando mal o português, mas ninguém o enganava nas contas. Aficionado do bilhar, parece que não se dava bem com tacos e bolas, pois era freqüente e jovial perdedor de latas de conserva e garrafas de bebida.
Sua loja ficava defronte à atual igreja matriz, do outro lado do pasto freqüentado por vacas de leite e velhos matungos de carroça, hoje a Praça Lauro Müller, onde surgiria, mais tarde, o mais famoso jardim público da região, com seus curiosos caramanchões e cercas vivas. O casarão de madeira abria portas e janelas para a rua larga e ali o comerciante vivia, alegre e feliz, proseando com os amigos mais chegados e correndo o metro para o corte dos tecidos. Faleceu em Joaçaba, aos oitenta anos, em 1940.
José era o filho mais velho, seguindo-se as irmãs Maria (Marica), hoje falecida, e que foi casada com João Rupp (o tio), e Anita, esposa do Prof. Sálvio Guilhon Gonzaga, ambos falecidos. Era claro, tinha abundantes cabelos louros e olhos muito azuis, tão azuis que pareciam aguados – no dizer de um amigo. O casal Athanázio perdeu um filho, ainda menino, em horrível acidente.
Alfabetizado em casa, como em geral as crianças de seu tempo, aos oito anos foi levado para o internato, na cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A viagem era longa e penosa, feita em lombo de burro, com o enxoval em cargueiros, “sesteando” e dormindo no caminho. Durava vários dias e, para maior segurança, formavam-se autênticas caravanas de estudantes, pais e peões, armando barracas para os pernoites em pleno campo. Só retornava para casa nas “férias grandes” e assim foi por longos oito anos. Para ele e os colegas as viagens se transformavam em aventuras inesquecíveis, cujos acontecimentos relatava com saudade.
Estudou mais tarde, por algum tempo, no Colégio Catarinense, em Florianópolis. Relatou-me um de seus contemporâneos dessa fase, muitos anos mais tarde, que ambos retornavam das aulas caminhando pelas areias da praia, com as calças arregaçadas e os sapatos nas mãos.
Vai bem nos estudos e isso enche o coração de “Seu” Chico; o imigrante antevê no filho o futuro doutor na pátria que escolheu e logo na primeira geração.
Em 1916, cheio de planos e sonhos, o jovem camponovense está em Porto Alegre para os “preparatórios.” Os livros de sua biblioteca, parte da qual carrego comigo até hoje, adquiridos nessa época, revelam que muito lia e lia bem. Num deles, em letra miúda e juvenil, está o lema de Cervantes: “Quem lê muito e anda muito, sabe muito e conhece muito.”
No ano de 1917, com dezessete anos, está matriculado na Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul. Nela faz os três primeiros anos do Curso Médico, para transferir-se então para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A antiga capital exercia intensa atração como o maior centro cultural, científico e político do país. Faz um curso caprichado, com excelentes notas, convivendo com professores, médicos e intelectuais. Forma-se em 1922, ano do centenário da independência, e a imprensa deu grande destaque à solenidade, à qual compareceu inclusive o Presidente da República.
Mas o camponovense é arrojado, sonha alto. Decide doutorar-se e defender tese, ainda que não visasse o magistério. Permanecendo na “terrinha” por um ano, “não levanta os olhos dos livros.”
Em 12 de novembro de 1923, depois de muito estudo e pesquisa, apresenta à consideração da Faculdade a tese “O cloreto de cálcio em terapêutica.” Submetida ao visto do secretário, Dr. Brito Silva, o moço de Campos Novos, no verdor de seus vinte e três anos, vai defendê-la a 6 de dezembro do mesmo ano.
A Banca Examinadora é das mais exigentes e rigorosas, nela formando algumas figuras de projeção nacional, médicos, cientistas e mestres de renome. É composta pelos Professores Ozório de Almeida, Pedro Pinto, Agenor Porto, Miguel Couto e Aloysio de Castro, Diretor da Faculdade, estes dois últimos até hoje reverenciados como grandes expoentes. Segundo depoimento do Prof. Newton Freire-Maia ao autor, Ozório de Almeida era a maior expressão científica dentre todos (1). Mas José Athanázio vê o seu trabalho aprovado com distinção e louvor. Submeti essa tese a diversos médicos amigos, entre eles o saudoso Prof. Alvir Riesemberg, tendo eles afirmado a indiscutível originalidade do tema escolhido e das suas conclusões para a época em que foi elaborada  (2).
1924 marca o início de suas atividades profissionais na terra natal. O chamado de seu chão faz com que volte à Villa para a convivência com os pais, as irmãs, os amigos. A antiga capital da República, no entanto, ficou gravada na sua lembrança, amando-a tanto que, pouco antes de falecer, aprestava-se para o retorno definitivo. Residiu na Gávea à época dos estudos e isso o levaria a reproduzir em Campos Novos, no topo da coxilha mais elevada, uma das casas de pedra existentes naquele bairro carioca. As paredes, constituídas de blocos retangulares de pedra-ferro, tinham cerca de oitenta centímetros de espessura. Defronte, fazendo vista para a cidade, o varandão corria toda sua extensão.
Nessa casa, ainda hoje existente, ele clinicou até o fim da vida e nela nasceu a Fundação Hospitalar Dr. José Athanázio dos dias atuais. Parte dos móveis do primeiro consultório foram feitos por ele, em madeira-de-lei, com a ajuda do inseparável amigo e vizinho Juventino Lemos. Tanto as poltronas, conhecidas como cadeiras de bispo, como a escrivaninha, andaram comigo por ceca e meca e ainda se encontram, intactas, em meu escritório.
Desde logo se revelou um profissional competente e dedicado. Era daqueles que passavam a noite à cabeceira do doente, só arredando pé após o seu restabelecimento. Não foram poucas as pessoas que ainda conheci e que confessaram lhe dever a cura. Viajando a cavalo e, mais tarde, num Ford, percorreu os caminhos e carreiros dos campos para atender a chamados distantes. Sua fama, em pouco, se firmou na região, tanto que mesmo após tantas décadas sua memória é venerada. Diziam mesmo os mais antigos que sua alma prosseguia fazendo curas, tantas as promessas atendidas.
De pouco falar era, no entanto, espirituoso, desses que em duas palavras definem uma situação. Conta-se que foi visitado por um cliente, caboclo de enormes cabelos, barbas e bigodes.
- Para que tanto pelo, “Seu” João? – inquiriu.
- É luto, sentimento pela morte da mulher – explicou o homem.
- É, - concluiu o médico, - esse é um verdadeiro sentimento cabeludo!
Uma noite, - relatou um conhecido, - foi chamado a atender o ferido de tiroteio num baile do interior. Para lá se dirigiu, guiando o “Fordeco”, levando em sua companhia o meu informante, ainda estudante.
A vítima gemia numa “tarimba”, um projétil encravado nas costas. Verificou logo que se tratava de ferimento superficial: a bala transfixara outra pessoa, chegando sem força, e ficou presa apenas na pele. Numa manobra rápida, o médico a retirou, exibindo-a ao ferido, e ele, feliz da vida, parou os gemidos e se pôs a agradecer.
- Não agradeça – resolveu o médico brincar, ainda que com a fisionomia séria. – A bala passou pelo corpo do H. P. antes de atingir você. . .
O homem, no começo, não entendeu; depois, aos poucos, esbugalhou os olhos e caiu no desespero. É que o H. P. tinha fama de ser morfético.
Ouvi certa vez que ele teria extraído o coração de um suicida para estudos e dissecação. Por mais que investigasse, não encontrei qualquer indício de veracidade, de maneira que o incluo no rol dos numerosos “causos” em que é pródigo o povo. Meu pai só fazia pequenas cirurgias, uma vez que não havia hospital, instalações e pessoal habilitado para a realização de cirurgias maiores, de forma continuada. Minha mãe recorda a angústia que o acometia quando nada podia fazer, exceto encaminhar o doente para fora, sem saber se chegaria com vida.
Desprendido dos bens materiais, José Athanázio não se preocupava com dinheiro, roupas, vida social. Vestia-se com displicência, os sapatos sempre sem cordões. Fumava “Jockey Club”, cigarro da época, mas jogava-o antes de consumida a metade, para acender outro em seguida. Gostava de lidar no imenso pomar dos fundos da casa, fabricar móveis e andar a pé pelas redondezas da cidadezinha, acompanhado de seu cão São Bernardo, de nome Fumanchu. Durante anos manteve na cocheira o cavalo Tufão, um tordilho negro em que costumava visitar clientes e amigos. Foi também exímio nadador.
Irritava-se com os colegas mais novos, que viviam à caça do dinheiro, e por muitas vezes manifestou sua preocupação com a incipiente comercialização da medicina de seus dias. Não desejava que o filho fosse médico.
Herdou algumas terras, hoje situadas no município de Erval Velho. Relatam os seus amigos que ele gostava de subir ao alto de uma elevação e de lá apreciar a massa dos pinheiros verdes, de copadas farfalhantes. Pinheiro, naqueles tempos, nada valia. Havia até fazendeiros que os derrubavam para que suas grimpas espinhentas não “sujassem” os campos.
- Essa árvore – previa ele – valerá fortunas. Em vinte anos, quem tiver pinheiros estará muito rico.
Os caboclos, ao seu redor, sorriam por dentro e “maginavam” que aquilo era mesmo coisa de doutor de cidade grande.
José Athanázio já era um solteirão. Estava com trinta e dois anos quando resolveu casar. A sua decisão causou espanto entre os amigos, mas a escolhida foi Irma Vieira, filha dos fazendeiros Policarpo Alves Vieira e Olívia Alves Vieira, ele nascido em Curitibanos, ela nos campos de Vacaria. “Seu” Lica era o proprietário da Fazenda do Fundo Grande, onde residia. Numa antiga caderneta de capa preta, minha mãe escreveu em letras caprichadas: “Dia 8 de março de 1932. Fiquei noiva, sendo pedida na Fazenda.” Imagino o velho “Fordeco”, roncando e pulando pelos fundos trilhos campeiros, conduzindo o Dr. Athanázio para o pedido de casamento. Acredito que tenha ido só; nenhum de seus amigos, dentre os que conheci, se recordava de tê-lo acompanhado nessa jornada.
O casamento, porém, só se realizaria mais de dois anos depois, em 26 de maio de 1934, um sábado, pelas 21h, como era de praxe e a noiva registrou no caderninho preto. Eles se conheceram nos bailes e festas do Clube Repentino (que disputava com o Democrata) e de cujo carnaval minha mãe chegou a ser rainha. Lembra ela que papai era inteiramente desajeitado para danças.
As irmãs Irma e Iracy (esta depois se casaria com o advogado e mais tarde deputado Waldemar Rupp) eram bonitas e disputadas a tal ponto que se tornaram meio de comparação. Conta-se que Nhô Justo, morador daquelas bandas, quando queria realçar a beleza de alguma coisa, exclamava:
- Linda que nem as filhas do Lica Vieira!
O casamento, no entanto, só duraria menos de três anos. O casal teve um único filho.
Cercado pelos amigos e sempre às voltas com os livros, José Athanázio, além das leituras de assuntos profissionais, foi um apreciador da História e acompanhava com atenção a política nacional e estrangeira. Das freqüentes viagens ao Rio, voltava carregado de livros. Ele e os amigos, nas tardes de calor, rumavam para o Poço da Bica, nas cercanias da cidade. Deitados à sombra das árvores, liam e discutiam. Depois se banhavam na água cristalina e gelada que escorria da pequena bica de madeira. Num de seus últimos contos, Guido Wilnar Sassi recorda uma dessas tertúlias a céu aberto (“O Naufrágio do Black Ship”).
Nas noites silenciosas se reuniam na imensa sala do casarão de pedras. Ouviam rádio, quando não havia muita “estática”, num dos primeiros (provavelmente o primeiro) aparelhos por lá aparecidos. A voz dos locutores distantes estabelecia a ligação daquela vila perdida nos campos com o resto do mundo. A antena se estendia por muitos metros, fixada em postes que formavam fila ao longo do quintal.
A qualquer pretexto José Athanázio se punha a declamar Camões.  O célebre “Soneto 29” era o preferido:
 
“Sete anos de pastor José servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,  
Que a ela só por prêmio pretendia.
 
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
 
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais serviria, se não fora,
Para tão longo amor tão curta a vida.” (3)
 
Grande foi o seu círculo de amigos. Othon D’Eça, ainda solteiro e que viria a ser meu professor na Faculdade; Edmundo Acácio Moreira e José do Patrocínio Gallotti, também meus futuros professores; o Desembargador Sálvio Gonzaga; o juiz A. Selistre de Campos, figura ardorosa e controvertida de magistrado, defensor corajoso dos índios do Oeste Catarinense, foram seus amigos. Mas Antônio Bottini, também médico e mais tarde professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Darcy Pedroso, Paulo Blasi, Ozório Farias e Juventino Lemos eram os mais chegados. Este último foi o seu companheiro no fabrico de móveis, nas lidas de horta e pomar a que gostava de se entregar nas horas de folga, nas freqüentes caminhadas pelas cercanias e até em algumas pequenas viagens profissionais. “Tio Tino”, homem simples, tinha-lhe verdadeira adoração, embora fosse vítima constante de suas troças, das quais até gostava. De uma fidelidade inconcebível nos dias de hoje, contou-me o próprio “Tio Tino” que, quando se excedia no linguajar, meu pai se irritava:
- Cala a boca, Juventino! Deixa de burrices!
Mas ele se deleitava com as estórias de fantasmas e assombrações em que Juventino era pródigo e tinha nele um animado companheiro para os bailes do “Repentino”, pois “Tio Tino” era um grande carnavalesco. Dos seus amigos mais íntimos, foi o único com quem convivi e conheci bem de perto. Algumas passagens de sua vida dariam excelentes crônicas. Juventino guardou até o fim da vida uma dolorosa e sincera saudade do amigo que se foi tão jovem. Já bem velhinho, trôpego e cansado, muitas vezes vi seus olhos marejados quando recordávamos coisas vividas por ele e papai. Homem de passo leve e macio, costumava entrar em meu escritório sem se anunciar, sentando-se numa poltrona, e dali me observava em silêncio. Entretido no trabalho, eu levava um susto quando o avistava.
- Parece que estou vendo o José quando moço! – afirmava, acentuando sempre nossa semelhança física.
Othon D’Eça relembrava as longas conversas com meu pai nas noites silenciosas, caminhando em torno do célebre jardim com seus caramanchões, cedrinhos recortados e cercas vivas bem aparadas. Quando cansavam, depois de muito andar, sentavam-se no banco tosco, na verdade uma tora maciça lustrada pelo uso, diante do hotel em que D’Eça se hospedava, quase ao lado da casa de meus avós paternos, com os quais meu pai residia. A conversa se estendia sob um céu pintalgado de estrelas e às vezes o friozinho se anunciava. Enquanto D’Eça era falante, irrequieto, cheio de gestos, meu pai ouvia muito e falava pouco.
A biblioteca que pertenceu a José Athanázio, na parte que me chegou intacta e que guardo até hoje, era toda em francês, na literatura médica, e parte em francês e latim, na literatura geral.
Charles H. May, Gaston Lyon, E. Macé, Fernand Berlioz, J. Castaigne, H. Paillard, Victor Viau, M. Guibé, Alex Renault, M. Nicolle et J. Magrou, Ch. Debierre, G. Pouchet, Allyre Chassevant, Hermann Eichorst, Ph. Störh, F. Lejars, Rémy Perrier, E. Hédon, L. Testut, G. Dieulafoy, Ganot-Maneuvrier, Fabre, E. Apert, André Broca, A. Richaud, M. Arthus, J. Darier, J. Barozzi, C. Oddo, Simon Duplay, J. Courmont, E. Terrien, Guy Laroche, Georges Laurens, J. Comby, Félix Coste  são alguns autores de sua estante médica. Cícero (“Orationes”), Cesar (“De Bello Gallico”), Jules Verne, Gustave Le Bon, Louis Buchner, excelentes e variadas gramáticas e antologias latinas, francesas e portuguesas, além de inúmeros livros e revistas sobre assuntos da atualidade compunham a parte geral. Não poderia faltar a História de Cesare Cantu.
Em política, formou ao lado de Adolfo Konder, integrando o grupo dos “Coligados.” Candidato a deputado, não foi eleito, embora obtivesse mais votos que o concorrente de sua região. O sistema eleitoral da época, ainda na República Velha, continha dessas armadilhas.
Desde 1936 começou a apresentar problemas de saúde. Não alterou, porém, o modo de vida, trabalhando e atendendo normalmente a clientela. Em novembro desse mesmo ano, apesar de seu empenho e dedicação, falece sua mãe, Bernardina, fato que muito o abala e leva a surdas recriminações contra os limitados recursos médicos de então. Salvara tanta gente, jovens e velhos, e, no entanto, era incapaz de evitar o falecimento da mãe, cuja morte veio a agravar o seu próprio estado. As fotografias dessa época mostram-no triste e abatido.
No início do ano seguinte a sua saúde inspira cuidados. Colegas e amigos temem pela sua vida e se desvelam em tratamentos e cuidados. A 24 de março não se sente bem, permanece acamado, mas conversa com a esposa e recebe os amigos pela manhã. Seus colegas, inclusive de cidades vizinhas, e até um colega de turma, vêm prestar-lhe assistência. Consciente do seu estado, e por certo seguro como sempre no diagnóstico, por volta das nove horas afirma a Paulo Blasi, em francês: “C’est mon dernier jour!” Efetivamente, assinalavam os sinos da velha igreja matriz o meio-dia quando ele deixou de existir. Era uma quarta-feira cinzenta e fria.
Sepultado no dia seguinte, no cemitério de sua terra, quase toda a população o acompanhou. Paulo Blasi, o mesmo amigo inseparável, faz um sentido discurso. “Espírito humanitário, - escreveu ele – encontramos sempre em José Athanázio um amigo dedicado, um amigo nas passagens mais alegres, um amigo nos momentos mais melindrosos, como um abnegado nos transes mais amargos e dolorosos. Desempenhando suas funções de médico, não foi só o profissional, foi o abnegado. Muitas vezes não dava ao pobre só a receita, mas também dinheiro para que pudesse mandar aviá-la.”
___________________________
(1)                                                                                 – Sobre Miguel Couto, v. “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, 1971, Vol. IV.
(2)                                                                                 – A tese foi publicada pela Tipografia Alba, à Rua Maranguape, 17, Lapa/RJ, no mesmo ano de 1923. Tem 45 páginas, divididas em nove capítulos, e a bibliografia arrolada é toda estrangeira, indicando que o assunto era mesmo novo no Brasil.  Há exemplares dela nas bibliotecas de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio, bem como em bibliotecas universitárias, como a da UFSC.
(3)                                                                                 – “Obras” – Tomo II da edição do Visconde de Jurumenha. Indicações anotadas num exemplar do soneto encontrado nos papéis de José Athanázio.
__________ ______________________________
 
(Transcrito, com acréscimos e correções, do livro “Figuras e Lugares”, Blumenau/SC, Fundação Casa Dr. Blumenau, 1983).
Escrito por Enéas Athanázio, 09/08/2019 às 16h00 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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JOSÉ ATHANÁZIO, MEU PAI

 Para quem tanto tem escrito sobre estranhos, quero crer que não incidirei em pecado relembrando meu próprio pai, essa figura singular, que viveu tão pouco, e, no entanto, ainda permanece na memória de sua gente mesmo depois de tantos anos após sua morte.

José Fontes Athanázio nasceu na então Villa de São João Baptista dos Campos Novos a 7 de junho de 1900. Era filho do casal Francisco Athanázio e Bernardina Fontes Athanázio.
“Seu” Chico, libanês nascido em Beirute e de presumível ascendência grega (como ele próprio costumava afirmar), era o único “turco” da cidade, coisa rara nos Campos Gerais daqueles tempos. Mais tarde chegaria Mustafá Assad. Segundo minha mãe, em cuja residência Francisco Athanázio viveu após o falecimento da esposa e do filho, ele era loiro e de olhos azuis, nascido em 1860, e chegou ao Brasil em 1877, portanto com apenas 17 anos de idade. Residiu em Lages e Curitibanos, fixando-se depois em Campos Novos, onde casou, em 1898.
Comerciante, naturalmente, “Seu” Chico era de poucas letras, engrolando mal o português, mas ninguém o enganava nas contas. Aficionado do bilhar, parece que não se dava bem com tacos e bolas, pois era freqüente e jovial perdedor de latas de conserva e garrafas de bebida.
Sua loja ficava defronte à atual igreja matriz, do outro lado do pasto freqüentado por vacas de leite e velhos matungos de carroça, hoje a Praça Lauro Müller, onde surgiria, mais tarde, o mais famoso jardim público da região, com seus curiosos caramanchões e cercas vivas. O casarão de madeira abria portas e janelas para a rua larga e ali o comerciante vivia, alegre e feliz, proseando com os amigos mais chegados e correndo o metro para o corte dos tecidos. Faleceu em Joaçaba, aos oitenta anos, em 1940.
José era o filho mais velho, seguindo-se as irmãs Maria (Marica), hoje falecida, e que foi casada com João Rupp (o tio), e Anita, esposa do Prof. Sálvio Guilhon Gonzaga, ambos falecidos. Era claro, tinha abundantes cabelos louros e olhos muito azuis, tão azuis que pareciam aguados – no dizer de um amigo. O casal Athanázio perdeu um filho, ainda menino, em horrível acidente.
Alfabetizado em casa, como em geral as crianças de seu tempo, aos oito anos foi levado para o internato, na cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A viagem era longa e penosa, feita em lombo de burro, com o enxoval em cargueiros, “sesteando” e dormindo no caminho. Durava vários dias e, para maior segurança, formavam-se autênticas caravanas de estudantes, pais e peões, armando barracas para os pernoites em pleno campo. Só retornava para casa nas “férias grandes” e assim foi por longos oito anos. Para ele e os colegas as viagens se transformavam em aventuras inesquecíveis, cujos acontecimentos relatava com saudade.
Estudou mais tarde, por algum tempo, no Colégio Catarinense, em Florianópolis. Relatou-me um de seus contemporâneos dessa fase, muitos anos mais tarde, que ambos retornavam das aulas caminhando pelas areias da praia, com as calças arregaçadas e os sapatos nas mãos.
Vai bem nos estudos e isso enche o coração de “Seu” Chico; o imigrante antevê no filho o futuro doutor na pátria que escolheu e logo na primeira geração.
Em 1916, cheio de planos e sonhos, o jovem camponovense está em Porto Alegre para os “preparatórios.” Os livros de sua biblioteca, parte da qual carrego comigo até hoje, adquiridos nessa época, revelam que muito lia e lia bem. Num deles, em letra miúda e juvenil, está o lema de Cervantes: “Quem lê muito e anda muito, sabe muito e conhece muito.”
No ano de 1917, com dezessete anos, está matriculado na Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul. Nela faz os três primeiros anos do Curso Médico, para transferir-se então para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A antiga capital exercia intensa atração como o maior centro cultural, científico e político do país. Faz um curso caprichado, com excelentes notas, convivendo com professores, médicos e intelectuais. Forma-se em 1922, ano do centenário da independência, e a imprensa deu grande destaque à solenidade, à qual compareceu inclusive o Presidente da República.
Mas o camponovense é arrojado, sonha alto. Decide doutorar-se e defender tese, ainda que não visasse o magistério. Permanecendo na “terrinha” por um ano, “não levanta os olhos dos livros.”
Em 12 de novembro de 1923, depois de muito estudo e pesquisa, apresenta à consideração da Faculdade a tese “O cloreto de cálcio em terapêutica.” Submetida ao visto do secretário, Dr. Brito Silva, o moço de Campos Novos, no verdor de seus vinte e três anos, vai defendê-la a 6 de dezembro do mesmo ano.
A Banca Examinadora é das mais exigentes e rigorosas, nela formando algumas figuras de projeção nacional, médicos, cientistas e mestres de renome. É composta pelos Professores Ozório de Almeida, Pedro Pinto, Agenor Porto, Miguel Couto e Aloysio de Castro, Diretor da Faculdade, estes dois últimos até hoje reverenciados como grandes expoentes. Segundo depoimento do Prof. Newton Freire-Maia ao autor, Ozório de Almeida era a maior expressão científica dentre todos (1). Mas José Athanázio vê o seu trabalho aprovado com distinção e louvor. Submeti essa tese a diversos médicos amigos, entre eles o saudoso Prof. Alvir Riesemberg, tendo eles afirmado a indiscutível originalidade do tema escolhido e das suas conclusões para a época em que foi elaborada  (2).
1924 marca o início de suas atividades profissionais na terra natal. O chamado de seu chão faz com que volte à Villa para a convivência com os pais, as irmãs, os amigos. A antiga capital da República, no entanto, ficou gravada na sua lembrança, amando-a tanto que, pouco antes de falecer, aprestava-se para o retorno definitivo. Residiu na Gávea à época dos estudos e isso o levaria a reproduzir em Campos Novos, no topo da coxilha mais elevada, uma das casas de pedra existentes naquele bairro carioca. As paredes, constituídas de blocos retangulares de pedra-ferro, tinham cerca de oitenta centímetros de espessura. Defronte, fazendo vista para a cidade, o varandão corria toda sua extensão.
Nessa casa, ainda hoje existente, ele clinicou até o fim da vida e nela nasceu a Fundação Hospitalar Dr. José Athanázio dos dias atuais. Parte dos móveis do primeiro consultório foram feitos por ele, em madeira-de-lei, com a ajuda do inseparável amigo e vizinho Juventino Lemos. Tanto as poltronas, conhecidas como cadeiras de bispo, como a escrivaninha, andaram comigo por ceca e meca e ainda se encontram, intactas, em meu escritório.
Desde logo se revelou um profissional competente e dedicado. Era daqueles que passavam a noite à cabeceira do doente, só arredando pé após o seu restabelecimento. Não foram poucas as pessoas que ainda conheci e que confessaram lhe dever a cura. Viajando a cavalo e, mais tarde, num Ford, percorreu os caminhos e carreiros dos campos para atender a chamados distantes. Sua fama, em pouco, se firmou na região, tanto que mesmo após tantas décadas sua memória é venerada. Diziam mesmo os mais antigos que sua alma prosseguia fazendo curas, tantas as promessas atendidas.
De pouco falar era, no entanto, espirituoso, desses que em duas palavras definem uma situação. Conta-se que foi visitado por um cliente, caboclo de enormes cabelos, barbas e bigodes.
- Para que tanto pelo, “Seu” João? – inquiriu.
- É luto, sentimento pela morte da mulher – explicou o homem.
- É, - concluiu o médico, - esse é um verdadeiro sentimento cabeludo!
Uma noite, - relatou um conhecido, - foi chamado a atender o ferido de tiroteio num baile do interior. Para lá se dirigiu, guiando o “Fordeco”, levando em sua companhia o meu informante, ainda estudante.
A vítima gemia numa “tarimba”, um projétil encravado nas costas. Verificou logo que se tratava de ferimento superficial: a bala transfixara outra pessoa, chegando sem força, e ficou presa apenas na pele. Numa manobra rápida, o médico a retirou, exibindo-a ao ferido, e ele, feliz da vida, parou os gemidos e se pôs a agradecer.
- Não agradeça – resolveu o médico brincar, ainda que com a fisionomia séria. – A bala passou pelo corpo do H. P. antes de atingir você. . .
O homem, no começo, não entendeu; depois, aos poucos, esbugalhou os olhos e caiu no desespero. É que o H. P. tinha fama de ser morfético.
Ouvi certa vez que ele teria extraído o coração de um suicida para estudos e dissecação. Por mais que investigasse, não encontrei qualquer indício de veracidade, de maneira que o incluo no rol dos numerosos “causos” em que é pródigo o povo. Meu pai só fazia pequenas cirurgias, uma vez que não havia hospital, instalações e pessoal habilitado para a realização de cirurgias maiores, de forma continuada. Minha mãe recorda a angústia que o acometia quando nada podia fazer, exceto encaminhar o doente para fora, sem saber se chegaria com vida.
Desprendido dos bens materiais, José Athanázio não se preocupava com dinheiro, roupas, vida social. Vestia-se com displicência, os sapatos sempre sem cordões. Fumava “Jockey Club”, cigarro da época, mas jogava-o antes de consumida a metade, para acender outro em seguida. Gostava de lidar no imenso pomar dos fundos da casa, fabricar móveis e andar a pé pelas redondezas da cidadezinha, acompanhado de seu cão São Bernardo, de nome Fumanchu. Durante anos manteve na cocheira o cavalo Tufão, um tordilho negro em que costumava visitar clientes e amigos. Foi também exímio nadador.
Irritava-se com os colegas mais novos, que viviam à caça do dinheiro, e por muitas vezes manifestou sua preocupação com a incipiente comercialização da medicina de seus dias. Não desejava que o filho fosse médico.
Herdou algumas terras, hoje situadas no município de Erval Velho. Relatam os seus amigos que ele gostava de subir ao alto de uma elevação e de lá apreciar a massa dos pinheiros verdes, de copadas farfalhantes. Pinheiro, naqueles tempos, nada valia. Havia até fazendeiros que os derrubavam para que suas grimpas espinhentas não “sujassem” os campos.
- Essa árvore – previa ele – valerá fortunas. Em vinte anos, quem tiver pinheiros estará muito rico.
Os caboclos, ao seu redor, sorriam por dentro e “maginavam” que aquilo era mesmo coisa de doutor de cidade grande.
José Athanázio já era um solteirão. Estava com trinta e dois anos quando resolveu casar. A sua decisão causou espanto entre os amigos, mas a escolhida foi Irma Vieira, filha dos fazendeiros Policarpo Alves Vieira e Olívia Alves Vieira, ele nascido em Curitibanos, ela nos campos de Vacaria. “Seu” Lica era o proprietário da Fazenda do Fundo Grande, onde residia. Numa antiga caderneta de capa preta, minha mãe escreveu em letras caprichadas: “Dia 8 de março de 1932. Fiquei noiva, sendo pedida na Fazenda.” Imagino o velho “Fordeco”, roncando e pulando pelos fundos trilhos campeiros, conduzindo o Dr. Athanázio para o pedido de casamento. Acredito que tenha ido só; nenhum de seus amigos, dentre os que conheci, se recordava de tê-lo acompanhado nessa jornada.
O casamento, porém, só se realizaria mais de dois anos depois, em 26 de maio de 1934, um sábado, pelas 21h, como era de praxe e a noiva registrou no caderninho preto. Eles se conheceram nos bailes e festas do Clube Repentino (que disputava com o Democrata) e de cujo carnaval minha mãe chegou a ser rainha. Lembra ela que papai era inteiramente desajeitado para danças.
As irmãs Irma e Iracy (esta depois se casaria com o advogado e mais tarde deputado Waldemar Rupp) eram bonitas e disputadas a tal ponto que se tornaram meio de comparação. Conta-se que Nhô Justo, morador daquelas bandas, quando queria realçar a beleza de alguma coisa, exclamava:
- Linda que nem as filhas do Lica Vieira!
O casamento, no entanto, só duraria menos de três anos. O casal teve um único filho.
Cercado pelos amigos e sempre às voltas com os livros, José Athanázio, além das leituras de assuntos profissionais, foi um apreciador da História e acompanhava com atenção a política nacional e estrangeira. Das freqüentes viagens ao Rio, voltava carregado de livros. Ele e os amigos, nas tardes de calor, rumavam para o Poço da Bica, nas cercanias da cidade. Deitados à sombra das árvores, liam e discutiam. Depois se banhavam na água cristalina e gelada que escorria da pequena bica de madeira. Num de seus últimos contos, Guido Wilnar Sassi recorda uma dessas tertúlias a céu aberto (“O Naufrágio do Black Ship”).
Nas noites silenciosas se reuniam na imensa sala do casarão de pedras. Ouviam rádio, quando não havia muita “estática”, num dos primeiros (provavelmente o primeiro) aparelhos por lá aparecidos. A voz dos locutores distantes estabelecia a ligação daquela vila perdida nos campos com o resto do mundo. A antena se estendia por muitos metros, fixada em postes que formavam fila ao longo do quintal.
A qualquer pretexto José Athanázio se punha a declamar Camões.  O célebre “Soneto 29” era o preferido:
 
“Sete anos de pastor José servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,  
Que a ela só por prêmio pretendia.
 
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
 
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais serviria, se não fora,
Para tão longo amor tão curta a vida.” (3)
 
Grande foi o seu círculo de amigos. Othon D’Eça, ainda solteiro e que viria a ser meu professor na Faculdade; Edmundo Acácio Moreira e José do Patrocínio Gallotti, também meus futuros professores; o Desembargador Sálvio Gonzaga; o juiz A. Selistre de Campos, figura ardorosa e controvertida de magistrado, defensor corajoso dos índios do Oeste Catarinense, foram seus amigos. Mas Antônio Bottini, também médico e mais tarde professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Darcy Pedroso, Paulo Blasi, Ozório Farias e Juventino Lemos eram os mais chegados. Este último foi o seu companheiro no fabrico de móveis, nas lidas de horta e pomar a que gostava de se entregar nas horas de folga, nas freqüentes caminhadas pelas cercanias e até em algumas pequenas viagens profissionais. “Tio Tino”, homem simples, tinha-lhe verdadeira adoração, embora fosse vítima constante de suas troças, das quais até gostava. De uma fidelidade inconcebível nos dias de hoje, contou-me o próprio “Tio Tino” que, quando se excedia no linguajar, meu pai se irritava:
- Cala a boca, Juventino! Deixa de burrices!
Mas ele se deleitava com as estórias de fantasmas e assombrações em que Juventino era pródigo e tinha nele um animado companheiro para os bailes do “Repentino”, pois “Tio Tino” era um grande carnavalesco. Dos seus amigos mais íntimos, foi o único com quem convivi e conheci bem de perto. Algumas passagens de sua vida dariam excelentes crônicas. Juventino guardou até o fim da vida uma dolorosa e sincera saudade do amigo que se foi tão jovem. Já bem velhinho, trôpego e cansado, muitas vezes vi seus olhos marejados quando recordávamos coisas vividas por ele e papai. Homem de passo leve e macio, costumava entrar em meu escritório sem se anunciar, sentando-se numa poltrona, e dali me observava em silêncio. Entretido no trabalho, eu levava um susto quando o avistava.
- Parece que estou vendo o José quando moço! – afirmava, acentuando sempre nossa semelhança física.
Othon D’Eça relembrava as longas conversas com meu pai nas noites silenciosas, caminhando em torno do célebre jardim com seus caramanchões, cedrinhos recortados e cercas vivas bem aparadas. Quando cansavam, depois de muito andar, sentavam-se no banco tosco, na verdade uma tora maciça lustrada pelo uso, diante do hotel em que D’Eça se hospedava, quase ao lado da casa de meus avós paternos, com os quais meu pai residia. A conversa se estendia sob um céu pintalgado de estrelas e às vezes o friozinho se anunciava. Enquanto D’Eça era falante, irrequieto, cheio de gestos, meu pai ouvia muito e falava pouco.
A biblioteca que pertenceu a José Athanázio, na parte que me chegou intacta e que guardo até hoje, era toda em francês, na literatura médica, e parte em francês e latim, na literatura geral.
Charles H. May, Gaston Lyon, E. Macé, Fernand Berlioz, J. Castaigne, H. Paillard, Victor Viau, M. Guibé, Alex Renault, M. Nicolle et J. Magrou, Ch. Debierre, G. Pouchet, Allyre Chassevant, Hermann Eichorst, Ph. Störh, F. Lejars, Rémy Perrier, E. Hédon, L. Testut, G. Dieulafoy, Ganot-Maneuvrier, Fabre, E. Apert, André Broca, A. Richaud, M. Arthus, J. Darier, J. Barozzi, C. Oddo, Simon Duplay, J. Courmont, E. Terrien, Guy Laroche, Georges Laurens, J. Comby, Félix Coste  são alguns autores de sua estante médica. Cícero (“Orationes”), Cesar (“De Bello Gallico”), Jules Verne, Gustave Le Bon, Louis Buchner, excelentes e variadas gramáticas e antologias latinas, francesas e portuguesas, além de inúmeros livros e revistas sobre assuntos da atualidade compunham a parte geral. Não poderia faltar a História de Cesare Cantu.
Em política, formou ao lado de Adolfo Konder, integrando o grupo dos “Coligados.” Candidato a deputado, não foi eleito, embora obtivesse mais votos que o concorrente de sua região. O sistema eleitoral da época, ainda na República Velha, continha dessas armadilhas.
Desde 1936 começou a apresentar problemas de saúde. Não alterou, porém, o modo de vida, trabalhando e atendendo normalmente a clientela. Em novembro desse mesmo ano, apesar de seu empenho e dedicação, falece sua mãe, Bernardina, fato que muito o abala e leva a surdas recriminações contra os limitados recursos médicos de então. Salvara tanta gente, jovens e velhos, e, no entanto, era incapaz de evitar o falecimento da mãe, cuja morte veio a agravar o seu próprio estado. As fotografias dessa época mostram-no triste e abatido.
No início do ano seguinte a sua saúde inspira cuidados. Colegas e amigos temem pela sua vida e se desvelam em tratamentos e cuidados. A 24 de março não se sente bem, permanece acamado, mas conversa com a esposa e recebe os amigos pela manhã. Seus colegas, inclusive de cidades vizinhas, e até um colega de turma, vêm prestar-lhe assistência. Consciente do seu estado, e por certo seguro como sempre no diagnóstico, por volta das nove horas afirma a Paulo Blasi, em francês: “C’est mon dernier jour!” Efetivamente, assinalavam os sinos da velha igreja matriz o meio-dia quando ele deixou de existir. Era uma quarta-feira cinzenta e fria.
Sepultado no dia seguinte, no cemitério de sua terra, quase toda a população o acompanhou. Paulo Blasi, o mesmo amigo inseparável, faz um sentido discurso. “Espírito humanitário, - escreveu ele – encontramos sempre em José Athanázio um amigo dedicado, um amigo nas passagens mais alegres, um amigo nos momentos mais melindrosos, como um abnegado nos transes mais amargos e dolorosos. Desempenhando suas funções de médico, não foi só o profissional, foi o abnegado. Muitas vezes não dava ao pobre só a receita, mas também dinheiro para que pudesse mandar aviá-la.”
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(1)                                                                                 – Sobre Miguel Couto, v. “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, 1971, Vol. IV.
(2)                                                                                 – A tese foi publicada pela Tipografia Alba, à Rua Maranguape, 17, Lapa/RJ, no mesmo ano de 1923. Tem 45 páginas, divididas em nove capítulos, e a bibliografia arrolada é toda estrangeira, indicando que o assunto era mesmo novo no Brasil.  Há exemplares dela nas bibliotecas de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio, bem como em bibliotecas universitárias, como a da UFSC.
(3)                                                                                 – “Obras” – Tomo II da edição do Visconde de Jurumenha. Indicações anotadas num exemplar do soneto encontrado nos papéis de José Athanázio.
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(Transcrito, com acréscimos e correções, do livro “Figuras e Lugares”, Blumenau/SC, Fundação Casa Dr. Blumenau, 1983).
Escrito por Enéas Athanázio, 09/08/2019 às 16h00 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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