Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

EXISTE APENAS AQUI

Sempre que toco no assunto recebo mensagens de alguns leitores manifestando desagrado. Dizem que deve ser esquecido, assim como o foram tantas atrocidades cometidas ao longo da história humana. Penso, ao contrário, que deve ser lembrado sempre e sempre como um dos episódios mais brutais da história contemporânea. Deve e precisa ser lembrado para que não mais se repita e caia no esquecimento pelas novas gerações. Refiro-me ao Holocausto que colocou em execução a monstruosa Solução Final do Problema Judaico, durante a II Guerra Mundial, com seu horrendo propósito de exterminar os judeus da face da terra. Recordar os fatos é ainda mais necessário quando o neonazismo, por espantoso que seja, cresce em toda parte e uma direita agressiva ameaça o mundo.

A tenebrosa memória dos campos de extermínio instituídos como destino final de milhões de inocentes, velhos, doentes, inválidos, crianças, homens e mulheres de todas as idades fechando o círculo de uma operação em moldes industriais calou fundo na memória coletiva e não cessam de surgir novos documentos a respeito, constituindo uma imensa bibliografia. Entre os livros mais recentes, lançado no Brasil depois de imenso sucesso mundial, está “O Tatuador de Asuschwitz”, de autoria da jornalista australiana Heather Morris e publicada pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018).

Nele se revela a pungente história de Lale Sokolov, rapaz que vivia em paz numa pequena cidade eslovaca quando o país foi invadido pela Alemanha nazista. Os invasores convocam os judeus para trabalharem no esforço de guerra e como o irmão de Lale era casado e tinha filhos a sustentar, ele se apresenta em Praga e lá é embarcado em trem destinado ao transporte de gado sem saber para onde se dirige. Está tão lotado que torna impossível sentar ou deitar e as pessoas, espremidas, respiram umas sobre as outras. Não há sanitários e são usados baldes cujo conteúdo não tarda a deixar o ar empestado e irrespirável. As portas se fecham e o comboio parte. Três dias e três noites viajando em pé com algumas paradas, sempre fora das cidades ou vilas para não despertar atenção. Há mortes, desmaios, brigas, agressões de guardas, insultos, até a chegada ao destino. Então os infelizes percebem que foram levados ao complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônica. Sobre o portão principal lia-se a frase “O trabalho liberta.”

Tangidos através de longa passarela, sob chuva e frio, são despojados de tudo. Perdem os parcos pertences, suas roupas são trocadas por sovados uniformes de soldados inimigos, as bocas são revistadas e os cabelos raspados. Sedentos e famintos, são amontoados em alojamentos superlotados de onde são retirados todos os dias para os trabalhos forçados enquanto resistem. Julgados incapazes, vão para as câmaras de gás e os crematórios cujas cinzas sobem pelas chaminés e cobrem tudo com uma fina camada. Seres esqueléticos, cambaleantes, amedrontados circulam aos milhares, trazidos de toda a Europa.

Nesse ambiente tenebroso onde tudo parece perdido, Lale tem uma oportunidade raríssima: é designado tatuador oficial do campo, cabendo-lhe enumerar os braços dos prisioneiros que chegam. Graças à sua habilidade, consegue uma posição um pouco melhor, ainda que patrulhado sem cansaço pelo guarda Baretski, indivíduo arrogante e boçal, sempre disposto a sacar da pistola e matar por qualquer motivo. Se por um lado consegue furtar pequenas quantidades de comida para os colegas de alojamento, Lale vive o permanente terror de ser considerado colaboracionista ou traidor. Mas a opção era nítida: obedecer ou morrer.Aos trancos a barrancos, padecendo de todos os horrores e contrariando as expectativas, Lale sobrevive por três duros e longos anos. Conhece Gita Fuhrmannova, por quem se apaixona, imaginando uma vida feliz em companhia dela após o pesadelo. A moça, no entanto, não enxerga qualquer perspectiva de futuro e se limita a repetir: existe apenas aqui!

Felizmente ela estava enganada. Os soviéticos se aproximam, invadem e desmantelam o campo, julgam e executam os carrascos. Baretski é condenado à prisão perpétua e se suicida na prisão. Gita e Lale se juntam e recomeçam a vida com bravura e vontade de viver. No momento da libertação do campo o comandante da tropa teria dito: Filmem, fotografem, colham o maior número possível de provas e documentos porque dentro de dez anos não faltará quem sustente que isto não aconteceu!

Escrito por Enéas Athanázio, 09/09/2019 às 08h45 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Sempre que toco no assunto recebo mensagens de alguns leitores manifestando desagrado. Dizem que deve ser esquecido, assim como o foram tantas atrocidades cometidas ao longo da história humana. Penso, ao contrário, que deve ser lembrado sempre e sempre como um dos episódios mais brutais da história contemporânea. Deve e precisa ser lembrado para que não mais se repita e caia no esquecimento pelas novas gerações. Refiro-me ao Holocausto que colocou em execução a monstruosa Solução Final do Problema Judaico, durante a II Guerra Mundial, com seu horrendo propósito de exterminar os judeus da face da terra. Recordar os fatos é ainda mais necessário quando o neonazismo, por espantoso que seja, cresce em toda parte e uma direita agressiva ameaça o mundo.

A tenebrosa memória dos campos de extermínio instituídos como destino final de milhões de inocentes, velhos, doentes, inválidos, crianças, homens e mulheres de todas as idades fechando o círculo de uma operação em moldes industriais calou fundo na memória coletiva e não cessam de surgir novos documentos a respeito, constituindo uma imensa bibliografia. Entre os livros mais recentes, lançado no Brasil depois de imenso sucesso mundial, está “O Tatuador de Asuschwitz”, de autoria da jornalista australiana Heather Morris e publicada pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018).

Nele se revela a pungente história de Lale Sokolov, rapaz que vivia em paz numa pequena cidade eslovaca quando o país foi invadido pela Alemanha nazista. Os invasores convocam os judeus para trabalharem no esforço de guerra e como o irmão de Lale era casado e tinha filhos a sustentar, ele se apresenta em Praga e lá é embarcado em trem destinado ao transporte de gado sem saber para onde se dirige. Está tão lotado que torna impossível sentar ou deitar e as pessoas, espremidas, respiram umas sobre as outras. Não há sanitários e são usados baldes cujo conteúdo não tarda a deixar o ar empestado e irrespirável. As portas se fecham e o comboio parte. Três dias e três noites viajando em pé com algumas paradas, sempre fora das cidades ou vilas para não despertar atenção. Há mortes, desmaios, brigas, agressões de guardas, insultos, até a chegada ao destino. Então os infelizes percebem que foram levados ao complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônica. Sobre o portão principal lia-se a frase “O trabalho liberta.”

Tangidos através de longa passarela, sob chuva e frio, são despojados de tudo. Perdem os parcos pertences, suas roupas são trocadas por sovados uniformes de soldados inimigos, as bocas são revistadas e os cabelos raspados. Sedentos e famintos, são amontoados em alojamentos superlotados de onde são retirados todos os dias para os trabalhos forçados enquanto resistem. Julgados incapazes, vão para as câmaras de gás e os crematórios cujas cinzas sobem pelas chaminés e cobrem tudo com uma fina camada. Seres esqueléticos, cambaleantes, amedrontados circulam aos milhares, trazidos de toda a Europa.

Nesse ambiente tenebroso onde tudo parece perdido, Lale tem uma oportunidade raríssima: é designado tatuador oficial do campo, cabendo-lhe enumerar os braços dos prisioneiros que chegam. Graças à sua habilidade, consegue uma posição um pouco melhor, ainda que patrulhado sem cansaço pelo guarda Baretski, indivíduo arrogante e boçal, sempre disposto a sacar da pistola e matar por qualquer motivo. Se por um lado consegue furtar pequenas quantidades de comida para os colegas de alojamento, Lale vive o permanente terror de ser considerado colaboracionista ou traidor. Mas a opção era nítida: obedecer ou morrer.Aos trancos a barrancos, padecendo de todos os horrores e contrariando as expectativas, Lale sobrevive por três duros e longos anos. Conhece Gita Fuhrmannova, por quem se apaixona, imaginando uma vida feliz em companhia dela após o pesadelo. A moça, no entanto, não enxerga qualquer perspectiva de futuro e se limita a repetir: existe apenas aqui!

Felizmente ela estava enganada. Os soviéticos se aproximam, invadem e desmantelam o campo, julgam e executam os carrascos. Baretski é condenado à prisão perpétua e se suicida na prisão. Gita e Lale se juntam e recomeçam a vida com bravura e vontade de viver. No momento da libertação do campo o comandante da tropa teria dito: Filmem, fotografem, colham o maior número possível de provas e documentos porque dentro de dez anos não faltará quem sustente que isto não aconteceu!

Escrito por Enéas Athanázio, 09/09/2019 às 08h45 | e.atha@terra.com.br



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